
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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costeira, dominando a política, a sociedade e a economia locais, em pequenos sultanatos ou xeicados.
II
Onde na Ilha é hoje o Palácio dos Capitães-Generais, que se chama Ğde S.Pauloğ, exactamente
no sítio da capela, fizeram os portugueses a Torre de S.Gabriel no ano de 1507, data em que ocuparam
a Ilha, construindo a pequena fortificação que tinha 15 homens a proteger a feitoria nela instalada.
Não obstante os incidentes desagradáveis verificados quando os habitantes souberam que os marinheiros
de Vasco da Gama não eram mouros mas cristãos, pelo que os quiseram destruir, o que originou bombardeamentos
retaliativos no Mossuril e nas Cabaceiras por causa da água que lhes foi negada, os portugueses conseguiram
utilizar logo a Ilha para manter ali informadores, receber notícias e correio das naus que passavam
para Norte ou para Sul, e guardar abastecimentos e carregamentos, para Portugal ou para Sofala, aos
cuidados do próprio xeique. Chegou a ser ali armada uma caravela que veio de Portugal em quarteladas,
e as Armadas, além de tomarem o hábito de ali se reabastecer, passaram a inyernar quando, por chegarem
tarde, perdiam a monção para a índia e aguardavam o ano seguinte. Era também frequente serem reparadas
e calafetadas, nas praias da Ilha, as naus em más condições. Houve por isso até ao século XX uma
estação naval com o seu arsenal. A povoação portuguesa organizou-se, no século XVI, à volta da
Torre Velha, situando-se a dos árabes ou mouros no sítio do Celeiro. O fosso religioso que na época
separava os homens obrigava-os a terem bairros diferentes, cada qual com seus templos privativos.
Os relatos do século XVI que chegaram até nós dão-nos conta de uma povoação pequena mas pitoresca, de
casas de alvenaria cobertas a macute, pois não havia telha. Ainda no fim do século XVIII se usava cobrir
as casas como as actuais dos africanos da Ponta da Ilha. Em 1558 principiou a lenta construção
da actual fortaleza de S.Sebastião, mandada fazer vinte anos antes devido aos perigos de um golpe de
mão dos turcos na Ilha.
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Havia então ali apenas um baluarte artilhado para defesa da entrada no porto, e ao lado a capela de
Nossa Senhora do Baluarte, feita em 1521-1522, e que é o único exemplar de arquitectura manuelina que
há em Moçambique. A Ilha tornou-se o entreposto da permuta de panos e missangas da índia por ouro,
escravos, marfim e pau preto de África, e era da Ilha que partiam todas as viagens comerciais de
resgate ou troca, ou com carregamentos, para Quelimane, Sofala, Inhambane e Lourenço Marques, donde
eram levados para o interior. O Governador da Colónia tinha o privilégio da importação da
índia, privilégio inerente à sua função, mas qualquer pessoa podia depois negociar em qualquer ponto
de Moçambique. Foi assim que um tal Lourenço Marques, que não se sabe quem fosse, descobriu em 1544
que os rios da Baía da Lagoa penetravam numa região riquíssima de marfim, produto altamente cotado
na índia. Esta sensacional descoberta da época, ampliando os mercados de compra e venda no Sul,
coincidiu com a expansão comercial na Zambézia e o início da penetração comercial no interior do Monomotapa
e Abutua, o que naturalmente valorizou a Ilha como centro distribuidor e engendrou a criação de uma
burguesia local rica e activa, burguesia que por um lado se expandiu para o continente fronteiro
onde estabeleceu as suas casas senhoriais de negócio com o mato, e por outro criou a sua rede de
viagens aos portos costeiros e às ilhas próximas, incluindo Madagáscar, criando um mundo comercial
próprio que principiou a aglutinar o que é hoje o território de Moçambique. Os árabes, que nunca
chegaram a desaparecer, entraram numa luta clandestina pela sobrevivência, e para Sul da Ilha
foram praticamente varridos, com excepção do fojo de Angoche. O século XVI termina em Moçambique
com os famosos cercos da Ilha, pêlos holandeses, em 1607-1608, operação que se desencadeou quando
a fortaleza ainda não estava acabada (pois faltava empedrar as plataformas da artilharia), e custou
à cidade a sua destruição total, porque os invasores forçaram a barra, desembarcaram em força, instalaram-se
para o cerco no Campo de S.Gabriel, e forçados a desistir passados dois meses para não serem surpreendidos
por alguma armada portuguesa, queimaram tudo. As crónicas da guerra registam que, cercados na fortaleza,
os Portugueses foram salvos pela população africana, com a qual havia muito boas relações, e
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