A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


ALEXANDRE LOBATO

costeira, dominando a política, a sociedade e a economia locais, em pequenos sultanatos ou xeicados.

II

    Onde na Ilha é hoje o Palácio dos Capitães-Generais, que se chama Ğde S.Pauloğ, exactamente no sítio da capela, fizeram os portugueses a Torre de S.Gabriel no ano de 1507, data em que ocuparam a Ilha,
construindo a pequena fortificação que tinha 15 homens a proteger a feitoria nela instalada.
    Não obstante os incidentes desagradáveis verificados quando os habitantes souberam que os marinheiros de Vasco da Gama não eram mouros mas cristãos, pelo que os quiseram destruir, o que originou
bombardeamentos retaliativos no Mossuril e nas Cabaceiras por causa da água que lhes foi negada, os
portugueses conseguiram utilizar logo a Ilha para manter ali informadores, receber notícias e correio das
naus que passavam para Norte ou para Sul, e guardar abastecimentos e carregamentos, para Portugal ou
para Sofala, aos cuidados do próprio xeique. Chegou a ser ali armada uma caravela que veio de Portu
gal
em quarteladas, e as Armadas, além de tomarem o hábito de ali se reabastecer, passaram a inyernar
quando, por chegarem tarde, perdiam a monção para a índia e aguardavam o ano seguinte. Era também
frequente serem reparadas e calafetadas, nas praias da Ilha, as naus em más condições. Houve por isso até
ao século XX uma estação naval com o seu arsenal.
    A povoação portuguesa organizou-se, no século XVI, à volta da Torre Velha, situando-se a dos árabes ou
mouros no sítio do Celeiro. O fosso religioso que na época separava os homens obrigava-os a terem
bairros diferentes, cada qual com seus templos privativos.
Os relatos do século XVI que chegaram até nós dão-nos conta de uma povoação pequena mas pitoresca,

de casas de alvenaria cobertas a macute, pois não havia telha. Ainda no fim do século XVIII se usava
cobrir as casas como as actuais dos africanos da Ponta da Ilha.
    Em 1558 principiou a lenta construção da actual fortaleza de S.Sebastião, mandada fazer vinte anos antes devido aos perigos de um golpe de mão dos turcos na Ilha.

Havia então ali apenas um baluarte artilhado para defesa da entrada no porto, e ao lado a capela de Nossa Senhora do Baluarte, feita em 1521-1522, e que é o único exemplar de arquitectura manuelina que há em
Moçambique. A Ilha tornou-se o entreposto da permuta de panos e missangas da índia por ouro, escravos,
marfim e pau preto de África, e era da Ilha que partiam todas as viagens comerciais de resgate ou troca,
ou com carregamentos, para Quelimane, Sofala, Inhambane e Lourenço Marques, donde eram levados
para o interior.
    O Governador da Colónia tinha o privilégio da importação da índia, privilégio inerente à sua função, mas
qualquer pessoa podia depois negociar em qualquer ponto de Moçambique. Foi assim que um tal
Lourenço Marques, que não se sabe quem fosse, descobriu em 1544 que os rios da Baía da Lagoa
penetravam numa região r
iquíssima de marfim, produto altamente cotado na índia.
    Esta sensacional descoberta da época, ampliando os mercados de compra e venda no Sul, coincidiu com a expansão comercial na Zambézia e o início da penetração comercial no interior do Monomotapa e
Abutua, o que naturalmente valorizou a Ilha como centro distribuidor e engendrou a criação de uma
burguesia local rica e activa, burguesia que por um lado se expandiu para o continente fronteiro onde
estabeleceu as suas casas senhoriais de negócio com o mato, e por outro criou a sua rede de viagens aos
portos costeiros e às ilhas próximas, incluindo Madagáscar, criando um mundo comercial próprio que
principiou a aglutinar o que é hoje o território de Moçambique. Os árabes, que nunca chegaram a

desaparecer, entraram numa luta clandestina pela sobrevivência, e para Sul da Ilha foram praticamente
varridos, com excepção do fojo de Angoche.
    O século XVI termina em Moçambique com os famosos cercos da Ilha, pêlos holandeses, em 1607-1608,
operação que se desencadeou quando a fortaleza ainda não estava acabada (pois faltava empedrar as
plataformas da artilharia), e custou à cidade a sua destruição total, porque os invasores forçaram a barra,
desembarcaram em força, instalaram-se para o cerco no Campo de S.Gabriel, e forçados a desistir
passados dois meses para não serem surpreendidos por alguma armada portuguesa, queimaram tudo. As
crónicas da guerra registam que, cercados na fortaleza, os Portugueses foram salvos pela população
africana, com a qual havia muito boas relações, e


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