
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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ILHA DE MOÇAMBIQUE: NOTICIA HISTÓRICA* Costuma chamar-se à velha capital que deu
o nome ao país «A HISTÓRICA ILHA DE MOÇAMBIQUE», e há na verdade fundadas razões para isso, tão remoto
é o seu historial, e tão grande e duradoura influência teve ela na formação de Moçambique.
Com efeito, foi desta pequena Ilha que Moçambique tomou o nome, depois de passar para ela a sede do
governo colonial, nos meados do século XVI, quando os capitães de Sofala precisaram de nela se instalar,
para estarem presentes quando chegavam as armadas de Portugal com instruções e reforços, e muitas
vezes carecidas de tratamento e repouso para os homens, reparação para os navios, e abastecimentos
em água, lenha e víveres. Escala indispensável à boa travessia do ĺndico, com as frotas já
preparadas contra os árabes, depois da longa viagem de meses desde Portugal, a Ilha de Moçambique
deve a tal circunstância o seu privilegiado lugar na História. Escala adequada às monções, e magnífica
base naval para a época, a Ilha de Moçambique desempenhou no seu tempo histórico uma função de grande
relevo que toda a cidade ainda documenta na sua expressiva arqueologia urbana que a mostra uma grande
encruzilhada de caminhos históricos e de povos diversos, portadores de culturas diferentes, que ali
se caldearam ao longo dos séculos, derramando-se depois por toda a Colónia, até aos dias de hoje,
de modo a assinalar uma gama larga de valores e características moçambicanas. Todavia, não
foi pela mão dos portugueses que a pequena Ilha entrou na História, mas pela dos árabes, que nela
se instalaram quando iniciaram a sua tão famosa talassocracia indica que os celebrizou ao longo da
costa oriental de África depois que partiram da Pérsia e da Arábia para a costa de África junto ao Mar
Vermelho.
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Chegados a Quíloa, na Tanzania, estenderam-se mais para Sul e às ilhas vizinhas, fundando pequenas
feitorias de comércio, aqui e acolá, que o tempo transformou em colónias prósperas e pacíficas que
foram apanágio de uma burguesia aristocrática feita de alianças entre os homens árabes que geriam
os negócios volantes, eram grossos mercadores, importavam e exportavam, e as filhas dos chefes locais
africanos, gente de poderoso valimento social. A fusão de interesses, de raças, e de línguas, ainda
hoje é sensível nessa mancha swahili que assinala toda a costa desde o Mar Vermelho ao Save, precisamente
até à zona de Sofala, onde também se estabeleceram, criando uma cidade-estado que bem cedo se autonomizou,
passando a constituir um pequeníssimo reino costeiro cuja vida assentava no comércio do ouro, exportando
o que vinha das minas do interior. A Ilha de Moçambique não chegou a tanto como Sofala, porque
era apenas uma escala, ou entreposto, na rota do ouro. Todo o seu valor residia no porto, no abrigo
que dava à navegação, para Norte, para Sul ou para Nordeste a caminho da índia. Era mesmo um refúgio
seguro, visto ser ilha, pois, dada a sua pequenez, não tinha água potável, e não era habitada por
africanos, que se limitavam ao continente fronteiro. Com efeito, não sendo os africanos ainda navegadores
— aprenderam-no com os árabes — não precisavam da Ilha para nada, e ainda nela não habitavam quando
os portugueses chegaram em 1498. Colónia árabe extremamente defensável, a Ilha de Moçambique
tornara-se uma povoação swahili de árabes e negros com seu xeque e nobres negros, continuando a ser
frequentada por árabes brancos que prosseguiam o seu comércio já antigo com o Mar Vermelho, a Arábia,
a Pérsia, a índia e as ilhas do ĺndico. Para Sul, até Sofala, o Bazaruto e Mambone, incluindo
Angoche e Quelimane, e para Norte por todas as ilhas e enseadas, a costa estava assinalada por idênticas
povoações, quase todas porém modestas, só uma ou outra constituindo centro comercial de maior vulto
para a exportação do marfim, escravos e madeira e a entrada de coloridos panos da índia e cordões
de missanga. Aqui e além, havia um pequeno chefe político, e Moçambique tinha também o seu, metido
na engrenagem político-económico--social árabe-africana, que deu origem ao que os portugueses chamaram
mouros-negros que se tornaram senhores da zona _________________________________________________________________________________________
* Texto elaborado para ser apresentado ao Presidente Julius Nyerere durante a sua visita a Moçambique
em 1975.
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