A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


ALEXANDRE LOBATO

ILHA DE MOÇAMBIQUE: NOTICIA HISTÓRICA*

    Costuma chamar-se à velha capital que deu o nome ao país «A HISTÓRICA ILHA DE
MOÇAMBIQUE», e há na verdade fundadas razões para isso, tão remoto é o seu historial, e tão grande e
duradoura influência teve ela na formação de Moçambique.
    Com efeito, foi desta pequena Ilha que Moçambique tomou o nome, depois de passar para ela a sede do
governo colonial, nos meados do século XVI, quando os capitães de Sofala precisaram de nela se instalar,
para estarem presentes quando chegavam as armadas de Portugal com instruções e reforços, e muitas
vezes carecidas de tratamento e repouso para os homens, reparação para os navios, e abastecimentos em
água, lenha e víveres.
    Escala indispensável à boa travessia do ĺndico, com as frotas já preparadas contra os árabes, depois da
lo
nga viagem de meses desde Portugal, a Ilha de Moçambique deve a tal circunstância o seu privilegiado
lugar na História. Escala adequada às monções, e magnífica base naval para a época, a Ilha de
Moçambique desempenhou no seu tempo histórico uma função de grande relevo que toda a cidade ainda
documenta na sua expressiva arqueologia urbana que a mostra uma grande encruzilhada de caminhos
históricos e de povos diversos, portadores de culturas diferentes, que ali se caldearam ao longo dos
séculos, derramando-se depois por toda a Colónia, até aos dias de hoje, de modo a assinalar uma gama
larga de valores e características moçambicanas.
    Todavia, não foi pela mão dos portugueses que a pequena Ilha entrou na História, mas pela dos árabes,
que nela se instalaram quando iniciaram a sua tão famosa talassocracia indica que os celebrizou ao longo
da costa oriental de África depois que partiram da P
érsia e da Arábia para a costa de África junto ao Mar
Vermelho.

    Chegados a Quíloa, na Tanzania, estenderam-se mais para Sul e às ilhas vizinhas, fundando pequenas
feitorias de comércio, aqui e acolá, que o tempo transformou em colónias prósperas e pacíficas que foram
apanágio de uma burguesia aristocrática feita de alianças entre os homens árabes que geriam os negócios
volantes, eram grossos mercadores, importavam e exportavam, e as filhas dos chefes locais africanos,
gente de poderoso valimento social. A fusão de interesses, de raças, e de línguas, ainda hoje é sensível
nessa mancha swahili que assinala toda a costa desde o Mar Vermelho ao Save, precisamente até à zona
de Sofala, onde também se estabeleceram, criando uma cidade-estado que bem cedo se autonomizou,
passando a constituir um pequeníssimo reino costeiro cuja vida assentava no comércio do ouro,
exportando o que vinha das minas do interior.
    A Ilha de Moçambique não chegou a tanto como
Sofala, porque era apenas uma escala, ou entreposto, na rota do ouro. Todo o seu valor residia no porto, no abrigo que dava à navegação, para Norte, para Sul ou
para Nordeste a caminho da índia. Era mesmo um refúgio seguro, visto ser ilha, pois, dada a sua
pequenez, não tinha água potável, e não era habitada por africanos, que se limitavam ao continente
fronteiro. Com efeito, não sendo os africanos ainda navegadores — aprenderam-no com os árabes — não
precisavam da Ilha para nada, e ainda nela não habitavam quando os portugueses chegaram em 1498.
    Colónia árabe extremamente defensável, a Ilha de Moçambique tornara-se uma povoação swahili de
árabes e negros com seu xeque e nobres negros, continuando a ser frequentada por árabes brancos que
prosseguiam o seu comércio já antigo com o Mar Vermelho, a Arábia, a Pérsia, a índia e as ilhas do
ĺndico. Para Sul, até Sofala, o Bazaruto e
Mambone, incluindo Angoche e Quelimane, e para Norte por
todas as ilhas e enseadas, a costa estava assinalada por idênticas povoações, quase todas porém modestas,
só uma ou outra constituindo centro comercial de maior vulto para a exportação do marfim, escravos e
madeira e a entrada de coloridos panos da índia e cordões de missanga. Aqui e além, havia um pequeno
chefe político, e Moçambique tinha também o seu, metido na engrenagem político-económico--social
árabe-africana, que deu origem ao que os portugueses chamaram mouros-negros que se tornaram
senhores da zona
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* Texto elaborado para ser apresentado ao Presidente Julius Nyerere durante a sua visita a Moçambique em 1975.


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