A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


MANUEL LOBATO


A ILHA DE MOÇAMBIQUE ANTES DE 18OO
Algumas notas sobre a história e património de uma capital colonial

Introdução

Afirma Manuel Lobato, investigador no Centro de Estudos de História e Cartografia (do Instituto de Investigação Científica e Tropical), em Lisboa, que "a responsabilidade pelo facto de a história mais remota da Ilha de Moçambique ser mal conhecida deve-se, pelo menos em parte, aos próprios portugueses, cuja política de ocupação da ilha conduziu à dispersão e mesmo ao desaparecimento das comunidades muçulmanas que ali habitaram durante a era pré-gâmica. Com elas,desapareceram as lendas fundadoras e as tradições orais que narravam a história do xecado.
Esse esquecimento explica-se pela forma muitas vezes displicente como se processou a aquisição e transmissão de informação acerca dos territórios africanos sob administração portuguesa, embora isso não sirva para justificar o que muitas vezes era indigência. Neste estudo, Manuel Lobato aborda alguns dos aspectos da vida e história da Ilha de Moçambique durante o período em que Portugal mais demonstrava ignorar as suas possessões africanas. Até que, em 1897, a Ilha de Moçambique deixou de ser a capital da colónia.



A Ilha de Moçambique, situada no interior da baía do Mossuril, é uma estreita formação coralina, com menos de um quilómetro por cerca de três, que se alonga no sentido nordeste-sudoeste. Pareceria que sobre um espaço tão pequeno não haveria muito que dizer. Mas como o mar une, e não separa, a ilha tem uma história tão rica e variada quanto ela é, em si mesma, pequena e desprovida dos recursos necessários à vida.
Apesar de ser quase estéril e sem actividades produtivas dignas de nota, a pequena Ilha de Moçambique foi um importante centro mercantil e a capital da presença colonial portuguesa na costa oriental africana durante mais de três séculos e meio. Como cabeça comercial e administrativa, a ilha e a sua história estão inextricavelmente ligadas à de populações e regiões actualmente incluídas na República de Moçambique ou que estão mesmo além das fronteiras deste país a que deu nome.
Das páginas que se seguem não pode o leitor esperar mais do que o grau de generalidade que um artigo de divulgação requer. Por imposição do género, o texto estrutura-se em torno de um conjunto de temas diversos que se prendem com questões intrínsecas da história da ilha, como sejam as comunidades e grupos sociais que a habitaram, até questões ligadas com o urbanismo e o património histórico construído. Como convém a uma "capital", estas histórias locais articulam-se com contextos mais vastos que dizem respeito às ligações comerciais à distância e às histórias política, militar e administrativa, das possessões portuguesas na região.

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Cafres de Moçambique e da Etiópia, segundo Jan Huygen van Linschoten, na Histoire de la Navegation(...).Amesterdão, 1638



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