
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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UMA PONTE FEZ ACORDAR A ILHA DA TEIMOSIA
Desejada há quatrocentos anos, a ponte nasceu
tarde — é o que pensam na ilha de Moçambique, alguns dos seus mais lúcidos residentes. Já não é possível
deter Nacala. Nacala é um porto propriamente dito, um milagre na costa oriental de África, será infalivelmente
a porta do Norte — consideram eles, com algum desgosto. Mas não desistem, mesmo assim; agora, que
a ponte existe e já funciona, defendem a ideia do porto de Moçambique e arrancam para uma campanha
por uma nova ponte-cais. E se arrancam para uma campanha, aqueles homens da Ilha da Teimosia nunca
mais param; teimarão nela, ainda que seja por mais quatrocentos anos — disse-me um deles, com a ironia
duma certa descrença. Pois a ponte, como era de prever, já modificou a vida na Ilha, já começou
a influir na fisionomia da cidade, já alterou o seu ambiente repousado e tradicionalíssimo. Muitos
são os que assistem ao fenómeno com júbilo desvanecido; outros, porém, enfrentam-no com melancolia,
saudosamente.
O contra-senso do sonho
No sonho, ainda que feito realidade, o contra-senso
persiste. Assim é que a ponte, inaugurada festivamente no mês passado, com grande multidão a assistir,
vivas e discursos, os moleques das marmitas correndo, deslumbrados, com a fome dos patrões atrás
dos cavalos nunca vistos que vieram do continente e muitos carros apitando pelas ruas seculares,
já dá passagem a camiões que são vistos na carga e descarga desde a Fortaleza ao Crematório dos Baneanes,
enquanto um espectacular Ford «Mustang» buzina pela rua dos Arcos, um carro de instrução com os seus
dois volantes dá infindas voltas com alunas e alunos, pela Rua 28 de Maio, que vai dar à Rua da Liberdade,
onde é a Cadeia, pelo largo de S. Paulo, onde está o palácio dos Capitães-Generais, pela praça Mouzinho
de Albuquerque com seu coreto, ou, ainda, pela Ponta da Ilha, lá para o bairro do Areal, até ao Cemitério
dos Cristãos. Enquanto isso e o buzinar ferve ecoando pelas ruelas e travessas e os carros pesados
esboroam os passeios nas curvas impossíveis, enquanto isso tudo, a gente vai para a Ilha, chegada
ao Lumbo de comboio ou de avião, tal qual ia dantes: de barco à vela, o que continua a ser a viagem
mais bela que se faz em toda a costa moçambicana. Logo na gare do caminho de ferro o «capitão»
Ali carregou as nossas bagagens antes de lhe respondermos à pergunta «vai para a Ilha?». A caminho
da praia formou-se a fila indiana dos seus passageiros, que ele ergueu em seus ombros, um a um, depondo-os
cuidadosamente a bordo da lancha «Graças a Deus», que, graças a Deus, tinha uma grande vela não muito
esfarrapada e fez uma boa travessia com vento de feição. Além dos repórteres, iam uma velha mulher
de vestes garridas à moda da terra, feições nobres e ar respeitável que conversou suavemente com
os tripulantes ao longo da hora e meia de navegação; outra mulher mais nova, com a sua filha, pequena
e risonha; um rapaz alto, magro, negro retinto, de casaco de coiro e rádio portátil fazendo ouvir,
todo o caminho, fados, anúncios, ié-ié, anúncios; além do «capitão» Ali, sentado à ré, com a vara
do leme na mão esquerda, havia três marujos divagando sobre os malefícios da ponte. O mar
estava doce, de pequeninas ondas, azul e transparente. Era uma serena manhã e o barco embalava-nos
enquanto ao longe se estendia, baixa e longuíssima, a ponte que assim estreávamos, alheia a remoques,
indiferente aos barcos à vela, que aqui e além pintalgavam de branco a aguarela magnífica daquela
travessia.
E agora, Sulemane?
Desembarcados na praia do Celeiro, ao lado da Mesquita
Grande, logo pedimos um táxi; e logo nos acudiram os rique-xós, que ainda são os táxis da Ilha, embora
correndo para o fim próximo. Angustiados, também, com a existência da ponte que lança os automóveis
na Ilha, em catadupas, os moços dos riquexós não sabem ainda o que vão fazer quando esse transporte
finalmente e naturalmente se for abandonando. Tilintando a sua campainha ou batendo a sua tábua,
lá vai Sulemane com ligeireza rebocando o turista para a Pousada. Respeita os sinais de trânsito,
recentemente colocados em profusão, sobretudo a indicar vias de sentido único e estacionamento proibido,
pois um carro toma a rua toda. Quando cruza com um automóvel, viatura rápida e buzinante — buzina-se
muito, para aviso dos peões, ainda por habituar a tamanho tráfego —, Sulemane lança-lhe um olhar
de ressentimento, enquanto vai arfando, compas-sadamente, o seu pequeno motor de 2 tempos, um breve
ruído a erguer-se, ténue, sobre o silêncio das rodas de borracha na paz da Ilha. Despachado aquele
fortuito freguês, Sulemane descansa o riquexó à sombra, junto dos outros, esperando horas a fio por
um cliente nunca mais chegado. Senta-se, limpa o suor da testa e os outros olham-no interrogativamente,
expectantes, como se ele pudesse trazer boas novas dos lados da ponte. Os seus olhos perguntam: —
E agora, Sulemane?
A ponte é nossa
Mas a ponte é um dogma. Indiscutível. Mais do que matéria
de facto e de concreto, é matéria de fé. Os residentes vão fiscalizá-la, pessoalmente, caminhando
até onde está a capela de S. Francisco Xavier e continua o banco de Mousinho sob a árvore enorme
e velhíssima. Ali se liga a Ilha com o Sancul, a 5 quilómetros do Lumbo. Conversando com o guarda,
à porta da sua guarita, os citadinos olham o fundo da ponte esperando os carros e alegrando-se quando
os avistam. Colaboram na cobrança da portagem e dão explicações aos transeuntes. Um peão paga 1$00
por ida e volta; uma bicicleta, 2$00; uma motorizada, 3$00; uma moto, 5$00; um automóvel, 25$00;
um autocarro, 60$00; um camião de carga, 100$00. Peso máximo, 10 toneladas. Todos acham bem, assim
é que está certo, é para o progresso da Ilha, a ponte é nossa. Daqui para o futuro, tudo será possível,
parece dizerem alguns dos indivíduos com quem se trocam impressões sobre a «ordem do dia».
- Agora precisamos dum cais acostável, ao menos para atracarem os navios costeiros — sugere um.
- Água, é o que precisamos de arranjar a seguir — opina outro. -Corrente alterna, quanto
antes — contrapõe um terceiro. - Um bom hotel, urgentemente — pede alguém. -O comércio
reviverá e a Ilha voltará a dominar o distrito — há quem se atreva a profetizar, entre os elogios
ao almirante Sarmento Rodrigues. - Vamos desenvolver o turismo — é resolução unânime. Uma
coisa é certa: a ponte fez estremecer a velha Ilha de Moçambique e algo de novo e vivificante a acometeu.
Naquela relíquia do passado somente se fala de futuro. A estridência dos claxons levanta a poeira
de mais de quatrocentos anos na capela de Nossa Senhora do Baluarte, onde dormem navegantes e conquistadores
da índia. A história da Ilha foi cortada ao meio por esta ponte.
Gouvêa de Lemos
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