
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
|




É AQUI QUE A ILHA PALPITA, RESPIRA E VIVE
Na Ponta da Ilha, aos lados da estrada, há milhares
de palhoças — como diziam os nosso antigos, — apertadas umas contra as outras em maciços apenas extremados
por vielas desalinhadas, tão estreitas que um negro espadaúdo, que passe por elas de frente, arrisca-se
a arrombar com os ombros as duas paredes fronteiras; todavia nestas fendas circula de contínuo uma
população mexediça, donas de casa estendem roupa lavada ou cozinham em fogueiras acesas entre pedras,
e saltitam ranchadas de crianças nuas. Nesta mata de habitações rasga-se aqui ou acolá uma pequena
clareira, onde vicejam pés esgalgados de mandioca ou hastes de feijão cafreal, e uma que outra árvore
emerge à procura do sol, e atira com a ramaria para cima do parapeito da estrada, onde, a toda
a hora, se encostam vadios a desfrutarem os ralhos das vizinhas, ou a cobiçarem as nuas carnes lustrosas,
que lá em baixo, palpitam na faina de pilar arroz. Há sempre trânsito, movimento, bulício,
vida, na artéria daquela aglomeração humana. De manhã cedo, quando a areia solta da estrada ainda
está regada pelo sereno da noite e o arvoredo frondoso que a margina junca o seu leito de folhas
movediças de sombra, não há em Moçambique mais aprazível sítio do que aquele, nem melhor recreio
do que assistir, sentado no muro ao desfilar dos ranchos que vão tratar da vida, falazando sempre,
em voz de altercação, e rindo, rindo como só ri o negro, com a alma toda com uma convicção comunicativa,
em girândolas sucessivas de gargalhadas, que estalejam espontâneas, estrepitosas, ao menor pretexto.
Passam vendedeiras moças, como que espartilhadas nos panos vistosos, tão cingidos às formas que
não as vestem, forram-nas; equilibram sobre a cabeça talhas da caju ou ceiras de mangas, e vão chalaceando
com rapazolas, a quem os barretes e as largas camisas brancas retingem o azeviche dos rostos. Megeras
que parecem ter dois ventres flácidos, descaídos um sobre o outro, acarretam água, e ralham no caminho
com garotitos de tanga, que as seguem agarrados às orlas dos panos. Mouros mal encarados de turbante
branco e bambu na mão, caminham às pernadas tratando negócios com engoiados baneanes, que sobraçam
peças de chita. Correm para a fortaleza, segurando as baionetas, soldados de fardetas de linho manchadas
de suor, que gozaram a dispensa do recolher nos braços de gordalhudas Vénus, e elas das portas
dos seus paraísos de palha, encomendam-lhes em alta grita garrafas de mata-bicho. Circula, em suma,
o sangue quente, o sangue africano da cidade, com as suas impurezas mas também com os seus glóbulos
rubros, e só ali se sente bem, que Moçambique palpita, respira, vive. Parte daqueles transeuntes
matinais, que se dispersam da população de sete ou oito mil almas que vive empilhada na Ponta da
Ilha, dirigem-se ao mercado principal da cidade, que as vereações instalaram numa das ruas capitais
do outro bairro, perto da tal praça da União, de cujas árvores chovem lagartos. E como um grande
pátio fechado por edificações baixas e gradarias de ferro, de solo argamassado, sombreado aos lados
por telheiros de zinco que se firmam em delgadas colunas de ferro. Tem um aspecto desenxovalhado,
e às horas das vendas animam-no pitorescos grupos de vendedeiras e uma romaria colorida de molequagem.
................................................
NOS LUGARES FARTOS A COMIDA E VARIADA O anfitrião
bizarro esmera-se também em proporcionar ao seu hóspede uma mesa bem servida. Os cozinheiros são
com raras excepções, pretos ou canarins, e uns e outros têm especialíssimas aptidões para a culinária,
e sabem acomodá-la ao paladar e ao estômago dos amos. Não há uma arte de cozinha local, a não ser
a dos indígenas, demasiadamente sóbria e primitiva para contentar europeus; a da índia é que introduziu
na África Oriental alguns dos seus preparados, e especialmente o caril, de que até os miseráveis
fazem condimento quase obrigado da massa de arroz ou de mapira (espécie de painço), e que, como todos
sabem, é fabricado com a noz do coco ralado, açafrão e piripiri, que é uma pimenta excessivamente
picante, um peixe seco, de procedência indiática, chamado bambolim, e outras drogas mais ou menos
cáusticas. É geral a tendência para condimentar fortemente, e sobretudo para apimentar todas as comidas,
e até se professa que nos climas quentes o estômago precisa ser estimulado por meios energéticos,
por aperitivos heróicos, sob pena de rejeitar ou não digerir os alimentos; creio, porém, que esse
regímen não é tal um meio de conservar em bom uso os órgãos da nutrição, antes a necessidade dele resulta
de estragos já sofridos por esses órgãos. Nos lugares fartos a comida é variada, os menus são extensos,
tanto ao almoço, que geralmente se serve entre as 10 horas e o meio dia, como ao jantar que se come
ao cair da tarde, quando já tem abrandado o calor; a variedade e a abundância não excluem, porém, a
frequência de certas iguarias ou matérias-primas de iguarias.
António Ennes
In: De Lisboa
a Moçambique, por António Ennes.
|




 |