A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


ANTÓNIO ENES


É AQUI QUE A ILHA PALPITA, RESPIRA E VIVE

    Na Ponta da Ilha, aos lados da estrada, há milhares de palhoças — como diziam os nosso antigos, —
apertadas umas contra as outras em maciços apenas extremados por vielas desalinhadas, tão estreitas que
um negro espadaúdo, que passe por elas de frente, arrisca-se a arrombar com os ombros as duas paredes
fronteiras; todavia nestas fendas circula de contínuo uma população mexediça, donas de casa estendem
roupa lavada ou cozinham em fogueiras acesas entre pedras, e saltitam ranchadas de crianças nuas. Nesta
mata de habitações rasga-se aqui ou acolá uma pequena clareira, onde vicejam pés esgalgados de
mandioca ou hastes de feijão cafreal, e uma que outra árvore emerge à procura do sol, e atira com a
ramaria para cima do parapeito da est
rada, onde, a toda a hora, se encostam vadios a desfrutarem os
ralhos das vizinhas, ou a cobiçarem as nuas carnes lustrosas, que lá em baixo, palpitam na faina de pilar
arroz.
    Há sempre trânsito, movimento, bulício, vida, na artéria daquela aglomeração humana. De manhã
cedo, quando a areia solta da estrada ainda está regada pelo sereno da noite e o arvoredo frondoso que a
margina junca o seu leito de folhas movediças de sombra, não há em Moçambique mais aprazível sítio do
que aquele, nem melhor recreio do que assistir, sentado no muro ao desfilar dos ranchos que vão tratar da
vida, falazando sempre, em voz de altercação, e rindo, rindo como só ri o negro, com a alma toda com
uma convicção comunicativa, em girândolas sucessivas de gargalhadas, que estalejam espontâneas,
estrepitosas, ao menor pretexto. Passam vendedeiras moças, como que espartilhadas nos panos vistosos,

tão cingidos às formas que não as vestem, forram-nas; equilibram sobre a cabeça talhas da caju ou ceiras
de mangas, e vão chalaceando com rapazolas, a quem os barretes e as largas camisas brancas retingem o
azeviche dos rostos. Megeras que parecem ter dois ventres flácidos, descaídos um sobre o outro,
acarretam água, e ralham no caminho com garotitos de tanga, que as seguem agarrados às orlas dos
panos. Mouros mal encarados de turbante branco e bambu na mão, caminham às pernadas tratando
negócios com engoiados baneanes, que sobraçam peças de chita. Correm para a fortaleza, segurando as
baionetas, soldados de fardetas de linho manchadas de suor, que gozaram a dispensa do recolher nos
braços de gordalhud
as Vénus, e elas das portas dos seus paraísos de palha, encomendam-lhes em alta
grita garrafas de mata-bicho. Circula, em suma, o sangue quente, o sangue africano da cidade, com as
suas impurezas mas também com os seus glóbulos rubros, e só ali se sente bem, que Moçambique palpita,
respira, vive.
    Parte daqueles transeuntes matinais, que se dispersam da população de sete ou oito mil almas que vive
empilhada na Ponta da Ilha, dirigem-se ao mercado principal da cidade, que as vereações instalaram numa
das ruas capitais do outro bairro, perto da tal praça da União, de cujas árvores chovem lagartos. E como
um grande pátio fechado por edificações
baixas e gradarias de ferro, de solo argamassado, sombreado aos
lados por telheiros de zinco que se firmam em delgadas colunas de ferro. Tem um aspecto
desenxovalhado, e às horas das vendas animam-no pitorescos grupos de vendedeiras e uma romaria
colorida de molequagem.
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NOS LUGARES FARTOS A COMIDA E VARIADA
O anfitrião bizarro esmera-se também em proporcionar ao seu hóspede uma mesa bem servida. Os
cozinheiros são com raras excepções, pretos ou canarins, e uns e outros têm especialíssimas aptidões para
a culinária, e sabem acomodá-la ao paladar e ao estômago dos amos. Não há uma arte de cozinha local, a
não ser a dos indígenas, demasiadamente sóbria e primitiva para contentar europeus; a da índia é que

introduziu na África Oriental alguns dos seus preparados, e especialmente o caril, de que até os
miseráveis fazem condimento quase obrigado da massa de arroz ou de mapira (espécie de painço), e que,
como todos sabem, é fabricado com a noz do coco ralado, açafrão e piripiri, que é uma pimenta
excessivamente picante, um peixe seco, de procedência indiática, chamado bambolim, e outras drogas
mais ou menos cáusticas. É geral a tendência para condimentar fortemente, e sobretudo para apimentar
todas as comidas, e até se professa que nos climas quentes o estômago precisa ser estimulado por meios
energéticos, por aperitivos heróicos, sob pena de rejeitar ou não digerir os alimentos; creio, porém, que
esse regímen não é tal um meio de conservar em bom uso os órgãos da nutrição, antes a necessidade dele
resulta de estragos já sofridos por esses órgãos. Nos lugares fartos a comida é variada, os menus são

extensos, tanto ao almoço, que geralmente se serve entre as 10 horas e o meio dia, como ao jantar que se
come ao cair da tarde, quando já tem abrandado o calor; a variedade e a abundância não excluem, porém,
a frequência de certas iguarias ou matérias-primas de iguarias.

António Ennes

In: De Lisboa a Moçambique, por António Ennes.


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