A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


JOSÉ CRAVEIRINHA


A VOZ DO MAULIDE

    A voz do Maulide chama-nos. Estacas, barrotes, sacas e encerados e os homens lá dentro acocorados
em largas esteiras. Num dos lados um lençol amarelo como pano de fundo. Um amarelo carregado de
açafrão. Velhos patriarcais lêem o livro sagrado e entoam monótonas cantilenas. As pernas flectidas, os
olhos baixos, o tronco balanceando ao ritmo dos cânticos.
    O tempo passa, a luz dos Petromax aquece mais a atmosfera e acende brilhos fantásticos nos óculos
dos velhos macuas. Na demora, há paciência e fatalismo orientais.
    Por fim as vozes calam-se, o silêncio torna-se espesso como um pedaço de teca. Aqui e ali homens
levantam-se silenciosamente e voltam com daíras e entregam pelo círculo fechado de homens sentados
nas esteiras.
    Descobrem-se objectos estranhos nas mãos do velho macua magro, de máscara expressivamente
sulcada de rugas. O fumo do lobane cerca as coisas e mistura-se com o hálito dos cajueiros.
De repente, um frémito nos atravessa e arrepia a pele. Começou a parte principal do cerimonial. O
conjunto de daíra soa nas mãos sensíveis dos macuas. Abud, o gordo Abud, está sentado e toca a daíra
também. Os tamboretes unem-se pelo ritmo. A cadência começa a subir, a subir, a subir e agora está forte,
misteriosa. As vozes sobem no ar morno, rompem barreiras de sacas e lonas e espalham-se noite fora. —
Maulana! Maulana!
    Dois homens erguem-se de cânticos na boca e pegam os bruges um em cada mão. As finas lâminas de
aço chispam à luz crua do Petromax. E a cerimónia ritual começa com o ponto alto atingido pêlos
tamboretes e as vozes cantando o salmo.
    Os dois homens de bruges nas mãos dançam e erguem os braços enquanto o corpo se separa e
imaterializa. O transe afoga os homens no seu abraço bárbaro e leva-os para o ignoto.
    As mãos erguidas ao alto, baixam-se e as pontas aceradas dos bruges picam a carne. Sobem e descem,
sobem e descem, Abud toca a daíra; seu corpo grande inclina-se à frente e atrás, suas mãos parecem
grandes borboletas negras voando no ar batendo no pandeiro. Mais de vinte pandeiros erguem na noite
milenária o seu som de pele esticada e amarrada na daíra.
    Outros homens saltam para o meio empunhando os finos bruges e erguem as mãos ao alto, curvam o
tronco e no compasso dos tamboretes enterram as lâminas na carne insensível.
A loucura é colectiva. Um sopro irreal funde os homens e as coisas. Há transe, fumo de incenso,
primitivismo e ritmo. Fora, as estrelas cintilam como pirilampos longínquos parados no céu.
    Depois há homens que a loucura arrebata e outros atentos que saltam e arrancam os afiados bruges das
mãos enclavinhadas pelo transe. Estão possessos e caem no chão estrebuchando. Dentro de nós como
simples coisas, mundos de cultura esfarelam-se.
    Outro atravessa o estilete na face e fica assim o corpo no ritmo, os olhos semi-fechados até que se
inclina e o velho padre suavemente toma-lhe a cabeça e com firmeza arranca o bruge da carne. O fumo
envolve a cabeça do possuído de transe. São altas horas e o Maulide não pára. — Maulana! Maulana!
Para descansar, os crentes erguem os gritos de — Ali Maulana! Ali Maulana! E o tam-tam! estaca para
recomeçar logo depois.
    Pedem a Ali Maulana que os deixe um momento porque depois as mulheres hão-de saltar à corda ao
som dos tambores no dia seguinte.
Sttlemangy, seu corpo atlético iluminado pelo Petromax parece um símbolo vivo da velha raça macua,
altiva e forte.
    Retiramo-nos, o sangue ainda perturbado pelo estranho chamamento da daíra na noite morna de
África, os olhos cheios das imagens do fantástico e irreal.
A parte civilizada procura explicações racionais. Recordamos Garrei, etc., mas o som da daíra persegue-
nos insistentemente, abraça-nos, aperta-nos noite alta, até de manhã.

José Craveirinha

In: O Brado africano (Lourenço Marques), 26.02.1955 crónica não assinada, com o título «Maulide Rifai
na Mafalala».


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