
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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A VOZ DO MAULIDE
A voz do Maulide chama-nos. Estacas, barrotes, sacas e encerados e os
homens lá dentro acocorados em largas esteiras. Num dos lados um lençol amarelo como pano de fundo.
Um amarelo carregado de açafrão. Velhos patriarcais lêem o livro sagrado e entoam monótonas cantilenas.
As pernas flectidas, os olhos baixos, o tronco balanceando ao ritmo dos cânticos. O tempo
passa, a luz dos Petromax aquece mais a atmosfera e acende brilhos fantásticos nos óculos dos velhos
macuas. Na demora, há paciência e fatalismo orientais. Por fim as vozes calam-se, o silêncio
torna-se espesso como um pedaço de teca. Aqui e ali homens levantam-se silenciosamente e voltam com
daíras e entregam pelo círculo fechado de homens sentados nas esteiras. Descobrem-se objectos
estranhos nas mãos do velho macua magro, de máscara expressivamente sulcada de rugas. O fumo do lobane
cerca as coisas e mistura-se com o hálito dos cajueiros. De repente, um frémito nos atravessa e arrepia
a pele. Começou a parte principal do cerimonial. O conjunto de daíra soa nas mãos sensíveis dos macuas.
Abud, o gordo Abud, está sentado e toca a daíra também. Os tamboretes unem-se pelo ritmo. A cadência
começa a subir, a subir, a subir e agora está forte, misteriosa. As vozes sobem no ar morno, rompem
barreiras de sacas e lonas e espalham-se noite fora. — Maulana! Maulana! Dois homens erguem-se
de cânticos na boca e pegam os bruges um em cada mão. As finas lâminas de aço chispam à luz crua
do Petromax. E a cerimónia ritual começa com o ponto alto atingido pêlos tamboretes e as vozes cantando
o salmo. Os dois homens de bruges nas mãos dançam e erguem os braços enquanto o corpo se separa
e imaterializa. O transe afoga os homens no seu abraço bárbaro e leva-os para o ignoto. As
mãos erguidas ao alto, baixam-se e as pontas aceradas dos bruges picam a carne. Sobem e descem, sobem
e descem, Abud toca a daíra; seu corpo grande inclina-se à frente e atrás, suas mãos parecem grandes
borboletas negras voando no ar batendo no pandeiro. Mais de vinte pandeiros erguem na noite milenária
o seu som de pele esticada e amarrada na daíra. Outros homens saltam para o meio empunhando os
finos bruges e erguem as mãos ao alto, curvam o tronco e no compasso dos tamboretes enterram as lâminas
na carne insensível. A loucura é colectiva. Um sopro irreal funde os homens e as coisas. Há transe,
fumo de incenso, primitivismo e ritmo. Fora, as estrelas cintilam como pirilampos longínquos parados
no céu. Depois há homens que a loucura arrebata e outros atentos que saltam e arrancam os afiados
bruges das mãos enclavinhadas pelo transe. Estão possessos e caem no chão estrebuchando. Dentro de
nós como simples coisas, mundos de cultura esfarelam-se. Outro atravessa o estilete na face
e fica assim o corpo no ritmo, os olhos semi-fechados até que se inclina e o velho padre suavemente
toma-lhe a cabeça e com firmeza arranca o bruge da carne. O fumo envolve a cabeça do possuído de
transe. São altas horas e o Maulide não pára. — Maulana! Maulana! Para descansar, os crentes erguem
os gritos de — Ali Maulana! Ali Maulana! E o tam-tam! estaca para recomeçar logo depois.
Pedem a Ali Maulana que os deixe um momento porque depois as mulheres hão-de saltar à corda ao som
dos tambores no dia seguinte. Sttlemangy, seu corpo atlético iluminado pelo Petromax parece um símbolo
vivo da velha raça macua, altiva e forte. Retiramo-nos, o sangue ainda perturbado pelo estranho
chamamento da daíra na noite morna de África, os olhos cheios das imagens do fantástico e irreal.
A parte civilizada procura explicações racionais. Recordamos Garrei, etc., mas o som da daíra persegue-
nos insistentemente, abraça-nos, aperta-nos noite alta, até de manhã.
José Craveirinha
In:
O Brado africano (Lourenço Marques), 26.02.1955 crónica não assinada, com o título «Maulide Rifai na
Mafalala».
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