
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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NOTĺCIA DE UMA CHEGADA A MOÇAMBIQUE
Chegando a Moçambique, que é súbdito ao Rei de Quíloa,
chegando a umas três Ilhas que estão de fora, Vasco da Gama mandou o seu piloto no batel após o zambuco,
sondando a entrada do porto, e tomando as velas grandes, com traquetes e mezenas entraram na barra,
após o zambuco, onde acharam bom fundo, e a barra emparada dos ventos do mar; onde viram em terra
uma grande povoação de casas cobertas de palha, com que deram a Nosso Senhor muitos louvores de Nosso
Senhor ali os aportar, onde já viam casas e gente. Onde assim chegados o Capitão-mór foi à nau de
seu irmão, a que ele disse que entrasse no porto com bandeira na gávea, o que ele assim o fez, onde
falaram, e lhe deu conta da palavra boa que tinha do Mouro, e tudo o que lhe tinha dito, e mandou
levar os cafres ao zambuco, que foram muito contentes com pedaços de panos brancos que lhe deram,
e trouxeram os homens que lá vinham. Os cafres foram a terra, onde muita gente na praia se ajuntou
a lhe perguntar, os quais daí a pouco tornaram à nau em uma almadia com cocos e duas galinhas que
deram ao Capitão-mór, e lhe pediram biscoitos e vinho para levar a terra, que lhe mandou dar, com
que mui contentes se tornaram a terra. Então falando com o Mouro, que se chamava Davane, e lhe deram
um barrete de grãa, e um ramal de corais miúdos, lhe dizendo que fosse a terra, e os ajudasse como
homens estrangeiros que vinham perdidos de uma terra mui longe, o Mouro se foi a terra que o levou
Nicolau Coelho no batel, que chegou até saltar na água e se tornou à nau. O Mouro foi cercado
de muita gente com que se foi a casa do Xeque, que é capitão da terra da mão do Rei de Quíloa, que
neste lugar estava como rendeiro, arrecadando os direitos das naus de mercadores, que são muitas,
que vinham de muitas terras com muitas roupas de sortes, que neste Moçambique tratam e pagam grandes
direitos, e com elas passam avante pela costa por muitos rios que acham em que fazem resgate de prata,
e ouro, marfim, cera, e mormente em Sofala onde fazem grande resgate de muito ouro que há na terra
em que tratam estes mercadores, que quase todos são Mouros; e de serem assim tratantes por seus grossos
tratos ficam como naturais da terra, e os mais dos Reis e Senhores de todas as terras são Mouros
da seita de Mafamede. O Mouro assim falando com o Xeque lhe deu conta de tudo o que com os nossos
tinham passado até ali, e que iam de caminho para Cambaia carregar de pimenta e drogas. O Xeque lhe
muito perguntou se os nossos eram Turcos, porque sabia que eram homens brancos e que tinham naus
doutra feição, e não como as da índia. O Mouro lhe afirmou que não eram Mouros, mas que se afirmava
que eram cristãos; o que o Xeque não confiou, e ele em pessoa quis ver os nossos, e disse ao Mouro
que tornasse aos Capitães, e lhe perguntasse se queriam que os fosse ver, e lhe mandou galinhas, e cocos,
e figos, e um carneiro. O Mouro tinha ali um gentio natural da terra, que conhecia de muitas vezes que
vinha a Moçambique e pousava em sua casa, que tinha um moço que falava muito bem a língua dos cafres,
que são os naturais da terra, que levou à nau para falar, e nestas detenças não tornou à nau se não
de tarde; com que os Capitães muito folgaram, vendo como o Mouro tornava com refresco, que era mostra
de boa verdade. Falando com ele, e ouvido o recado do Xeque, folgaram, porque a principal causa de
sua vinda era descobrir terras novas, e assentar boas pazes e amizades; e disseram ao Mouro que muito
folgariam ver o Xeque, porque eram homens que andavam assim perdidos por terras que não conheciam,
e com todas as gentes folgariam de ter paz e boa amizade, e comprar e vender o de que se contentassem,
e que a principal coisa que folgariam de e comprar era drogas, que era mercadoria que se não danaria
por muito que andasse no mar. Com que o Mouro Davane se tornou ao Xeque ao outro dia, o qual ouvindo
a resposta dos nossos houve prazer com a mais informação que lhe contou o Mouro.
Gaspar Correia
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