
A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A PROSA
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DE COMO FUI CONQUISTADO PELA ILHA
Decorreram já quarenta e três anos depois que fui à província
de Moçambique pela primeira vez, e nunca mais esqueci a impressão estranha mas agradável que me causou
a entrada no porto da sua capital na bela tarde de 15 de Agosto de 1861. A fragata D. Fernando
vinha com terra à vista desde madrugada, com vento SSW, regular e bom tempo, depois de uma fastidiosa
viagem de oitenta e nove dias em que todos ansiavam por pôr o pé em terra, pois nesta longa travessia
avistáramos apenas a Madeira e a Trindade ao longe. Passámos a ponta da Bajona com o seu aspecto
muito característico, a abertura da baía do Mocambo, a ilha de S. Tiago, íamos emparelhando com a
de S. Jorge, e já por detrás dela e no intervalo das duas se via a nobre fortaleza de S. Sebastião
com o seu grande mastro, a terra e a ponta da Cabaceira com os seus palmares, as montanhas da Mesa
e do Pão que são inconfundíveis, e a casaria da cidade alvejando por sobre o sombrio arvoredo da
ilha; alguns mastros dos consulados e feitorias, com as bandeiras içadas por ser um grande dia santificado
e por vir entrando um navio do reino, como que nos saudavam alegremente. A fragata trazia largo
todo o seu pano mestre e o jack içado no tope de proa. Quando a restinga N. da Ilha de S. Jorge estava
já a W. verdadeiro orçou-se para dentro e logo se deu vista da lanchinha do prático a meio canal
vindo larga do vento, com os seus dois bastardos bem orientados e o jack na popa. Orçou-se todo de
bolina, carregaram-se e forraram-se os joanetes, carregaram-se os papafigos e atravessou-se a gávea.
A lanchinha que já não vinha longe tinha posto as velas e os mastros em baixo, os dez possantes
remadores pretos luzidios vinham puxando vigorosamente para a fragata, já se ouviam as suas vozes
em monótona cantoria muito áspera e gutural, e na popa da embarcação via-se a veneranda e simpática
figura do piloto-mor Mussagy Valegy com a sua farda de capitão-tenente honorário e o grande turbante
muçulmano na cabeça. Minutos depois a lancha procurava o costado de EB., sotavento, atirou-se-lhe
um cabo da amura, atracou, e o prático já conhecido de alguns dos oficiais, subiu a bordo e começou
a mandar. Arriou-se ojack. A lancha foi amarrada na popa, mareou-se o navio e seguimos sem novidade,
de bolina folgada a montar a curta distância a capela do baluarte de Nossa Senhora; começámos a avistar
a ponte-cais e a casaria sobre o porto interior, e quando marcávamos o mastro da fortaleza ao S.
13.° W. da agulha já o pano estava todo carregado e o ferro foi para o fundo em 8 braças às 4 horas
da tarde. Já nessa tarde fui passear a terra com alguns oficiais, tendo-se dissipado por encanto
todas as más impressões produzidas por uma viagem longa, fatigante, cheia de episódios variados e
nem sempre agradáveis. Quando nessa noite pelas 10 horas atracava ao alteroso costado da fragata,
trazia uma agradável impressão da cidade e já o próprio navio me pareceu mais bonito e atraente.
Os encantos da terra, uma visita ao palácio do governo, que me produziu um efeito deslumbrante, as
narrações de episódios dos cruzeiros contra o tráfico da escravatura, e a hospitalidade de alguns
dos habitantes que nos receberam de braços abertos, haviam acendido a minha impressionável fantasia
de vinte anos. Decidi- damente desde esse primeiro dia estava eu conquistado pela província de Moçambique.
Augusto de Castilho
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