A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


CARLOS JOSÉ CALDEIRA

A FOLHA DE BETEL

    [...] fomos a bordo de um pangaio árabe, que estava encalhado na praia defronte da casa do mesmo
Gama, e dentro do qual víramos que estava uma bailadeira. Eu nunca tinha visto alguma destas mulheres,
tão famigeradas no Oriente: era mui nova e de delicada compleição, e apesar da cor baça tinha feições e
olhos engraçados; estava bem vestida com calças e panos de seda, e carregada no pescoço, pulsos e
orelhas com manilhas, colares e vários adereços de ouro, tudo de não pequeno valor; tinha consigo uma
criança de 10 a 12 anos vestida do mesmo gosto, mas sem ornatos de ouro. Era para mini cena original
ver-me na tosca e suja câmara de um pangaio árabe, com mais três portugueses, rodeados pêlos principais
árabes da numerosa tripulação, negros, de fisionomias regulares e agradáveis, com seus alvos turbantes,
roupas largas, e longos cachimbos, e em frente de uma bailadeira gentílica, assentada de pernas
encruzadas junto a uma janela da popa, com aquele olhar e ademanes voluptuosos e provocadores que
constituem um dos méritos da sua profissão, e que mais desenvolvem nas danças lascivas, donde tiram o
nome de bailadeiras.
    Um dos nossos companheiros falava o árabe de Mascate e a língua marata, a mais geral do Indostão, e
entreteve a•conversação com os homens e com aquela mulher que no entanto ia mascando indolente e
graciosamente a estimulante folha de betei, misturada com aréca, espécie de noz adstringente, ao que
também juntam cal de marisco: ofereceram--nos esta mistura, por ser isto entre os orientais um sinal de
cordialidade, e eu ainda mais esta vez a provei, lembrando-me que seria provavelmente a última no
decurso da minha vida.

Carlos José Caldeira

In: Apontamentos duma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, por Carlos José Caldeira.


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