A ILHA DE MOÇAMBIQUE
E
A PROSA


ADELTO GONÇALVES

Moçambique: a ilha dos amores e dos poetas

«Ó Oriente surgido do mar
Ó minha Ilha de Moçambique
Perfume solto no oceano
Como se fosse em pleno ar»
Alberto Lacerda

I

    Em 1613, Pedro de Mariz, ao escrever uma breve biografia de Luís de Camões para a primeira
edição d'Os Lusíadas, preparada por Manuel Correia, pôs a circular a versão de que o poeta teria

sido enviado pelo governador da índia, Francisco Barreto, como provedor--mor do juízo de
defuntos e ausentes «às partes da China». Até hoje, não apareceu um documento que prove essa
assertiva. Mas, como apenas 33 anos separam essa biografia pioneira da morte de Camões, ocorrida
a 10 de Junho de 1580, ninguém a contestou: foi aceita como verdadeira, resultado de uma tradição
oral que seria ainda muito recente para ter sido deturpada pela imaginação dos pósteros.
    Segundo Mariz, Camões, depois de estabelecido em Macau, teria sofrido um naufrágio na foz do
rio Mecon, de que se salvara a nado, valendo-se apenas de um braço, já que na outra mão teria
carregado incólume o grande poema pátrio. Para todos estes fatos, não há uma única prova
documental, mas apenas um suposto depoimento do próprio poeta:


«.Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baixos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquela cuja lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa».

    Pode ter sido nessa estrofe que Mariz baseou boa parte do que
afirmou, ficando de fora somente
a observação de que Camões fora designado provedor-mor do juízo de defuntos e ausentes,
informação que fica em suspenso até que algum pesquisador localize, enfim, o documento dessa
nomeação.

II

    Levar-se em conta como fato verdadeiro o que é matéria de poesia tem sido, até hoje, motivo de
muita discussão. Muito antes de Fernando Pessoa acusar todo o poeta de fingidor, já se sabia que
não se devia tomar versos como fatos históricos. No máximo, são indícios, pistas que o pesquisador
deve seguir. Foi o que fizemos, por exemplo, quando escrevemos a biografia de Tomás António
Gonzaga (1744-1810), tema da nossa tese de doutoramento na

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VÉRTICE   97/Setembro-Outubro 2000


NOTA: Este mesmo artigo também foi publicado na Revista Leitura - Publicação Cultural da Imprensa Oficial do Estado - São Paulo(Brasil), ano 19 número 4 Abril de 2001(Capa)


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