A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A POESIA



GLÓRIA DE SANT'ANA

ILHA DE MOÇAMBIQUE

A treze de Outubro
do meio do mar
uma nova terra
redonda e suave

surgida da funda
densa claridade
ali está pousada
na onda que há-de

puxar noss
o barco
a areia tão clara.

É uma ilha toda
com fecho de prata
— sua fortaleza
muito bem lavrada

em pálidas pedras
que se transportaram.

E palmares e casas
ao pé de outros bairros
descidos na terra
que se amolda e talha

para gente negra
tão esbelta e tão grave.

(As mulheres compõem
por sobre a paisagem
um estranho contorno
de tonalidade).


E tudo parece
estar há muito exacto
para este momento
que vamos marcar
nas ramadas firmes
nas nuvens mais altas
no tempo que fica
por onde passámos.

BAIRRO NEGRO


As pequenas casas maticadas
erguem-se de longe (de séculos, de antigas datas)
contra o mar e as ondas e as algas.

Como remotas conchas embaciadas
caídas de uma súbita maré alta (lúcida e predestinada)
entre o areal e as ondulantes palmas.

As pequenas casas cúbicas e caladas
onde os problemas são primários e as janelas fechadas
e os tectos de macúti...

(Quem sofre dentro das rústicas portas não aplainadas?
Ou se encosta chorando às trémulas arestas
projectadas entre ângulos de acaso?

Que mar indeterminado e abstracto
se reflecte num olhar ou num gesto marcado .
por um ignoto hábito?)


RIQUEXO


Eis a tua alma
horizontal.

Sol e flores
e ângulos de sombra,
São pequenos acasos
naturais.

(Não transportas também
por sobre a nuca,
os rins, os calcanhares,
palavras transversais?)

Último elo és tu
alastrado
por vã transmutação.

Existindo marcado.


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