A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A POESIA


JOSÉ PEDRO DA SILVA CAMPOS OLIVEIRA

O PESCADOR DE MOÇAMBIQUE


Eu nasci em Moçambique,
de pais humildes provim,
a cor negra que eles tinham
é a cor que tenho em mim;
Sou pescador desde a infância
e no mar sempre voguei,
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei.
Antes que o sol se levante
eis que junto à praia estou;
se ao repoiso marco as horas,
à preguiça não as dou;
em frágil casquinha leve,
sempre longe do meu lar,

ando entregue ao vento e às ondas
sem a morte recear.
Ter contínuo a vida em risco
é triste coisa, não é?
mas do mar não teme as iras
quem em Deus depõe a fé!

Vou da Cabaceira às praias,
deixo perto Mossuril,
trage embora o céu de escuro
ou todo seja d'anil;
de Lumbo visito as águas
e assim vou até Sancul,
chego depois ao mar alto,
sopre o norte, ou ruja o sul.
Morre o sol? Termino a lida
para um pouco repousar,
e ao pé da mulher que estimo
ledas horas ir passar:
da mulher doces carícias
também quer o pescador,
pois d'esta vida os pesares
faz quase esquecer o amor!
Sou pescador desde a infância
e no mar sempre voguei,
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei;
É singela a recompensa
da vida custosa assim!
mas se a fome não se mata!
que me importa o resto a mim?
e enquanto tiver os braços
a pá e a casquilha ali
viverei sempre contente
n'este lidar que escolhi.

José Pedro da Silva Campos Oliveira



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