A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A POESIA


ORLANDO MENDES

MINHA ILHA


Nos paralelipípedos das mais antigas infâncias
dei também meus passos balbuciantes e seguintes.
Todos os dias pés sem idade acorrentados
trituravam o salitre poeirado pelo vento ĺndico
e a cortiça nua das solas e dos dedos

fazia o périplo da ilha sobre corais
onde no palácio o governador-geral mandava despachos
que a corte recebia incrustada de pedrarias
nas entranhas digerindo riquezas carnais.
E o salitre vinha e ardiam os pés das gerações
e nos pátios dos prédios senhoris floridos
se construíam novos lares de oriunda linhagem.
Por ali estiveram Camões das amarguras itinerantes
e Gonzaga da Inconfidência no desterro em lado oposto.
Era a rota dos gemidos e das raivas putrefactas
e dos partos que haviam de povoar as américas
com braços marcados a ferro nas lavras e colheitas.
Ruiram paredes grossas chegaram outras naus
morreram marinheiros por ordem soberana de el-rei
e obediência de seus filhos sem coroa fixando preços.
Agachavam-se as sombras com a passagem dos rickshaws
na ponta da ilha farinha não levedava pão mas fezes
e o sono evadia-se dos ossos para o metrónomo da noite
Em frente na costa que orla o interior
nascia o poeta e guerrilheiro Kalungano
que disparando balas cantaria para nós
o amor e as flores do dia de hoje litoral
em que a ilha se liga ao continente por uma ponte
e os barcos à vela macuas são donos do mar


MONUMENTOS


São velhas pedras erectas
com húmidos musgos sobre
frias vozes de profetas
transplantadas de alfobre

São grades de ferro sujo
como flechas de museu.
São restos de morte cujo
resgate se apreendeu.

São sítios de horas cedo
em dias certos por graça
do seu proposto enredo.

São para quem os devassa
sem coragem e sem medo
os jazigos duma raça.


ILHA


O menino branco nasceu numa ilha do Mar ĺndico
Na rota dos navios cargueiros
E a Mãe Negra o embalou carinhosa
Nas horas mornas vagarosas da solidão
E o menino cresceu brincando com os meninos negros
As viagens longas para terras distantes
E hoje o menino branco faz viagens longas
E os meninos negros ficam à espera dos dias de São Vapor
Que nunca mais hão-de chegar.
Os turistas filmam a inédita nudez
Para documentação dos arquivos sociais
O Mar, ai o Mar é apenas a Grande Água
E só Mãe-Terra velhinha fiel
Vela por ti menino ainda sem condição
Na ilha do Mar ĺndico onde nasceste


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