A ILHA DE MOÇAMBIQUE E A POESIA


RUI KNOPFLI



MESQUITA GRANDE



Neste raso Olimpo argamassado em febre
e coral, o Deus maior sou eu. Por mais

que as pedras, os muros e as palavras afirmem
outra coisa, por mais que me abram o corpo
em forma de cruz e me submetam a árida

voz às doces inflexões do cantochão latino,
por mais que a vontade de pequenos deuses
pálidos e fulvos talhe em profusas lápides
o contrário e a sua persistência os tenha
por Senhores, o sangue que impele estas veias

é o meu. Pórticos, frontarias, o metal
das armas e o Poder exibem na tua sigla
a arrogância do conquistador. Porém o mel
da tâmaras que modula o gesto destas gentes,
o cinzel que lhes aguça a madeira dos perfis,



a lenta chama que lhes devora os magros rostos,

meus são. Dolorido e exangue o próprio
Cristo é mouro da Cabaceira e tem a esgalgada

magreza de um velho cojá asceta.
Raça de escribas, mandai, julgai, prendei:
Só Alah é grande e Maomé o seu profeta.

Rui Knopfli




NENHUM MONUMENTO

Não são aparentes em ti as marcas de grandeza
nenhum monumento desfigura
ou altera a monotonia sem convulsões
do teu rosto quase anónimo.
A escassez de ogivas, arcobotantes.
rosáceas, burilados portais, cobra-la tu
na gravidade das tuas sombras
e do teu silêncio. Não vem sequer
da tua voz a opressão que cerra
as almas de quantos de ti
se acercam. Não demonstras,
não afirmas, não impões.
Elusiva e discretamente altiva
fala por ti apenas o tempo.

Rui Knopfli



LENDA

Há muitos, muitos anos já - tantos

que o real mal esboçava o corpo
do que viria a ser fantasia e lenda

e o homem era um bicho inocente
e natural pois nem sequer inventara
ainda mistérios para depois da morte,
lugares recônditos para o amor
e coisas como o pecado, o crime ou a guerra
- aconteceu, certa feita, terem acordado
as gentes de terra firme, para um estranho
facto: a neblina era pesada e densa
e não se via mais a ilha. Aflitos,
os homens gritaram: " - Desapareceu
a ilha, desapareceu a ilha!"
Parecia terem-na tragado as águas,
era só um mar de chumbo a perder
de vista, um pasmo silencioso sem
o claro rumor de gaivotas e velas brancas
na baía. Quando voltou a surgir,
raiava o sol e a ilha estava no céu,
reclinada entre nuvens e azul,
o insuportável diamante iridiscente
de que ainda hoje guarda o resplendor.

Rui Knopfl
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ILHA DOURADA

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.

Rui Knopfli

PONTA DA ILHA



Nem o solo em que assenta o estuque
de nossos casebres foi poupado.
Olhai em redor e podeis vê-lo
convertido na sólida pedra de vossos bastiões,
nos opulentos muros da máquina de guerra
que, pacientemente, fostes erguendo
por nosso trabalho, suor e amargura.
Daqui mal lobrigamos o mar.
Sentimo-lo apenas no odor e na viração
que tremula ao topo das palmeiras.
Perfazem o horizonte raso deste microcosmos
em que a fome, apesar de tudo, sorri,
telhados de macute que se repetem
sempre iguais, ruelas de terra batida
entrelaçadas em labirinto rústico,

o peixe, sobre a teia de lacalaca,
curtindo ao sol de um longo meio-dia,
as crianças que brincam seminuas
na poeira cinza, o cão esquelético
preguiçando à sombra e a galinha
tonta que cisca na distância.
À nossa volta sobram os templos e os deuses.

Rui Knopfli


S. PAULO

Povoado de sombras e fantasmas,
é ranger de passos o que escutamos,
ou apenas o estalido que o tempo
arde na madeira ressequida dos sobrados?

Pilhado, sangrado, espoliado
pela voraz cobiça
de sátrapas, clérigos e soldados,
apenas te legaram
a pesada alvenaria rectangular,
treze órbitas vazias com que fitas
a praça, e o mar em frente,
o silêncio húmido que te desce
das soturnas arcadas
e o lenho sepulcral das portas semicerradas
em que escasseiam batentes e puxadores
ou mesmo o metal pobre
de algum mais caprichoso arabesco.

Não só as portas e os muros.
Também as sombras. E os fantasmas.

Rui Knopfli


MUIPITI

Ilha, velha ilha, metal remanchado,
minha paixão adolescente,
que doloridas lembranças do tempo
em que, do alto do minarete,
Alah - o grande sacana! - sorria
aos tímidos versos bem comportados

que eu te fazia.

Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,
minha pachacha pseudo-oriental
a rescender a canela e açafrão,
maquilhada de espesso m'siro
e a mimar, pró turismo labrego,
trejeitos torpes de cortesã decrépita.



Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,
têm-te de cócoras na sopa melancólica
de uma arena limosa e marinha,
gaivota tonta a adejar inutilmente
ao lume de água contra a amarra
que te cinje para sempre
ao bojo ventrudo do continente.

De teu, cultivam-te a vénia e a submissão
solícitas, trazidas nos pangaios
lá do distante Katiavar,
expondo-te apenas no que tens de vil,
razão talvez para que ao longe, de troça,
pisquem mortiças as luzes do Mossuril
ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.

Mas retomo devegarinho as tuas ruas vagarosas,
caminhos sempre abertos para o mar,
brancos e amarelos filigranados
de tempo e sal, uma lentura
brâmane (ou muçulmana ?) durando no ar,
no sangue, ou no modo oblíquo como o sol
tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho
com a luz da eternidade.

Primeiro a ternura da mão que modulou
esta parede emprestando-lhe a curva hesitante
de uma carícia tosca mas porfiada,
logo o cheiro a sândalo, o madeiramento
corroído da porta súbito entreaberta,
o refulgir da prata na sombra mais densa:
assim descubro subtil e cúmplice,
que a dura linha do teu perfil autêntico
te vai, aos poucos, fissurando a máscara.

Rui Knopfli

CREMATÓRIO BANEANE


Brahman e Atman, eis dois nomes apontando
à mesma verdade, porque outro e um
a mesma coisa são. A Verdade Universal
no primeiro, no segundo a que cada um
de nós transporta dentro de si. Às duas
designa-as Om, o Sim Total, a Verdade
Derradeira. Saibam lê-las no crepitar

da lenha, aqui neste instante
e neste último envergonhado reduto
que nos coube, precária ponta escorada
sobre o acerado resvaladiço da rocha.
Hirto no topo da pira, ungido de essências
e grinaldas, o despojo apenas se descobre
à férrea impassibilidade de S. Lourenço.

Nachiketas, o jovem, repete a pergunta
milenar: "Na morte de um homem
dizem uns, ele é e outros, ele não é.
Onde está a verdade?" "Atman, o Ser,
nunca nasce e morre nunca". Por réplica
da branca ara para o alto sobe

alta coluna de grosso fumo vertical.

Tat tvam asi. Satyam jayate.

Rui Knopfli


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