Alguns textos de humor e sátira extraídos do livro «Bestiário» publicado pela Ndjira

 

 

De como optámos por um candidato da etnia ronga

 

Um dos problemas que mais assolam o continente africano e não só é a intolerância étnica e tribal. Quantas guerras não assistimos por este mundo fora motivadas por esse tipo de prejuízos?

Daí que não admira que neste meu Moçambique democrático seja perigosíssimo propor um camarada duma dada etnia para dirigir o município de uma outra. Digo perigoso, porque sou muito susceptível e fico «em cacos» quando certos tipos põem-se a escrever coisas muito feias e ofensivas a meu respeito, do género «o senhor sofre de uma diarreia mental», insultos estes que, para um país cuja população é maioritariamente jovem, deveriam ser evitadas.

Por esse motivo, no meu partido, ao elegermos um cidadão da etnia macua para dirigir o município da cidade de Maputo, predominantemente de rongas, decidimos camuflar a sua proveniência étnica.

Entretanto, havia ainda um pequeno probleminha e cabia mim, o presidente do partido, anfitrião e fornecedor de chás, arranjar-lhe solução: o nosso candidato, de nome Januário José, como qualquer macua de raiz, trocava os «vs» pelos «fs», os «ds» pelos «ts», os «bs» pelos «ps», e por aí em diante. Por exemplo, enquanto que para nós «o dedo da Lila dói», para os macuas «o teto ta Lila tói». Mais: eles, na latrina, «tefecam», não fazem como nós.

Felizmente, o meu cérebro é exactamente o antónimo do dos outros políticos, ou seja, não serve apenas para plantar cabelo, mas também para me ajudar nos momentos efervescentes; por isso lá consegui segregar uma solução: durante uma semana, submeti o meu camarada a aulas de 24 horas cada uma, ensinando-lhe sobre as diferenças entre o «b» e o «p» e etc., procurando sobretudo persuadir-lhe que os portugueses não se tinham enganado na escolha dos sons para aquelas consoantes. Após incansável trabalho, achei-o finalmente apto a fazer um ensaio de discurso perante os restantes dignitários do meu partido.

Só que, como nos ensina o Fidel Castro, neste mundo não podemos confiar nem na nossa própria sombra: Januário José envergonhou-me maningue: se já não dizia «tefecar»; fazia uma espécie de vice-versa: «devegar». Ou então: «vamos ganhar aos vilhos da buda!».

Tive pois que mudar de «medodologia», quero dizer, metodologia. Em vez de lhe gritar «burro» passei a dizer «bpurro», isto é, misturando os sons. O método funcionou em pleno, e ao fim de algum tempo, o tipo já conseguia falar decentemente.

Mas, se é verdade que cada homem tem na terra sua cruz para carregar, não será menos verdade que a mim cabia uma bem pesada. Imaginem vocês a minha desilusão quando no dia em que o íamos inscrever – e ao partido – na Comissão Nacional de Eleições, ao pedi-lo para assinar aquela papelada toda, descobri que o problema lhe tinha passado para as mãos. Onde já se viu alguém chamar-se «Xanuário Xossé»? Nem os aborígenes têm nomes desses!

Tive então que recorrer à minha maior virtude: a paciência. Sim, sou um tipo paciente eu, inclusive sou capaz de ficar anos e anos sem pagar uma dívida. Por isso, continuei a ministrar-lhe as lições,   mudei de conteúdo da lição: desta vez, dei-lhe umas aulas práticas sobre como os homens respiravam antes do oxigénio ser descoberto.

Vimo-nos, entretanto, na contingência de, à última hora, lançar um candidato de proveniência étnica ronga como nosso candidato municipal, apesar do facto, unanimemente aceite como verídico, de que os seus profundos conhecimentos de administração circunscrevem-se apenas à contabilidade dos copos de cerveja. Incrível: o tipo ainda hoje se lembra de quantos copos bebeu na manhã do dia nove de Fevereiro de 1964, uma data sem registo especial no calendário histórico do país.


 

Porque dormem os deputados?

 

Uma caracterização fiel do corpo legislativo moçambicano pressupõe, para o analista, muita boa disposição e força de vontade...

De facto, o nosso primeiro parlamento multipartidário na história nacional está dividido em três partes, a saber: FRELIMO, RENAMO e UD, ou melhor ud – de tão minúsculo que é. De costume, se considera que a Frelimo é o tronco e a União Democrática os membros. Entre eles, situar-se-ia o assento da Renamo e esta constituiria, justamente, a parte do corpo que assenta.

Mas ocorre-nos perguntar: quem é a cabeça do parlamento? Uma resposta frequente é a de se considerar o Presidente da Assembleia, Eduardo Mulémbwè, como a cabeça do mesmo. Disparate! A ser verdade uma coisa dessas, então porque é que eles dormem? Por acaso não lhes incomoda aquela voz sibilina?

Mas que os deputados dão várias sonecas em plenas sessões de trabalho, isso todos sabemos. Existem até reivindicações de que os assentos sejam substituídos por beliches. «Dormir na cadeira é mau para a coluna», justifica-se a esposa de um deles.

Encontrar a razão desse comportamento é que não se afigura empresa fácil.

Um jornalista foi surpreendido pela esposa numa adúltera sessão sexual, exactamente sobre o leito matrimonial de ambos, de modo que ela exigiu o divórcio, ali mesmo, tendo antes, quebrado as pestanas do parceiro. O adúltero pediu calma à esposa, passou a mão pela cabeleira postiça da amante, em seguida passeou-a pelos seus seios e finalmente arribou à zona púbica, enquanto, fixando hipnoticamente a esposa dizia: «Olha, isto é um candeeiro a petróleo». A ideia dele era enfurecê-la mais, para que o divórcio não durasse apenas uma semana. Só que infelizmente ela acreditou que a amante do marido era um verdadeiro candeeiro e só despertou para a realidade quando após acrescentar-lhe petróleo, acendeu um fósforo e o candeeiro escapou pela janela.

Livre como um traficante de droga neste belo e Índico país, o jornalista pôde finalmente enfronhar-se a fundo no problema da soneca parlamentar.

Começou por analisar os bocejos dos deputados dos assentos da frente, tendo descoberto coisas perfeitamente previsíveis como, por exemplo, dentes podres, gengivites e cheiro a cocó de bebé. Havia, inclusive, um parlamentar que quando bocejava, abria tanto a boca, de forma que quando o jornalista espreitava, conseguia ver, lá na outra extremidade, o ânus; e vice-versa mutatis mutandis.

Sob o pretexto de pagar-lhe uma «média de cerveja», o jornalista conseguiu atrair um deputado da Frelimo a uma barraca do dumba-nengue Mandela-II e, de repente, pôs-se a entrevistá-lo:

 

Jornalista: Invariavelmente Sua Excia dorme no parlamento. Porquê?

Deputado: Durmo? Bem na verdade, durmo. Mas não posso fazer nada, porque a maioria das vezes só me apercebo disso quando me vejo na televisão. E como quase todos os programas da televisão são em diferido, já é tarde para despertar. É como a demissão dos ministros, sabe como é que é.

Jornalista: Mas o senhor não dorme em casa?

Deputado: Meu filho, o senhor é casado?

Jornalista: Desculpa, mas é suposto o jornalista fazer as perguntas.

Deputado: O Deputado também. Nunca ouviu falar nas sessões de perguntas ao governo?

Jornalista: Bem, mas não podem dormir nas horas de trabalho. É um mau exemplo para o povo, que aliás vocês representam?

Deputado: Afinal?! Mas o quer que a gente faça, eu não tenho óculos escuros!

 

Após sete meses de dolorosas lucubrações, o jornalista publicou um livro de trezentas páginas intitulado «Eles dormem porque estão com sono» e só depois do lançamento oficial, é que se apercebeu que, para além do índice, o livro não tinha mais nada escrito. O Dr. Carlos Cossa, grande estudioso da literatura pós-moderna espalmou os braços e defendeu-lhe dizendo «mas o título fala por si!».

No entanto, este argumento não convenceu os deputados. Como represália, obrigaram o jornalista a transar, literalmente, com o candeeiro. Após várias tentativas, este convenceu-se que com aquele candeeiro não iria para além dos preâmbulos, pois o buraco do depósito de petróleo era muito pequeno. «Este candeeiro faz-me lembrar do Mugabe, não gosta nada mesmo dos jornalistas», lamentou-se.

Finalmente, decidiu-se por fugir, disfarçado de esteira para a África de Sul.

Mas a saga continua...

 

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Carlos Matola lança livrinho

 

Carlos Matola, mais conhecido nas tertúlias literárias como Hlangulani Va Ka Matsolo, conseguiu, finalmente, publicar o seu livrinho de poemas intitulado «Atchim», sob a chancela da famosa editora «Wanha» e patrocínio da Empresa Funerária de Moçambique.

A crítica recebeu-o com relativo entusiasmo. Inclusivamente, um professor universitário dirigiu-lhe as seguintes palavras: «Trata-se de uma obra inédita que marca indelevelmente uma nova tendência da poesia moçambicana – o seu fim – nomeadamente, privilegiando a disposição das páginas e não o conteúdo literário». Matsolo agradeceu estas palavras, baixando as calças e mostrando as nádegas muito escuras ao universitário.

Com efeito, «Acthim» apresenta inovações interessantes, como por exemplo, o facto de a última página aparecer n primeira e vice-versa, o que na verdade possibilita terminar a leitura do livro logo no princípio.

«Um verdadeiro mega-store de futilidades» são os termos que o irmão mais novo do poeta utilizou ao se referir ao livro na cerimónia de lançamento, o que demonstra, pensamos nós que ele não gosta do livro ou do irmão ou de ambas as coisas.

São na verdade cerca de 60 poemas estruturados de um modo muito engraçado, dando a impressão de terem sido escritos ao computador. Para fazer a ideia do quão difícil é ler este livro, sobretudo de olhos fechados, basta referir que o quinto poema aparece na página £, e não na página * como seria legítimo supor – e, ademais, aparecem de cabeça para baixo, o que pode levar até  leitor menos distraído  a pensar que está bêbado. Fizemo-lo notar ao próprio autor, o qual se pôs a rir.

- Olha – replicou ele – o meu livro tem conhecido alguns percalços em termos de mercado.

Na verdade, os «pequenos percalços» referiam-se ao facto de, dos dois mil exemplares colocados à venda, somente dois terem sido adquiridos. Um dos livros foi comprado pela namorada e dados em nosso poder indicam que eles estavam brigados. O outro exemplar foi adquirido pela própria mãe do autor, a qual segredou ao gerente da livraria:

- Já pedi mil vezes para ele me comprar petróleo para acender  fogueira e ele não quis, até que enfim arranjo um combustível substituto à altura.

Mas é o próprio Matsolo que confessa, orgulhoso:

- Pessoalmente ainda não li o meu livro pois tenho tido coisas mais importantes para fazer. Cá entre nós, acho que a única coisa de interessante que este livro tem é o meu nome na capa.

O universo temático da poesia de Matsolo gira em torno de questões metafísicas, como, aliás, transparece do título do poema 51 na página @: «Vai, paizinho, vai».

Mas o poema que, a nosso ver, melhor ilustra o eu-poético matsoliano é o décimo terceiro, que aparece na página #:

 

            «Voo e não volto mais

Se voltar, volto com as malas.

E se os ratos tiverem furado as minhas calças

Então, paciência, gungú nádegas...

Mas, pararei na erma estrada

E pedirei uma cerveja e, dois, três copos

Todos para mim

E não uma coca-cola, pois faz-se muito chi-chi aqui»

 

Este poema revela, de facto, a angústia existencial em que vive o auto de «Acthim»e, para além de fazer-nos sentir muita pena dele, suscita uma interrogação sobre qual é a melhor gravata que um viajante que «se voltar, volto com as malas» deve usar. Por sua vez, a expressão «gungu nádegas» é uma marca eloquente dessa pós-modernidade prematura ó presente em obras de muitos dos autores da geração o Charrua. Para Matsolo, como diria Freud, «o amanhã já aconteceu ontem. Resta dar uma volta e regressar para o anteontem».

Destaque também para o poema «Ah ha», que é o que se pode considerar um poema cómico. O esmo é composto por apenas essa expressão: é um poema só com título.

Mas o aparente hermetismo da poesia de Matsolo pode ser atribuído à incultura dos leitores. É impossível gostar e compreender «Acthim» sem nunca antes ter lido a novela «Calças molhadas» de Simeão Mazuze.

Em termos gráficos, o livro apresenta uma inovação surpreendente: a capa é feita em tecido de algodão, o que poderá permitir, assim o cremos, a quem o compre, e não queira lê-lo, usá-lo para enxugar a loiça. É aliás esta multifuncionalidade prática que tem faltado à nossa literatura. Os livros literários malawinos, por exemplo, após a leitura ou na falta desta, funcionam lindamente como papel higiénico.

À venda em todas as livrarias do país ao preço único de dois mil dólares, experimente comprá-lo!

 

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