Texto publicado no jornal «O país» numa coluna social denominada «Juvenília» e no Moçambique Online.

 

Líderes procuram-se!

 

           

Em Moçambique as coisas vão mal. A democracia é maltratada a tal ponto que chega a confundir-se com a anarquia. A corrupção graça como estrume num curral de porcos infestando todos os recantos da sociedade. O desenvolvimento económico, a erradicação da pobreza e o combate ao SIDA são desafios que se antepõem a tudo o resto mas cada vez mais parecem verdadeiras miragens.

Na verdade, a mitigação destes e outros problemas candentes na nossa sociedade carece de uma liderança forte e flexível.

Impõe-se então a questão, que traduz uma preocupação crescente na sociedade civil: temos, em Moçambique, uma chefia e liderança capazes de levar avante, e a bom porto, as grandes tarefas que se colocam perante a nossa jovem nação? 

Falo de verdadeiras vozes de comando, capazes de mobilizar o povo, nas diversas frentes, para objectivos nobres, apelando para o trabalho e para o espírito de sacrifício, e que as ouçamos de alma e coração e as sigamos «cegamente».

A análise do nosso panorama político-social sugere uma resposta que está longe de ser afirmativa. Não são poucos os que apelidam o Presidente da República de «mariazinha» devido a sua irritante tolerância com os desmandos que imperam nas instituições do poder. Afonso Dlakama, ao invés de traduzir o seu carisma numa força de oposição digna e credível desilude a cada dia. Figuras incontornáveis da nossa cultura como Lurdes Mutola e Mia Couto seduzem-nos, mas não conseguem «manietar-nos» como seria de esperar.

Por estas paragens, mormente na classe política, reina uma cultura de lealdade política acima de qualquer interesse nacional, a força dos interesses ocultos, a bajulação nua e crua, a falta de cultura e a incompetência. O resultado é que ninguém mais confia nas instituições, ou mesmo, nos rendimentos  do sistema democrático. Não raras vezes tenho cruzado com pessoas que recordam com nostalgia os tempos em que vigoravam os sistemas monocráticos.

De modo que formulo a seguinte conclusão: chefes precisam-se! 

Chefes com uma visão moderna da realidade, que saibam comandar com autoridade, competência e disponibilidade, que se façam respeitar, que saibam delegar com inteligência e escolher devidamente os seus colaboradores; não mais aquele chefe ineficiente, inculto, que sobrevive à base da intriga, falsidade, bajulação e, inclusivamente, com tirania.

Ou melhor: mais do que chefes, precisamos de líderes, ou seja, aquelas pessoas que exprimem de forma excepcional as suas capacidades, que têm enfim o dote da leadership. Precisamos de pessoas carismáticas, capazes de conquistar o consenso graças à sua aura, seu fascínio pessoal. Clamamos por líderes de massas com capacidade comunicativa, capazes de falar-nos para o coração e transmitir-nos emoções.

E a dor desta lacuna de liderança desatina mais à medida que nos recordamos que este país já produziu grandes timoneiros, como o são, Eduardo Mondlane e Samora Machel. Outros vivem ainda, embora em declínio ou orgulhoso repouso: Cardeal Alexandre dos Santos, a ex-atleta  de básquete Esperança Sambo, o ex-capitão da nossa selecção nacional de futebol Joaquim João. Pelo mundo fora também encontramos exemplos vivos de líderes em que nos podemos inspirar: Nelson Mandela, Desmond Tutu, Michael Jordan, Fidel Castro, só para citar alguns.

Agora a questão: de quem é a culpa deste vazio?

Ou antes: chefe se nasce ou se aprende?

O sociólogo italiano Pierluigi Celli, defende que geralmente líder se nasce, mas pode-se também aprender em função de numerosas e complexas razões. Mas ele chama atenção especial para o facto de que um líder não nasce nunca da ortodoxia, porque a ortodoxia cria sequazes, enquanto um líder tem traços marcadamente progressistas.

E como se aprende a comandar? A verdade é que em Moçambique não existem percursos de formação à altura de produzir uma primeira selecção de mérito da classe dirigente. A grande escola que foi a luta de libertação nacional já lá vai. As instituições que deviam presentemente cumprir esse papel não o fazem. A OJM é uma caixa oca, simples ressonância. As próprias universidades não cumprem o seu papel milenar de viveiro de talentos: as respectivas associações estudantis mal se aguentam de pé. Por sua vez, a igreja não tem nesta  matéria conseguido resgatar o lugar que tem sido historicamente seu. Até as empresas mais dinâmicas são quase todas comandadas por estrangeiros.

Devemos pois começar a preocupar-nos em reverter esta situação confrangedora. Podemos começar por ampliar o espaço de actuação dos poucos aspirantes a grandes líderes que temos presentemente: Celina Cossa, Graça Machel, José Pacheco, Felício Zacarias, Dom Dinis Sengulane e alguns outros. Mas, acima de tudo, é a eles que cabe forçar por esse espaço, o que requer uma demonstração de disponibilidade e comprometimento, pois o caminho de um líder é cheio de cadilhos.

Fica pois aqui a proposta: estando nas vésperas das eleições, bem que podíamos disputar os muros com os candidatos, impondo-lhes o nosso slogan, o qual  me parece de uma urgência inquestionável: LÍDERES PROCURAM-SE, DESESPERADAMENTE!

 

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