Texto publicado no jornal «O país» numa coluna social denominada «Juvenília» e no Moçambique Online.

 

 

Os dez livros da minha vida

 
Durante a minha vida, li muitos livros, entre verdadeiras obras primas e alguns menos conseguidos. Parte desses escritos marcaram-me de uma forma muito particular, embora não sejam todos necessariamente grandes títulos, daqueles apontados como de «leitura obrigatória». Na verdade são títulos que têm um valor sentimental para mim, derivado das situações específicas em que os li e da forma singular como influenciaram os meus percursos culturais. Quer dizer, a sua influência em mim foi de tal forma marcante, que a minha história de vida seria outra se os não tivesse lido.

E pretendo hoje evocá-los, esses livros todos, com toda a reverência que merecem, pelo menos os dez mais significativos. Inclusivamente, opto por chamá-los «os dez livros da minha vida».

Como qualquer criança, comecei por ler livros infanto-juvenis, incluindo as estórias em banda-desenhada. E foi exactamente neste campo que encontrei o primeiro livro da minha vida, ao qual pertence o mérito da consolidação da minha paixão pela leitura. Trata-se da conhecida história de «Robinson Crusoé» do escritor inglês Daniel Defoe, em que um jovem foge de casa e mete-se num cruzeiro que lhe levará de encontro da mais incrível das aventuras: náufrago, ele sobrevive numa ilha deserta, muito longe da civilização a que pertence. Aprendi neste livro sobre muitas coisas, nomeadamente, e só para citar algumas, como se processam o espírito de solidariedade, a luta pelo domínio da natureza, a necessidade que faz o engenho, etc. São lições que me ficaram indelevelmente gravadas no espírito e ainda hoje ressoam em todo o meu ser.

O segundo livro da minha vida intitulava-se «Catarina Enfermeira», e não me lembro do nome do seu autor ou autora. Eu devia ter por aí uns 13 anitos quando o achei entre os livros da minha mãe. Era uma novela retractando as vicissitudes da carreira profissional de enfermagem, nomeadamente, os assédios dos médicos às enfermeiras, as falhas de vocação, as negligências no ofício, entre outros. Incorporava também uma bonita estória de amor. A leitura deste livro marcou a minha primeira incursão pelos livros «dos adultos».

Depois veio o terceiro livro da minha vida: «Nós matamos o cão tinhoso» do Luís Bernardo Homwana, que teve o mérito de trazer-me as vivências de um tempo que não foi meu: o tempo colonial. Digamos que encontrei nele um painel diversificado do quotidiano de então, onde os dramas, as interrogações e travessuras de infância, o choque entre diferentes mundos,  as inquietações políticas e as aflições e alegrias da vivência diária conduziam a certos comportamentos e ideais entre os moçambicanos. Impressionou-me aquela linguagem de conversação diária, algo que sempre me parecera incongruente com a linguagem da literatura que eu reputava sempre rebuscada.

Depois veio «O código dos Woosters», o quarto livro da minha vida, do escritor humorista inglês Pelham G. Wodehouse, o tal que lançou a frase «a humanidade se divide em boas pessoas, pessoas e os malditos bolcheviques». Ainda convivem comigo as admiráveis personagens Bertram Wooster – de quem aprendi um certo cavalheirismo - e o seu impertubável e culto mordomo Jeeves.

Anos mais tarde, quando me mudei para Maputo, vindo da Manhiça, comecei a coleccionar, servindo-me da minha mesada, livros de literatura moçambicana; e quando não os pude ler recorri às bibliotecas, de forma que me considero um grande conhecedor da literatura da geração do Charrua. Foi nessa altura que me caiu às mãos uma verdadeira pérola, o quinto livro da minha vida: Ualalapi. Sim, o  do Ungulani Ba Ka Khossa. Reparem: eu era um adolescente, um «continuador da revolução», um mufana ex-manhicense que passava o tempo a estudar e a orgulhar-se dos heróis moçambicanos. A figura do Ngungunhane era para mim uma figura mítica, a de um herói da resistência à penetração colonial, e interessava-me ler um pouco sobre a sua vida. Só que neste livro esta figura era-me apresentada de uma forma pouco convencional, pela primeira vez era-me mostrada tal como a descrevia a minha avó materna: um tirano, que fizera tudo para dizimar os muchopes. E o ritmo frenético e a carga premonitória daquele «O último discurso de Ngungunhane», ainda hoje me fazem estremecer. Aliás, foi este escrito que me fez proclamar para os meus botões: «Um dia eu também serei escritor».

Na mesma época, tive um encontro com «As vozes anoitecidas» do Mia Couto. Meu Deus, que mundo surreal e maravilhoso se descobria ao virar de cada página do sexto livro da minha vida! E tão grande foi o amor que alimentei por esse livro, que já mal consigo apaixonar-me por outro escrito do grande escritor, aquele primeiro me esvaziou toda a capacidade de amar a escrita coutiana.

Concomintantemente, a poesia foi-me também chegando pelas páginas do Eduardo White em «O país de mim», o sétimo livro da minha vida. O meu primeiro-amor em poesia. Quer dizer, foi um abre-te-sésamo de um mundo habitado por um lirismo simplesmente arrebatador. Esse mundo que eu viria a conhecer na sua mais alta expressão em autores como Pablo Neruda e Fernando Pessoa, meus ídolos neste campo.

Bohumil Wrabal com «Eu que servi o rei de Inglaterra» representou uma descoberta apaixonante da sátira política. O oitavo livro da minha vida tem como autor aquele que eu considero o mais directo concorrente do Milan Kundera e do Franz Kafka, para o lugar de maior autor de todos os tempos entre os checos e os eslovacos. Por causa dele, cheguei a cogitar escrever também a minha comédia: «Eu que servi o rei da Swázilândia».

Mas quem me fez decidir definitivamente pelo humor e sátira, entanto que opções válidas para a minha própria escrita, foi o humorista americano Woody Allen, com os seus «Efeitos secundários» e o seu notável nonsense. Ele é definitivamente o meu mestre na escrita humorística e satírica. E  seu livro é o meu nono livro da minha vida.

Quanto ao décimo livro da minha vida confesso que tenho grandes dificuldades em elegê-lo. Concorrem três obras primas, a saber: «Cem anos de solidão» de Gabriel Garcia Marques, «As vinhas da ira» do americano John Steinbeck e «Seda» do italiano Alessandro Baricco. E é em nome dessa dificuldade que prefiro meter os três no conjunto do «décimo livro da minha vida». De modo que não tenho dez livros da minha vida, tenho doze.

Aliás, bem pensado, todos os livros que li tomaram o menino e o jovem que fui e sou, e sopraram-me pelos olhos adentro o fôlego da arte e da vida.

 

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