Texto publicado no jornal «O país» numa coluna social denominada «Juvenília» e no Moçambique Online.

 

A síndroma dos jovens que têm tudo

 

 

É hoje um lugar comum, em Moçambique e não só, os mais velhos dizerem que os jovens estão desprovidos de valores, demonstram uma gritante falta de cultura, pouco espírito pátrio e diminuto interesse pela vida social e política. Mas já é tempo de desmontar este refrão.

Comecemos por um esclarecimento prévio: a nossa juventude encontra-se compartimentada em duas grandes categorias. Por um lado, temos os jovens da periferia a quem o refrão acima não se ajusta minimamente, pois esses já fazem tudo o que lhes cabe fazer, incluindo o impossível, isto é, «sobrevivem». Depois temos os jovens urbanos, os quais, tal como o grupo anterior podem ser classificados em sub-categorias, mas que têm uma característica comum: têm o que comer e vestir, escola e jornais, e até lhes sobra muito tempo para o lazer. De forma particular, um dos sub-grupos desta categoria – a quem eu chamo os-jovens-que-têm-tudo - é que deve assumir, ainda que parcialmente, a responsabilidade pelo desalento dos papás: são jovens do estrato mais beneficiado da nossa sociedade, detêm os meios necessários para uma vida condigna, e portanto, as condições mínimas para poder agir de forma mais salutar.

Estes, sim, sofrem da síndroma-dos-jovens-que-têm-tudo. Não conhecem o significado da palavra «fome», não tiveram que lutar contra a exploração colonial, e doentiamente não têm que se preocupar em estudar porque o dinheiro compra os diplomas. Não se preocupam com a literatura, não porque lhes falte dinheiro para adquirir os livros, muito menos tempo para ler, mas sim, porque, são exímios promotores do cenário bem pintado pelas cerdas do Francisco Noa num artigo publicado recentemente, um cenário de «inversão galopante de valores aliada à perda da aura do escritor, da própria literatura e da arte em geral, dada a sobreposição de uma lógica materialista e economicista». São, mais concretamente, os filhos de uma elite urbana constituída pelos membros da classe dos dirigentes (da Frelimo), funcionários bem colocados e empresários de relativo sucesso, categorias estas que, regra geral, personificam-se nos mesmos indivíduos.

Os indivíduos que tudo têm! Até Deus lhes inveja tamanha generosidade com os filhos. E provavelmente os perdoa, ciente de que os «coitados» passaram por uma infância miserável e sacrificada e, portanto, projectam a satisfação dos seus prejuízos nos filhos. Por outro lado, a fortuna que detêm, ou grande parte dela, foi reunida de forma ilícita e sem sacrifício algum, e é por isso que levam uma vida perdulária e demasiado permissiva no confronto com os filhos.

Evidentemente que esta opção por satisfazer os mínimos caprichos dos filhos procura  colmatar uma manifesta incapacidade de dialogar com eles, transmitir-lhes valores verdadeiros, porque eles próprios, os pais, são incompetentes em relação aos novos desafios e só o diabo sabe donde lhes sai tamanha sorte profissional e material. Cultura geral, da qual brota o leite da vida, essa eles estão longe de ter. Nunca leram um livro do princípio ao fim, e se acorrem frequentemente às livrarias para comprar o Mia Couto é porque precisam enfeitar a biblioteca caseira: ler que é mesmo bom, nada.

De modo que não conseguem cumprir com o papel que lhes é naturalmente imputável e que consiste em identificar novas exigências para os jovens, tão diferentes dos problemas que as gerações jovens de outrora tiveram que enfrentar.

Como se pode ver, o que pretendo aqui é absolver os jovens de boa parte da culpa que lhes é imputada, passando a atribui-la justamente aos pais, esses que tanto repetem o refrão da juventude perdida.

Eis o ponto: esta sociedade não ensina aos jovens como agir, não lhes consegue dar referências válidas. Têm pois a juventude que merecem. Quem se levanta e aponta ao filho um farol de orientação válido, para que ele se possa salvar do naufrágio nas águas turvas da cultura pop internacional? Quem tenta convencê-lo da importância da política, quando a ideia que passa é que se trata de algo fútil, a mais entediante e monótona das artes, com uma vantagem apenas, designadamente, o poder do dinheiro?

Em resumo, os jovens carecem de modelos. Filhos de gato que são, também não sabem nadar.

É portanto um desafio de toda a sociedade, das instituições, aproximar esses jovens dos problemas que não dizem directamente respeito à vida pessoal. Quantos pais se sentam com os filhos  para assistir o «Jornal Nacional» e com eles comentam as notícias do dia? Se o miúdo prefere a MTV, é o bastante para o pai comprar outro aparelho de televisão para ele e assinar o contrato para a DSTV. E assim a família segue na máxima felicidade, jogando claramente a favor de um individualismo generalizado e de um egoísmo que não servirão nunca ao progresso desta nação.

É, já não precisamos de «continuadores». Sejamos argutos o suficiente para entender que por aqui quase nada resta para continuar. Continuar um parlamento que se destaca pelo barulho? Continuar a corrupção que os mais velhos semearam? Continuar este laxismo dos nossos governantes? 

Talvez o jargão mais ajustado seja o que usavam, tempos atrás, os angolanos: «pioneiros». É verdade, esta sociedade precisa de ser reformulada, é necessário sangue novo para começar quase do zero.

E às elites cabe assumir o papel de vanguarda deste processo. É necessário da parte de todos – jovens e adultos - uma sincera vontade de participar activamente no desenvolvimento da nossa pátria e na melhoria das condições de vida do povo.

A conclusão é a de que os membros mais velhos dessas elites devem modificar tudo, a partir do comportamento a nível familiar até a forma como montam e dirigem as instituições, para permitir uma melhor orientação dos seus filhos – os membros juniores das elites - na tomada das melhores opções que sirvam para o bem de todos.

 

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