Texto publicado no jornal «O país» numa coluna social denominada «Juvenília» e no Moçambique Online.

 

 

Quantos intelectuais temos em Moçambique?



Elsa Giugliani, consultora internacional sobre lactação, doutorada na Inglaterra e nos EUA e presidente do Departamento de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, defende que as crianças que recebem leite materno desenvolvem mais a intelectualidade e são muito mais saudáveis.

A primeira conclusão a tirar disto, e olhando para a realidade moçambicana, faz-nos pensar que se registam graves problemas em termos de aleitamento materno no nosso país. Em termos de intelectualidade, a coisa por cá não anda lá muito famosa. Nós somos, sem dúvida nenhuma, um país de (alguns) tecnocratas; não de intelectuais. Dito doutra forma, no nosso meio, os verdadeiros intelectuais são tão poucos que passariam todos, duma só vez, pelo buraco de uma agulha. Falta-nos uma formação intelectual sadia.

Por culpa de quem?

Por culpa do sistema, dos pais, mas principalmente por nossa própria culpa.

Primeiro carecemos de um sistema educativo que amplie não só o «mapa cognitivo», mas a capacidade de pensar e um treinamento na ciência da vida, para usar uma expressão de Acharya Mahapragya.

Em segundo lugar, é preciso saber que a contribuição intelectual que pode ser fornecida pelos pais para os seus filhos depende, em grande parte, do tipo de instrução formal ao qual eles foram submetidos, e infelizmente a maioria dos nossos pais não tiveram muita sorte nesse campo.

Finalmente, e sobretudo, a intelectualidade é uma ambição individual. Quer dizer, cada um escolhe o quanto quer ser inteligente. Concretamente, nada pode catapultar alguém para a intelectualidade com tal eficácia como a leitura de livros. E essa, insisto, é uma tarefa individual. O que a escola, os dirigentes políticos e os pais podem fazer é colocar esses livros à disposição do público leitor.

Mas deixem-me agora esclarecer qual é o entendimento que eu tenho da intelectualidade. Para mim, todo o intelectual devia ser alguém como Albert Einstein. Ou Winston Churchill. Mas isso seria esticar demais a corda.  Essa créme de la créme quase nunca ultrapassa uma dezena num século inteiro, e em todo o planeta. Em contrapartida, os intelectuais são necessários em todos os momentos e em todos os quadrantes e dimensões da vida social.

De modo que me satisfaz um definição mais restrita, como a que é avançada por Hans Trass no seu artigo virtual «Obligatory primacy of intellectuality» que identifica certas características específicas de um intelectual, nomeadamente: centra os seus interesses em aspectos culturais; dá primazia à consciência e ao conhecimento sobre os interesses materiais; é altruísta; demonstra altos padrões éticos e uma missão democrática. Em outras palavras, a definição de Trass equivale, em Moçambique, a um nome como o do Professor Doutor Carlos Serra.

Trata-se pois, como aliás o próprio pensador o reconhece, de uma definição pragmática. Enfatiza a humanização (de todos os aspectos da vida num mundo que se revela acentuadamente tecnocrático), a cultura geral (ou seja, a capacidade de generalizar e ter um «senso de perspectiva») e a aplicabilidade prática dos bens intelectuais produzidos. Não basta um amplo «mapa cognitivo»; é necessário que este seja acrescido por um senso de responsabilidade e comprometimento social, bem como valores humanísticos e um bom carácter.

Agora, a incontornável questão. Quantos de nós, moçambicanos, encaixamos nesta definição.

A meu ver, tudo bem peneiradinho, podemos reunir uma boa quantidade de candidatos a intelectuais – algumas centenas talvez -, quer dizer, pessoas com algum backgroud em conhecimento e também – se reduzirmos o número para a metade -, com alguma cultura geral. Isto tudo obtém-se graças às academias e aos livros. Podemos meter neste grupo, de uma forma geral, e se nos permitirmos alguma generosidade e complacência, os professores e investigadores académicos que ensinam e trabalham nas nossas poucas universidades, peritos trabalhando em instâncias políticas de decisão e os tais «intelectuais públicos», especializados em dirigir a opinião pública, nomeadamente, os escritores, jornalistas e colunistas.

Mas caímos da casa das centenas para a casa das dezenas quando, para definir a intelectualidade, incluímos o critério de pensar a sociedade e aplicar os mentefactos na indução de mudanças sociais em prol de um maior bem-estar das populações. Trata-se aqui da exigência de os literatos servirem à comunidade com tudo o que aprenderam e pensam, como se pretende, só para citar um exemplo, com o projecto da elaboração da Agenda 25.

Passemos agora ao critério dos valores humanísticos e éticos, incluindo aqui a questão do carácter. Quer dizer, a exigência de o intelectual servir a sociedade com ciência e tecnologia, mas guiado apenas por um senso de integridade intelectual. Não quer dizer que o intelectual esteja proibido de professar crenças políticas, não! Pode ser membro da FRELIMO ou da RENAMO se quiser, e até ter uma participação militante. O importante é que ele se apoie sempre na sua consciência e não na lealdade política, e falar sempre aquilo que crê ser a verdade. Doutra forma, vira sequaz e não intelectual. Jorge Amado, por exemplo, era um «comunista» intelectual.

Como escreveu Robert Ting-Yiu Chung, da Universidade de Hong-Kong, no seu artigo intitulado «Intellectuality not for sale», a responsabilidade dos intelectuais reside na «virtus» e na «sapientia». A «virtus» refere-se à aderência ao conhecimento erudito que é visto como virtude, no entendimento platónico-socrático do termo. Por sua vez, «sapientia» significa a busca incessante da verdade.

Fica claro, pois, que o conceito de intelectualidade vai para além dos limites convencionais de ser professor ou académico. E se fizermos as contas tendo isto como base, chegamos a um resultado assombroso: em Moçambique temos apenas uma meia dúzia de intelectuais. Quem conhece os seus nomes?

 

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