As agruras de um presidente

Por Pedro Muiambo

I.

     Sonhara em tornar-se presidente da república justamente porque esse estatuto reduz ou resolve muitos dos problemas comezinhos porque passamos ao longo da vida. E, efectivamente, uma vez eleito para o cargo, sentiu que a sua vida estava mais facilitada antes ele precisava de correr atrás das pessoas para lhes dizer mentiras (por exemplo: vamos lutar pela
independência, para sermos todos livres e ricos), ao passo que agora as pessoas é que o perseguiam para lhe ouvirem as mentiras (por exemplo: um futuro melhor) e aplaudiam-no fervorosamente.
     Mas havia um probleminha que ele não conseguia resolver malgrado a sua nova posição; era, por assim dizer, um espinho cravado no seu pé. Algo que lhe incomodava tanto quanto nos incomoda, por exemplo, uma cerveja mal gelada. E digo-vos o que era: o aspecto que tinham as suas próprias fezes quando abandonavam os seus intestinos e se instalavam, todas sorridentes, no fundo da pia; mas, pior do que isso, eram os restinhos que ficavam incrustados no papel higiénico e que ele tinha que contemplar, sobretudo tinha que olhá-las muito de perto, pois, com o passar dos anos,
já enxergava mal.
     Convido-os a assistir comigo as peripécias do nosso chefe de estado. Lá está ele, coitado, sentadinho na pia, fazendo aquelas caretas engraçadas que todos nós fazemos na hora de defecar, e que, diga-se de passagem, não ficam nada bem a quem ocupa um cargo tão alto. Mas, o que fazer se a natureza assim nos exige a todos!? Vejam-no, agora, pegando no rolo de papel higiénico, corta um trocinho e põe-se a apalpá-lo.
     Abana a cabeça, é, é uma verdadeira beleza de papel: macio, absorvente, perfumado, cor esverdeada: exactamente o que se pede ao papel higiénico
presidencial! Agora levanta-se da pia, uhm, os intestinos estão aliviados. Sente-se um presidente feliz, com os intestinos limpos, pronto para novos
banquetes com os embaixadores acreditados no país.
     Infelizmente, a felicidade não dura para sempre: logo começa o seu eterno calvário. É que não resiste a espreitar lá para dentro da pia, aliás é um hábito que traz desde criança quando a mãe lhe recomendava, toda sentenciosa, «tens que conferir, filho, vá que tens lombrigas». Mas apesar de fazê-lo há bastante tempo, não conseguia conformar-se. Pudera! Aquele resíduo mudava de cor e cheiro conforme ele crescia, conforme o seu bem estar mudava, conforme mudava de comida e de bebida?! Não, nunca se habituaria. A grande repulsa pelos seus resíduos era eterna.
     Mas, o.k., voltemos à latrina.
     Satisfeito o seu voyerism, apressa-se a puxar o autoclismo e a merda desaparece da sua vista. Oba! Mas fica o dilema, o seu azar: é que... como mandam as regras, ele tem que passar o papel higiénico pela abertura entre as nádegas, com alguma veemência para que a limpeza seja eficaz, mas, em seguida, tem que também olhar para esse papel para confirmar se os

resíduos foram transferidos do ânus para o papel.
     Aliás, a ciência manda dizer que quanto mais resíduos vêem-se no papel então menos ficaram no ânus.

 

II.

     Seguidamente, dentro da sua consciência, duas vozes põem-se a discutir com muita violência. Uma delas diz:
     - Se já contemplei o resíduo que estava na pia, porque preciso eu olhar para os restinhos depositados no papel, caramba!
     Mas a outra voz, mais renitente, replica:
     - Wo thlanga leswo ! Eu quero olhar. Sempre olhei. Não há-de ser agora que me tornei presidente que não vou querer olhar! Como vou saber se o ânus está limpo se não for através do papel higiénico? Não posso pura e
simplesmente passar os dedos, não é verdade?
     O que piorava a situação é que ele tinha que passar o papel pelo ânus muitas vezes - no mínimo umas seis - e, logicamente,  tinha que dar uma vista de olhos também umas seis vezes. Era demais para um presidente,
que tinha sob a sua liderança milhões e milhões de almas e tinha a dura missão de as conduzir para um futuro melhor.
     Chegou inclusivamente um momento em que esta situação deixou-o de tal forma deprimido, que ficou incapaz de pensar no povo, nomeadamente, até em como conquistá-lo de novo nas próximas eleições. Por isso decidiu que mais do que um problema de foro íntimo, já se tratava de um verdadeiro problema de estado.
     Chamou então para junto de si, quer dizer, para dentro da toilette, o chefe do gabinete presidencial, a quem confessou o seu eterno dilema e ordenou:
     - Olha, preciso de alguém para me limpar o cu.
     - Ora, senhor presidente!
     - O.k.? Não me digas que não temos orçamento para contratar alguém?
     - Orçamento, orçamento temos. Mas cairia mal. Imagina que a oposição ficava a saber disso. Fritavam-nos vivos.
     Sua excelência meneou afirmativamente a cabeça demonstrando concordância. O chefe de gabinete, vendo o sofrimento do seu chefe, e também porque precisava, ui como precisava!, abandonar a casa-de-banho o mais cedo possível, de tão mal-cheiroso que estava,  pôs-se a pensar como nunca o tinha feito em toda a sua vida,  à cuca de uma solução rápida.
     - A não ser que eu te arranje alguém da oposição, um deputado por exemplo, aí eles já não teriam muito por onde nos atacar, sempre poderíamos replicar que arranjamos emprego para uma pessoa da oposição.
     Mas desta vez o presidente é que não ia na onda.
     - Não dá. Não posso confiar o meu cu a um tipo da oposição. Não enquanto houverem lâminas à venda por aí.
     Aqui, o chefe do gabinete teve que se render as evidências: era um argumento forte o de sua excelência. Mas como o cheiro estava mesmo
insuportável, lá veio ele rapidamente com outra ideia:
     - Poderíamos proibir a venda de lâminas dentro do território nacional, o que acha camarada presidente?
     - Acho que estás demitido!.
     Mas havia uma coisa que ele não conseguia demitir: o problema anal.

 

III

     Viu-se pois, o nosso presidente, na contingência de consultar o ministro da finanças, que era um tipo muito inteligente e seu amigo desde os remotos tempos da guerrilha.
     - Eh pá, só há uma solução, limpa o sítio e depois não olha - prescreveu-lhe o ministro, muito solícito.
     - Não consigo, meu irmão. Tu consegues? Cultivo esse hábito desde criança, assim ensinou-me a mamãe, e isso ficou-me de vez. Tenho que espreitar na pia e logo de seguida espiar o papel higiénico. Sabes, como bem o diz o brasileiro Gabriel Perissé, no seu artigo «O conceito de plágio Criativo», «talvez estivesse no bojo dessa mentalidade a ideia de imitatio Christi, que não era simples cópia do comportamento de Cristo, mas  ascese que implicava na assimilação e na imitação pessoal do modelo da santidade cristã». Entendes, nem?
     - Bom... hem... quer dizer... digamos... mais ou menos.
     - Estás bem?
     - Estou. Mas olha lá, como fazias tu lá na guerrilha?
     Nós não tínhamos papel higiénico lá. Usávamos capim seco. Não me digas que olhavas para o capim?
     - Queres saber da verdade?
     - Quero, claro.
     - Olhava.
     - Bom, nesse caso o teu caso é grave e só tem uma solução.
     - Qual? Diz-me, por favor, sou um presidente sofredor eu.
     - Fala baixo, está quase na hora da conferência de imprensa. Vá que alguém liga os microfones.
     - Mando-o fuzilar.
     - Bom, então a solução é: aceita essa influência materna e vive com ela.

     Concilia o poder com a merda no papel. Esse mesmo Perissé que citaste há pouco escreveu: “Aceitar as influências inevitáveis é conseguir olhar com bom humor aquilo que, vamos dizer assim, inocularam em nós, aquilo que bebemos no leite materno. Aceitar como um facto. Certa vez, perguntaram a João Cabral de Melo Neto se ele tinha medo da morte.
     Ele respondeu que sim, e que o medo estava associado às ideias de céu, inferno e purgatório que os irmãos maristas lhe tinham transmitido no tempo do colégio. O entrevistador insistiu: "Não acha tudo isso uma grande
ingenuidade?" E o poeta, já na altura totalmente cego, respondeu, com um sorriso: "o que é que posso fazer?
     Foi uma influência que recebi na minha infância e que não superei até hoje.”
     O presidente rendeu-se ao argumento do ministro amigo.
     Os jornalistas começavam já a entrar na sala, por isso teve que se debruçar ao ouvido do outro para dizer:
     - Ao menos que não cheirasse tão mal, bolas!

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FIM