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A
gentileza dos moçambicanos
5/1/2004 - Pedro Sansão Muiambo
Há quem
interprete os gestos sublimes da nossa hospitalidade como actos de
subserviência. Argumentam que as nacionalidades ocidentais promovem este mito
de hospitalidade moçambicana para perpetuar, portanto, a tal subserviência;
para escancararmos as portas da nossa casa e deixar entrar todo tipo de lobos e
serpentes.
“Não vos esqueçais
da hospitalidade,
porque por ela alguns,
sem o saberem,
hospedaram anjos.”
Hebreus 13:2:
É afirmação corrente que o moçambicano é um povo hospitaleiro e gentil. Por
hospitalidade entende-se “acolhimento afectuoso”. Inclusivamente, tornou-se já quase
uma tradição, músicos que visitam o nosso país, de volta aos seus países de
origem, escreverem canções, verdadeiras odes enaltecendo as qualidades do povo
moçambicano e expressando a vontade de cá voltar. Veja-se o caso do Sam
Manguana, da Miriam Makeba, dos Tropical Band, só para mencionar alguns nomes.
Outros inclusive acabam por cá se instalar: o grandioso Mandela e o músico Yeyé
são gotas no oceano de exemplos que me ocorrem neste momento.
Mas existem outros povos gentis. Os nórdicos, por exemplo, são famosos pela sua
hospitalidade. Só que a gentileza dos nórdicos resulta da educação. É algo
aprendido em função de convenções sociais bem calculadas e definidas.
Pessoalmente, já visitei alguns países europeus (latinos), Palops e alguns
países da nossa região e a impressão com que fiquei foi de que se tratava de
países com uma alta dose de boas maneiras. Até em Portugal, que é tido como o
país mais hospitaleiro da Europa, não encontrei o calor humano que nós
conseguimos aqui transmitir. Mas entretanto não posso negar que fui bem
recebido.
Estes povos são, cada um à sua maneira, gentis. Mas é uma gentileza que
impressiona e não seduz.
E, então, onde está a diferença? Simples: a nossa gentileza vem do coração, é
instintiva.
No entanto, há quem interprete os gestos sublimes da nossa hospitalidade como
actos de subserviência. Argumentam que as nacionalidades ocidentais promovem
este mito de hospitalidade moçambicana para perpetuar, portanto, a tal
subserviência; para escancararmos as portas da nossa casa e deixar entrar todo
tipo de lobos e serpentes; uma corrente de pensamento que para mim simplesmente
não cola: as nossas fraquezas político-administrativas nada têm que ver com o
teor da nossa alma. Devemos saber separar as coisas.
Outros concluem, ao fim de acrobáticas comparações, que a gentileza de alma é
sinónimo da falta de progresso. Como que nos pedem para nos envergonharmos de
uma qualidade que até a Bíblia recomenda (Vide epígrafe).
Não, a gentileza é uma qualidade natural do nosso povo e dela nos devemos
orgulhar. Evidentemente, haverá mal-intencionados que quererão aproveitar-se da
nossa extrema bondade para infringir-nos golpes fatais; isso a nossa longa
história ensina. Mas a lição que disso devemos tirar é tão somente que devemos
acautelar-nos.
Mas, mais do que isso, devemos estar cientes - agora
sim - de que o progresso e o liberalismo podem prejudicar a gentileza que nos é
apanágio. Existem factores exógenos que interferem nas malhas do nosso espírito
e que podem obliterar a nossa forma gentil de ser e estar. São factores que
embrutecem a alma, designadamente, o progresso material, a luta pela
sobrevivência e ascensão social, a frustração ligada à consciência das
desigualdades sociais, o egoísmo das grandes metrópoles onde cada um persegue o
seu mester e não arranja tempo para saudar nem sequer o vizinho do mesmo andar.
Mas definitivamente não existe uma relação determinística entre a gentileza e
os factores acima apontados. Quer dizer, a gentileza não tem que
necessariamente sair prejudicada pelo progresso material das sociedades.
Se cuidarmos - como o fizeram os nórdicos -, de criar
uma gentileza dos modos, então marcaremos a diferença. E quando falo na
gentileza dos modos refiro-me concretamente às boas maneiras, ao conhecimento
das regras de galanteio, à tolerância, ao exercício pleno da nossa cidadania,
ao diálogo, ao profissionalismo, etc., etc. Deve-se acrescentar que a gentileza
dos modos não se resume a dominar a etiqueta social para agradar visitas que
consideramos importantes, como aconteceu aquando da cimeira da União Africana.
Tem que ser também uma forma de estar permanente.
Fica aqui então um desafio para todas as esferas da nossa sociedade: aos
políticos, às instituições, às escolas, às igrejas, aos jovens, à família e aos
agentes económicos. O ponto é: é preciso conservarmos a gentileza de alma,
aliá-la à gentileza dos modos, e colheremos a médio prazo grandes frutos; quer
dizer, mais do que conseguimos apenas com a gentileza da alma, ou
conseguiríamos apenas com a gentileza dos modos.
A arte do bem servir e receber é, portanto, uma condição essencial.
A hospitalidade na actividade turística
Vejamos, mais concretamente, a diferença que a gentileza nos dois sentidos
acima descritos pode trazer, nomeadamente, no campo económico-social, através
do sector do turismo.
O turismo representa actualmente um dos mais promissores caminhos para o
desenvolvimento do nosso país, enquanto "máquina" de geração de
emprego, rendimentos e divisas. No entanto, muitas vezes consideram-se apenas
aspectos de natureza económica a ele ligados, e deixa-se de abordar uma
dimensão muito maior do turismo que envolve ainda aspectos culturais, sociais,
ambientais, entre outros.
Para que haja um desenvolvimento harmonioso, os profissionais da área deverão
procurar encantar a sua clientela não só pela excelência dos serviços, mas por
essa capacidade de sorrir com ternura e sinceridade. Percebe-se pois a
importância de se investir numa educação voltada para a cultura da
hospitalidade, questão esta que interfere, de forma decisiva, no futuro da
actividade turística.
Temos que saber capitalizar uma qualidade que nos é inata e inesgotável:
portanto, a gentileza. Se a ela aliarmos um grau aceitável de profissionalismo,
seremos capazes de criar um sector de turismo que sirva como um verdadeiro
motor de desenvolvimento do país.