MOÇAMBIQUE
OS "PADRES" DA MINHA VIDA

João Maria Neves Pinto


VILA DE MOATIZE - DISTRITO DE TETE - PROVĺNCIA DE MOÇAMBIQUE DO ANO DE 1971

Como católico, aos domingos ia à missa.

Em abono da verdade, não era por um imperativo da Fé, essa tinha-se desvanecido há muito, mas para acompanhar a minha mulher e os meus filhos.

O sítio, não havia outro, tinha que ser na Igreja da Missão, nos arredores de Moatize, e pertencente à Ordem dos Padres de Burgos, espanhóis.

Como Administrador de Posto, admitido no quadro havia um mês, encontrava-me no Concelho em estágio e ao mesmo tempo, em trabalho de construção dos aldeamentos.
Tinha tido a "sorte" de me calhar como superior hierárquico, o Administrador de Concelho Carlos Pinto Coelho.

Homem de carácter íntegro, de espírito afável e de uma grande abertura e humanismo para com os seus subordinados, tornou este meu tempo de trabalho nesta localidade, bastante agradável.

Também era católico, e tanto ele como a sua família, iam à mesma missa.

Nada diferenciava estas celebrações das outras a que tinha assistido, a não ser, as homilias. Estas eram, regra geral, cáusticas.

A princípio não ligava. Era natural que os aspectos negativos da vida das pessoas fosse mostrado, para que toda uma pedagogia se desenvolvesse num caminhar para o bem.

As injustiças onde quer que elas estivessem, deviam ser sempre denunciadas, por quem quer que fosse.

Mas nas homilias deste Padre, não havia lugar para situações a louvar. Tudo servia para atacar e denegrir a administração portuguesa.

Até que passou a citar factos concretos, mencionando nomes de pessoas e as localidades onde essas injustiças tinham sido cometidas.

No fim da missa o Administrador do Concelho procurou-me, e levando-me para um local isolado perguntou-me:
- O Neves Pinto ouviu bem o que foi dito na homilia? - Como lhe dissesse que sim, continuou - Quero uma averiguação exaustiva dessa situasão, e por escrito. Interrogue toda a gente que for preciso, e faça-me um relatório urgentemente.
Assim fiz, e constatei que os factos denunciados, não eram aqueles que tinham acontecido na realidade. Estavam empolados, distorcidos.

No princípio da missa do domingo seguinte, em tempo antecipado, o Administrador do Concelho, munido de todos os depoimentos escritos, ia ter com esse Padre e demonstrava-lhe a injustiça das suas palavras e dava-lhe cópias das declarações dos intervenientes.

Ele não conseguia contestar, as provas eram claras. Balbuciava umas desculpas às vezes, outras ficava calado.
O certo era que na missa seguinte, voltava do alto do púlpito a atacar outra situação contra a governação portuguesa, por pactuar com...e voltava a mencionar outra situação concreta.

E novamente me era entregue a investigação.
O Administrador do Concelho acabou por desistir.

As situações eram uma após outra investigadas e demonstradas diante dele, mas continuava missa após missa com esta conduta.
Igreja não havia outra para se ir e Padre também não. Mas era um gosto amargo que nos ficava no fim daquelas celebrações.

Claro que para quem tem Fé, o que o faz levar aos domingos a uma Igreja Católica é Jesus Cristo, mas quando não é a Sua Justiça aquela que é proclamada no altar, fica-se com um grande problema de consciência, sobre seguir ou não essa religião.
A minha vida deixou de se fazer nessa Vila.

Fui transferido para o Zóbuè, a 100 km dali, e mais tarde para o Mongué, a 500 km, na Zambézia. Deixei o Quadro Administrativo e já em Mocuba, após a Independência de Moçambique, uma pessoa deu-me a notícia:

- O Padre ( ...) de Moatize, da Ordem dos Padres de Burgos, esse depois do 25 de Abril, despiu a batina, casou-se com uma das freiras da Missão e é agora o "Comissário Político"("marxista-leninista) da Frelimo para Moatize.
Ora aí está como o tempo se encarrega de clarificar tudo. Agora percebia tudo.


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