
MOÇAMBIQUE OS "PADRES" DA MINHA VIDA João Maria Neves Pinto
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POSTO ADMINISTRATIVO DO ZÓBUÈ, CIRCUNSCRIÇÃO DE MOATIZE, DISTRITO DE TETE MOÇAMBIQUE
- ANO DE 1972.
Nem uma semana tinha passado após o meu início de funções, quando bateram
à porta do gabinete e entrou o secretário, dizendo:
- Está aqui o Reitor do Seminário e quer ser
recebido pelo Sr. Administrador. - E acrescentou a título de conselho: - Não é obrigado a recebê-lo,
o seu anterior colega já nem sequer o recebia... é um chato . - Tinha entrado para o Quadro Administrativo,
para o cargo de Administrador de Posto, facto que me tinha deixado muito orgulhoso. Não me colocaram
logo de princípio num Posto Administrativo, mas sim num Concelho, o de Moatize, para um certo tempo de
estágio. Fui então encarregado da construção de aldeamentos. A população africana é terrivelmente
individualista e vive espalhada pêlos montes, como bem lhes apetece, onde têm a sua casa e os seus terrenos
cultivados. Escolher um lugar onde abundasse a água, onde existissem terras férteis suficientes para
o povo a agrupar e principalmente que fosse do seu agrado, era tarefa árdua. Tornavam-se necessárias
muitas reuniões com os chefes tribais, para que tudo isso fosse discutido, assim como para os convencer
das vantagens do aldeamento. Depois do local escolhido, era necessário construir o poço, a escola
com duas salas de aula, o posto sanitário e traçar os arruamentos e os talhões para todas as casas. A
segurança montada era obra de um polícia vindo de Portugal, em comissão de serviço. Esta era a táctica
na luta contra a guerrilha, procurando evitar o seu contacto com as populações. Moatize era uma vila
no fim da linha férrea, com início na cidade da Beira, junto ao litoral. Duas grandes companhias exploravam
as riquezas do subsolo: A companhia carbonífera de Moatize e a companhia de urânio de Moatize, esta de
capitais belgas. A vila era totalmente dominada pêlos trabalhadores dos Caminhos de Ferro de Moçambique,
em grande número. O cinema, o campo de futebol e a piscina, eram dos C.F.M., e o bairro de casas dos
empregados, constituía metade da Vila.
Uma situação marcante aconteceu-me nessa altura. Todos
os dias saía da Administração do Concelho, com a viatura Land Rover que me estava destinada, totalmente
descapotada, por causa das minas, acompanhado por dois cipaios africanos, para o meu trabalho, bem no
interior. Era sábado, e como de costume, dirigi-me ao aldeamento que tinha em contrução. No fim do
dia trouxe o guarda da RS.P. comigo para que passasse o fim de semana em Moatize. Na segunda-feira
devia levá-lo novamente de regresso ao aldeamento, mas este acabou por me pedir para que o regresso ficasse
para terça-feira, uma vez que acontecia uma particularidade, segunda--feira era o feriado municipal de
Moatize. Tive que pedir autorização ao meu superior hierárquico, o que me foi concedido. Terça-feira
de manhã cedo, levei novamente o guarda para o aldeamento e fiquei a saber da morte de um funcionário
da Companhia de Urânio pelo accionamento de uma mina anti-carro, na estrada à entrada do aldeamento,
exactamente na segunda de manhã cedo. Era português e deixou mulher e filhos. Meditei maduramente
sobre esta situação e sobre o porquê das coisas... e sobre a vida.
Durante um ano foi este o meu
trabalho. Casado e já com dois filhos, com a minha mulher a caminho do nosso terceiro, que acabou por
nascer na capital deste distrito, a cidade de Tete, aproximadamente a vinte quilómetros de Moatize. No
sentido de nos aliviar a vida, e porque gostavam muito dos seus netos, os meus Pais vinham de vez em
quando a Moatize e levavam o nosso mais velho, o Alfredo, para passar longos períodos com eles.
Até
que fui colocado num Posto Administrativo, o do Zóbuè, a cem quilómetros de Moatize, situado exactamente
na fronteira com o Malawi, país africano independente. Para lá se chegar eram necessários três dias
de viagem de carro, pois só se o podia fazer debaixo de escolta militar, uma vez que a estrada era continuamente
minada, e tinha que ser portanto toda picada. A minha mulher e os miúdos foram transportados por helicóptero
militar. Estava-se em plena zona de guerra, do distrito de Tete.
Zóbuè era uma pequena aldeia,
numa região de montanhas e terrenos fertilíssimos. No tempo fresco fazia muito frio, e na época quente
a temperatura era amena. Um verdadeiro contraste com Moatize donde vinha. Um hospital de 1a classe e
sede do combate à mosca tsé-tsé e todo o seu complexo de edifícios, constituía a obra de maior vulto.
Uma escola agrícola, a aldeia propriamente dita, a alfândega e o Posto Administrativo com as residências
dos seus funcionários, completavam a aldeia. O Quartel das Forças Militares, Para-Militares e Forças
Especiais, situavam-se um pouco afastadas e mais afastado ainda, completamente isolado no mato, um Seminário,
edifício de grande beleza.
A casa do Administrador de Posto era enorme e bem feita, mas apesar
das suas paredes muito grossas, de onde em onde apresentavam umas grandes fendas, fruto dos tremores
de terra frequentes na região. A minha mulher instalou as nossas coisas e procurou ambientar--se à
casa e eu apresentei-me na secretaria ao meu adjunto, cumprimentei o secretário e intérprete, os funcionários
da secretaria e o pequeno corpo das forças policiais administrativas - os cipaios. Seguidamente fui
apresentar cumprimentos às forças vivas da Vila: comandante militar, chefe da alfândega e o médico do
Hospital. Estava pronto para iniciar o meu trabalho, o que fiz pondo em dia todo o serviço burocrático.
Ora acontecia que já há bastantes anos a minha fé se tinha esfriado lentamente. Educado carinhosamente
desde pequeno pela minha Mãe, na fé católica, e tendo percorrido os meus estudos em colégios católicos,
já depois de casado, uma dúvida filosófica sobre a existência de Deus foi minando a fé que tinha, e acabou
por me colocar numa indiferença latente para tudo quanto fosse religião. - Se Deus era na verdade
o Criador do Céu e da Terra, Senhor Todo Poderoso, porque é que as pessoas não o viam? Porque é que se
escondia dos homens esse Deus? Assim, quando o Padre Luís Ferreira da Silva me apareceu a pedir a
audiência, disse ao Secretário que iria recebê-lo imediatamente, um pouco puxado pelo meu subconsciente.
Não foi preciso pensar muito para dizer ao Secretário. - Não, deixa, estar, recebo-o agora mesmo.
Foi um homem de semblante carregado e tenso que me entrou no gabinete, vestido na simplicidade da sua
batina branca até aos pés, e o cabeção de Padre no pescoço. Após uns breves cumprimentos, quase desdenhosos
e rápidos, despejou de imediato a pergunta que trazia entalada na garganta: - O senhor sabe o que
está a acontecer ao regedor "...X...", que está no aldeamento do "Capirizange"? - Não, não sei de
nada - respondi-lhe.
-Ah! então o senhor não sabe o que se passa na área que administra - Atirou-me
desdenhosamente. E voltou ao assunto que ansiava expor: -O seu anterior colega pediu-me, para que
se encontrasse o regedor "...X...", nas terras do Malawi, que lhe dissesse que poderia regressar a Moçambique,
para as suas terras, que seria alojado com o seu povo no aldeamento do "Capirizange". Que nada de
mal lhe aconteceria, seria bem recebido, e que teria a protecção do Estado.
Assim transmiti a
mensagem, ele regressou com o seu povo, e agora está a ser achincalhado pela tropa portuguesa que faz
a protecção do aldeamento. - Entram pelas palhotas dentro das suas mulheres e abusam sexualmente delas,
desprestigiando-o diante do seu povo. - E rematou: - Eu não sirvo para estas situações, nem admito que
me usem para fins que não sejam sérios, fique sabendo. Fiquei chocado com o que me contava, e pensava
como iria resolver o problema. E então, as coisas ficam assim? - Perguntava-me novamente ele.
- Ficam assim não - retorqui. Não entrei para o Quadro Administrativo para pactuar com injustiças. Na
área do meu Posto nunca. Vou ao aldeamento averiguar do que se está a passar, vou falar com o regedor
e quem tiver prevaricado irá responder pelo que fez. Na próxima segunda-feira sigo com a coluna militar
para o aldeamento. - Já mais descomprimido perguntou-me então:
- E o senhor não se importa que
vá consigo? - Ele a si não lhe diz nada está envergonhado. Se me vir consigo ele abrir-se-á. -Concordei.
Havia coluna militar duas vezes por semana e no dia combinado lá me integrei no comboio das viaturas,
para um dia e meio de viagem, com destino ao aldeamento do Capirizange. O P.e Luís Ferreira da Silva,
Reitor do Seminário do Zóbuè, foi no mesmo dia em que eu chegava ao aldeamento, directamente do Seminário
na sua motorizada, com que aliás sempre se deslocava nos seus contactos apostólicos.
O simples
facto de se deslocar livremente, na sua motorizada, sem qualquer protecção da Administração Portuguesa
ou Militar, valiam-lhe ditos jocozos de muitos militares, apelidando-o de estar feito com os guerrilheiros.
O certo é que volta e meia grupos de guerrilheiros lhe saíam à estrada, o mandavam parar e o fiscalizavam.
E ele os admoestava, dizendo-lhes que Deus não permitia que se matasse ninguém e que não andassem a desencaminhar
os seus seminaristas. A verdade é que sempre o ouviram respeitosamente e que nunca lhe fizeram mal.
No entanto, as minas, essas, eram postas nas estradas onde toda a gente passava e ele também. Mais
tarde confidenciou-me que procurava andar sempre no camalhão do meio das estradas de terra, feito pêlos
sulcos das rodas dos carros, o que lhe valiam imensos tombos, muitos joelhos esfolados e batinas rasgadas.
Após a independência, teve pela primeira vez uma conversa com o comandante militar guerrilheiro daquela
zona. Ele elogiou-o pela sua coragem em durante toda a guerra ter contactado, sempre sozinho na sua
motorizada, as populações.
- Gostava que me dissesse como é que fazia para nunca ter pisado as
minas que mandava colocar nas estradas - perguntou. E diz o bom do nosso Padre: - É fácil, andava
sempre por cima dos camalhões centrais das estradas. - E replicou-lhe o comandante - Oh!, mas era
aí mesmo que os meus soldados punham as minas anti-pessoal.
À entrada do aldeamento o Re Luís
aguardava-me. Apresentei-me ao comandante militar do aldeamento, um alferes miliciano, que comandava
um pelotão de trinta militares portugueses, assim como as tropas especiais de naturais de Moçambique.
Informei-o ao que vinha e passei às averiguações. O régulo a princípio negou tudo com medo e envergonhado
pela situação, mas a minha persistência bem como a garantia dada pela presença do sacerdote, acabaram
por derrubar as barreiras.
O verdadeiro problema começou, quando novamente com o comandante militar,
lhe pedi a punição dos culpados.
- Que não, não existiam culpados uma vez que tudo o que lhe relatava,
não correspondia a qualquer situação ocorrida no aldeamento.
Embora fosse Administrador de Posto,
as minhas competências terminavam nas áreas militar, alfândega e na Pide. Assim, as minhas diligências
tinham sido infrutíferas. - E agora o que é que o senhor vai fazer? - Perguntava-me o P.e Luís.
- Vou expor o assunto ao Governador de Tete. As coisas assim é que não ficam. - Disse-lhe eu.
A
Administração do Estado Português e o Comando Militar só se tocavam no topo destas hierarquias. O Governador
era o Comandante Militar de Tete, um tenente-coronel.
- Se não se importa, eu arranjo-lhe a audiência,
pois conheço--o bem, e estarei lá consigo - ofereceu-se ele.
Concordei. Dei conhecimento ao meu
superior, o Administrador do Concelho de Moatize e no dia marcado lá estava perante o Governador expondo
a situação, com o P.e Luís a meu lado, corroborando o que relatei.
Assim se fez justiça. O Comandante
militar do aldeamento foi transferido, os culpados encontrados e punidos. Ao longo de todo o tempo
que decorreu este assunto, aprendi a apreciar este Padre Jesuíta. Homem de grande cultura, de personalidade
vincada, directo e objectivo nos assuntos que tratava, empreendedor e enérgico no que se metia, simples,
mas acima de tudo um devotado ao seu apostolado junto das populações, que protegia e ajudava de todas
as formas que podia. Um verdadeiro pastor do seu rebanho.
Era o género de pessoa que fazia
qualquer um que o conhecesse pela primeira vez, pestanejar duas vezes, procurando alinhavar os pensamentos,
sobre o porquê de se encontrar no meio do mato uma pessoa como aquela.
Não me admirei nada, quando
soube que o tinham escolhido e nomeado Bispo e colocado em Lichinga.
Um belo dia, enquanto passeava
por uma das ruas do Zóbuè com o Padre Luís, pensei com os meus botões: "Já resolvi o teu problema, está
na hora de resolveres o meu". E fiz-lhe a pergunta: - Na verdade Deus existe? - E se existe porque
é que o não posso ver? Ele estacou, virou a cara e olhou-me nos olhos, como que a confirmar a veracidade
da pergunta e embatucou.
Ficou sem resposta, nunca esperando que eu lhe fizesse alguma vez uma
pergunta daquelas. Gaguejou por fracções de segundos tentativas de respostas, até que se decidiu: - Deus
existe sem qualquer dúvida. Todo este mundo O atesta. Se for necessário até estas simples pedras lhe
dirão que Ele existe. - E não continuou. Deve ter pensado que não era o local, nem o momento próprio
para iniciar uma explicação teológica ou filosófica sobre a existência de Deus.
Mas rematou por
fim: - Tem por acaso uma Bíblia em casa? Como lhe dissesse que sim, continuou: - Leia à noite, ao
deitar, uma passagem, não mais que duas. Comece pela primeira página do Antigo Testamento e termine na
última do Novo Testamento.
- Verá que Deus lhe dará a resposta para a sua dúvida. Se por acaso
a não tiver, comece tudo de novo. Leia a Bíblia uma, duas, três vezes, as que forem necessárias, até
que tenha a sua resposta. Permaneci um ano neste Posto, onde, apesar de ter sido numa zona de guerra
ficaram boas recordações.
A deslocação com a minha mulher à embaixada portuguesa em Blantyre,
Malawi, por ocasião do dia de Portugal, a convite do embaixador, foi um momento muito agradável. A
deslocação a Mwanza para a celebração do dia do Malawi foi outro dia muito interessante. O meu colega
do outro lado da fronteira veio buscar-nos e no estádio de futebol assistimos à actuação de todas as
forças vivas daquela nação.
A concessão de um mês de férias, aproveitado para me deslocar a Mocuba,
na Zambézia, onde habitavam naquela altura os meus pais. O caminho mais curto era atravessar o Malawi,
do Zóbuè a Blantyre e daí até à outra fronteira, Milange na Zambézia. Malawi é um pequeno país em forma
de cunha e profundamente inserido dentro de Moçambique, entre os distritos de Tete e da Zambézia. País
altamente povoado e agricultado, é detentora de uma enorme quantidade de plantações de chá. De Blantyre
até Milange, a paisagem é, na generalidade, ocupada por plantações desse arbusto, de um verde intenso,
que dá pelo nome de chá, e pelo salpicar branco ou do tijolo vermelho dos edifícios dos armazéns e das
residências. Se acrescentarmos que o terreno é montanhoso, tem-se uma ideia da beleza deslumbrante
que nos é dado observar. Devo acrescentar que o povo do Malawi, e as suas autoridades tiveram o mérito
de conservar e continuar a herança britânica dos seus colonizadores, na parte visível da limpeza, quer
das cidades, quer das estradas. Estava tudo impecável. Uma verdadeira Suíça africana.
Tenho uma
ideia gratificante das viagens de carro que tive de fazer por esse país, ao som quase sempre da Aida
de Verdi, para o meu gosto, e de Engelbert Humperdinck, para o gosto da minha mulher.
Pedi a transferência
para o distrito da Zambézia. Tinha aceite a minha ida para Tete, mas logo que me foi permitido, pedi
a transferência. E esta veio, colocando-me no Posto Administrativo do Mongué, um dos Postos do Concelho
de Milange, fazendo também fronteira com o Malawi. Pelos vistos, a minha sina era estar em Postos
de fronteira, com este país.
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