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Aqui procurarei juntar textos e intervenções de MIA COUTO até agora dispersos ou até já apagados,
cuja importância por todos é reconhecida, ou com ele relacionados.
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Assunto: carta a Mia Couto Conterrâneo Sr. Mia Couto: Tenho seguido a seu
trabalho como escritor com o maior interesse e estou muito orgulhoso pelo seu reconhecimento internacional
e acredito no seu potencial como tal. No entanto dirijo-me a si pessoalmente para lhe
expressar as minhas dúvidas quanto à sua militância que me parece utópica mas talvez tenha sido conveniente
na altura da pré-independência para salvaguardar a sua permanência em Moçambique, coisa que não aconteceu
à maioria dos Moçambicanos descendentes de portugueses, os quais continuam a amar a sua terra Natal.
Foram para Portugal e para Países mais desenvolvidos. O que acontece hoje passados estes
anos todos é que a maior parte (talvez por andarem já na casa dos 50 anos) embora saudosistas dos tempos
que viveram, não querem regressar, e, vêem a nossa terra como um País para turismo e assim matar
saudades. Mas informo-lhe que há outros (e aí incluo-me) que não querem voltar ao País como turistas,
mas querem REGRESSAR. Consideram-se Moçambicanos que foram obrigados a abandonar o País e tornarem-se
refugiados. Digo obrigados contrariando assim a sua teoria de militância exposta por
si numa entrevista na qual afirma: "Não é que os portugueses fossem maltratados, mas eles achavam que
os moçambicanos não estavam preparados para governar, e fugiram".(aqui estão incluídos os moçambicanos
filhos desses portugueses, apenas por serem brancos). Pois quem viveu esses anos em Moçambique
sabe que após a independência houve pressões de várias ordens, desde adolescentes armados "chamados vigilantes"
que insultavam e ameaçavam em jeito de represália, até ás listas negras que foram criadas por "infiltrados"
(mais valia que fossem agitadores porque teriam um trabalho mais digno, não utilizando métodos que faziam
lembrar a pide) em que obrigavam à retiradas de emergência para não serem presos ou mortos.
O que me deixa perplexo é a conduta totalitária empreendida pela direcção do partido que não soube
esgotar as formas de entendimento numa circunstância crucial que não deveria ser apenas para os militantes
do partido fazendo assim uma distinção das raças. Seria pois a consolidação real da democracia que se
queria construir neste País, depois de longos anos de repressão generalizada. Houve
também quem abandona-se o barco antes disto tudo e, acumulasse contas bancárias no estrangeiro roubando
o meu País, tais como muitos actualmente o fazem sem qualquer vínculo à terra. (realidade que me entristece
e considero um neo- colonialismo). Como tal muitos Moçambicanos que não eram militantes
seriam considerados como uma representação minoritária pela cor da pele, o que é um absurdo.
Esse erro é claro noutros Países e todos nós lutamos contra essa descriminação. Sabemos que as
representações parlamentares devem ser definidas pelas ideias e não por cores. Não considero
e não concordo com conflitos religiosos mesmo tendo consciência da diferença abismal das populações das
cidades em relação às populações rurais. Portanto os problemas culturais não impedem
um desenvolvimento global do País. Pode-se utilizar políticas que ajudem todos para que não seja um País
à fome tendo em conta as raízes do povo, que vai tomando consciência que o chiquembo não resolve tudo.
Ao assumir que na maioria (rural) a oralidade é fundamental, devemos ser coerentes a transmitir
a verdade e não, como aconteceu, em que os discursos se transformavam em leis imediatas à boa maneira
de um ditador (como a ordem de ocupação das casas, chegando mesmo ao ridículo de fazer o povo matar moscas).
No entanto expresso aqui que muitos Moçambicanos que estão fora do País - saíram porque
não eram militantes ou porque ainda eram menores e tiveram que acompanhar os pais. Ao contrário do Sr.
(Mia Couto) que não nasceu para ser militante, caso que se reflecte hoje com a sua retirada (anunciada
por si) por não ter nexo a sua postura nesse campo parecendo-me apenas, como já disse, conveniência para
a época. Não se pode minimizar a presença de outras ideias como a Renamo ou outros que
podem surgir porque ainda há tempo para a criação de um novo partido, ou a soma de vários partidos, ou
de nenhum outro mais. A mobilização de todas as forças sociais e progressivas, luta abertamente para
a evolução de um País, de um povo, e não para a destruição e fome do mesmo. Em qualquer lugar deste planeta,
as ditaduras e os extremos serão sempre o pior que nos pode acontecer. Ideias marxistas e modelos
soviéticos só poderiam dar em Moçambique uma criação utópica, tal como a ideia de um Deus-Presidente
(comparável à lógica Vaga da inteligência artificial). O caminho nunca poderia ser
esse. Isso leva a um esgotamento moral, a robôs e à falência do sistema de representação cultural e social;
a exacerbação das ilusões sensoriais; ignorância e vontade de se apoderar de bens materiais.
Com efeito este novo rumo que os próprios governantes de Moçambique começam a ter consciência (e
ainda bem) leva a que lhe possa dizer a si Sr. Mia Couto: - Está a emergir uma nova mentalidade
e uma força de intervenção que abrange muitos Moçambicanos espalhados por esse mundo que não perderam
o amor pela pátria e que pensam REGRESSAR em comunhão com os interesses nacionais tendo em conta todos
os aspectos culturais (sem ir aos confins dos séculos ou então teríamos que acabar com as fronteiras)
e com o espírito de desenvolvimento e evolução tirando resultados e aproveitamentos dos recursos naturais
e humanos fazendo com que Moçambique seja um dos orgulhos de África. Será inconveniente baralhar ou desmistificar
palavras ou conceitos porque o importante é a luz que nasce na alma com vontade de realizar a acção
e não ficar pelos conceitos. Esperamos chegar a Moçambique daqui a poucos anos e, vamos
ter muito gosto em não sermos estrangeiros na própria terra natal, voltando a lutar pelo nosso povo que
merece viver fora da miséria numa terra com potencial para isso. A luta continua Envio também
um poema para uma linguagem mais profunda:
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Eu sou apenas um rapaz Moçambicano sem dinheiro no banco com parentes importantes mas tudo
acabou. Mas trago na cabeça uma canção de rádio em que um antigo compositor beirense dizia-me:
Tudo é divino! Tudo é maravilhoso! Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas, caminhado
o meu caminho. Oiço o som dentro da noite e não tenho um amigo sequer, que ainda acredite nisso,
NÃO. Tudo muda... E com toda razão. Eu sou apenas um rapaz moçambicano, sem dinheiro no banco,
com parentes importantes mas tudo acabou Mas sei que tudo é proibido. Aliás, eu queria dizer
que tudo é permitido... Até beijar no escuro, quando ninguém olhou. Não me peça que eu lhe faça
uma canção como se deve: correcta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons-palavras são
catanas. E eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe,
meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isto é somente uma canção. A vida, realmente,
é diferente Quer dizer: ao vivo é uma alucinação. Eu sou apenas um rapaz moçambicano, Por
favor, não saque a arma com vapor. Eu sou apenas um cantor. Mas, se depois de cantar, você ainda
quiser atirar, mate-me logo à tarde, às três, que à noite eu tenho que cantar e não posso
faltar por causa de vocês. Nada é secreto, nada. Nada é misterioso. Você não sente nem quer
ver, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer.
O que há algum tempo, era jovem e novo hoje é antigo. E precisamos, todos, rejuvenescer.
Nunca mais o meu pai falou: - She's leaving home E vai para a estrada "like rolling stones".
Nunca mais sai à rua, em grupo reunido, o dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor... No presente,
a mente - o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não é de servente. Como Poeta, poeta
louco moçambicano, eu pergunto ao passarinho: - Blackbird: respondeu pelos meus pais Tudo
já ficou atrás? Sem ilusão nem carinho - O passado não virá nunca mais.
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