Savana Maputo  20.02.04

 

A ASA DA LETRA

POR MIA COUTO

 

Plastificar a cidade?

 

Num país em que as pessoas morrem por doen­ças de fácil cura, a morte de uma palmeira é completa­mente irrelevante. Mesmo que, em vez de morte, tenha havido assassi­nato. E mes­mo que, em vez de uma pal­­meira, tenham sido assassi­na­das dezenas de palmeiras.  Maputo fez-se bonita para a Cimeira da União Africana. Palmeiras foram adquiridas (e não foram nada baratas) para embelezar a mais nobre das avenidas da cidade. O cidadão comum sabia que esse dinheiro saía do seu bolso. Mas estava até feliz por colaborar no renovar do rosto da cidade. Da sua cidade.  

As palmeiras reais vieram e fizeram um vistaço. Os Maputenses passeavam-se, com acrescida vaidade, pela lar­­ga avenida. Mas as pal­meiras têm um enorme in­conveniente: são seres vivos. E pedem rega. Apenas depois de terem sido plan­tadas é que se iniciaram obras estra­nhíssimas de abre-e-fecha buraco, põe-e-tira tubagem. As palmeiras, pa­cien­tes, ainda esperaram. Mas es­tavam condenadas à mor­te. Uma a uma, come­çaram a secar.  

Durante meses (e até hoje) fica­ram os seus ca­dáveres de pé como mo­numentos à nossa inca­pacidade. Não houve sequer pudor de lhes dar destino. Elas sobraram ali, como provas de um criminoso desleixo. O cidadão que, antes fora iluminado por súbita vaidade, agora se interrogava: ali mesmo nas barbas da Presidência da República ?  

A morte destas palmeiras interessa, sobretudo, como sintoma de um relaxamento que atingiu Moçambique. A folhagem seca dessas pal­meiras é uma espécie de bandeira hasteada desse abandalhamento. Não se trata, afinal, de uma simples morte de umas tantas árvores.  Não tarda a que Maputo receba um outro evento internacional. Compraremos outros adereços para a cida­de. Uns para embelezar de raiz, outros para maquilhar as olheiras de Maputo. Dessa vez, porém, compremos palmeiras de plástico. Ou plastifiquemos estas, já faleci­das, depois de lhe passarmos uma demão de tinta verde. Ou, se calhar, nem disso precisa­remos: à velocidade com que espaços que deviam ser verdes estão sendo ocupados por placards e anúncios publicitários não necessitaremos de mais nada. Aliás, qualquer dia, Maputo nem precisa de vista para o mar. Esta cidade que sempre foi uma varanda virada para o Indico está prescindindo dessa beleza. Locais cuja beleza advinha da paisagem estão sendo sistematicamente sendo ocupados por publicidade de tabaco, bebidas alcoólicas e bugigangas diversas. Um dia destes, nem necessitare­mos de ter mais cidade. Trocamos a urbe por pro­paganda de mercadorias.  

Depois, queixamo-nos da globalização.

VOLTAR