(Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)
A opinião de: Mia Couto *
Oração
de Sapiência na abertura do ano lectivo no ISCTEM
OS
SETE SAPATOS SUJOS
Começo
pela confissão de um sentimento conflituoso: é um prazer e uma honra ter
recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, não sei lidar
com este nome pomposo: “oração de sapiência”. De propósito, escolhi um tema
sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignorâncias. Todos os dias
somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos nós, de
modo generoso e patriótico, queremos participar nessa batalha. Existem, no
entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às
estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre
nós mesmos. Falo da dificuldade de nós pensarmos como sujeitos históricos, como
lugar de partida e como destino de um sonho.
Falarei
aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que é a nossa
interioridade, um território em que somos todos amadores. Neste domínio ninguém
tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir orações de “sapiência”. O
único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de
partilhar publicamente as nossas fragilidades. É isso que venho fazer,
partilhar convosco algumas das minhas dúvidas, das minhas solitárias
cogitações.
Começo
por um fait-divers. Há agora um anúncio nas nossas
estações de rádio em que alguém pergunta à vizinha: diga-me minha senhora, o
que é que se passa em sua casa, o seu filho é chefe de turma, as suas filhas
casaram muito bem, o seu marido foi nomeado director, diga-me, querida vizinha,
qual é o segredo? E a senhora responde: é que lá em casa nós comemos
arroz marca…(não
digo a marca porque não me pagaram este momento publicitário).
Seria
bom que assim que fosse, que a nossa vida mudasse só por consumirmos um produto
alimentar. Já estou a ver o nosso Magnifico Reitor a distribuir o mágico arroz
e a abrirem-se no ISCTEM as portas para o sucesso e para a felicidade. Mas ser- se feliz é, infelizmente,
muito mais trabalhoso.
No
dia em que eu fiz 11 anos de idade, a 5 de Julho de 1966, o Presidente Kenneth Kaunda veio aos
microfones da Rádio de Lusaka para anunciar que um dos grandes pilares da
felicidade do seu povo tinha sido construído. Não falava de nenhuma marca de
arroz. Ele agradecia ao povo da Zâmbia pelo seu envolvimento na criação da
primeira universidade no país. Uns meses antes, Kaunda
tinha lançado um apelo para que cada zambiano contribuísse para construir a
Universidade. A resposta foi comovente: dezenas de milhares de pessoas
corresponderam ao apelo. Camponeses deram milho, pescadores ofertaram pescado,
funcionários deram dinheiro. Um país de gente analfabeta juntou-se para criar
aquilo que imaginavam ser uma página nova na sua história. A mensagem dos
camponeses na inauguração da Universidade dizia: nós demos porque acreditamos
que, fazendo isto, os nossos netos deixarão de passar fome.
Quarenta
anos depois, os netos dos camponeses zambianos continuam sofrendo de fome. Na
realidade, os zambianos vivem hoje pior do que viviam naquela altura. Na década
de 60, a Zâmbia beneficiava de um Produto Nacional Bruto comparável aos de
Singapura e da Malásia. Hoje, nem de perto nem de longe, se pode comparar o
nosso vizinho com aqueles dois países da Ásia.
Algumas
nações africanas podem justificar a permanência da miséria porque sofreram
guerras. Mas a Zâmbia nunca teve guerra. Alguns países podem argumentar que não
possuem recursos. Todavia, a Zâmbia é uma nação com poderosos recursos
minerais. De quem é a culpa deste frustrar de expectativas? Quem falhou? Foi a
Universidade? Foi a sociedade? Foi o mundo inteiro que falhou? E porque razão
Singapura e Malásia progrediram e a Zâmbia regrediu?
Falei
da Zâmbia como um país africano ao acaso. Infelizmente, não faltariam outros
exemplos. O nosso continente está repleto de casos idênticos, de marchas
falhadas, esperanças frustradas. Generalizou-se entre nós a descrença na
possibilidade de mudarmos os destinos do nosso continente. Vale a pena
perguntarmo-nos: o que está acontecer? O que é preciso mudar dentro e fora de
África?
Estas
perguntas são sérias. Não podemos iludir as respostas, nem continuar a atirar
poeira para ocultar responsabilidades. Não podemos aceitar que elas sejam
apenas preocupação dos governos.
Felizmente,
estamos vivendo em Moçambique uma situação particular, com diferenças bem
sensíveis. Temos que reconhecer e ter orgulho que o nosso percurso foi bem
distinto. Acabamos recentemente de presenciar uma dessas diferenças. Desde
1957, apenas seis entre 153 chefes de estado africanos renunciaram
voluntariamente ao poder. Joaquim Chissano é o sétimo desses presidentes.
Parece um detalhe mas é bem indicativo que o processo moçambicano se guiou por
outras lógicas bem diversas.
Contudo,
as conquistas da liberdade e da democracia que hoje usufruímos só serão
definitivas quando se converterem em cultura de cada um de nós. E esse é ainda
um caminho de gerações. Entretanto, pesam sobre Moçambique ameaças que são
comuns a todo o continente. A fome, a miséria, as doenças, tudo
isso nós partilhamos com o resto de África. Os
números são aterradores: 90 milhões de africanos morrerão com SIDA nos próximos
20 anos. Para esse trágico número, Moçambique terá contribuído com cerca de 3
milhões de mortos. A maior parte destes condenados são jovens e representam
exactamente a alavanca com que poderíamos remover o peso da miséria. Quer
dizer, África não está só perdendo o seu próprio presente: está perdendo o chão
onde nasceria um outro amanhã.
Ter
futuro custa muito dinheiro. Mas é muito mais caro só ter passado. Antes da
Independência, para os camponeses zambianos não havia futuro. Hoje o único
tempo que para eles existe é o futuro dos outros.
Os
desafios são maiores que esperança? Mas nós não podemos senão ser optimistas e
fazer aquilo que os brasileiros chamam de levantar, sacudir a poeira e dar a
volta por cima. O pessimismo é um luxo para os ricos.
A
pergunta crucial é esta: o que é que nos separa desse futuro que todos
queremos? Alguns acreditam que o que falta são mais quadros, mais escolas, mais
hospitais. Outros acreditam que precisamos de mais investidores, mais projectos
económicos. Tudo isso é necessário, tudo isso é imprescindível. Mas para mim,
há uma outra coisa que é ainda mais importante. Essa coisa tem um nome: é uma
nova atitude. Se não mudarmos de atitude não conquistaremos uma condição
melhor. Poderemos ter mais técnicos, mais hospitais, mais escolas, mas não
seremos construtores de futuro.
Falo
de uma nova atitude mas a palavra deve ser pronunciada no plural, pois ela
compõe um conjunto vasto de posturas, crenças, conceitos e preconceitos. Há
muito que venho defendendo que o maior factor de atraso em Moçambique não se
localiza na economia mas na incapacidade de gerarmos um pensamento produtivo,
ousado e inovador. Um pensamento que não resulte da repetição de lugares
comuns, de fórmulas e de receitas já pensadas pelos outros.
Às
vezes me pergunto: de onde vem a dificuldade em nós pensarmos como sujeitos da
História? Vem sobretudo de termos legado sempre aos outros o desenho da nossa
própria identidade. Primeiro, os africanos foram negados. O seu território era
a ausência, o seu tempo estava fora da História. Depois, os africanos foram
estudados como um caso clínico. Agora, são ajudados a sobreviver no quintal da
História.
Estamos
todos nós estreando um combate interno para domesticar os
nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual
fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu
contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos
tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinah que escolher e sete é um número mágico.
O primeiro sapato: a ideia que os culpados são sempre os outros e
nós somos sempre vítimas
Nós
já conhecemos este discurso. A culpa já foi da guerra, do colonialismo, do
imperialismo, do apartheid, enfim, de tudo e de todos. Menos nossa. É verdade
que os outros tiveram a sua dose de culpa no nosso sofrimento. Mas parte da
responsabilidade sempre morou dentro de casa.
Estamos
sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Esta lavagem de
mãos tem sido estimulada por algumas elites africanas que querem permanecer na
impunidade. Os culpados estão à partida encontrados: são os outros, os da outra
etnia, os da outra raça, os da outra geografia.
Há
um tempo atrás fui sacudido por um livro intitulado Capitalist Nigger: The Road
to Success de um nigeriano chamado Chika A. Onyeani. Reproduzi num jornal nosso
um texto desse economista que é um apelo veemente para que os africanos renovem
o olhar que mantém sobre si mesmos. Permitam-me que leia aqui um excerto dessa
carta.
Caros irmãos: Estou
completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e
lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos
e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os
outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve
qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos
deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação
que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber
conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.
40
anos depois da Independência continuamos a culpar os
patrões coloniais por tudo o que acontece na África dos nossos dias. Os nossos
dirigentes nem sempre são suficientemente honestos para aceitar a sua
responsabilidade na pobreza dos nossos povos. Acusamos os europeus de roubar e
pilhar os recursos naturais de África. Mas eu pergunto-vos: digam-me, quem está
a convidar os europeus para assim procederem, não somos nós? (fim da citação)
Queremos
que outros nos olhem com dignidade e sem paternalismo. Mas ao mesmo tempo
continuamos olhando para nós mesmos com benevolência complacente: Somos peritos
na criação do discurso desculpabilizante. E dizemos: