A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



CARLOS RAMOS DE OLIVEIRA



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NOTA  INTRODUTÓRIA

  Este relatório integra-se nas actividades de investigação científica relacionadas com a construção da barragem de Cabora-Bassa. Quando, em princípio de 1972, fui encarregado da realização de pesquisa etnológica na zona da futura albufeira, a necessidade de optar surgiu como um imperativo. Aquela área era, tradicionalmente, ocupada por populações de grupos étnicos diversos. Dado que o trabalho em questão seria desempenhado não por uma equipa, mas apenas por um só investigador, e atentas as limitações de vária natureza existentes, o primeiro passo teve de ser a escolha de uma única etnia como objecto de estudo. Nas condições que se verificavam, um, só indivíduo não poderia, honestamente, empreender um estudo, com um mínimo de profundidade, de mais de um grupo. Não parece, em todo o caso, particularmente arriscado presumir, dada a notável identidade de condições e modos de vida, que muito do que aqui se afirma sobre os Tauaras é, também, em boa parte, válido para alguns dos grupos étnicos vizinhos.
  Em todos ou quase todos os aspectos com relevância para a realização desta pesquisa, os Tauaras apresentavam nítida vantagem sobre os restantes grupos; assim, foram viés o objectivo escolhido. Em primeiro lugar, eles são, dentro da zona da albufeira, os mais numerosos. Segundo um inquérito realizado em 1967 (1), dos 23372 indivíduos que então habitavam a área a inundar, 14 022 eram tauaras. Por outro lado, a área por eles tradicionalmente ocupada estende-se ao longo da margem sul do Zambeze, onde, à altura da permanência no campo, as condições de trabalho e de pesquisa não seriam, apesar de tudo, tão completamente desfavoráveis, quando não mesmo inexistentes, como na margem norte. Uma vez definido um objectivo, levantou-se a questão de determinar qual a estratégia a seguir para obter informação tanto quanto possível boa e abundante. Questão da maior importância, na medida em que toda a região era teatro de guerra e onde, por conseguinte, tudo se encontrava extraordinariamente dificultado. Assim, bastantes aspectos e comportamentos próprios da cultura tauara tinham quer desaparecido, quer sido alterados pelo estado de conflito. As limitações à liberdade de movimentos que a situação impunha eram, por seu lado, um factor que reduzia muitíssimo as possibilidades de observação. Deste modo, uma das técnicas tradicionais do método antropológico para a recolha de dados - a observação participante - ficou muitíssimo condicionada na sua possibilidade de aplicação. A recolha de informações através de inquirição oral veio, em consequência, a ganhar um relevo que noutras circunstâncias não teria tido. Ainda aqui, porém, sérias dificuldades surgiram por vezes. Um europeu, um estranho, que surgia nas povoações a fazer perguntas sobre a vida das pessoas e a tomar notas, teria, por força, na situação existente, de ser recebido com maior ou menor desconfiança. E foi isso que efectivamente ocorreu. Por vezes, havia resistência em responder mesmo às questões mais simples. Não obstante, as entrevistas com informadores seleccionados e as longas conversas com grupos que eventualmente se constituíam foram as fontes de grande parte dos dados que aqui se contêm. Em relação a bastantes aspectos que, dentro de circunstâncias normais, poderiam e deveriam ter sido observados directamente, não houve mesmo outro meio para sobre eles conseguir informações. Será, portanto, necessário ter presente que a utilização dos métodos de pesquisa mais correctos e adequados foi severamente limitada pelo facto de a investigação ter tido lugar em condições de guerra.
  O fim deste trabalho é dar uma imagem (ainda que esquemática, e na medida em que, dentro das circunstâncias, tal é possível) da sociedade e cultura tauaras no seu contexto tradicional. As alterações provocadas pela situação de conflito são também referidas, o que, contraposto aos quadros da vida costumeira, permitirá, talvez, apreender um pouco melhor o significado das mudanças ocorridas.
  Chicoa, Magoé Novo e Estima foram os locais onde permaneci mais tempo, tendo visitado, ainda, Cachomba e Magoé Velho. O período total de efectiva permanência entre tauaras não chegou, por seu lado, a atingir os quatro meses.
  A etno-história, aspecto sobre o qual o vale do Zambeze é de uma riqueza invulgar, não esteve, de forma alguma, entre os objectivos fixados, além de que teria requerido uma abordagem completamente diversa.
  Neste trabalho procura-se, unicamente, descrever, e não entrar em considerações explicativas ou de natureza teórica, que, aliás, a base etnográfica limitaria drasticamente. Os diversos temas são, de forma esquemática, enquadrados nas categorias do padrão universal de cultura sugerido por Mischa Titiev, e que ele designa por "Triângulo Bio-cultural": relações homem-ambiente, relações homem-homem e relações homem-sobrenatural (2). Esta última categoria surge algo eivada de etnocentrismo: quem define o sobrenatural ? Neste caso, contudo, havendo principalmente a preocupação de arrumar materiais, ela pode ser utilizada sem desvantagens.
  Em resumo, portanto, o presente trabalho mais não é do que um registo, em moldes tradicionais, de padrões básicos da cultura tauara, realizado predominantemente a partir de dados obtidos através de informação oral.
                                                                                                         Lisboa, Novembro de 1973

(1) Vide Plano para o reordenamento das populações da albufeira e restantes implicações de Cabora-Bassa - Hexénio de 1968-1973. Missão de Fomento e Planeamento do Zambeze, Anexo 2, p. 2.
(2) TITIEV, Mischa - Introdução à Antropologia Cultural, Lisboa, Ed.Fundação Calouste Gulbenkian, p. 175.


RESUMO

  Em Moçambique, os Tauaras vivem no distrito de Tete, ao sul do Zambeze. Geralmente, são considerados como um povo pertencendo ao grupo Chona. A sua economia baseia-se na agricultura de queimadas, sendo complementada pela criação de animais, caça e pesca. O trabalho assalariado, sobretudo na vizinha Rodésia, tem há já bastante tempo um papel importante. Os grupos de descendência são a linhagem e o clã. Os clãs não constituem grupos exógamos, e não têm funções de qualquer espécie. As linhagens são grupos de pouca profundidade, centrados num grupo de homens ligados patrilinearmente. A terminologia do parentesco é do tipo Omaha. Apesar de a poligamia ter lugar, a larga maioria dos homens tem apenas uma mulher. Como consequência do contacto com a economia monetária, a prestação de serviços, forma tradicional de compensação, tem crescentemente dado lugar ao "preço de noiva" pago em dinheiro. Na esfera do mágico-religioso avultam os fenómenos de possessão, com particular relevo para os que se ligam ao complexo do Espírito do Leão.


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D -O  CONTEXTO  MÁGICO-RELIGIOSO - UM  APONTAMENTO


   Pode, de um modo muito genérico, dizer-se que, para um observador estranho a uma cultura, são elementos de natureza mágico--religiosa dessa mesma cultura aqueles que se considera não terem eficiência material no tratamento da realidade concreta. Este ponto de vista resulta da aplicação de uma determinada capacidade cognitiva a uma realidade sociocultural diferente daquela que a produziu. Dentro, porém, do mundo mental próprio de uma cultura, os aspectos que, segundo critérios estranhos, podem ser classificados de mágicos ou religiosos ganham uma dimensão diferente, como elementos absolutamente fundamentais na organização do conhecimento da realidade material. A distinção, feita de fora, do que é mágico e do que o não é, no seio de uma cultura, pode ser, portanto, completamente destituída de sentido dentro desta, onde é possível que os mesmos fenómenos sejam cognizados e classificados segundo categorias completamente diferentes. O objectivo final é sempre idêntico: recriar um mundo organizado, onde haja possibilidade de compreender e, pelo menos em certa medida, controlar os acontecimentos. Por esta razão, o mágico-religioso tem, entre os Tauaras, um papel importantíssimo na interpretação e controlo de fenómenos, quer da natureza, quer dentro da própria sociedade.
    Dadas as condições de trabalho já referidas e o consequente facto de os dados disponíveis serem escassos e, fundamentalmente, fruto de informação oral, e não de observação directa, apenas se fará aqui referência formal aos aspectos do mágico-religioso, tratando-os como elementos "em si".
   Os Tauaras entendem o mundo e as coisas como criação de um Ente Supremo a que chamam Dedza, o qual não tem, contudo, influência no desenrolar dos acontecimentos e no comportamento dos homens.
Em contrapartida, têm aqui grande relevância elementos que se repor
tam ao conhecimento e uso de técnicas mágicas e à acção e poder de
espíritos de mortos.
  A vida corrente é cheia de circunstâncias em que elementos de natureza mágica são utilizados quer para explicar factos quer para provocar efeitos. Os grandes depositários e conhecedores do que respeita ao mágico são os indivíduos designados por nganga (a palavra nhungué nbabezi é também muito usada), termo que em português pode ser traduzido como adivinho-curandeiro. O nganga é consultado nas circunstâncias e para os fins mais diversos. Na doença e outros estados anómalos, para se determinar o mal e obter a cura, nas empresas da caça e da pesca, para se propiciar o sucesso e diminuir os riscos, na construção de uma casa ou de uma canoa, para proteger os seus habitantes ou utentes, nos trabalhos da agricultura, para defender os campos de doenças e predadores e favorecer as colheitas, etc. Na maior parte dos casos, o modo de acção consiste no emprego de "medicamentos" (muxonga), de cuja composição o nganga sabe o segredo e que são utilizados dos mais diversos modos, conforme os casos. Há "medicamentos" de uso absolutamente corrente, que qualquer indivíduo é capaz de obter. Nos casos menos usuais, porém, o único meio é o recurso ao nganga.
Um outro aspecto fundamental da actuação do nganga é o papel que lhe cabe na defesa dos indivíduos contra malefícios de natureza mágica desencadeados por feiticeiros (mulói; em chinhungué, mfiti). Ao contrário do nganga, que utiliza os seus conhecimentos para bem das pessoas e da sociedade, o mulói age de modo anti-social, apenas prejudica e faz o mal. Da sua imagem constam traços como comer cadáveres nos thenje, ressuscitar sob a forma de hiena (kizumba), ter relações sexuais com a mãe ou irmã, etc. Enquanto o nganga é perfeitamente identificável e pode até gozar de grande prestígio, o mulói é dissimulado, nocturno, e nunca se confessa espontaneamente naquela qualidade; é preciso descobri-lo. Aqui tem o nganga um papel extremamente importante. Ele possui meios para identificar o mulói (por exemplo, "vendo-o" em sonhos provocados, etc.) e apontá-lo ao conhecimento das pessoas. A prova decisiva era feita segundo um processo bastante conhecido: o acusado era obrigado a tomar uma bebida feita de cascas de mtêo (muâvi, em chinhungué). Se vomitasse, a sua inocência estava provada; caso defecasse ou não vomitasse, era culpado. A morte era, segundo o costume, o fim dos mulói descobertos; alguns indivíduos afirmaram, por outro lado, que, se o acusado fosse feiticeiro, morreria em consequência da simples ingestão do mtêo. (Um tipo de ordálio para apurar a verdade noutras questões - roubo, adultério, etc. - era mergulhar as mãos em água a ferver; o acusado seria considerado inocente desde que no dia seguinte não apresentasse sinais de queimadura.)
  Um aspecto característico do mulói é que ele só pode exercer a sua acção sobre indivíduos ligados a ele por parentesco de sangue, o que não impede que os indivíduos que se julga serem feiticeiros sejam objecto de um certo temor da parte das pessoas, mesmo não aparentadas, que com ele contactam.
  Hoje já não se usa o mtêo, mas a reprovação social pode ser de tal ordem que, ao que me foi referido, já houve indivíduos que se enforcaram por serem insistentemente acusados de mulói. Da imagem social deste consta ainda uma identificação profunda com a hiena. Ela também desenterra e come cadáveres; em vida, o mulói tem ao seu serviço hienas que andam no mato (por isso há receio em matá-las, com medo de represálias do seu mestre); ao morrer - como já foi dito atrás -, ele ressuscita com a sua forma. Por várias vezes ouvi a afirmação (sempre proferida por homens) de que muitos dos mulói eram mulheres.
Um outro elemento de carácter mágico e efeitos nefastos é o que se designa por ntcheso. Este não é um indivíduo, mas antes um efeito ou um poder que se pode desencadear sem necessidade de se ser mulói. Ao contrário dos males caracteristicamente provocados por este, o ntcheso provoca a morte súbita e apenas pode ser usado por homens (a expressão usada em português pelo intérprete era a de que apenas os homens "têm" ntcheso e que as mulheres o não podem "ter"). A prova de mtêo usada para os mulói era infrutífera com os indivíduos que "tinham" ntcheso, porque estes "não comiam carne humana".
  Outras entidades nefastas do mundo mágico, embora de muito menor relevo do que o feiticeiro, são o mpsézi e o ngozi. O primeiro, quando as colheitas estão maduras, vai durante a noite roubar pés de cereal em machambas alheias e pôr nas suas. O segundo (que os Tauaras afirmam haver mais entre os Zezuros) é o espírito de um indivíduo que "morreu mal", e que por isso se tornou mau e vingativo. O "morrer mal" parece estar ligado a riscos inerentes ao uso do poder mágico. Este pode, em determinadas circunstâncias, voltar-se contra aqueles que o pretendiam utilizar. O exemplo mais apontado é o de indivíduos que procuram no nganga meios de suplantar os outros e obter poder, e que, por qualquer razão, não cumprem fielmente a prescrição daquele, enlouquecendo e morrendo "mal"; também se diz que alguns nganga dão de propósito "medicamentos errados" e "maus", que têm um efeito semelhante.
  Em conclusão, portanto, os elementos de carácter mágico têm acentuada importância na vida corrente dos Tauaras; o receio de acções e represálias daquela natureza é mesmo um factor inibidor, bastante importante, de certos comportamentos, e, deste modo, um poderoso elemento de controlo social.
  Os espíritos dos mortos têm, por seu lado, um papel fundamental no contexto religioso da sociedade em questão. Cada linhagem tem os seus mizimu (sing. muzimu), espíritos de indivíduos a ela pertencentes, já falecidos. Aos mizimu devem, em determinadas circunstâncias, ser feitas ofertas de pombe, tabaco, papas, etc, para que eles não venham causar doenças entre os seus descendentes. Esta é, de facto, uma das acções que se lhes atribui, sendo a insatisfação dos mizimu uma das 'explicações mais frequentes para as doenças, sobretudo entre velhos e, muito particularmente, crianças. Quando isto se verifica, o doente é levado ao nganga, que, por meio de instrumentos de adivinhação, genericamente designados por hakata (embora a sua forma possa variar muito), determina qual o antepassado que está a causar tudo aquilo e ao qual devem ser feitas ofertas (estas devem ainda ter lugar, por exemplo, quando se muda de residência, quando se faz uma viagem longa, etc.). Os mizimu são, portanto, espíritos familiares, que apenas podem ter interferência na vida dos seus descendentes. Há, porém, espíritos de mortos que ganham, através de reencarnação no espírito de determinados animais, uma relevância muito grande, podendo mesmo afectar e ter influência na vida de toda a comunidade. Os animais em cujo espírito se pode reencarnar são o leão (mphondolo), o leopardo (nyalugué), o macaco (mapfene), a cobra (tsanganhoca), a gibóia (ntsato) e o cão caçador (mphumpi). (Estes espíritos são designados por chaue, com excepção do do leão, que é mambo. Verifica-se que nem sempre o nome do animal e do respectivo espírito são coincidentes.) Embora com variações, conforme os casos, o processo é, genericamente, o seguinte: o indivíduo que deseja reencarnar, após a morte, no espírito de determinado animal, consulta, secretamente, um nganga entendido, o qual lhe prescreve muxonga apropriado, indica normas a cumprir e interditos alimentares a respeitar. Se as indicações tiverem sido fielmente observadas, na altura da morte, o espírito, depois de se libertar do corpo, vai entrar num animal da espécie escolhida que anda no mato (foram recolhidas ainda as versões seguintes: 1.) no processo de putrefacção, sai do cadáver uma lagarta que a pouco e pouco se transforma no animal em cujo espírito se procurou reencarnar; 2.) esta respeitando sobretudo ao mambo mphondolo - algum tempo depois da morte, o cadáver desaparece e transforma-se no animal escolhido). Ali permanece durante algum tempo, até que um dia decide voltar ao convívio humano e vai então entrar de posse de um médio (mvula). O modo como isto se processa é, genericamente, o seguinte: um indivíduo começa de súbito a sentir-se mal, doente, e é levado ao nganga; este descobre que é um espírito determinado que quer entrar de posse dele. Tem então lugar uma sequência na qual a possessão é propiciada mediante cantos e danças ao toque de tambores, ficando, daí em diante, o indivíduo a ser socialmente reconhecido como médio de determinado espírito.
  Embora não haja uma distinção formal, parece ser bem real uma destrinça entre espíritos de importância preponderante e espíritos menores. Nestes podem incluir-se o chaue la madande (espírito de leopardo), chaue la tsanganhoca (espírito de cobra), chaue la mapjene (espírito de macaco) e chaue la kapôli (espírito de cão caçador). Estes espíritos têm funções mais ou menos definidas, e em alguns casos bastante idênticas. Foi diversas vezes acentuado, por outro lado, que, em geral, o indivíduo "atacado" pelo espírito tem alguma relação de parentesco com aquele que tomou remédio para reencarnar. (As informações disponíveis sobre estes assuntos são, contudo, frustes, e por vezes mesmo contraditórias, já que aqui, para além das deficientes condições de trabalho, houve ainda toda a complexidade inerente a fenómenos desta natureza. Seria, por exemplo, interessante poder determinar em que medida os indivíduos "atacados" por espíritos sofrem de algum desajuste de papel social.)
  O espírito do leopardo (apenas o chaue la madande, pois há outro espírito de leopardo com um papel diferente) ajuda na caça os indivíduos que são por ele possuídos, os quais se tornam os caçadores mais ousados, sem nada a temer.
  O espírito do macaco e o espírito da cobra podem dar consultas, tal como um nganga, mas o seu principal papel parece ser, conforme disseram alguns informadores, "dançar", marcar festas, nas quais toma parte activa através do seu médio. A diferença marcante entre eles é que, no caso da cobra, tanto o espírito como o médio são do sexo feminino; no caso do macaco, do sexo masculino.
  O chaue la kapôli ocorre raramente. Muitos indivíduos nem sabiam ao certo de que espírito se tratava. Segundo parece, tanto pode ajudar os caçadores como fazer consultas e "dançar". Tanto o espírito como o médio são do sexo masculino.
Cada médio é secundado por um ajudante: o kábandàzi. Este é que se ocupa de todos os aspectos materiais e cuida dos objectos ligados ao espírito e à possessão. O médio apenas se limita a ser possuído, constituindo um mero meio na comunicação entre o espírito e as pessoas. Quando alguém quer consultar o espírito, é ao kábandàzi que se dirige, o qual se encarrega de provocar a possessão, segundo processos que variam conforme os casos. Durante esta, o médio não tem consciência do que se passa em redor dele, sendo necessário que o kábandàzi e as pessoas lhe contem, depois, o que se passou.
  Os espíritos que se revestem de maior importância são o mambo mphondolo (espírito de leão), o chaue la nyalugué (espírito de leopardo) e o chaue la kalumba (espírito de gibóia). Dentre todos, o mais importante é, sem dúvida, o mambo mphondolo, tendo sido sobre ele que se recolheram informações mais detalhadas.
  O primeiro sinal distintivo do mphondolo surge na sua designação de mambo (a mesma que se dá aos chefes), que ele é o único a ter; todos os outros espíritos são chaue. Aliás, foi acentuado que só os velhos chefes (4S), e não qualquer indivíduo, conseguiam obter o medicamento apropriado e reencarnar com o espírito de leão. Ao contrário dos chaue atrás referidos, que "atacam" principalmente indivíduos aparentados com o falecido que reencarnou e que habitam próximo do local onde aquele viveu, o espírito do leão escolhe um médio que em geral vive numa área distante. Segundo os relatos, o indivíduo nesta situação começa de súbito a ter sintomas estranhos, dizendo coisas que ninguém entende e acabando por se lançar, mato fora, em direcção à aldeia onde viveu o dono do espírito. Ali chegado, afirma ser o indivíduo tal, já falecido, que voltou. Como prova, aponta familiares seus e indica a respectiva relação genealógica; vai pela povoação dizendo quem viveu aqui e ali; no cemitério, diz a quem pertencem as sepulturas. As provas podem prolongar-se durante dias. Uma vez aceite como médio do espírito de determinado indivíduo que tomou o espírito de leão, dão-lhe terra para cultivar, arranjam-lhe uma mulher e ele passa a viver ali.
  Apesar de também poder ser consultado para resolver outros problemas (como uma grande incidência de doenças, por exemplo), a esfera de acção do mambo mphondolo liga-se essencialmente ao bom desenvolvimento das culturas e, muito particularmente, ao controlo do elemento vital que é a chuva. A palavra mvula, que designa genericamente médio, mas que ganha todo o seu poder de significação no caso do mphondolo, é a mesma que se usa para indicar a chuva. A relevância do mphondolo é tanto maior quanto a precipitação nesta área é, de um modo geral, escassa e irregular.
  Próximo dos locais onde viva um médio do mphondolo, há, invariavelmente, um pequeno santuário. Este consta de uma pequena construção - katchissi- onde se fazem as ofertas e se guardam os objectos ligados ao culto e à possessão. O local é designado por dzimbahué e o seu guardião é o kábandàzi. Este, conforme já se referiu, ocupa-se de todas as tarefas materiais necessárias e coadjuva e assiste na possessão. Quando as pessoas querem consultar o mphondolo, é a ele que se dirigem. A possessão é provocada colocando o kábandàzi uma espécie de bengala à cabeceira do mvula, enquanto este está deitado de bruços sobre um lençol. Quando o mphondolo fala, em regra de maneira que ninguém entende, sendo necessário o kábandàzi traduzir, as pessoas presentes batem permanentemente as palmas em sinal de respeito, excepção feita para os que pertecem à machinda, a família do homem que reencarnou. O kábandàzi é o verdadeiro intermediário activo entre o espírito e a sociedade.
  As ofertas feitas ao mphondolo (e que consistem, invariavelmente, de pombe, tabaco e papas de farinha, depositadas em recipientes apropriados na katchissi) podem ser quer propiciatórias, quer de agradecimento pêlos bons resultados obtidos. Quando as colheitas foram boas e as chuvas vieram por interferência do espírito do leão, é tradicional fazer pombe com o primeiro cereal colhido e oferecer-lhe, tendo lugar uma celebração na qual o mvula participa, dançando em estado de possessão. Também é tradicional não consumir em cada ano os frutos designados por nthatcha sem primeiro se ofertar alguns deles no dzimbahué.
Os médios do mphondolo tanto podem ser homens como mulheres; no entanto, apenas indivíduos do sexo masculino (até porque, segundo a regra, se trata de chefes) reencarnam com espírito de leão.
   Quando morre um médio, o espírito volta geralmente a manifestar-se noutro, o que, contudo, pode levar anos. Os médios do mphondolo não são enterrados nos thenje normais, mas antes depostos em estrados no cimo de árvores. Junto ao Zambeze, o procedimento tradicional era igualmente depô-los sobre estrados, em ilhotas do rio. Aparentemente, a ideia é procurar evitar o contacto da terra com o corpo - o que poderia dificultar as chuvas - e, quando possível, conseguir a proximidade da água. Alguns indivíduos afirmaram que também, em relação à mulher do mvula, existe o mesmo princípio.
  Os mambo mphondolo não têm todos, de modo algum, uma importância semelhante. Há-os de grande prestígio, como o Nyampando, da área da Estima, e mesmo o Burima, do Magoe, e há-os também de muito pouca relevância. O mambo mphondolo tinha um papel de grande relevo dentro da organização política tradicional, sendo consultado sobre as questões mais importantes. Disse-me certa vez um tauara: "Há duas autoridades: a da Administração e a do mphondolo.)) Hoje, compreensivelmente, a relevância deste diminuiu muitíssimo.
  O chaue la nyalugué é um espírito de leopardo que tem um papel específico e importante: libertar os campos de cultura de todos os predadores que ali vão comer. Se ocorre que as machambas estão a ser devastadas, pode recorrer-se ao espírito do leopardo, cujo animal real intervirá para executar o que aquele designar. O chaue la nyalugué (tanto o espírito como o médio podem ser de ambos os sexos) apresenta uma série de aspectos comuns com o mambo mphondolo. Tal como este, ele vai tomar posse de um médio distante da aldeia de origem; ele é o único que o espírito do leão permite que dance junto a si; na morte, o corpo do médio do nyalugué tem um tratamento idêntico ao do médio do mphondolo. Segundo me foi afirmado, há espíritos de leopardo que são tão importantes como os de leão.
  Para terminar, uma referência ao espírito da gibóia - chaue la kalumba. Os informadores referiram-se-lhe várias vezes, mas ele não parece muito frequente entre os tauaras de Moçambique e, na verdade, não foi possível recolher informações claras a seu respeito. A função principal do espírito da gibóia é a chuva; alguns indivíduos afirmaram mesmo que ele pode ter nisso, pelo menos, tanta relevância como o mphondolo, mas que é na Rodésia, e não em Moçambique, que se encontram os espíritos afamados. Dentre todos eles sobressai Kalua, cujo médio é uma mulher, e que, aparentemente, constitui a última instância em relação aos problemas da chuva numa vasta área que cobre território da Rodésia e de Moçambique. POSSELT (44) indica Karwa (evidentemente o mesmo que Kalua) como o criador de chuva entre os "Watawara", mas que teria encarnado como "mondoro" (mphondolo). Impraticável, aqui, um esclarecimento definitivo. Certo, no entanto, que, nas áreas onde permanecemos em Moçambique, se sabe, de um modo geral, pouco sobre o espírito da gibóia, sendo toda a relevância dada ao mphondolo. Algo que, em contrapartida, se refere com frequência é que há certas árvores junto de cursos de água onde vivem gibóias e que não se podem cortar, sob pena de se seguir uma seca devastadora. Na Estima, junto ao aldeamento do Caó, existe uma dessas árvores, um embondeiro, sendo convicção de que se ela fosse abatida secaria também o ribeiro que passa junto.

(43) Embora as palavras mambo e nrfumu sejam correntemente utilizadas para indicar chefes tradicionais, tendzi e mbtri foram apontados como termos vernáculos em Chitauara.
(44)  Vide POSSELT, F. W. T. - Ob. cit., pp. 121-126

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