RADIOGRAFIA FRACASSADA DE UM CHATO PROFISSIONAL
Eu tinha um amigo sem saber por que
é que gostava dele. Aliás não tinha, tenho. Pelo menos quero acreditar nisso. Amores
à primeira vista que nascem com a brus-quidão fulminante do inevitável, sempre podem ser explicados como
uma questão de pele e cheiro. Mas na amizade entre indivíduos do mesmo sexo, somos levados a acreditar
que se baseia em afinidades, paixões comuns, mesma visão do mundo, troços assim. Esta amizade não
tem nada disso. Na verdade o nosso primeiro encontro foi tão insípido que não guardo a mínima
lembrança. Arrisco que foi na praia, pegando jacaré, ou num boteco tipo o extinto Zeppelin, talvez ainda
numa das festinhas improvisadas em casa de amigos de amigos, que pipocavam na época e a que todos pareciam
confluir magicamente. Já que não vou citar nomes posso dizer que ele era conhecido como um chato
de galochas, daqueles de carteirinha, que quando chega faz logo uma clareira em volta. Um chato
profissional. E não desmentia a reputação. Possivelmente nossa amizade começou por eu ser
do género que não sabe se desmarcar. Se alguém num coquetel gruda em mim, fico ali empacado, impotente,
rezando a todos os santos, o uís-que aguando. Eu que até sou mais para o esquentado, capaz de sinceridades
fora de propósito, nessas situações pareço ter pés e língua de chumbo, hipnotizado pela afabilidade do
meu interlocutor. E ele, me valendo de Rimbaud, era um monstro de delicadeza. Nas mesas
de bar, quando à sua chegada todo mundo dava o fora evocando assuntos urgentes, ou qualquer pretexto
absurdo, eu ficava lá, sentadão, incapaz de uma retirada estratégica. Os nossos ocasionais encontros
foram se amiudando e sempre terminavam num inevitável tête-à-tête, oficializando nossa amizade.
Os conhecidos comuns, que nos viam bebendo com a tranquilidade aparente de uma grande comunhão de sentimentos,
nos saudavam de longe e me perguntavam mais tarde como é que eu podia suportar. Para não revelar
minha falta de jogo de cintura, procurando me explicar a mim mesmo, comecei a observá-lo atentamente.
E descobri alguns fatos que me intrigaram. Não era daqueles chatos explícitos, de cutucar o
indicador no teu peito a cada três palavras, contar anedotas de graça duvidosa e ser o primeiro a rir,
segurar pegajosamente o braço enquanto falava com outro. Nada disso. Era calmo, atencioso, tinha
uma voz agradável, vestia-se como o mais comum dos mortais e fazia questão sempre de pagar a sua parte,
sem humildades nem arrogâncias. Jamais falava mal de quem quer que fosse, nunca impunha um tema
de conversa, não contava vantagens, nem me lembro de confidências, desesperos, dores de corno, esses
dramas de botequim. Possuía um invejável nível de informação, manifestava interesse por todos os
temas, e os breves comentários que fazia eram sempre a propósito, instigan-tes, bem-fundamentados.
Quer dizer, tinha o requisito fundamental para ser considerado um bom papo: sabia escutar. No entanto
era um terremoto grau 10 de tédio. Fascinado com a sua monumental capacidade de ser chato, comecei
a enfurecer-me com o fracasso das minhas buscas. Porque uma questão era evidente: quanto menos
defeitos encontrava, quanto mais amigos nos tornávamos pela inevitabilidade dos mesmos restaurantes e
círculo de conhecidos, mais incongruentemente pesado se tornava. E, cúmulo dos cúmulos, eu começava
a achar que essa chatura, real, densa, impenetrável, tinha lá seu encanto, como uma selva. Em crise,
questionei-me: inconsciente da minha natureza, como todo chato que se preza, não seria eu também da mesma
tribo? Coloquei a questão frontalmente a alguns amigos íntimos, e pela veemente sinceridade da
negativa, suspirei aliviado. Os tempos passavam e essa amizade, desprezada por mim e por todos,
foi se solidificando, imperturbável nos seus meandros. Num fim de tarde de sábado de praia, no
velho Jangadeiros da Praça General Osório atulhado até à boca, eu e meu amigo chato, sobreviventes de
uma imensa mesa-redonda, terminávamos nosso enésimo chope estupidamente gelado quando o Maurição e um
grupo, ainda de camisas e calções de banho úmidos, decidiram se aproximar. Já nos saudáramos à distância,
e em resposta aos sinais inquiridores, eu confirmara que os lugares estavam disponíveis. Maurição, rápido
e rasteiro, era apenas um conhecido de obas e olás, raquetadas de frescobol e cerveja ocasional.
Para espanto geral, em vez de sentar-se com a sua turma, Maurição perguntou de chofre ao meu amigo,
em alto e bom som: — Você vai demorar aqui, cara? O vozeirão e o tom de voz não anunciavam
boa coisa, e o botequim inteiro parece que virou uma igreja de silêncio. Meu amigo fitou candidamente
o descomunal Maurição, os olhos premonitórios passaram rapidamente por mim e por fim decidiu-se: —
Por quê? A resposta chegou como um coice de mula: — Por que a gente queria sentar, e com um
chato como você não dá pé! Não vou contar vantagem. O Maurição não era flor que se cheire e a parada
não era minha. Sei que me levantei solidariamente e saímos, deixando a mesa livre. Minha indignação
estourou mais tarde na rua. — Você devia ter encarado o Maurição. Foi quando ele me sorriu timidamente,
melancólico: — Por quê? Ele tem razão, eu sou chato. Pensei em negar, mas as palavras estrangularam-se
na garganta. Fiquei vendo ele se perder tristemente na noite, as minhas teorias e sentimentos em
convulsão. Dias depois recebo um recado para o que seria o nosso primeiro encontro não ocasional,
no mesmo Jan-gadeiros. Dominado pela fatalidade, sabendo que algo de importante estava em jogo,
incompreensivelmente tenso, cheguei um pouco mais cedo, sentei e esperei. Horas. Não apareceu
e não me lembro de tê-lo visto de novo, como se tivesse mudado de cidade, para alívio meu e de todos.
Mas algo de indefinível me segredava que eu estava agrilhoado a esta amizade sem sentido. Anos
mais tarde, em busca de um ensaio sobre o ciclo do ouro em Minas Gerais, me deparo com um insólito livro
de sua autoria. Poeta? Nunca tinha dito uma palavra que me pudesse levar a crer nessa possibilidade.
Devorei o livro de uma só assentada, com uma curiosidade malsã. Confesso que teria assinado
com orgulho cada poema, cada verso, cada palavra. Hoje, não sei se o deploro ou invejo. Mas
de uma forma confusa, incómoda, me questiono sobre o significado do encontro marcado que não aconteceu,
como se algo se tivesse perdido para sempre no caminho, e me sinto indigno dessa amizade.
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