O CAIPIRA E A NESGA DE TERRA
Ando obcecado com a maneira de olhar as coisas. Uma mania boba,
dirão alguns. Uma sábia preocupação, condescenderão outros. Seja como for, me surpreende sempre
a fragilidade dos nossos julgamentos, às vezes influenciados por fatores simples e detectáveis, como
uma dor de dentes ou uns sapatos apertados. Há um estudo sobre a influência da dor de calos de um conhecido
presidente dos Estados Unidos nas decisões de Estado. Estaria tentado a dizer que era Roosevelt, mas
hesito, devido à sua paralisia. Existem também julgamentos baseados em preconceitos arraigados.
Uma das atitudes mais comuns é associar o analfabetismo à ignorância, o erro gramatical à sandice.
A su-pervalorização da formação académica gera frequentemente uma intolerância arraigada. Essa herança
vem de longe, tem raízes fundas. Esquecem, ou sequer reconhecem, que muitos dos dramas da nossa história
têm seu fundamento no poder granjeado pêlos diplomas. A capacidade de alinhavar palavras sonoras,
de preferência abstrusas, é frequentemente uma cortina de fumaça que oculta vazios de pensamento, tão
profundos como o silêncio obstinado de quem não sabe e prudentemente se cala. Quem já não se deparou
com estes casos, do burro falante e do burro silencioso? Não mais tarde que ontem me encontrei
envolvido numa situação deste tipo. No final da reunião ouvi comentários que me deixaram perplexo. Para
uns o falante tinha sido arrasador de sabedoria, com a sua verborragia incompreensível, para mim, desconexa.
Para outros, o silencioso tinha sido lapidar, de uma eloquência aguda com seus "talvez", meneios de cabeça
dubitativos e meios-sorrisos. Um empate técnico, diriam as pesquisas, tão em voga. Mas não estou
falando de eleições nem de candidatos, embora um Enéas com sua veloz verborragia cheia de citações arrevesadas,
seja um bom exemplo desse protótipo que execro: o do homem que ostenta o canudo universitário como cetro
do Saber, como se o conhecimento estivesse unicamente entre os muros das universidades ou se manifestasse
unicamente através de palavras complicadas. É claro que esse comportamento intimida, deslumbra o incauto,
pode até enganar, mas creio que não tantos, nem por muito tempo. Depressa se esvazia e há sempre uma
criança para revelar que o rei vai nu. Sempre desconfio do uso do conhecimento como uma forma de pressão
para uma autovalorização. Gosto de ter garantias quando consulto um médico, que ele é um bom profissional.
Mas se vejo muitos diplomas pendurados nas paredes da sala de espera, comendas, títulos honoríficos,
uma sensação de mal-estar me invade, fico de pé atrás, como se esses atestados me garantissem mais sua
insegurança que sua capacidade. De resto, grandes lições me foram dadas por pessoas consideradas
humildes, muitas vezes analfabetas, mas que souberam transmitir, sem imperativos nem pedantismo, reflexões
reveladoras. Poderia contar vários casos, mas antes de citar um que pode até soar banal, cabem
umas perguntas: Não é verdade que o saber sistematizado nas escolas e universidades vem da experiência?
Não é verdade que toda a dinastia começou sempre com um plebeu? Não é verdade que um dos maiores
mestres do Zen não foi um monge erudito, mas um simples jardineiro do mosteiro? E conto o caso.
Um caipira do interior de São Paulo tinha uma pequena nesga de terra sem serventia, um pedacinho de
poucos metros de frente e uns tantos de profundidade, colada ao terreno de uma imponente mansão.
O proprietário da mansão insistia em comprar essa fatia de terra, não tanto pela sua utilidade que
não era visível, mas pelo simples fato de ser paredes-meias. E porque sim. O caipira, delicadamente
evitava sistematicamente concluir o negócio. O grande proprietário pensando ser apenas uma questão
de números foi subindo o preço, sem qualquer resultado, até que um dia se exaltou e resolveu dar uma
decisão. Foi incisivo: o dinheiro que oferecia era mais do que compensador, aquela nesga de terra não
tinha nenhum valor; nunca ninguém iria cobrir a sua proposta; já de si exagerada, acima do valor do mercado;
queria uma explicação clara para aquele capricho. O caipira ouviu a larga peroração, cabeça baixa,
chapéu de palha rolando nas mãos calejadas. Depois, uma vez mais, balbuciou timidamente o seu estribilho:
— O só doutor me adisculpe, mas não quero vender essa terrinha. E preparava já uma respeitosa
retirada quando o outro o agarrou pelo braço, exasperado. — Um momento, seu Cosme. Esta situação
já dura muito tempo e hoje temos de chegar a uma conclusão. O caipira rolou o chapéu mais três
voltas completas nas mãos nervosas, os olhos baixos, inconfortável. O proprietário da mansão encorajou-o:
— Como é, homem, desembuche... Já disse que o seu preço é o meu. A voz do caipira era apenas audível.
— Não é questão de dinheiro, só doutor. Com sua licença, eu não queria mais falar sobre esse assunto.
O outro não se deu por vencido. Controlando a irritação, insistiu: — Então o que é, seu Cosme?
O caipira levantou os olhos, o chapéu parou de rolar, e nas palavras mansas havia toda a firmeza
de uma convicção: — E que terra, só doutor, é uma coisa tão boa que nem Deus está fabricando mais!
Essa sabedoria, e seus meandros, qual é a Universidade que ensina?
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