MEDO DAS PALAVRAS
Temos medo da palavra. É claro que antes de ser palavra o
som foi grunhido, e assustava. Mas o verdadeiro pânico veio quando outras ideias, além da ameaça
primária, vieram dentro dos sons. Acho que acontece com todo mundo: de repente, uma palavra ou
uma expressão entra na nossa vida e começamos a encontrá-la insistente nos jornais, revistas, livros,
conversas de esquina, cartazes de rua. Uma perseguição implacável. De uns dias para cá me acontece
com a tal da "terceira idade". Não vou dizer que não conhecesse a expressão. Mas a verdade é que nunca
tinha reparado muito nela. Mas sem me dar conta entrei no seu vórtice. Para onde quer que vá me
surge alguém para falar da "terceira idade"... e do passe livre para os transportes coletivos e museus.
Abro despreocupadamente um folheto de propaganda de seguros de saúde e bato os olhos numa restrição aos
da "terceira idade". Ligo a televisão e um solene locutor fala das reivindicações da atualização
das aposentadorias das pessoas da "terceira idade". Procuro me descontrair na leitura de um jornal
esportivo e o que imediatamente surge é uma longa matéria sobre a necessidade de novos centros para o
bem-estar da "terceira idade". E por aí vai. Ainda esta tarde, jornais comprados, quando chego
para tomar o costumeiro cafezinho no botequim ao lado da banca, ouço um final de conversa entre o dono
e um dos fregueses já de saída. Entre as palavras "mei-as-solas" e "terceira idade" deu para entender
que estava em jogo a capacidade profissional do sapateiro do fim da galeria. Dei um tempo, tomei
a minha "bica" (cafezinho em xícara aqui é "bica"), pedi uma água e enquanto esperava resolvi lançar
a pergunta no ar, como quem não quer nada. — A propósito, quando é que começa mesmo a "terceira
idade"? Quem respondeu foi outro freguês, que eu conheço de encontros ocasionais no mesmo bar,
com quem nunca havia trocado falas e que me havia chamado a atenção porque acendia um cigarro no outro.
O charuto cravado entre os meus dentes obrigava-o a essa solidariedade. — Lá pelos 64 anos — resmungou.
Não senti firmeza. — Por que 64 e não sessenta... ou cinquenta? O fumante inveterado deve ter achado
que eu estava pedindo demais, fez um trejeito de quem deu o que tinha a dar, soltou mais uma baforada
e com uma breve despedida foi à vida. O dono do bar esperou que o outro estivesse fora de alcance
e entrou no papo, peremptório: — 65 anos. A terceira idade começa aos 65 anos. — Tem certeza? Respondeu-me
com um sorriso superior. — Absoluta. É a idade do sapateiro. Sem querer discutir sua lógica,
um tantinho irritado por ter sido ele quem tinha trazido à baila a tal da "terceira idade" que estava
me perseguindo, resolvi pr ovocá-,lo: — E qual é o limite da "primeira idade"? Se tem uma "terceira
idade" tem de haver uma "primeira idade". Me olhou de viés. Fingiu não ter ouvido a minha reflexão
e contentou-se em passar um pano no balcão. Não larguei o osso. — E qual é a "segunda idade"? Encolheu
os ombros, como se proclamasse uma evidência: — Essa não existe. É a idade adulta. Resolvi ser espírito
de porco. — Quer dizer que a "terceira idade" não é adulta? O meu interlocutor teve um muxoxo de quem
não se deixa apanhar facilmente e rebateu: — É. Mas é adulto velho. Parecia haver desprezo na palavra
"velho". Como não procurava polémica e tinha consciência que o problema era meu, não levei a conversa
mais longe. Mudei de assunto e falei do tempo, que como é do conhecimento geral da nação é o tema mais
cordato que se pode propor. Chegado em casa, folheando uma das revistas que acabara de comprar,
me deparo com uma entrevista de Hervé Lê Brás sobre demografia e as conclusões da recente Conferência
do Cairo. Decido deixar o artigo para mais tarde, por me parecer muito longo, mas antes de passar
adiante lanço um rápido olhar à última pergunta da jornalista. Afinal de contas não se tratava de nenhuma
novela policial que pudesse me revelar o nome do criminoso e estragar a leitura adiada. E pronto,
como gostam de dizer em Portugal: lá estava de novo a maldita expressão. — "A terceira idade é uma
força demográfica?" — perguntava a entrevistadora Maria do Rosário Homem. E a resposta do eminente demógrafo
francês: — "A terceira idade é uma força enorme. Cada vez tem mais dinheiro e os jovens menos.
Hoje o problema não está na sua pobreza mas na sua riqueza. Além disso, estão de boa saúde e têm tempo
livre. São os novos tiranos demográficos." Nesta altura do campeonato já deve haver quem se pergunte
o que tanto me irrita na "terceira idade". Simples: é a hipocrisia que encerra a expressão e a
sua institucionalização. E o medo à palavra "velho" que o dono do bar, sintomaticamente, me havia atirado
à cara como uma palavra desprezível. Venhamos e convenhamos: existe um preconceito com a velhice.
Há culturas em que os velhos fecebem homenagens pela sua experiência e sabedoria. Ou os respeitem simplesmente
por estarem vivos, e essa longevidade pressupõe ter havido uma contribuição da sua parte para a sociedade
a que pertencem, o que os torna merecedores de atenção. Mas nas sociedades modernas, de aço e tecnologia,
de memória eletrônica armazenada em chips de silício, velho significa ferrugem, máquina enguiçada, obsoleta,
boa para ser jogada no lixo. Daí a hipocrisia da expressão "terceira idade". Um eufemismo barato.
Não me vou armar em paladino do que quer que seja mas me recuso a entrar na "terceira idade" ou a
dizer que alguém é da "terceira idade". Quero ser velho, tenho o direito a entrar na velhice,
serena ou dolorosamente, mas não em patamares etários como quem sobe (ou desce) um elevador. Chamar
um velho de velho não é um insulto. A palavra velho é uma palavra bela e digna se a contextualizarmos
no seu significado real. Poderia escrever longamente sobre esta emoção, mas para quê? Não quero
convencer ninguém, apenas exprimir uma convicção pessoal. Para mim a palavra "velho" é tão bela como
a palavra "saudade", "fogo"... ou otorrinolaringologista! Diz o que tem para dizer, exprime claramente
seu significado, e se é dele que procuram fugir não é inventando uma expressão ridícula que conseguem.
Velho is beautifull. Existe algo de mais carinhoso que um filho que chama o Pai de "velho"?
O que é que fariam se um dia um filho chegasse junto de vocês, desse um abraço e dissesse: — Como
é que foi o dia, ô Terceira Idade? Creio que eu reagiria com uma violência que justificaria, embora
por motivos distintos, minha entrada no tal grupo dos tiranos demográficos.
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