A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



RUY GUERRA



ALGUNS TEXTOS


MEDO DAS PALAVRAS


   Temos medo da palavra.
   É claro que antes de ser palavra o som foi grunhido, e assustava.
  Mas o verdadeiro pânico veio quando outras ideias, além da ameaça primária, vieram dentro dos sons.
  Acho que acontece com todo mundo: de repente, uma palavra ou uma expressão entra na nossa vida e começamos a encontrá-la insistente nos jornais, revistas, livros, conversas de esquina, cartazes de rua. Uma perseguição implacável.
   De uns dias para cá me acontece com a tal da "terceira idade". Não vou dizer que não conhecesse a expressão. Mas a verdade é que nunca tinha reparado muito nela. Mas sem me dar conta entrei no seu vórtice.
   Para onde quer que vá me surge alguém para falar da "terceira idade"... e do passe livre para os transportes coletivos e museus.
Abro despreocupadamente um folheto de propaganda de seguros de saúde e bato os olhos numa restrição aos da "terceira idade".
  Ligo a televisão e um solene locutor fala das reivindicações da atualização das aposentadorias das pessoas da "terceira idade".
   Procuro me descontrair na leitura de um jornal esportivo e o que imediatamente surge é uma longa matéria sobre a necessidade de novos centros para o bem-estar da "terceira idade".
E por aí vai.
  Ainda esta tarde, jornais comprados, quando chego para tomar o costumeiro cafezinho no botequim ao lado da banca, ouço um final de conversa entre o dono e um dos fregueses já de saída. Entre as palavras "mei-as-solas" e "terceira idade" deu para entender que estava em jogo a capacidade profissional do sapateiro do fim da galeria.
  Dei um tempo, tomei a minha "bica" (cafezinho em xícara aqui é "bica"), pedi uma água e enquanto esperava resolvi lançar a pergunta no ar, como quem não quer nada.
  — A propósito, quando é que começa mesmo a "terceira idade"?
   Quem respondeu foi outro freguês, que eu conheço de encontros ocasionais no mesmo bar, com quem nunca havia trocado falas e que me havia chamado a atenção porque acendia um cigarro no outro.
   O charuto cravado entre os meus dentes obrigava-o a essa solidariedade.
— Lá pelos 64 anos — resmungou. Não senti firmeza.
— Por que 64 e não sessenta... ou cinquenta?
O fumante inveterado deve ter achado que eu estava pedindo demais, fez um trejeito de quem deu o que tinha a dar, soltou mais uma baforada e com uma breve despedida foi à vida.
   O dono do bar esperou que o outro estivesse fora de alcance e entrou no papo, peremptório:
— 65 anos. A terceira idade começa aos 65 anos.
— Tem certeza?
Respondeu-me com um sorriso superior.
— Absoluta. É a idade do sapateiro.
  Sem querer discutir sua lógica, um tantinho irritado por ter sido ele quem tinha trazido à baila a tal da "terceira idade" que estava me perseguindo, resolvi pr ovocá-,lo:
  — E qual é o limite da "primeira idade"? Se tem uma "terceira idade" tem de haver uma "primeira idade".
  Me olhou de viés. Fingiu não ter ouvido a minha reflexão e contentou-se em passar um pano no balcão.
Não larguei o osso.
— E qual é a "segunda idade"? Encolheu os ombros, como se proclamasse uma evidência:
— Essa não existe. É a idade adulta. Resolvi ser espírito de porco.
— Quer dizer que a "terceira idade" não é adulta? O meu interlocutor teve um muxoxo de quem não se deixa apanhar facilmente e rebateu:
— É. Mas é adulto velho.
Parecia haver desprezo na palavra "velho".
  Como não procurava polémica e tinha consciência que o problema era meu, não levei a conversa mais longe. Mudei de assunto e falei do tempo, que como é do conhecimento geral da nação é o tema mais cordato que se pode propor.
   Chegado em casa, folheando uma das revistas que acabara de comprar, me deparo com uma entrevista de Hervé Lê Brás sobre demografia e as conclusões da recente Conferência do Cairo.
  Decido deixar o artigo para mais tarde, por me parecer muito longo, mas antes de passar adiante lanço um rápido olhar à última pergunta da jornalista. Afinal de contas não se tratava de nenhuma novela policial que pudesse me revelar o nome do criminoso e estragar a leitura adiada.
  E pronto, como gostam de dizer em Portugal: lá estava de novo a maldita expressão.
— "A terceira idade é uma força demográfica?" — perguntava a entrevistadora Maria do Rosário Homem. E a resposta do eminente demógrafo francês:
  — "A terceira idade é uma força enorme. Cada vez tem mais dinheiro e os jovens menos. Hoje o problema não está na sua pobreza mas na sua riqueza. Além disso, estão de boa saúde e têm tempo livre. São os novos tiranos demográficos."
  Nesta altura do campeonato já deve haver quem se pergunte o que tanto me irrita na "terceira idade".
  Simples: é a hipocrisia que encerra a expressão e a sua institucionalização. E o medo à palavra "velho" que o dono do bar, sintomaticamente, me havia atirado à cara como uma palavra desprezível.
  Venhamos e convenhamos: existe um preconceito com a velhice.
Há culturas em que os velhos fecebem homenagens pela sua experiência e sabedoria. Ou os respeitem simplesmente por estarem vivos, e essa longevidade pressupõe ter havido uma contribuição da sua parte para a sociedade a que pertencem, o que os torna merecedores de atenção. Mas nas sociedades modernas, de aço e tecnologia, de memória eletrônica armazenada em chips de silício, velho significa ferrugem, máquina enguiçada, obsoleta, boa para ser jogada no lixo.
Daí a hipocrisia da expressão "terceira idade".
Um eufemismo barato.
   Não me vou armar em paladino do que quer que seja mas me recuso a entrar na "terceira idade" ou a dizer que alguém é da "terceira idade".
   Quero ser velho, tenho o direito a entrar na velhice, serena ou dolorosamente, mas não em patamares etários como quem sobe (ou desce) um elevador.
Chamar um velho de velho não é um insulto.
   A palavra velho é uma palavra bela e digna se a contextualizarmos no seu significado real.
  Poderia escrever longamente sobre esta emoção, mas para quê? Não quero convencer ninguém, apenas exprimir uma convicção pessoal. Para mim a palavra "velho" é tão bela como a palavra "saudade", "fogo"... ou otorrinolaringologista!
   Diz o que tem para dizer, exprime claramente seu significado, e se é dele que procuram fugir não é inventando uma expressão ridícula que conseguem.
Velho is beautifull.
   Existe algo de mais carinhoso que um filho que chama o Pai de "velho"?
   O que é que fariam se um dia um filho chegasse junto de vocês, desse um abraço e dissesse:
— Como é que foi o dia, ô Terceira Idade?
   Creio que eu reagiria com uma violência que justificaria, embora por motivos distintos, minha entrada no tal grupo dos tiranos demográficos.




Edição de 1996

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