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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO
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Notas de entrada
Eduardo White nasceu a 21 de Novembro de 1963 em Quelimane, Moçambique.
Tem publicados três livros de poesia: Amar sobre o ĺndico em 1984, pela Associação dos Escritores Moçambicanos,
O País de Mim, pela mesma Editora em 1989 e com o qual foi agraciado, pela -Gazeta de Artes & Letras»
da revista Tempo, com o Prémio Gazeta, e, finalmente, Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser
Ave, 1992, Editorial Caminho, Lisboa, Prémio Nacional de .Poesia em Moçambique para o ano de 1995.
Num país, num continente e num mundo ameaçados por novas barbáries e outras tantas «guerras santas»,
no limiar de uma nova civilização de que perplexos não descortinamos ainda os efeitos, será esta a forma
mais eficaz de um poeta nos vir dizer que a rebeldia contra a ordem racional do Mundo é sempre possível.
Para além da apreciação individual que a leitura destes textos possa suscitar, permanece pois a sua função
insurreccional. «Um tiro certeiro na cabeça da tristeza» é a metáfora que permite o repouso a esta escrita.
Com ela Eduardo White devolve--nos a uma lucidez inesperada e incómoda e à certeza sem remédio de nos
sabermos «pequenos, humildes e sem glória». Como se fizesse ecoar uma identidade resgatada de outros
versos anteriores e assim erigisse um futuro legado: «O importante afinal é que viva e que comigo
a minha poesia triunfe.»
Fátima Mendonça
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Prefácio
O corpo do Indico
Desde o livro de estreia Amar sobre o ĺndico (Maputo,
1984) que Eduardo White vem trazendo à poesia moçambicana um ingrediente temático que, disperso em muita
da poesia que lhe é anterior — de Rui Knopfli e José Craveirinha a Heliodoro Baptista, Eduardo Pitta
ou Luís Carlos Patraquim —, se concentra de forma recorrente e obsessiva num discurso próprio que um
exacerbado egotismo amplia e que algumas sugestões in-tertextuais confirmam. Percepção
do Cosmos através do conhecimento erótico ou o reconhecimento do sujeito pela relação erótica com o Cosmos
estão no centro da atitude desta poesia, produzida sob a sombra tutelar de vozes anteriores que transformadas
nos remetem a outras mais antigas e distantes, como se fosse seu destino prosseguir uma busca milenar.
Coerentemente, o título Amar sobre o ĺndico elege o objecto maior da poesia de Eduardo White, definido
através de uma rede de imagens em que se fundem o corpo erótico e o espaço de que se alimenta: «E hei-de
ser o veneno/ o infame selvagem/ o duro seio das rochas/ e moldar no barro a pele que me acolhe.»
Em O País de Mim (Maputo, 1988) esse objecto determina-se semanticamente e a sua construção opera-se
à custa de uma oscilação permanente entre a busca de uma substância. (Eros ou Tânatos?), e a exibição
do espaço que limita essa mesma busca: «Não sei se agora/ era um corpo que escreveria,/ ou um país como
este que é o meu,/ com feridas fundas/ e vozes de sangue por entredentes». É este um texto desconcertante
pela insinuante linha narrativa que propõe, a partir da qual a Vida e a Morte, o Princípio e o Fim se
conjugam. Já anteriormente, num conjunto de textos publicados na imprensa moçambicana em 1986
sob o título genérico de O País de Inês, Eduardo White buscava os contornos dessa matéria: «Este país
não pode ser a nave menor e iníqua de ninguém, Inês, não pode ser o morrer tão cedo desta pujança com
que nos quisemos no Mundo, pois que nada disto é perfeito e justo sequer, nada disto é a voz com que
no princípio nos quisemos agigantados, a fiadeira do destino e da maturação. [...] Vê Inês, o sol de
que nos falam, a distanciar--se, cada vez mais, no horizonte, e o lugar das primeiras alegrias, as de
Junho, a memória estéril que se dissipa [...].» Incapaz de se conter no espaço material do verso,
a energia física da escrita de Eduardo White parece ter sido impelida para a forma anunciada por O País
de Inês ao retomar em Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (Lisboa, 1992), a busca de
uma matéria primordial articulada com a substância da própria fala, conduzindo a escrita e portanto a
leitura para um universo situado do lado de lá da nossa condição racional como se de uma emigração se
tratasse, tal como nos propõe Mia Couto em adequado prefácio: «[...] não para outra terra mas para uma
raiz vital que nos antecede, a migração do corpo para a alma, da alma para o vento [...]». É
frequente a utilização do argumento da universalidade para fazer o elogio de poesia assim, pressupondo-lhe
um total alheamento do mundo concreto povoado por seres humanos. Tal seria o caso se a poesia
de Eduardo White se mantivesse na busca ideal de uma substância sem Forma, sem tempo, sem Espaço, em
suma, sem História. É ainda Mia Couto quem nos adverte para a ilusão desse julgamento
quando mostra o embrenhamento da poesia de Eduardo White num espaço e num tempo próprios, moçambicanos,
provavelmente índicos. Embrenhamento que se prolonga e desenvolve até ao delírio neste livro
que agora se apresenta. Neste Os Materiais do Amor, a força que dirige a poesia insufla as precisas
dimensões a um Tempo e um Espaço definidos por uma linguagem quase secreta, onde o onírico se expande
através de um narcisismo (aparente?) simuladamente niilita. Na primeira parte do livro
a imagem e o ritmo constróem esses materiais fundidos em representações sobrepostas de um (a) interlocutor(a)
Mulher/Terra. Que seja ao norte, a Ilha (de Moçambique), o ponto de partida para esta viagem interior
é certamente significante. A concentração de sinais vários, as sedas, os búzios, turbantes e filigranas,
o séquito ajawa, o curandeiro macua, o pangaio, o m'siro, naus, garças, sob a sugestão marítima do ĺndico,
não pode estar aqui dissociada da insularidade que a imagem evoca. Insularidade do Eu e do Outro. Do
Corpo e da Terra. Do Nós e da Mátria. Lugar do encontro com Eros, espaço da fusão dos seres, fusão simulada
porque só permitida pelo sonho e apenas confirmada do alto da nossa racionalidade pela loucura ou pela
poesia: «[...] és uma pedra quase inane, terrena e solar, ilha móvel e desperta, furtiva e lunar, ó meu
clarão imprevisível no céu dinâmico do poema, és a redonda residência do mundo [...], agora que eu te
canto eu procuro uma mulher que sejas tu, pele osso e raízes, a Roma do mar, o navio das tuas ancas [...]».
A segunda parte, sob o título O Desafio à Tristeza, constitui um exercício retórico de introspecção,
e uma solitária descida a um inferno interior que uma escrita coesa e deliberados referentes poderão
fazer supor biográfico: «A mim agasta-me os anos todos que não tive como adolescência, porque casei-me
cedo e não amei as fantasias, e não joguei bilhares porque tinha que trabalhar, e não coleccionei as
pernas femininas mais famosas dos calendários [...]». A essa irónica armadilha deseja escapar
a presente leitura destes textos reiteradamente simulacros de realidades oníricas, o que só lhes acrescenta
a capacidade de se significarem, contra uma racionalidade univocamente definida. Num país, num
continente e num mundo ameaçados por novas barbáries e outras tantas «guerras santas», no limiar de uma
nova civilização de que perplexos não descortinamos ainda os efeitos, será esta a forma mais eficaz de
um poeta nos vir dizer que a rebeldia contra a ordem racional do Mundo é sempre possível. Para
além da apreciação individual que a leitura destes textos possam suscitar, permanece pois a sua função
insurreccional. «Um tiro certeiro na cabeça da tristeza» é a metáfora que permite
o repouso a esta escrita. Com ela Eduardo White devolve-nos a uma lucidez inesperada e incómoda e à certeza
sem remédio de nos sabermos «pequenos, humildes e sem glória». Como se fizesse ecoar uma identidade resgatada
de outros versos anteriores e assim erigisse um futuro legado: «O importante afinal é que viva e
que comigo a minha poesia triunfe.» Inhambane/Maputo, Setembro de 1996.
Fátima Mendonça
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OS MATERIAIS DO AMOR
Tu que adormeces as órbitas, a forma primaveril e tolerante do amor, tu
que és onde as estrelas são lentas, as flores acordadas, o poema em toda a parte e o sangue e o centro
constelar da minha própria casa, tu que és uma mulher e explodes pela beleza de ser isso, o cristal iluminado
de algum rosto swahili, tu a quem a fundo gravita o açúcar nas furnas da pele, tu que és uma lua e um
relâmpago e o corpo arrancado de alguns versos calados, tu que floresces pelos cabelos e és argila e
és Sol e a ave suspensa em sua perícia, tu que trovejas em movimento e és nocturna e eminente, tu que
és bálsamo ou vinho e a canábeis do fogo e do corpo, as vértebras da frescura, a imagem do sagrado, tu
que és um felino fugaz e que não se engana sobre a harmonia de uma savana, quero dizer-te que estou chegado,
e trago as veias e a boca informuladas, umas guelras para que dentro do teu ventre eu respire, não do
modo altíssimo e belo como o trazes deitado, mas no amor tecedeiro, na aranha intensa e doméstica que
és, na rosa inominável e acordada que pelo seu perfume exala a demência toda de amar-te que eu sou. Eu
quero uma alma para ti que seja de outra ciência e tenha por corpo o corpo que eu queria. Quero uma alma
onde possa descansar a minha, que consinta demorar-me no brilho estranho que só as janelas têm e onde
igualmente possa chorar a minha trágica fatalidade de poeta. Quero uma alma azul para ti e um país com
ruas também, com homens e mulheres bonitas, com bêbedos e prostitutas, com operários pela manhã vociferando
…………………………………………………… Por isso é que as respostas não existem e eu estou aqui a matar-me sem razão
aparente para o fazer. Contudo, se isto continuar, vou agarrar na palavra revólver e espetar um tiro
na cabeça da tristeza. E então voltarei a sorrir, a emprestar um brilho consequente aos meus dentes amarelecidos,
a ter razões para estar onde nunca estive a sonhar com isso e a deitar-me fisicamente ao acaso na paisagem
dos versos que pressinto. Um tiro certeiro na cabeça da tristeza é tudo quanto basta para a emoção desse
desafio devolver-me à realidade de saber-me homem, mesmissimamente igual a tantos outros: pequeno,
humilde e sem glória. Homem só. Mais nada.
FIM
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