UM MALOGRADO IMPETO CIVICO Não nesta, mas na anterior, decidi participar. Estou
falando de eleições. Depois de rolar a carcaça por mais de trinta anos por estes Brasis, desde
que saí meio ensurdecido de um vetusto avião da Panair, nos idos de 58, era JK; depois de suportar a
caspa de Jânio Quadros e uma sucessão de autoritárias faixas presidenciais estreladas; depois de duras
ou ridículas aventuras pessoais de que vos poupo, pelo menos por agora, os detalhes; depois de muitas
passeatas, correrias, angústias, confabulações, esperanças, revoltas, bravatas e "Diretas já", eis que
me dou conta uma bela manhã, assim sem mais nem menos, que já havia eleições livres no país. E
e eu sem ter nunca votado. A explicação é simples: sendo português, com uma plastificada CIE rosa
de residente permanente no Brasil, de prazo expirado mas ainda assim válida por Portaria do Ministério
da Justiça por não haver "condições" de emitir nova cédula e não me perguntem quais sãos essas condições
que eu também perguntei e me olharam de um jeito que me fez reviver o subversivo de outras eras , apesar
de ser pai de filhas brasileiras, digno possuidor de CPF, conta bancária, cartão de crédito, seguro de
saúde e outros atributos de cidadão enquadrado na lei, continuava sendo estrangeiro, e portanto devendo
saciar este impulso cívico de votar em terras de origem. O que devemos reconhecer ser perfeitamente lógico.
Acontece, e mais uma vez pulo os detalhes, que quando perambulei por terras lusitanas, ainda não
tinha idade para participar das eleições fraudadas do salazarismo. Mais tarde, quando o 25 de Abril trouxe
com os seus cravos vermelhos na ponta dos fuzis uma legalidade democrática em Portugal, além de ter perdido
esse direito como emigrante, não sentia a menor necessidade de participar, longe dos meandros e personagens
da política portuguesa. Foi assim que virgem de voto, tomado por uma malfadada ânsia de quebrar
esse jejum, resolvi pedir uma equiparação dos meus direitos civis e políticos. E tirar o título de eleitor.
É fácil disse o meu hábil despachante. Tendo pressa, custava umas patacas mais. Não me
lembro se na época eram cruzeiros, cruzeiros novos, cruzados, cruzados novos, ou simplesmente dólares
verdes. Não tenho urgência disse. Basta estar pronto a tempo de votar. Tinha como que uns
dez meses pela frente. Pode ficar tranquilo. Logo, logo está com o título de eleitor na mão
garantiu o meu hábil e sorridente despachante. Assinei uma série de formulários, morri numa nota
preta, mas valia pelo sossego de dar um sentido a muitas andanças. Para minha grande surpresa,
passadas apenas umas parcas semanas, meu hábil despachante surge com seu deslumbrante sorriso:
Está tudo pronto. Só falta a prova de que não é analfabeto: o diploma do curso primário. Por
um desses acasos que nunca me explicarei, minha irmã tinha recentemente mandado um nostálgico diploma
do curso do liceu, com a menção de que estava apto para entrar na universidade. Comecei a acreditar no
destino. Entreguei-lhe o pergaminho depois de tirar xerox, certo que nunca mais veria de volta
o histórico documento do ex-Liceu 5 de Outubro, o Liceu Salazar da minha adolescência, atual Liceu Eduardo
Mondlane, futuro Liceu-sabe-lá-Deus-quem. Não serve disse-me tempos depois meu hábil despachante,
com seu convicto sorriso. Tem de ser o diploma da escola primária. Pensei haver um mal-entendido,
considerei que ninguém pode tirar um diploma do liceu, sete sofridos anos, sem ter feito antes o primário.
Além do mais, com o passar do tempo e com a independência de Moçambique, a arcaica escola em que eu aprendera
as primeiras letras há muito deixara de existir e nem minha meticulosa irmã tinha logrado salvar da descolonização
esse precioso documento. Ò despachante me tranquilizou, com seu hábil sorriso. Vou ver se
quebro o galho. Antes que se fosse, lembrei outras alternativas: cursos no estrangeiro, livro publicado,
artigos assinados, atestados de cursos dados por mim, testemunho, com firma reconhecida, de amigos notoriamente
alfabetizados... Quando o vi de novo, meu despachante estava de cara amarrada e não parecia tão
hábil. Tentei tudo. Para provar que sabe ler e escrever, só o diploma primário. Perdi a calma:
E diploma de Filologia? E bacharelado com especialização em Direito Árabe? E doutorado em Latim,
Grego e Idiomas Germânicos? E tese nas Universidades de Coimbra e Salamanca sobre "A origem da palavra
Plicare, e seus conceitos antagónicos, nas Invasões Romanas na Peninsula Ibérica e na Roménia ", serve?
Ele abriu os braços, impotente: Posso tentar, mas acho que não vai dar. E sem me dar tempo de reagir,
concluiu: A lei é muito clara: prova de alfabetização é o diploma primário. Me vi sentado
no meio da garotada, prestando prova. Recusei a humilhação, me passou pela cabeça que talvez até fosse
reprovado, paguei o que não devia, e mandei esquecer tudo. Sei o que estão pensando: uma graninha
por fora resolvia a questão. Mas com todos estes vaivéns as eleições já tinham passado, e embora sabendo
que o meu voto perdido não teria mudado o rumo collorido que o Brasil tomou naquele momento, fiquei arrasado.
Continuo casto em matéria de eleições. Resolvi aceitar, definitivamente, minha condição de analfabeto.
Não contei nada para O Estado... e virei cronista.
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