ESTA JANELA
É a janela de um décimo quarto andar. Desta janela eu vejo ciganos,
portugueses, cabo-verdianos, angolanos, brasileiros. Eu os identifico pela memória de quando também ando
por lá rastejando. Desta janela, nas minhas tardias madrugadas, eu vejo o verde da mata roído
pelas primeiras barracas de zinco de uma incipiente favela, e longe, com brilhos cada dia distintos,
as águas do rio. Daqui desta janela, o braço direito fisgado pela dor aguda de uma talvez bursite,
enquanto o cérebro sonolento se espreguiça e abre vagarosamente as células à luz de alguma eventual ideia,
eu olho esta cidade nova para mim, deste país que eu só conheço pêlos livros e por que me foi contado
por meus pais desde a minha infância. Desta janela, eu olho Lisboa. Não toda a Lisboa, nem
o pedaço mais representativo e nem certamente o mais importante, se é que há um. Apenas este ínfimo pedaço.
Mas aqui desta janela, fumando a guimba amarga de um charuto sem marca das Canárias, nostálgico do
Pimentel Número Dois Escuro, de Cruz das Almas, Bahia, companheiro de tantas insónias, procuro compreender
o que é estar no Velho Continente. Já andei muito por estas bandas, por estes países ditos desenvolvidos,
mas sempre com a certeza inequívoca de ser alguém em trânsito. Hoje, daqui desta janela, eu busco
uma emoção diferente: convencer-me de que o aqui, agora tem a eternidade de uma escolha. Mas sei que
estou me enganando, por muito que esta janela me acarinhe e que a paisagem não me agrida. Seria preciso
rasgar-me muito fundo, apagar memórias e tristezas, trocar emoções de sotaque, transformar sentimentos
em raciocínios frios. Ou renascer, o que só acontece nas novelas. Como todo português, mesmo de
segunda classe pelo estigma colonial, nasci emigrante. E como tantos, cumpri a fatalidade e saí mundo
afora. Eu, para quem a nacionalidade foi sempre um sentimento adiado e apenas um passaporte azul,
carimbado pela vergonha histórica do salazarismo, vivo agora a violenta necessidade de querer me encontrar
dentro dessa abstração. E isso que eu busco, aqui desta janela. Porque não dá mais para fingir
que sou moçambicano, se não voltei para as acácias rubras da minha infância e não aceitei o cotidiano
incerto da Independência. E no entanto sei que sou moçambicano. Porque não dá mais para fingir
que sou brasileiro, mesmo se acumulei décadas de verde-amarelo na carne, mesmo se tive filhas e paixões
brasileiras, mesmo se é nas águas do Tuatuari num amanhecer de brumas onde eu gostaria que fossem lançadas
as minhas cinzas. E no entanto, sei que sou brasileiro. Porque não dá mais para fingir que sou
português, se sempre fugi dessa metrópole distante que marcou a minha juventude a ferro e desprezo, cinco
quinas no peito e braço estendido na Praça Mouzinho de Albuquerque. E no entanto, sei que sou português.
Daqui desta janela, quando a noite chega e Lisboa pulveriza nas suas luzes anónimas de cidade grande
ainda que possa me imaginar em Maputo, Havana, Rio, ou qualquer outro ventre, sei agora que não posso
mais me enganar, porque estou inexoravelmente só com a minha esquizofrênica latino-africanidade.
Como é doloroso ser um eterno esquartejado, um eterno estrangeiro dentro de si mesmo, "amarrado ao
próprio cadáver." Me resta o idioma como pátria, como ao poeta. E o sentimento do mundo,
como a um outro. É muito. Eu diria que é demasiado. Me resta esta janela.
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