A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



PEDRO MUIAMBO



A ENFERMEIRA DE BATA NEGRA

ALGUNS TEXTOS


4.


  O coração tiquetaqueava no peito, embatia na garganta, provocando-lhe um valente enjoo, sempre que o esposo expectorava aquelas chilras reaccionárias, descaramentos gravíssimos para uma época em que as balalaicas e os campos de reeducação pareciam rimar.
  Apenas por dá cá aquela palha, lá te empacotavam para as terras esquecidas do Niassa. É verdade! E isso na melhor das hipóteses!
  " Comunistas de uma figa!".
   Jossefa Magaço dizia isso do PARTIDO DO POVO, o PARTIDO DE VANGUARDA!
Faltava-lhe o instinto de autoconservação física, é fácil de ver.
  Então ela, a esposa, instantânea como um suspiro, apressava-se a fechar as janelas, puxava as persianas, quase forrava as paredes com o seu próprio corpo, aquele corpo túmido, não fora a vigilância popular, a temível vigilância popular, descobrir como agia o inimigo, ali, justamente na casa de uma mamana da OMM - a sigla da Organização da Mulher Moçambicana -, a costela feminista do Partido...
Mamana da OMM que era ela.
Maceda Magaço.
  Mas Jossefa continuava a estremecer as vigas dos novos tempos. Era ouvi-lo dizer, todo compenetrado, proferindo subversões e, naturalmente, deitando gelo às espinhas mais próximas:
  - Quem dita a estratégia política na minha casa sou eu! A camarada Maceda despe as vestes da OMM ali na porta. Mas a Macedinha, aquela que eu tomei em lobo/o há 13 anos, essa cumpre com as metas fixadas por émi-i-émi, ou seja, MIM.
  Depois reclinava-se no assento, deitando o seu espírito no encosto da irredutibilidade e rematava, lançando para o ar uma nuvem de saliva esbranquiçada, justamente como se abundantes litros de lógica jorrassem do seu discurso a cada sílaba:
  -PODE E DEVE!
  Por outro lado, passavam mais de cinco anos que Jossefa não fazia amor com a esposa... original e definitivo protesto contra a militância desta na OMM.
  Curiosamente, quando com ela se arreliava e se punha a chamar-lhe sua puta de merda, arreliava-se também com todas as representantes do sexo feminino, as legítimas e as ilegítimas, insultava-as mentalmente a todas, suas putas de merda, e não discriminava sequer a sua própria mãe, nem os animais.
  E mesmo quando a noite e o dever arrastavam os seus corpos nus para o leito conjugal, eles acediam, sim, cobriam-se com os suaves lençóis de linho verde-claro comprados a um madjoni--djoni - que é como chamamos aos moçambicanos que migram para trabalhar nas minas da África do Sul - e, pela milésima vez, respiravam os respectivos bafos, subindo pelas veias um vulcão de sangue, e aí então os seus animais despertavam, mas bruscamente Jossefa empurrava a esposa e decidia sofrer, direito seu, e fazer sofrer, dever de macho...
  Mas, postas bem as coisas, ele decidia sobretudo sofrer, não é verdade?
- Tenho um pénis reaccionário, eu. Ele odeia a FRELIMO - dizia.
Dá para acreditar?!
"Tenho um pénis reaccionário eu. Ele odeia a FRELIMO".
Era lá possível uma coisa dessas?!...
  Pelo menos no princípio não o dizia tão claramente, nem dizia nada, evitava magoá-la.
  Pensava apenas, virando-se para o outro lado da cama e chupando longamente o cigarro.
  E até conseguia ser mais delicado nos pensamentos, Jossefa Magaço.
Não preciso contemplar-te, pensava.
  Bem, sei que estás de costas, divina e intacta como sempre. Está, o teu corpo nu e quente, ligeira e convenientemente dobrado. Escuto os mudos arquejos e decifro a tua eterna e muda prece... por um abraço meu...
Anseias pela minha ressurreição, eu sei!
  Queres que as minhas unhas rompam esta mortalha de lençóis que me alberga.
  Queres que te abrace de mansinho por trás, como o fazem as moscas, malandras, na mesa da cozinha, e recolha na esponja da minha pele todo o suor jorrando dos teus poros.
  Finalmente, fazer-te girar ao som do farfalhar dos lençóis, do mesmo jeito infalível com que Deus gira a terra pela madrugada.
  E te devolva em licor, o teu próprio suor, em cada fatídica investida do meu cacúmen.
  Mas, perdoa-me, querida!
  Hoje não estou para ti.
  Faz de conta eu sou pedra dura, sim, mas não é no corpo, é na vida.
Resvalei até ao charco levado pela atrocidade dos tempos.
  Por isso estou para a cama como tenho estado para a lama: invisível e totalmente embebido de inércia.


Edição de 2003

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