A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



PEDRO MUIAMBO



A ENFERMEIRA DE BATA NEGRA

ALGUNS TEXTOS


2.

  Certo dia, ao chegarem a casa, os pais de Isayana encontraram o pátio do quintal que resplandecia, era como se a própria areia tivesse sido lavada com água e sabão, e o responsável por esse feito dormitava à sombra da mangueira.
Vovô Rungo era o tal.
  Entrara na casa horas antes, sem convite nem anúncio, localizara a enxada e pusera-se a sachar, depois pegara no ancinho e varrera.
  Questionado sobre a recompensa para os seus não requeridos mas reconhecidos serviços, ele simplesmente espreguiçou-se, esticando tanto os braços que quase toca a província do Niassa lá no norte, demorando o infinito que lhe apeteceu e estalando audivelmente ossos e tendões. Finalmente, como que a cobrar um preço mais do que justo, e esclarecendo pelo tom de voz que não lhes assistia, os donos da casa, o direito de regatear, e exibindo um sotaque que denunciava claramente a sua b/tonguice, retorquiu:
  - Pertencer à família.
  Jossefa, o pai de Isayana, escancarou os olhos, apurou os tímpanos e atalhou:
  -Haah?
  O intruso replicou, silabando a sua ousadia:
  - Pelo trabalho que fiz, cobro, como recompensa, pertencer a esta família.
  O dono da casa não puxou por mais pergunta, encarnou por uns segundos um tom pensativo e depois abraçou vigorosamente o velhote, dizendo:
  - O meu pai faleceu na guerra pela libertação deste país. Você passa a ser o meu novo pai.
  Em seguida, dirigiu-se à esposa e acrescentou, gritando como um demente:
  -ACABO DE ADOPTAR UM PAI, CAMARADA.
  Só passados muitos anos é que ficamos todos a saber que vovô Rungo viera àquela casa parar por causa do menino, o Isayana, esse a quem ele agora não sabia - ou fingia não saber - como ajudar na resolução do problema das formigas.
  - O quê?! - Atalhou o garoto, mal conseguindo crer no que ouvia e pondo-se, inclusivamente, a repreender os tímpanos, desbravando os ouvidos com a ponta do dedo indicador.
  Enquanto isso, vovô Rungo retirou dos bolsos do casacão que trazia sempre vestido, fizesse frio ou calor, ao ponto das pessoas perguntarem-se "será que este tipo não transpira?", uma garrafita de thonthontho- nome que damos, nós, os vashangana, à aguardente de cana-de-açúcar muito apreciada por estas bandas - que levou imediatamente à boca, e bebeu um longo gole - quase tão longo como o evangelho - acabando por esvaziá-la, a garrafita, facto que procurou demonstrar aos espíritos entornando ao chão as duas últimas gotículas do ardente conteúdo.
  - Não sei como salvar as tuas formigas - repetiu, num tom de voz sereno.
  Era lá possível uma coisa dessas!...
  Nem dava para acreditar! Rungo incapaz de solucionar um problema?!
  Verdade é que o velhote aparentava ser de um entendimento rude... mas o termo é justamente esse: a-pa-ren-ta-va. Aliás, nós já o tínhamos eleito o tipo mais astuto e bem informado de toda a costa oriental de África.
Nem menos nem mais.
  E aqueles seus olhos que fixavam as pessoas e as coisas com uma acuidade quase hipnótica... quase devoradora!
  Isayana engatilhou mais uma manifestação da sua justa e infinita descrença e disparou:
  - Não sabe? Como pode não saber, vovô?
  - Por desconhecimento, meu filho. Desconheço.
  - Como?
  -Assim mesmo: desconheço.
  Desconhecia, o velhote desconhecia. Não valia de nada insistir.
  Isayana entendeu isso bem, que não era surdo nem palerma e, inclusive jogou-se ao céu, entrincheirando-se entre as nuvens, na vã tentativa de escapar da angústia que lhe dilacerava o peito...
  O dia também estava completamente esgotado e já metia as pernas sob as cobertas de uma noite previsivelmente rouca e dolente, sem estrelas nem luar, mas com o místico reluzir dos pirilampos e a assídua cantilena dos grilos.
  Isayana dirigiu-se para dentro da casa correspondendo ao chamamento da mãe que acabava de anunciar, em voz alta, a iminência do banho.
  Enquanto subiu os poucos degraus da porta de trás, prometeu a si mesmo que daquela vez não relutaria em entregar o seu corpo ao jorro frio e sádico do chuveiro.
  Quem sabe, como recompensa, a mãe não se oferecesse a ajudá-lo no bicudo caso das formigas?!


Edição de 2003

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