2.
Certo dia, ao chegarem a casa, os pais de Isayana encontraram o pátio do quintal que
resplandecia, era como se a própria areia tivesse sido lavada com água e sabão, e o responsável por esse
feito dormitava à sombra da mangueira. Vovô Rungo era o tal. Entrara na casa horas antes, sem
convite nem anúncio, localizara a enxada e pusera-se a sachar, depois pegara no ancinho e varrera.
Questionado sobre a recompensa para os seus não requeridos mas reconhecidos serviços, ele simplesmente
espreguiçou-se, esticando tanto os braços que quase toca a província do Niassa lá no norte, demorando
o infinito que lhe apeteceu e estalando audivelmente ossos e tendões. Finalmente, como que a cobrar um
preço mais do que justo, e esclarecendo pelo tom de voz que não lhes assistia, os donos da casa, o direito
de regatear, e exibindo um sotaque que denunciava claramente a sua b/tonguice, retorquiu: - Pertencer
à família. Jossefa, o pai de Isayana, escancarou os olhos, apurou os tímpanos e atalhou:
-Haah? O intruso replicou, silabando a sua ousadia: - Pelo trabalho que fiz, cobro, como
recompensa, pertencer a esta família. O dono da casa não puxou por mais pergunta, encarnou por
uns segundos um tom pensativo e depois abraçou vigorosamente o velhote, dizendo: - O meu pai faleceu
na guerra pela libertação deste país. Você passa a ser o meu novo pai. Em seguida, dirigiu-se à
esposa e acrescentou, gritando como um demente: -ACABO DE ADOPTAR UM PAI, CAMARADA. Só passados
muitos anos é que ficamos todos a saber que vovô Rungo viera àquela casa parar por causa do menino, o
Isayana, esse a quem ele agora não sabia - ou fingia não saber - como ajudar na resolução do problema
das formigas. - O quê?! - Atalhou o garoto, mal conseguindo crer no que ouvia e pondo-se, inclusivamente,
a repreender os tímpanos, desbravando os ouvidos com a ponta do dedo indicador. Enquanto isso,
vovô Rungo retirou dos bolsos do casacão que trazia sempre vestido, fizesse frio ou calor, ao ponto das
pessoas perguntarem-se "será que este tipo não transpira?", uma garrafita de thonthontho- nome que damos,
nós, os vashangana, à aguardente de cana-de-açúcar muito apreciada por estas bandas - que levou imediatamente
à boca, e bebeu um longo gole - quase tão longo como o evangelho - acabando por esvaziá-la, a garrafita,
facto que procurou demonstrar aos espíritos entornando ao chão as duas últimas gotículas do ardente conteúdo.
- Não sei como salvar as tuas formigas - repetiu, num tom de voz sereno. Era lá possível uma
coisa dessas!... Nem dava para acreditar! Rungo incapaz de solucionar um problema?! Verdade
é que o velhote aparentava ser de um entendimento rude... mas o termo é justamente esse: a-pa-ren-ta-va.
Aliás, nós já o tínhamos eleito o tipo mais astuto e bem informado de toda a costa oriental de África.
Nem menos nem mais. E aqueles seus olhos que fixavam as pessoas e as coisas com uma acuidade quase
hipnótica... quase devoradora! Isayana engatilhou mais uma manifestação da sua justa e infinita
descrença e disparou: - Não sabe? Como pode não saber, vovô? - Por desconhecimento, meu filho.
Desconheço. - Como? -Assim mesmo: desconheço. Desconhecia, o velhote desconhecia. Não
valia de nada insistir. Isayana entendeu isso bem, que não era surdo nem palerma e, inclusive jogou-se
ao céu, entrincheirando-se entre as nuvens, na vã tentativa de escapar da angústia que lhe dilacerava
o peito... O dia também estava completamente esgotado e já metia as pernas sob as cobertas de uma
noite previsivelmente rouca e dolente, sem estrelas nem luar, mas com o místico reluzir dos pirilampos
e a assídua cantilena dos grilos. Isayana dirigiu-se para dentro da casa correspondendo ao chamamento
da mãe que acabava de anunciar, em voz alta, a iminência do banho. Enquanto subiu os poucos degraus
da porta de trás, prometeu a si mesmo que daquela vez não relutaria em entregar o seu corpo ao jorro
frio e sádico do chuveiro. Quem sabe, como recompensa, a mãe não se oferecesse a ajudá-lo no bicudo
caso das formigas?!
|