1.
Brincava no jardim frontal da vivenda que juntamente com outras cinco dezenas,
de igual pequenez e ordinarice, inventavam aquela vila sobranceira ao Incomáti - quando as surpreendeu.
Precipitavam-se, num jogo de matyangwe-tyangwe, para um buraquito cavado no centro do relvado. As
formigas. Agachou-se e acolheu-as, qual monge solene, com a sombra do seu corpinho. Enlevado. Boquinha
semiaberta. Olhos reflectindo estrelas inexistentes no amplo azul celeste. Eram uns olhos grandes, justamente
a medida da interrogação das crianças, na sua ingénua, entusiástica e mórbida filosofia. E tão
voraz era a sua curiosidade, que quase derrubava o formigueiro com a potestade da sua contemplação. Foi
no ano em que a fome chegou pelas asas dos gafanhotos. Nesse inolvidável ano de 1980. Isayana
Magaço prosseguia na sua infanta desvenda do cosmos enquanto, lá das nuvens, aos olhos dos passarinhos,
parecia entregue aos fúteis mistérios dos homens. Na verdade, daquele ângulo, era-lhes difícil
reparar que o garoto batia também as suas asas, à sombra daquele eucalipto imponente. Uma das formigas
alçou os olhinhos e avistou-o, após o que emitiu um gritinho assustado, provocando o yowê-yowê geral.
Na pressa de se esconderem, os diminutos insectos já nem sabiam se reentravam no formigueiro ou se
o abandonavam. O que seria mais seguro? E na imensidão dessa vertigem, punham-se a correr de um
lado para o outro, chocavam-se umas nas outras na entrada lançando ininteligíveis impropérios.
O garoto afastou-se lentamente até ao muro onde se apoiou, indiferente à azáfama que acabava de provocar.
Um receio mais sério atazanava-lhe a cuca: teriam elas, as formigas, recebido anuência de seu pai para
escavarem aquele jardim? Fazia uma tempestade na devida proporção de água, pois não tinham sido
poucas as vezes que ouvira encolhido, qual fralda encharcada, as frias e afiadas palavras do pai:
- Esta casa é minha. Dentro dela não se deve mover grau de areia sem a minha expressa permissão!...
Portanto, viesse, o camarada Jossefa Magaço, ao conhecimento daquela intrusão nos seus domínios
e ninguém neste mundo... ninguém mesmo... nem o próprio Sulemane, o secretário do bairro, a quem frequentemente
recorriam as famílias manhicenses quando entendiam que a resolução dos seus problemas ultrapassava as
possibilidades do foro doméstico, nem esse conseguiria salvar as pobres formigas! Morreriam ao
primeiro ribombo da sua raiva. Para Magaço intrusão rimava com confusão, e a conclusão da quadra era
sempre a mesma: infusão... De terror. Aliás, quantas vezes ficara sem fôlego, ele próprio, Isayana,
mediante as réplicas do pai a qualquer uma das suas inocentes exigências: - Esta casa é tua?
Decerto que o pai fumegaria as pobrezinhas com o baygon que empunhava invariavelmente contra todos
os insectos que ousavam aventurar-se pelas paredes da sua casa!... E perseguia-os por todas as latitudes,
trepava pelas paredes brancas até o tecto, repetindo, todo insecticida: - Seus comunistas duma
figa! Tal e qual. - Seus comunistas duma figa! Inclusivamente, à hora do pequeno-almoço,
Jossefa Magaço fazia muita questão de ser o primeiro a servir-se do açucareiro, para que pudesse surpreender
as famigeradas ainda aos montões, transferi-las juntamente com o açúcar para a sua chávena, verter sobre
elas o chá quente e ficar-se a vê-las - o orgasmo estampado no seu rosto, emprestando-lhe um brilho invulgar,
envolvente - a estrebucharem no inferno adocicado. Um esgar espasmódico que, em boa verdade,
fora escasseando gradualmente nos últimos anos até resumir-se a essa simples manifestação de sadismo
matinal. - Sabem bem, engolidas, as camaradas comunistas. E o êsh! pasmado de eventuais ouvintes
estalava dos lábios. Tinha que fazer algo, Isayana. Mas não sabia o quê ao certo. Iam-se-lhe os
minutos a fitar o céu, os pássaros e insectos que adejavam ao sabor do crepúsculo, sem contudo adiantarem-lhe
qualquer solução, isto naturalmente considerando que caganita de pombo, como a que lhe caiu sobre o nariz,
não constituía solução adequada para um problema daquele jaez. Dirigiu-se às traseiras da
casa, a correr, mais célere que um piscar de olhos, mais concretamente aos anexos da casa, de encontro
ao vovô Rungo, o empregado. Em boa verdade, o vovó Rungo, como todos o chamávamos, não era propriamente
um empregado naquela casa, embora por tal se fizesse passar. ... Era um homem de baixa estatura
e pernas arqueadas, exímio narrador de estórias que nos deixavam em autêntico deleite, quase todas acerca
do que dizia ter visto ou vivido lá na base dos mat-sangas - nome que dávamos aos guerrilheiros da RENAMO
- para onde, dizia, fora conduzido anos antes na sequência de um assalto à aldeia comunal onde vivia,
e de cujo horror, acrescentava, não conseguiria jamais fugir. "Ressuscitei entre os mortos,
eu", gabava-se, vibrando com a lembrança. -Vovô, preciso da sua ajuda - insistiu Isayana.
Não tossiu - como era seu hábito - nem sorriu, o interpelado. Depenava um pato, gestos mais lentos que
os séculos, como lição de que a velhice não se lamenta, saboreia-se. Tinha as nádegas pousadas
num banquinho de madeira, uma bacia repleta de água fumegante e penas brancas colocada entre as pernas
e os lábios cerrados no zelo... Quando retirou a última pena e pareceu-lhe que já era altura de
desprender a língua, já o garoto implorava, dando pulos de impaciência: -Tenho certeza que o papá
vai matá-las, avô. Ajuda-me, ajuda-me a salvá-las. Rungo alçou os olhos e fitou-o. Finalmente
tossicou. Mas sorrir, nem sombra! Num ápice, Isayana lembrou-se que não existia coisa mais
engraçada que ver um tipo gago - como o Rungo - a tossicar. Tossicar com gaguejos. Era de morrer a rir.
Mas infelizmente agora tinha uma grande preocupação com que se entreter. - Na verdade, eu não sei
como salvar as tuas amigas - declarou o velhote. Inquietante deveria ser o seu nome. A espécie
de fulanos que se julgam no direito de subitamente não-saber-das-coisas, bastasse dar-lhes na real gana.
Assim sem mais nem menos: NÃO SABER. Inquietante.
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