COMO UMA DECLARAÇÃO DE AMOR
Há povos que fazem do seu sofrimento uma escola. O português
tem o retrato da sua alma no lamento do fado, o argentino na arrogância do tango, o espanhol no flamenco
nostálgico da Ibéria mestiça. O brasileiro se encontra na alegria. A imagem mais concreta da
sua alma é a do seu sorriso sem dentes. O lugar-comum é que o Brasil é o país do sol, do futebol
e do carnaval. E um cliché, mas tem os seus fundamentos. O Brasil em matéria de dor é um hospital,
uma casa mortuária e um cemitério. Mas o brasileiro é o povo menos masoquista que existe. Canta alegremente
a dor, dança com o seu sofrimento. Isso talvez venha da costela africana, mas seja de onde seja que vem,
não perdeu o sadio primitivismo com a invasão da alta tecnologia do laser e dos computadores. O brasileiro
é um otimista estrutural, precisa de motivos para estar triste, não precisa de nenhum para estar alegre.
Perde um olho, não chora o olho que perdeu, canta a alegria de ver com o outro. O ato de viver
é desde o parto um largo sofrimento mas o brasileiro parece não querer tomar conhecimento. Para ele a
dor necessita uma justificação maior, a alegria tem em si mesma sua razão de ser. Vive rindo e
morre de sorriso nos lábios. Também mata às gargalhadas, tortura às gargalhadas e daí que a violência
brasileira seja talvez mais insustentável, porque sublinhada pela sua perversa contradição. O
brasileiro é de um intrínseco paganismo na profunda religiosidade. Parece preferir as religiões africanas,
não por acreditar mais nos seus santos, mas pela explosão da sua liturgia: um Deus a quem se chega com
gravidade é um Deus que se respeita, mas não se convida para tomar cafezinho. Negando a dor se torna
um iconoclasta. Parece nada levar a sério, o que não o impede de fazer as coisas com seriedade
— porque não existe nenhum ato de maior gravidade que o humor. E ninguém sabe rir melhor de si mesmo.
A Europa está velha: quem enche a boca com essa afirmação são os próprios europeus. Claro que dizem
isso sem acreditar, porém é mais um cliché que é verdade. São graves, compenetrados, importantes, dominadores,
sadios, o que quiserem, mas perderam (ou nunca aprenderam) o caminho da alegria. Sabem fazer piadas,
inventar anedotas — mais sobre os outros —, o que assume uma forma de arrogância, não de humor. Podem
achar que são felizes, mas não são alegres na sua felicidade. E se asfixiam nessa ausência. Reconhecem
no brasileiro a alegria que solta por todos os poros, e não a compreendem. Só lhes resta um desprezo
invejoso ou uma admiração cautelosa. Os turistas estrangeiros vêm ao Brasil consumir a alegria
que lhes falta na felicidade, sem compreender o mistério da convivência de uma sociedade destroçada (que
também lhes pertence) com uma euforia de viver (que lhes é negada). O brasileiro é inconvenientemente
alegre demais. Sem motivo aparente fala alto demais, ri alto demais, grita alto demais, veste-se alto
demais. Esse demais é que explica tudo o que não tem como ser explicado, porque a alegria escapa aos
manuais de etiqueta, é por definição informal, rompe com o bem-comportado, estraçalha com o bom-tom,
os compêndios, a lógica. O brasileiro se despe na alegria. Já tentaram vesti-lo de terno e gravata,
enfiar num smoking, enterrar num pijama de madeira, aprisionar numa farda. O único uniforme que vai bem
ao brasileiro é a nudez, que é o que há de mais próximo à liberdade, à irreverência. O brasileiro
é sadiamente nu no riso. O brasileiro não tem vergonha de nada, só de estar triste. A alegria
é despudorada. O brasileiro é hipocondriacamente alegre, até na morte. No velório, precisa fazer
força para manter um mínimo de formalidade, imposta pela herança de um ritual alheio, que no fundo não
entende, porque a dor não é incompatível com a alegria. Velório que acaba em festa é a maior homenagem
que se pode fazer ao morto. O sofrimento é para a maior parte dos brasileiros uma abstração, uma
jornada transitória, um estágio para a alegria, que é uma inevitabilidade histórica, como a copa do mundo
de futebol. Uma vitória que pode tardar, mas que está sempre para chegar, e chega. Porque o futebol,
mais que um esporte, é o ritual da consagração inevitável da alegria do povo brasileiro. E os garrinchas,
seus ogãs e sacerdotes alados. Um brasileiro alegre é um pleonasmo. Um brasileiro triste,
um enigma. Em bom francês, do alto do seu cartesianismo, o general Charles de Gaulle disse que
o Brasil não era um país sério. Coitado, passou por Roma mas não viu o Papa: o país é mais sério do que
qualquer outro. Stefan Zweig, para mim um escritor menor, quando num lampejo escreveu "Brasil, País do
Futuro" acertou mais do que ele mesmo poderia imaginar, porque o futuro do Brasil não está só no amanhã,
mas também no ontem e no hoje. Está na sua perene, indomável, e subversiva alegria.
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