A BIBLIOTECA DO MACUA

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LIVROS & AUTORES QUE A MOÇAMBIQUE DIZEM RESPEITO



LUIS BERNARDO HONWANA



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LUĺS BERNARDO HONWANA

Born Lourenço Marques (Maputo) 1942.
Grew up in Moamba in the interior where his father was an interpreter (Ronga-Portuguese).
At 17, he went to the capital to study and entered journalism. He was discovered by the famous poet José Craveirinha.
He became a militant of FRELIMO and was emprisoned in 1964 for 3 years. Even during the colonial period, his book was translated and published as "We Killed Mangy Dog & Other Mozambique Stories" in 1969.
In 1982, he became Secretary of State for Culture.

Article on Honwana
by Cremilda de Araújo Medina
in Sonha Mamana África., São Paulo: Epopeia: Secretaria do Estado da Cultura,1987.

Herdeiros e arrimo da dignidade conquistada

Texto clássico nas escolas moçambicanas. Se quiserem, um best seller na sociedade de mercado - não há reedições que cubram a demanda do único livro de Luís Bernardo Honwana, "Nós Matámos o Cão-Tinhoso". Por trás desse grande êxito - a editora Ática já o publicou no Brasil também - há uma energia cultural que sustenta os contos de Honwana. Imagine-se uma corrida olímpica que começou nos anos 20, anos 30, chegou à geração 60, a que pertence o escritor, que, por sua vez, manteve a chama do fogo simbólico, atravessou a frente de guerra, tornou Moçambique independente, e está hoje no poder.
Somos herdeiros de uma gente que, há algumas décadas, reivindicava a dignidade humana para os que eram rotulados de pretos de alma branca ou ainda eram relegados ao lugar de primatas. Essas gerações anteriores, identifica Luís Bernardo Honwana, tinham a segura premonição do homem moçambicano: nosso direito à Cidade.

É esta força que alimenta os contos reunidos em "Nós Matámos o Cão Tinhoso".
O autor presta homenagem aos que o precederam e sente-se à vontade como herdeiro. As vozes d'África do início do século, no Brado Africano, sejam elas de negros, brancos os mulatos, portugueses ou nascidos em Moçambique, - Noémia de Sousa, José Craveirinha, Orlando Mendes, Rui Noronha - antecipavam a geração que, por sua vez, foi reforçada pelo influxo neo-realista de Portugal e tudo isso vem desaguar na geração 60. Mas Honwana reconhece contornos amplos nas confluências da década. Até mesmo as características do colonialismo contribuíram para que os jovens dos anos 60 agarrassem com vigor o ser moçambicano. O colonialismo português, nos anos 50, se distanciara do modelo do colonialismo inglês na África. Ao contrário do estímulo às elites em situação de transição (dos ingleses), os portugueses investiram na teoria da permanência. Era preciso fazer presente a mãe pátria, o velho projeto do Infante, o sinal do Império-Nação. A repressão sobre os jovens negros que queriam ascender culturalmente diminuiu. (O pai de Honwana, assimilado, inserido na administração colonial, vinha de uma família nacionalista e a escola, em casa, desenvolvia o repúdio ao Império.)
Por outro lado, o acesso ao Jornalismo oxigenou a segregação.

O fato que se constata então é uma dinâmica nacionalista: anuncia-se a perspectiva de uma burguesia local emergente. A presença, em Moçambique, de brancos de oposição foi também significativa. Nunca esquecendo que vieram para o ĺndico anarco-sindicalistas exilados. Na análise de Honwana, o contingente dos nacionalistas, provenientes das burguesias locais, é um dado a considerar nas lutas pela independência. No fundo, estas não têm tanto a ver com os modelos de revoluções proletárias quanto se pode aferir. Os movimentos nacionalistas não são resultado imediato do comunismo português.
Se fosse escolher um determinado campo de pesquisa para recolher as sementes desses movimentos, ele cairia, por exemplo, nos núcleos de estudantes africanos ou nos clubes desportivos. "Amor d'África", um deles, seria uma rica amostragem da conquista do ser diferente, ser moçambicano.

Nessa linha de reflexão - sem sublinhar categorias rígidas como o proletariado - as pessoas valem por si próprias, pela sua história humana.
Daí, no forte movimento internacional de cine-clubismo, o sucesso de filmes que apresentavam o anti-herói. Cinema inglês, francês, polonês, theco; soube-se também, logo a seguir, em Moçambique, do Cinema Novo Brasileiro. A literatura visual do noveau roman de Robbe-Grillet ou o anti-herói de Salinger confluíram da mesma maneira para as cabeças dos jovens nacionalistas moçambicanos. Negaram o neo-realismo e se apegaram ao mito do anti-herói da década de 60. Servia na Califórnia, servia na Bahia, em Paris e por que não em Lourenço Marques ou na Beira, se os jovens moçambicanos viviam histórias pessoais de anti-heróis?

A busca estilística do coloquialismo responde à desmitificação do narrador de primeira pessoa, onipresente, onisciente. Para além do discurso da retórica literária imposta, procura o discurso direto das particulares e miúdas execuções da língua. Neste caso, como nas observações anteriores, se colocam similitudes entre propostas moçambicanas e brasileiras. Honwana não se espanta. Tenta explicar, provocado pelo desafio de decifração: pura coincidência? não, simplesmente o mundo, nos anos 60, era mais conectado que hoje. Foi fácil saber o que era o Cinema Novo, Glauber Rocha, lá do outro lado do mundo. Ou a latinoamericanidad. Ou o que se fazia na Indonésia. Ou a rebeldia da Nouvelle Vague. As frentes culturais não estavam tão pulverizadas, nem eram tão contraditórias quanto hoje. A indústria cultural alimenta agora o mundo de sucessivos modismos, fabrica simultaneidade de focos, especializa e impõe coeficientes de aceleração de consumo. Luís Bernardo Honwana não quer ser radical nos seus juízos de valor, mas sente a perda da dinâmica das vanguardas: no lugar do Cinema Novo brasileiro dos anos 60, assiste-se, em Moçambique, com total audiência, à telenovela (ainda que a telenovela exibida de 1986 a 1987 tenha sido um produto diferenciado - "O Bem Amado", de Dias Gomes). Como escritor, sente falta daquela frente cultural que se irradiava internacionalmente. Hoje lhe acontece o que não lhe acontecia há vinte anos: Luís Bernardo descobre, de repente, escritores brasileiros como Ivan Ângelo ou Affonso Romano de Sant'Anna, que nem pressentia que existissem.

E historicamente, quais os dados que carregam de inquietude a década de 60?
Para Honwana, secretário de Estado da Cultura em Moçambique, esse foi o momento culminante da ordem estabelecida no pós-guerra. Por toda a parte se deflagram rupturas e, no caso da África é bem visível, na medida em que se aceleram os processos de descolonização. Nós crescemos em tempo de crise. E o escritor, no meio de oito irmãos, no meio de inúmeras culturas despaízadas, sente que a angústia sartriana repercutia no seu dia-a-dia. Não é o grande sentido da História que o atingia - essa geração, no bojo da crise, estava se marimbando para a História -, o que o interessava eram as pequenas histórias humanas. Aí estão elas em "Nós Matamos o Cão-Tinhoso".

Se Honwana reconhece que não havia, então, grandes histórias mas pequenos contos, isso não quer dizer que rejeite a vocação para o grande projeto, o romance. Todas as nações têm seu hino à bandeira e seu romance nacional. A Bíblia não é apenas um código literário, mas um forma de ver o mundo. No momento em que se está a formar uma Nação, a leitura desse processo se traduz na ficção de longo curso. Embora conhecido e consagrado como contista, assume que o romance representa um envolvimento mais sincero e uma competência madura. Não se pode aldravar o leitor para além das vinte páginas.

Deve, pois, estar fermentando uma narrativa romanesca neste autor de um só livro. Houve sobrecarga de tarefas no caminho, há que considerar. A geração que, há décadas, lutou pela independência, levou o barco à praia, está exaurida e hoje canta a música popular - "quero minha casa no campo"... A geração que agarrou a guerra, fez a independência, constituiu os novos poderes, a nova estrutura de Nação, continua afogada de trabalho, onze anos depois. Luís Bernardo já passou por várias convocações - o mal, diz ele, ésua capacidade organizativa. Agora administra a Cultura no País, mas, pobre de mim, ainda não cheguei lá. Está diretamente ligado à Presidência, portanto, à gestão de um País. E a literatura a essas alturas?

Todo o cridor alinhado ao Poder sofre uma dilacerante contradição. Mário Chamie, no Brasil, nos legou um livro - "A Quinta Parede"- sobre essa temática. Honwana não esconde a contradição entre a posição defensiva do Poder e a posição contestadora ("pôr em causa") da criação literária. Estar e criar colidem. As tarefas urgentes e prioritárias de uma Nação se multiplicam em um país em guerra. Como lidar, ao mesmo tempo, com a responsabilidade social e o compromisso pessoal com a criação? Honwana guarda segredo quanto ao seu malabarismo, o certo é que promete nos livros, seara já pronta para colher. Nesse meio tempo, apela para a ironia: vingo-mecontratando escritores para virem trabalhar nesta frente.

LUĺS BERNARDO HONWANA

AUTO-RETRATO

Russel G. Hamilton, no seu livro "Literatura Africana Literatura Necessária" (segundo volume - Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe -, Edições 70, Lisboa, 1984), apresenta Luís Bernardo Honwana como um dos alicerces da narrativa moçambicana. Nasceu em Lourenço Marques em l942, e embora muito jovem, dedicou "Nós Matamos o Cão Tinhoso"(1964), ao companheiro de letras José Craveirinha, "a verdadeira expressão da poesia de Moçambique". Para Hamilton, apesar da diferença de gerações, Honwana e o poeta José Craveirinha, bem como o poeta e pintor Malangatana, eram os "africanos"que mais se destacavam na Lourenço Marques dos anos 60.

Luís Bernardo cresceu em Moamba, pequena cidade do interior onde seu pai bilíngüe (ronga-português) trabalhava como intérprete. Aos 17 anos voltou àcapital, para seguir estudos e entrou precocemente nas atividades
jornalísticas. Craveirinha o descobriu na redação e reconheceu o talento
diferenciado daquele moçambicano negro. "E Honwana, o mais jovem e o mais dado à vida intelectual entre os três (Craveirinha e Malangatana), corria o maior risco de cair nas garras dos europeus bem intencionados". diz Hamilton. Os líderes da terra não descuidaram dessa promessa nacional. Honwana se engajou na luta pela libertação, militante da Frelimo, e terminou caindo na vala comum, no batismo de fogo da repressão. Foi preso em 1964 e ficou encarcerado três anos. A comunidade liberal não abandonou o talentoso contista e, com isso, em pleno colonialismo, "We Killed Mangy Dog & Other Mozabique Stories"(1969) foi a primeira obra de ficção da África lusófona a ser incluída na coleção African Writers' Series, divulgada no exterior.
Honwana era patrocinado por causa de altos valores literários, mas na essência de seus contos circulava o grito de independência - somos moçambicanos. E é justamente esse conteúdo que mantém o autor de um só livro (por enquanto) em permanente evidência, tanto em Moçambique, quanto em diversos países onde foi traduzido.

Desde 1982, Luís Bernardo Honwana está a frente da Secretaria de Estado da Cultura. No momento, confirma que não abandonou a literatura. Há, portanto, textos pacientes, em casa. E a ambição do romance. Sabe que uma nação exige o grande romance, o auto-escrever-se no seu processo de identidade. Não esconde o fascínio por essa tarefa, segundo ele, muito bem executada na obrade José Saramago.


NOTA   DO   AUTOR   A   PRIMEIRA   EDIÇÃO

  Não sei se realmente sou escritor. Acho que apenas escrevo sobre coisas que, acontecendo à minha volta, se relacionem Intimamente comigo ou traduzam factos que me pareçam decentes. Este livro de histórias é o testemunho em que tento retratar uma série de situações e procedimentos que talvez interesse conhecer.
  Chamo-me Luís Augusto Bernardo Manuel. O apelido Honwana não vem nos meus documentos. Sou filho de Raul Bernardo Manuel (Honwana) e de Nally Jeremias Nhaca. Ele intérprete da administração da Moamba e ela doméstica. Tenho oito irmãos.
  Nasci em Lourenço Marques, em 1942, e vivi com os meus pais, na Moamba, até aos 17 anos. Actualmente moro no Xipamanine, em Lourenço Marques, e além de frequentar o liceu, sou jornalista.
As minhas primeiras histórias datam do início da antiga página literária juvenil do jornal «Notícias», o «Despertar». Todavia quase os contos que agora são publicados começaram a ser feitos anteriormente, quando ainda não dava tanta atenção ao que de vez em quando me dava para escrever. Foi numa altura em que, embora praticasse desportos muito intensamente, um grupo de jornalistas, pintores e poetas ajudou-me a ler uma quantidade de livros importantes, levou-me a ver filmes que tinham de ser vistos e emprestou-me algumas das suas preocupações. Entretanto estudei desenho e pintura durante algum tempo e participei com vários trabalhos em exposições de arte. Também escrevi coisas para filmes que não se fizeram e pertenci a uma equipa que começou a fazer um filme e desistiu antes do fim.
  Depois do «Despertar», Eugénio Lisboa, Rui Knopfli e José Craveirinha entusiasmaram-me, publicando algumas das minhas histórias em jornais. Há pouco tempo o Rancho, que tornou possível o aparecimento deste livro, falou-me pela primeira vez em editar alguns contos em livro.
  Para a capa e para ilustrar as histórias aproveitaram-se fragmentos de desenhos que a Bertina tinha feito sem conhecer os meus escritos o que o Pancho usou depois de ver que as coisas que os desenhos contam são parecidas com as histórias que fiz. O pedaço de inventário é de um inventário verdadeiro: a mão d'As mãos dos pretos é a minha.
Luís   Bernardo   Honwana
.


Um dos contos


A VELHOTA
 
 
 Eu juraria que não cheguei a perder o conhecimento embora pouco antes de cair tivesse experimentado aquele estado de embotamento de sensibilidade que, quando nos toma, restringe a nossa capacidade de defesa aos gestos puramente instintivos mas estupidamente lentos, que todos conhecem nos boxeurs «grogues». Acho que ninguém podia avaliar o esforço tremendo que fiz nesses não sei se longos se breves momentos, para conduzir os meus punhos, brutalmente pesados antes de ganharem movimento e incrivelmente flutuantes depois de erguidos. Entretanto, às pancadas que recebia não se aliviava qualquer sensação física porque só lhes percebia o eco diluindo-se lentamente dentro da minha cabeça. Esse maldito eco e só ele é que foi o culpado de eu cair. Ë que atrapalhava-me muito e fazia com que antes de levantar um braço tivesse de pensar com força
que tinha que levantar um braço. Caí lentamente, com plena consciência de estar caindo.
Primeiro senti-me quase bem no chão, embora o eco continuasse a encher-me a cabeça. Quando abri os olhos veio o zumbido e senti raiva de mim mesmo por ter caído. O eco atrapalhava-me a vista a tal ponto que não tinha a certeza do que via, mas depois, quando a minha vista deixou de tremer, vi as duas pernas vestidas de escuro, que, nascidas uma de cada lado do meu corpo cresciam longamente para cima, tesas e tensas, convergindo para a placa de metal brilhante do cinto. Por cima delas, lá em cima, perto da lâmpada do tecto, a cara fitava-me, atenta, sorrindo satisfeita. Voltei a fechar os olhos.
 Senti-me a tremer, mas o eco era mais suportável porque deixava de se processar desordenadamente para ser uma espécie de latejar. Só voltei a abrir os olhos quando tive a certeza de que o tipo já se tinha ido embora, farto de provar aos outros que realmente me batera.

 Eu precisava de ir para casa. Acho que já tinha vontade de o fazer antes mesmo de entrar no bar, por isso, o que aconteceu lá dentro não era o que me levava a ter tanta vontade de ir para casa. Não via a velhota e os miúdos, não sei desde quando, porque ultimamente voltava a casa muito tarde e saia muito cedo, mas não tinha bem a certeza de os querer ver mais alguma vez. A velhota era insípida e os miúdos eram chatos e barulhentos, sempre com porcarias para resolver. Claro que isso não era nada que se comparasse àquilo do bar, de há bocado, ou de todos os outros bares, restaurantes, átrios de cinemas ou quaisquer outros lugares no género em que todos me olhavam duma maneira incomodativa, como que a denunciar em mim um elemento estranho, ridículo, exótico e sei lá o que mais. Que nojentos! E eu sem poder rebentar exactamente por causa do raio da velhota e dos ranhosos dos miúdos!
Aquilo do bar, ainda há bocado, era afinal o que se passava: eu não consegui bater o tipo porque ele era todos os outros, e
exactamente como isso é que ele me bateu. Não adianta contemporizar, tudo é a mesma coisa. Mesmo os que têm a mania de que fazem excepção só são isso em campos neutros ou quando tenham necessidade de vir até mim, porque, em volta deles edificam muros de tabus e defendem-se com os mesmos nojentos olhares enojados sempre que alguém vai para além desses muros. Eu que o diga!
 Eu precisava de ir para casa. Ia comer arroz e caril de amendoim como eles queriam que fizesse, mas não para encher a barriga. E precisava de ir para casa para encher os ouvidos de berros, os olhos de miséria e a consciência de arroz com caril de amendoim.
 Sentada na esteira a velhota estava quieta, a ver os miúdos a comer. De vez em quando levantava-se um e vinha trazer-lhe o prato de alumínio para ela servir-lhe mais. Foi de uma dessas vezes que a velhota deu comigo. Estava com a colher de pau erguida, cheia de arroz, e ia despejá-lo no
prato, quando parecendo lembrar-se de qualquer coisa, se virou para a porta. Logo que me viu espreitou para o fundo da panela e perguntou-me se queria comer.
   — Ainda não sei se quero comer ou não — respondi.
 Virou-se para o lume, demorou-se um bocado a olhar para as chamas com a concha ainda no ar e depois perguntou:
   — Estás zangado? Estás tão zangado que não podes comer e nem sabes se queres ou não?...
   — Não, não estou zangado.
 A velhota pensou ainda um bom pedaço e resmungou:
   — Então está bem, se não estás zangado... E como ao dizer isto estivesse virada para o miúdo, perguntou-lhe como se isso lhe interessasse mais do que qualquer outra coisa.
   — Quito! O que é que tu estás para aí a mastigar sem parar, Quito?
  Antes que Quito desimpedisse a boca para poder responder, a Khatidja berrou lá do fundo:

  — Esse Quito está a mastigar a carne que roubou do meu prato sem eu ver! É minha, mamã! Chi? Quito, tu és um ladrão! — e voltando-se para mim — É minha, estou-te a dizer, Mano!
 O Quito mostrou na palma da mão tudo o que tirou da boca e admirou-se:
   — Esta carne, Kati, esta aqui? Foi a Mamã que me deu, estás a ouvir? — e para mim
   —Não foi, Mano?
 A essa altura já os miúdos estavam num berreiro desgraçado e a velha impôs-se:
   — Shhh!...
 Calou-se tudo num instante menos a Khatidja, que ainda choramingava:
   — É minha... É minha... Ele roubou! Chi! Quito não tens vergonha? Eu vi-te... Mas os outros miúdos ajudaram a velhota:

   — Shhh!... A Khatidja virou-se para eles:
   — Shhh!...
E desataram-se todos a fazer «shhh».
Com a colher de pau ainda erguida a velhota olhava para aquilo tudo. Depois os miúdos fartaram-se da brincadeira e voltaram a comer e o Quito pôs na boca tudo o que tinha na mão. Só então é que a velhota despejou a colher no prato do miúdo. Antes de lhe pôr caril pensou um bocado e voltou a servir-lhe outra e outra colherada de arroz. Quando o miúdo se ia embora perguntou-me com um ar distraído:
   — Mas é verdade que não sabes se queres comer ou não?
   — Bem, e se eu quiser? (Aborrecia-me aquela insistência, caramba!).
 A velhota pareceu ficar aflita. Espreitou para o fundo da panela e sorriu-se para mim como que a desculpar-se:
   — Ê que só há ucoco!
 Lá dos cantos os miúdos comentaram: Chi!! A ucoco?! O Quito fez «shh» e tudo se pôs a fazer «shh».

A velhota berrou e os miúdos continuaram a comer.
   — E então por que é que insistes em perguntar se quero comer? E o que é que tu vais comer?
   — Eu não tenho fome — respondeu a velhota.
   — Mas não há mais comida, não é isso?
   — Eu não tenho fome... Não tenho, juro que não tenho. Mas se tu quiseres faço chá num instante, queres?
   — Eu também não tenho fome.
   — Nesse caso faço chá para os miúdos, para eles tomarem, se continuarem com fome.
 Depois não me pude furtar ao impulso de abraçar a velhota. Ela manteve-se quieta quando enterrei a cabeça entre os seus seios. Rindo-se nervosa, protestou:
   — Mas tu não costumas fazer isso... E continuou a rir-se até ter coragem de me apertar nos braços.
   — Meu filho...

Senti-lhe os dedos ásperos a percorrerem-
-me timidamente ia cara. Depois beijou-me e riu-se muito. Ouvi os miúdos a rirem-se também.
 «Tu não costumas ser assim! O que é que foi... Meu filho... Meu filho... Tens fome? Queres que faça chá para ti?»
 Eu já não ouvia aquele tom de voz desde não sei quando e talvez nem me lembrasse de o ter ouvido alguma vez.
   — Bateram-te? Diz-me, meu filho, eles bateram-te? Quem foi?
   — Não, não me bateram.
   — Mas eles fizeram-te alguma coisa, não fizeram? Tu estás com raiva, não é?
 Tentei não falar, mas não tive tempo de pensar:
  — Eles destruíram tudo, eles roubaram, eles não querem...
 Senti-a prender a respiração e endurecer ligeiramente.
   — Não queres contar? Não? Não queres?
   — Não serve de nada. Os miúdos aproximaram-se
:
  — Conta, conta...
   — Nada, vocês hão-de crescer, agora não chateiem.
   — Sim, meu filho, há o tempo, o tempo... Tudo há-de mudar, tudo há-de melhorar... E quando eles crescerem...
   — Hão-de crescer... Pois hão-de crescer nisto...
   — De verdade que não queres contar?
   — Conta, conta!—e os miúdos rodeavam-nos na esteira.
Não, eu não contaria. Não fora para isso que viera para casa. Além disso, não seria eu a destruir neles fosse o que fosse. A seu tempo alguém se encarregaria de os por na raiva. Não, eu não contaria.
   — Meu filho... Acho que me sobressaltei ao ouvir a velhota.
   — Meu filho, eu não entendo bem o que estas para aí a dizer, palavra que não entendo. Mas tu tremes, tu estás ou assustado ou muito zangado ou outra coisa qualquer, e o que tu dizes não é bom, porque estás a tremer, palavra que estás a tremer...
 Talvez a velhota tivesse razão porque deve ser raro a velhota
não ter razão. Mas de toda a maneira isso não modificava nada. Eu não contaria e pronto; e ainda que contasse de que serviria isso? Sim, de que serviria, se a porcaria, o raio da porcaria daquilo tudo viria para aqueles miúdos com outros pormenores, em outras circunstâncias e com outros nomes?
   — Eh, vocês todos! Dormir, anda! Sim, dormir, o que é que estão a olhar? Dormir!... Mas... quem sabe? E também por que não acreditar? Por que não acreditar em qualquer coisa de giro? Como por exemplo que a formação dos miúdos fosse diferente da minha e que lhes conferisse uma condescendência para com aquelas coisas, uma condescendência que as minhas coordenadas emocionais não comportavam... E que talvez, eu sei lá, que talvez para com eles o tempo obrigasse a mais compreensão, mais carinho, sim, a mais humanidade... Porque talvez a velhota tivesse razão, há o tempo, o tempo...
   — Meu filho os miúdos já se foram...

  — Sim, eu vou dizer: eles bateram-me.
   — Quem foi? Mas isso não é tudo, tu tremes...
   — Sim, isso não é tudo. E até não é nada. Eles fizeram-me pequenino e conseguem que eu me sinta pequenino. Sim, é isso. Isso é que é tudo. E porquê? Eles nem o dizem de alto. E tudo cai, cai de repente, com barulho aqui dentro, e cai e cai e cai...
   — Bem, acho que o melhor é não querer saber disso para nada, porque não percebo nada do que tu dizes...
 Ficámos silenciosos os dois, e de tal maneira estávamos abraçados que não sabia se era realmente ela que tremia. Tenho a impressão de que só neste momento é que vi as chamas, embora estivesse há muito tempo a olhar para elas. O seu calor era bom e envolvia-nos, mas para isso elas torciam-se num bailado estranhamente rubro. Só deixei de as olhar quando a velhota falou duma maneira que me fez logo pensar que ela tinha estado um bom pedaço a matutar na maneira de me dizer qualquer coisa que afinal não disse. Acho que ela só disse:
   — Meu filho...



Edição de 1972

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