A ÉPOCA DE UMA PROPAGANDA MENTIROSA PARA DAR CABO
DE UMA "NAÇÃO"
Mas passemos ao caso isolado
e particular do país europeu que primeiro lançou os seus navegadores à volta
daquele Continente, Portugal. Parcela pequeníssima da Europa, situada numa
posição privilegiada, virada para o Oceano Atlântico, o que a inspirou a
lançar-se à procura de novas terras, única possibilidade de se expandir. E este
é o ponto alto da história de um povo que conseguiu, apesar de pequeno, a
admiração e o respeito do Mundo de então. A História deste povo é
preciosíssima!
As ondas do mar não têm fim e
a história de um povo também não pode acabar. Mas através de convulsões
políticas aparecem indivíduos que até isso tentam. Foi o que aconteceu àquele
glorioso Portugal que tantos e tantos heróis forjou e, de repente, se viu
governado por indivíduos sem a mais leve centelha de governantes e que fizeram
dele o algoz sanguinário, imolador, dos povos que viviam nessas parcelas sob
sua bandeira, sob sua influência e que, de repente, se viram entregues
traiçoeiramente a senhores que de facto os escravizarão.
De pasmar, a maneira hedionda
como este crime de lesa Pátria foi cometido. Muito se tem escrito sobre uma
triste e desgraçada "epopeia" engendrada por cérebros loucos ou
ambiciosos capazes de vender a Pátria, ou idealistas com pouca ou nenhuma
capacidade para aquilatarem dos resultados que adviriam da situação que
criaram. Mas que se escreva mais. Que se apontem os poucos indivíduos que tão
mal fizeram a milhões de compatriotas. Uns já foram apeados, mas outros
procuram a todo o transe manter-se num estrado que ajudaram a construir e que
julgam dar-lhes segurança, mas estão enganados. Os alicerces desse estrado, do
lado que diz respeito ao Ultramar, são feitos de cadáveres, seres humanos destroçados,
angustiados, desesperados e depressa hão-de ruir. Porque não se fala já no
exemplar processo de “descolonização”? Eles não falam. E para esquecer? Tal
assunto está encerrado? É assim que se liquida tanto povo? Temos de ver como
foi e como é.
É toda a África portentosa ao Sul do
Equador que está a sofrer das maiores tragédias da humanidade, sem que o Mundo
Ocidental se queira aperceber clara e abertamente de uma situação que
contribuirá, a não muito longo prazo, para o extermínio desses povos. O processo
é simples. "Entregue-se essa África aos negros. Forneçam-lhe armas e
munições. Diga-se cá por fora que a África está muito bem entregue, a quem de
direito. Deixem-nos". Daqui a uma dúzia de anos, dos poucos mais de cem
milhões, que é a população ao Sul do Equador não existirá metade. Em lutas
tribais, destruir-se-ão. Mas felizmente isso não acontecerá. Malgrado
essas ideias tenebrosas nem toda essa África será assim destruída.
Verdadeiramente, a sua ocupação pêlos europeus pouco excede um século. Até aí a
fraca população desse território procurava viver onde o clima lho permitia com
os seus frágeis recursos e até fugindo a certas regiões litorânicas, sobretudo
onde havia porto de mar e o tenebroso mercado de escravos os ameaçava. Lá bem
no sul, ponto de passagem obrigatório para os navegantes, o Cabo das Tormentas,
Cabo da Boa Esperança, estava designado pela força das circunstâncias a ser o
ponto mais rapidamente ocupado. O clima era temperado, quase frio, dada a
influência do Pólo Sul. Podia considerar-se um clima mediterrânico. Muito pouco
povoado, possuía belíssimas terras. Em 1652, ainda pertença da Holanda, fixa-se
lá, para fugir a perseguições religiosas, uma grande colónia de Boers, gente de
estirpe holandesa muito trabalhadora, que vai desenvolvendo nos campos de
agricultura e pecuária essa região imensa. Em 1815, a Holanda cede essas terras
à Coroa Inglesa. Os Boers não se conformam. Organizam, a seguir, o maior êxodo
de que há memória em África. Epopeia grandiosa, e nos seus carros de bois e de
cavalos, os célebres carros boers de que os filmes dão uma ideia na conquista
do West americano, metem-se África acima que, naquele tempo, era praticamente
despovoada, andam milhares de quilómetros, fundando pelo caminho os Estados
Livres de Orange, do Natal e a República do Transval. Isto em 1835. Com um
potencial tremendo de resistência e trabalho, vão transformando aquelas terras
numa nova Europa. Um dia descobriram ouro e então os Ingleses, sempre com o seu
espírito de piratas comerciantes, procuraram anexar tudo aquilo. Houve guerra.
Ainda hoje os Boers não perdoam aos portugueses terem deixado entrar por
Moçambique fortes contingentes de tropas inglesas que, muitíssimo superiores às
suas, os obrigariam a assinar em Março de 1881 o Tratado de Paz de Pretória,
com fracos resultados, pois, a seguir, foram desencadeadas guerrilhas, as
primeiras em África, que se tornaram lendárias, não dando nunca descanso aos
Ingleses, até que estes, em 1902, se viram obrigados a assinar um novo acordo,
que acertava ser a bandeira inglesa a flutuar, mas esses novos Estados
continuavam livres.
Mas nunca os europeus que
ocuparam África fizeram como os europeus que ocuparam a América do Norte que,
através de massacres, quase acabaram com os habitantes legítimos que lá encontraram.
A América tem de meditar nisto!
A ocupação da Austrália ainda
foi mais selvagem. Isso nunca aconteceu em África. E aos portugueses que, com a
Cruz do Cristianismo catequisaram milhões de nativos que se encontravam num
atraso brutal, se deve haver hoje homens com uma formação digna, que evitaram
que os seus irmãos fossem levados a uma situação de mais primitivismo ainda e
condenados a morrer como escravos, de facto. É essencial que o Mundo compreenda
que Portugal foi o país colonialista "assim se chama agora" a que
África ficou a dever mais.
Os Boers foram
desbravando e agricultando essas terras virgens, criando condições de vida. Com
a descoberta do ouro, a África do Sul tornou-se num Eldorado, que atraía gente de todas as partes do Mundo. E os negros também
foram afluindo e dá-se o facto curioso, mas natural, de ser o negro português,
o que em maior número acorreria àquelas regiões. As terras de mais calor eram
as mais povoadas e Moçambique tinha uma faixa litorânica, quente, de quase dois
mil quilómetros. Através dos anos, centenas de milhares de negros moçambicanos
foram ocupando também essa nova terra que lhes oferecia melhores condições de
trabalho e de vida. Com outros, chegados de territórios limítrofes, nunca
pararam de crescer e hoje a sua população é calculada em dezoito milhões. Mas
os brancos também nunca deixaram de crescer e hoje a África do Sul tem cerca de
cinco milhões de brancos. A sua história é, portanto, diferente da de todos os
países negros que nestes últimos anos têm batido o pé a quem os ocupava e
obtido a independência. A África do Sul é hoje um país independente. Uma
independência legal, concedida pela Inglaterra em 1961.
E como o disco é sempre o
mesmo, ele é acusado de país opressor, esclavagista e imperialista.
Já na História Contemporânea
os países europeus introduziriam, a troco de ouro garantido por contratos em
seu proveito, as avalanches de quase escravos que iam trabalhar para as minas
em condições deficientes e que, quando regressavam às suas terras, os que
regressavam, vinham cheios de vícios e de doenças, o que nunca permitiu grande
desenvolvimento às suas populações.
Veja-se o que
aconteceu no Sul do Save, Sul de Moçambique, de onde ia todos os anos o grande
potencial de mão de obra para as minas do Rand. A sua população nunca
aumentava.
As Rodésias, colónias
inglesas, contribuíam. A Niassalândia, hoje Malawi, também colónia inglesa,
contribuía e a própria Angola mandava para lá gente.
A Europa desgastada e derreada pelas guerras
contínuas, vai caminhando sempre para um campo de
devassidão e desmoralização totais. Os seus grandes técnicos emigraram. Foram
enriquecer sobretudo a América do Norte e alguns, até pela força, a Rússia. Mas
por mais que estes países queiram manobrar o Mundo, uma coisa é certa: o
problema da África do Sul eles não o resolverão como
estão a querer. A África do Sul é como uma nova e potente Israel, que nunca
cairá. Claro que através da propaganda de jornais e rádio, cria-se a ideia,
sobretudo aos povos em retrocesso -a Europa em primeiro lugar – que ela cai
hoje mesmo! Mas não. Felizmente que até já vão aparecendo líderes negros que
se aperceberam do caos a que a querem levar.
A não ser que venha a
deflagrar ali um conflito a nível Mundial, em que aquele povo seja dizimado ou
se veja obrigado a sair, ela não cai. E até porque tem força para fazer uma
guerra!
E será o país que melhor
contribuirá para o progresso e bem estar de todos os povos da África Austral e
a Europa nunca lucraria com a sua queda.
Saiba o Mundo que as maiores
capacidades negras nos campos da medicina, engenharia, jurisprudência e tudo o
que represente progresso está ali. De há muito lhes foram criadas
possibilidades de se desenvolverem a todos os níveis e quem dera aos povos de
alguns países europeus terem tido as facilidades que eles tiveram!
As arestas que existem entre
os grupos que a ocuparam, brancos e negros, eles mesmo as hão-de limar sem que
o exterior se intrometa. Só ela poderá garantir um povoamento europeu nas suas
vastíssimas áreas desocupadas. E a Europa precisa de escoamento. Portugal, cuja
população era superior a vinte e cinco milhões, quando possuía as terras do
Ultramar, vê-a hoje reduzida a menos de dez milhões e o pior é que esses
dez milhões não têm para onde se virar. Como acabarão ou como hão-de viver,
ninguém sabe.
Mas o fenómeno que
atirou Portugal para a situação de miséria em que se encontra tem as suas
raízes.
Trava-se uma guerra, cujo
desfecho vem demonstrar a decadência de um povo que se impôs ao Mundo.
Precisamente no seio dessa guerra, entre
os soldados que solenemente juraram defender a integridade da Pátria, a sua
bandeira, estava o gérmen que, maquiavelicamente lançado e manobrado por
técnicos de revoluções levaram o país à situação miserável que atravessa hoje.
Não esquecer que houve muitos e muitos espertalhões que fizeram fortunas
colossais em pouco tempo e desonestamente à sombra desta guerra. Qual honra
militar nem qual carapuça? Isto não terá que ser um dia explicado? E a
catequese foi fácil! Uns poucos
chefões do exército, ambiciosos do poder, foram
devidamente aliciados e daí até chegar aos resultados do que se pretendia, foi
simples. O cerne do exército, neste caso, era naturalmente, a classe dos
capitães. Uma rapaziada habituada a outra vida ter de continuar a gramar
aquilo? Até porque era uma guerra muito chata! Da Metrópole, já sabiamente
minada por ideias subversivas, iam chegando notícias alarmantes e
desconsoladoras, preparando o campo. De facto, na guerra propriamente dita,
pouca soldadesca morreu. Morreu bastante, sim, em desastres de carros mal
conduzidos. Causava estranheza aos que lá labutavam o imenso número de
analfabetos que constituíam esse exército. Oficiais superiores pouco viveram
nas zonas remotas, onde poderia haver guerra. Mantinham-se pelas cidades
principais onde a maioria, para não perder até o seu treino de línguas e de
matemáticas, dava explicações aos estudantes dos liceus locais. Os capitães é
que tinham de estar à frente das Companhias de que eram comandantes, espalhados
por aquele mato imenso, algum perigo, poucas comodidades e, pior ainda, é que
era em média dez/doze anos o período a cumprir nessa classe, sem qualquer outra
alternativa. Para os casados, que podiam levar para lá as mulheres, a
dificuldade era a de quando as levavam, nem sempre as podiam ter nas regiões
para onde eram destacados e lá ficavam elas por aqui e por ali, na mesma, longe
deles. Era, de facto, uma situação muito chata e seriam anos e anos a suportar
tal vida.
Aparece assim um exército em
condições óptimas para começar a ser minado por ideias absolutamente contrárias
a uma tal guerra de distância, que era superior ao perigo e nisso os agitadores
foram exímios. Na Metrópole, com o terreno devidamente preparado, começava a
reinar a imoralidade e o desrespeito. Estava pois tudo preparado para uma
revolução há muito esperada, que, porventura, seria necessária, mas nunca numa
base destas, como aconteceu. Deu-se a revolução. Mas e, felizmente, uma grande
parte de oficiais não concordou com a política que se seguiu pois, só mais
tarde, notariam que os tais ambiciosos se aproveitariam dela para entregar este
já desgraçado país, tal como fizeram de imediato ao Ultramar, a uma Rússia
gulosa, sempre alerta, para colher na devida altura os frutos de tão traiçoeira
sementeira.
Em Portugal, apesar da
cegueira e barafunda causada por tal revolução, ainda houve homens que talvez
tenham visto a tempo a amplitude trágica a que ela conduziria o país. E
procuraram salvá-lo. O que nunca poderão esquecer é que a propaganda para
escangalhar tudo o que há ou possa aparecer de bom, nunca acaba.
O jornal, a rádio, a
televisão, eis os grandes órgãos aproveitados para as propagandas mais nefastas
a aproveitarem-se de um povo francamente atrasado que cegamente acredita poder
ter uma vida fácil e farta, sem trabalhar, sem produzir.
Qualquer analfabeto, e ainda há muitos, discute
arrogantemente a sua política,
que para ele só significa um almejado bem estar. E é
vê-los. Muitas vezes, essas
discursatas de nível incrivelmente baixo e ridículo,
são acompanhadas de grandes
escarradelas demonstrativas do nível a que o povo chegou.
E o
Ultramar vai sendo esquecido. Muitas centenas de milhares de portugueses
que labutavam e viviam nessas parcelas, muitos milhões de naturais que não
conheciam
nem queriam conhecer outra bandeira ou outro hino, que não fosse o português,
viram
de repente essa bandeira amarrotada, rasgada e espezinhada por elementos
sabiamente
trabalhados. Se em Portugal se chegou a pensar que chegaria o Apocalipse, lá
chegou
mesmo.
Que crime cometeram eles para serem
vítimas de tal situação? Mas esse povo, e mal preparado e sempre crente na
parlapatice de qualquer vendedor de banha de cobra, aplaude delirantemente todo
o canalha que tenha a habilidade de lhe falar ao coração. Ele ignorava, porque
nunca fora esclarecido, que havia por lá uma mocidade |que também defendia até
à morte a soberania de Portugal, da sua Pátria que era a única que conhecia.
Mas essa mocidade viria a pagar, mas sempre uma paga arbitrária, aproveitada
pêlos desonestos, os traidores! E chega-se até a este cúmulo: nascem em
Moçambique que era portuguesa há perto de quinhentos anos, dois cidadãos que, a
determinada altura, como soldados, estão metidos naquela guerra. Ela acaba. Um
dos soldados, porque não teve nenhum ascendente nascido em Portugal, embora
tenha já uma perna a menos, perdida heroicamente no campo de batalha, a sua
cruz de guerra ganha nesse campo, não pode ser português. O outro, que teve a
sorte de ter um ascendente nascido em Portugal, pode ser dos tais parlapatões,
pode ter sido um traidor, mas pode ser português e até se pode candidatar aos
mais altos cargos da vida nacional.
Como é que este povo se deixa enganar? Brada aos Céus!
A Rússia de há muito procurava
infiltrar-se na África Austral. A China com a sua manha, silenciosamente já
tinha espalhado os seus tentáculos lá para o Sul. Na década de 1960 começou a
construir-se a longa linha férrea que liga Lusaca, bem lá no interior de
África, a Dar-es-Salam, já no Índico, e tanto na Zâmbia como na Tanzânia, foram
ficando milhares de chineses que ajudaram a construir esse caminho de ferro.
Estava também lançada a semente a Norte.
E aqui reside a grande
diferença nas políticas expansionistas. Torna-se difícil vermos na África
Austral meia dúzia de russos, mas já vamos vendo, senão centenas, pelo menos
muitas dezenas de milhares de chineses. Não pense a Rússia que tem ganha a sua
batalha da África Austral!
Como é triste apreciar-se nos
programas de propaganda a verborreia de certos indivíduos que vão às grandes
parcelas do Ex-Ultramar português, mesmo em representação do Governo, e chegam
cheios de boas notícias que depressa querem transmitir ao povo: só, resultados
positivos, que eles conseguiram com os tiranetes. Estas palavras:
"resultados positivos" é o "slogan" mais adequado que ultimamente
arranjaram para toda a casta de sujeiras.
Compreende-se que a política
interna de um país se faça como o momento actual vai proporcionando, para
agradar a um povo que se queixa de estar atrasado, graças a um Governo anterior
"que durou muito", mas esse mesmo povo que vá vendo também, que se
falharam todas essas farturas prometidas, só a miséria o envolverá.
Analisando esses
políticos que aparecem aos molhos a aproveitar-se da grande máquina que é a
Televisão, vemo-los armados em redentores, defensores das liberdades do povo.
Eles acabam com a miséria, oferecem regalias e mais regalias a torto e a
direito. Ao fim e ao cabo, o que pretendem é ocupar lugares cimeiros nesta
escadaria política que se lhes depara, bons carros e bom dinheiro. Como o povo
vai nisto! Mas o povo é assim. Gosta disto. Bate palmas e vai dormindo na bela
ilusão.
Mas temos de analisar também que esses políticos
têm de dar contas a esse povo abrangido por uma bandeira, que não abrigava só
estes dez milhões de portugueses metropolitanos. Havia lá por fora outros
milhões que se viram entregues a um futuro de miséria, inaudito, brutal e
surpreendente.
Havia em Moçambique
vários partidos, lutando pela sua independência. Foi em 1964 que a luta se
tornou mais acesa e embora potencialmente fraca, foi criando o ambiente de
desassossego provocado sempre pelas guerrilhas. Os dez anos seguintes marcaram
o período mais grandioso, de maior desenvolvimento a todos os níveis, de todo o
seu Povo e de todas aquelas terras, em toda a sua história.
Dá-se o 25 de Abril na
Metrópole e então como já prevista e imediatamente preparada, há que resolver o
"problema do Ultramar" que era como que uma "batata quente"
na mão de um Governo que tinha aparecido com todos os requintes de habilidade e
que desapareceria logo a seguir, mas que assinou o maquiavélico Acordo de
Lusaca, a maior traição jamais cometida na História por um exército de
pergaminhos de ouro, que se transformou de repente e vilmente no algoz de
muitos milhões de portugueses. Sim, porque o Governo era de militares e foram
eles que ditaram o que aconteceu na época. Resolveram ou já tinham resolvido,
sem consultar qualquer outro partido, porque a "batata" estava a
escaldar e tinha já compromissos, entregar Moçambique a um, à Frelimo, por sua
vez já bem transformada num poderoso baluarte da Rússia, que de há muito
trabalhava para se infiltrar. A traição para os muitos portugueses, que tão
cruel e levianamente foram entregues, partiu do glorioso exército que, chamando
a si uns poucos civis previamente trabalhados também, cegos pela ambição e que,
conhecendo bem o passo que se ia seguir, a nada olharam para atingir os seus
fins. Foi assim que se consumou o acto mais covarde da história, do povo que
eles diziam representar. E foram esses filhos de uma Pátria com quase nove
séculos de existência, quais Migueis de Vasconcelos, que ultrajaram a sua
história. Mas o que pensarão eles, alguns ainda no galarim governamental desse
povo atraiçoado?
Será este o marco histórico,
só comparado aos descobrimentos que eles apregoariam nas suas propagandas? Mas
se foram tão habilidosos para chegar ao ponto a que se chegou, que habilidades
terão agora para remediar a mísera situação a que levaram tanto povo? Têm
também de apresentar essa habilidade. É muita gente desgraçada por eles a
exigir justiça.
Naquele tempo, naquele ciclo,
Portugal atravessou mares à procura de novas terras para se expandir. Teve meio
mundo debaixo do seu domínio. Ciclo de facto grandioso! Levou muitos e muitos
anos nessas conquistas. Agora neste tempo, neste tal ciclo, Portugal entrega à
sua mercê, mais, entrega a um país cheio de ambições de dominar o Mundo, os
povos que tinham como sua a bandeira portuguesa.
Esta, a parte negativa da Revolução de 25 de
Abril. Moçambique há cem anos pouco era. Há cinquenta anos que possuía um dos
melhores portos para a navegação que existia em toda a África e que muito
contribuía para a expansão do desenvolvimento, a todos os níveis, que se ia
verificando no interior da África Austral: Lourenço Marques. A seguir, o porto da
Beira, situado no centro e, ao Norte, ia crescendo o porto de Nacala que, com
condições naturais ímpares no Mundo, se preparava para destronar o de Lourenço
Marques. Nas últimas décadas, Moçambique progredia de uma maneira avassaladora.
De qualquer maneira, os
Governos foram olhando para os vários campos que acompanham o desenvolvimento
de um país e, quer no industrial, agrícola, sanitário e educacional, estava a
dar-se uma reviravolta fabulosa. E tudo parou quando foi feita a entrega.
O povo, este magnífico
povo português, através de mentalização falsa mas preconcebida, e incluo muitos
intelectuais que tinham obrigação de ver mais à frente, estava convencido que
Moçambique não era mais que um encargo pesado para a Metrópole. Nunca foi
explicado a esse povo que o ouro que vinha para Portugal, mercê de contratos
entre o seu Governo e o da África do Sul, vinha de Moçambique. Ouro, muito ouro
que para cá veio, que tem sido desbaratado, que acabará e não haverá mais onde
o ir buscar. Moçambique era um dos primeiros produtores de castanha de caju do
Mundo. Produzia açúcar que mandava para a Metrópole a
um preço irrisório, pois o Governo tinha contrato que lhe garantia isso.
De lá eram mandados óleos, algodão, chá e até os
maravilhosos mariscos.
Vinham ainda, arroz, milho, feijão e tantas coisas mais.
Aquilo é quase nove vezes maior que Portugal.
Este povo está a pagar bem
caro o desconhecimento que tinha do Ultramar. Meia dúzia de ambiciosos com
manhas de grandes políticos, sem o ser, resolveram atrofiar este país,
reduzindo-o às fronteiras de antanho, pequeno e miserável e armam--se em
arautos de uma política universal, como se alguém ouvisse as suas vozes.
Hoje só a propaganda interna
os projecta. Reduziram a zero o que se tinha conseguido através de séculos. Abandonaram
à sua sorte milhões de portugueses que faziam parte do seu Mundo e assim, em
nome da humanidade, condenaram os seus próprios irmãos.
Mas não irão para lá os
Russos, não. Eles até já arranjaram uma guarda avançada que os representa, os
Cubanos. A sua política ainda não admite exportação de russos. Fazem muita
falta no seu território porque têm ainda muito a resolver dentro das suas
fronteiras. Nada de enfraquecimentos internos e têm um inimigo constante, a
China, que não os larga.
A Rússia que se mostra no galarim procurando
corromper Governos por essa África abaixo, não se apercebe que do lado direito
também lhe pode aparecer o Apocalipse que ela procurou criar a este País, o
mais a Ocidente da Europa. Mas a verdade é que Moçambique foi entregue e está a
sofrer o infortúnio a que os traidores a levaram, pensando que o golpe foi
fatal, quando não foi. Muitos milhares de soldados, que por lá defenderam a sua
bandeira, porque o tinham jurado, fugiram, atravessando as fronteiras e
organizando-se como podem: estão hoje a arremeter contra os mandões que
repudiam. Surgem até notícias que, tal como outrora existiu um Lawrence da
Arábia, existem hoje vários Lawrences da África Austral, de origens secretas,
quais Sertórios e Viriatos, que estão à frente desses traídos, escrevendo a
pouco e pouco uma nova História de Guerra que um dia será também cantada. E
será também por isso que em Moçambique jamais haverá descanso!
É de pasmar, para quem
conhece aquela terra, como determinados indivíduos ainda aceitam convites,
através de uma propaganda sempre enganadora, que lhes acena com bons ordenados,
fáceis de seduzir, ambiciosos que não vêem a armadilha que lhes está a ser
preparada. Na mais pequena escaramuça que surja, o branco, sobretudo o
português, será sempre o primeiro a cair. Vejam o que aconteceu no Moatize,
minas de carvão lá bem no interior, perto de Tete, em que vários técnicos
portugueses foram simplesmente massacrados à catanada, sem responsabilidades
para ninguém; a aviões civis, voando tranquilos a bem ainda dessa terra,
alvejados e abatidos, sem qualquer motivo e o que vai acontecendo a muitos dos
cidadãos que lá ficaram, embora nada transpire cá para fora e o que irá
acontecer a muitos outros que para lá irão absolutamente intrujados.
Apesar de tudo o que aconteceu
e vai acontecendo, a terrível verdade é que ainda há portugueses incautos que,
através de propagandas sempre mentirosas mas sedutoras, acabarão por cair
também.
Mas reparem que a Escola da
Grande Traição fora já inaugurada por portugueses responsáveis, ao afirmarem
que o Acordo de Lusaca iria ser rigorosamente cumprido e, para o garantir, existia um exército forte e capaz que,
por um período que agradou a todos, asseguraria paz e segurança a quantos
viviam em Moçambique. Mas logo a seguir, políticos e o próprio exército, à
pressa, abandonavam Moçambique com dois "manguitos" para os que lá ficavam absolutamente indefesos e entregues às
feras, rumando à Metrópole, procurando candidatar-se com um descaramento
inaudito ao que eles julgavam os lugares mais cimeiros, mais seguros e mais eternos, para gozarem à vontade a sua
diabólica esperteza.
Portugal possuía nesse tempo
uma área de dois milhões e cem mil quilómetros quadrados, reduzida
precipitadamente para noventa mil!
Ao fim e ao cabo, o
traidor acaba sempre por ser descoberto. Se naquela altura fossem adivinhados
os seus desígnios, ter-se-ia voltado o feitiço contra o feiticeiro e eles
teriam muitos milhares de manguitos a cair-lhes em cima. Mas não! Vimo-los e
vemo-los ainda hoje numa luta infeliz e triste a quererem agarrar-se, quais
abutres, à carcaça de uma Pátria tragicamente prostrada, que só recuperará
quando homens dignos e não eles, tomarem conta do seu Destino.
Um Hino Nacional como o nosso,
fazia-nos vibrar, desde o mais miúdo ao mais velhinho, cheios de respeito, de
pé!
Note-se que lá longe, a muitos
milhares de quilómetros, os portugueses que por lá labutavam, sentiam muito
alto o seu significado.
A sua letra era arrebatadora!
Mais tarde eu ouviria
de portugueses, portuguesíssimos, comentários cheios de amargura, mas sinceros:
Que significado tem hoje a letra do nosso Hino?
Meditem!...
Em que mãos
caíra aquela "NAÇÃO VALENTE E IMORTAL?"
Passavam-se anos de
infortúnio. A idade avançava e eu não via maneira de vislumbrar alguma luz que
indicasse qualquer solução.
O pior que pode acontecer a um homem
nestas condições é ser apanhado por uma doença que, de uma maneira geral, é
mortal: a "ansiedade".
Para muitos foi a maior doença que se deveu à “Descolonização”.
Sem ter abrigo, que comer,
vestir, comprar remédios e deslocar-se para aqui e para ali sem ter dinheiro,
era o fim!
E eu quase ia sendo
apanhado por ela. Mas, em 1991 tive conhecimento e só demasiado tarde, que em
1982 tinha saído um decreto - 404/82 - e depois, em
1987, outro -140/87 - que davam esperanças a todos que muito trabalharam no
Ultramar e que de lá saíram na penúria.
O meu caso, acompanhado sempre
e sempre pela minha mulher, era que viríamos a
passar fome, se não fosse a intervenção de um filho.
Eu tinha tido na vida,
Esperança e Fé! Agarrei-me a esses decretos e requeri. Passaram-se ainda quatro
anos mas, finalmente, algo consegui para minorar a minha vida, o meu fim de
vida. Bem dizia atrás, que Governos mais capazes haveriam de chegar, até que
Portugal se levante do caos em que viveu. Foi no Governo de Aníbal António
Cavaco Silva!
Em 1994!
E, por isso, para que outros colegas e não só, que eu sei estarem a viver com imensas dificuldades, se habilitem ainda à dádiva que o Governo oferece. Penso que a maioria não o fez por desconhecer este pormenor e, então eu junto o resumo do meu processo na esperança de que alguns venham ainda a beneficiar.