XIV
25 DE ABRIL—A ALEGRIA DO REGRESSO NUM PAÍS A RECONSTRUIR
Foi um simples movimento de
capitães preteridos nos seus direitos que fez deflagrar a bomba do 25 de Abril.
A reacção contra, a regime, porém, já vinha de longe. Chegara-se à conclusão,
aliás sustentada por altas patentes militares, de que as guerras coloniais não
podiam ter uma solução militar. E os militares estavam cansados de guerra, de
uma guerra que sabiam antecipadamente perdida, à sombra da qual muitos se
locupletaram, mas que exauriu o Tesouro e sacrificou milhares de vidas.
Por outro lado, na Assembleia Nacional, ergueram-se vozes discordantes
de alguns deputados que lutaram corajosamente pela liberalização do regime, no
meio da incompreensão e, muitas vezes da assuada, dos correligionários de
Salazar. A chamada «ala liberal», a que
pertenceram Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, Magalhães Mota, Francisco
Pinto Balsemão e outros, entre os quais não pode esquecer-se o malogrado Pinto
Leite, que havia de perder a vida, desastrosamente, ao sobrevoar a Guiné em
guerra. Uma voz da Igreja, o bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que
pagou com um longo exílio a sua oposição às ideias do ditador, fazia coro com
os protestos, timidamente expressos, que partiam de diversos lados da opinião
pública.
O «Movimento dos Capitães»
abriu o caminho para a jornada de 25 de Abril e o povo, cansado de sofrer, não
lhe faltou com a sua adesão entusiástica, espontânea e vibrante, bem diferente
das manifestações organizadas e dos aplausos orquestrados com que eram
saudadas as figuras do regime em cata da consagração pública. Se considerarmos
que o país era governado por uma camarilha que, em relação ao Governo de
Marcelo Caetano, se podia considerar um conselho de família constituído por
parentes e compadres; que os governantes viviam na doce ilusão de que a opinião
pública estava com eles e reprimiam com a maior severidade (e dessa repressão a
famigerada PIDE deixou memória execrável, que não se apagará tão cedo da
lembrança das gentes) qualquer veleidade de revolta que se esboçasse no país;
que o povo português fora privado das liberdades fundamentais e se tomavam em
seu nome, sem o consultar, decisões que podiam comprometer a própria sobrevivência
nacional, temos de reconhecer que o 25 de Abril foi um movimento libertador que
restituiu ao povo português a consciência da sua força e lhe conferiu a
independência a que a sua maturidade política lhe dava direito e lhe era
negada sob o falso pretexto de que não estava ainda preparado para assumir as
responsabilidades de um regime democrático, ao mesmo tempo que os seus
opressores faziam tudo para lhe reduzir ainda mais essa pretensa impreparação.
Em 16 de Maio, quando não se tinham
apagado ainda os ecos da estrondosa manifestação que trouxe a população de
Lisboa em peso para a rua, nesse 1.° de Maio memorável, desembarcou no aeroporto da Portela,
vindo do Brasil, um homem que consagrara uma vida inteira ao serviço da Pátria e à causa da
Democracia e da Liberdade — o capitão
Sarmento Pimentel, figura de lenda, herói do 5 de Outubro e das guerras de
África e da França, participante em todos os movimentos que lutaram para
derrubar a ditadura e que fora obrigado a exilar-se no Brasil devido à perseguição que lhe moveu o ditador. «Espelho
de portugueses», como o prof. Rodrigues Lapa o considerou. «Grande figura
nacional», como o prof. Fernando Fonseca lhe chamou, «cujo passado nos garante
a luta pela unidade democrática». À sua volta, reuniram-se num banquete dezenas
de pessoas das mais representativas e de todas as cores políticas irmanadas no
mesmo propósito de lhe prestar homenagem. Pode dizer-se que foi a última
grande manifestação em que tomaram parte, a par de republicanos históricos,
como Nuno Simões; combatentes de extrema-esquerda, como Palma Inácio; políticos
de formação tão diferente como Arlindo Vicente e Piteira Santos; escritores de
índole tão oposta como Ferreira de Castro e Urbano Tavares Rodrigues;
jornalistas de tão diversas tendências ideológicas como Francisco Pinto Balsemão
e Miguel Rodrigues. Um dos convivas, e dos de mais arreigadas convicções
democráticas, Lúcio Tomé Feteira, não tardaria a ser desapossado dos seus
bens e expulso das suas instalações industriais, vendo-se na dura necessidade
de se expatriar novamente, ele que já sofrera as amarguras de um longo exílio
imposto pela ditadura de Salazar. Lavrava já a indisciplina social que havia de
levar Sarmento Pimentel a desejar, no belo discurso que proferiu, «a concórdia
entre os portugueses (concórdia que os factos haviam de desmentir dentro em
breve) como base indispensável para a construção <de um país novo sobre as
ruínas do medo, da vergonha e da prepotência». Não se esqueceu também o orador de pedir
aos novos políticos que não repetissem os erros da I República pelo que dizia
respeito à questão social e aos problemas económicos. E os erros repetiram-se e
agravaram-se.
Segue o depoimento de um homem a quem a idade conferiu proveitosa
experiência, testemunha lúcida e imparcial dos acontecimentos, um ano e meio decorrido
sobre a visita que fez a Portugal em seguida ao 25 de Abril e após quarenta e
sete anos de exílio.
P.
— Como tomou conhecimento da revolução de 25 de Abril?
R. — Eu não estava em S. Paulo, tinha ido à fazenda. Quando cheguei,
os meus filhos esperavam-me em casa, ao contrário do que era costume. Estranhei
o facto e cheguei, até, a suspeitar de alguma notícia desagradável. Mas eles
dispararam-me logo a boa nova, sem esperar que eu manifestasse a minha natural
curiosidade: «Triunfou a revolução em Portugal. O Caetano e o Tomás foram
presos. Acabou a ditadura!» Tive, como deve calcular, uma grande emoção. Fiquei
quase sem poder falar. Eles estavam muito contentes, porque desde meninos se
habituaram a ouvir falar de revoluções e sabiam que a libertação de Portugal
das garras da ditadura era uma permanente ambição do meu espírito. Mantinham-se
tão fiéis ao culto da Pátria, que nunca se naturalizaram brasileiros, o que
para mim é motivo de grande satisfação. Liguei imediatamente para casa do Vítor
Ramos, um professor meu amigo, formado pela Sorbonne, que leccionava literatura
francesa na Faculdade de Letras de S. Paulo. Um homem de ideias avançadas,
muito culto e duma grande integridade de carácter. Estava reunido com alguns
amigos para festejarem o acontecimento e trocarem impressões sobre o que iria
ser o futuro de Portugal. Vítor Ramos veio ao telefone e, depois de me saudar,
senti que a voz se lhe embargava na garganta e interrompeu bruscamente a
ligação. O Américo Pereira, que estava presente, pegou no auscultador e
explicou: «O Vítor Ramos sentiu-se mal. Está um pouco perturbado com tudo isto
e, de momento, não pode falar.» Tinha morrido. Fulminado pela comoção.
P. — Apressou-se a vir a Portugal. Estava ansioso por voltar a respirar
na sua terra a atmosfera de liberdade que nela se extinguiria havia quase meio
século. Chegou a Lisboa — lembra-se ? — precisamente no dia em que tomou posse
o I Governo Provisório. Os seus amigos e admiradores ofereceram-lhe um almoço
de boas vindas — e foram poucos para a homenagem que o senhor merecia. Ouvi atentamente
o seu discurso, que me emocionou profundamente. Todos o ouviram com a mesma
emoção. Mário de Castro, seu companheiro na fundação da «Seara Nova», ao dirigir-lhe
uma saudação em nome de todos os presentes, referiu-se a si como «um símbolo de
quantos sofreram ou morreram pela liberdade» ...
R. — Tudo isso passou e quase esqueceu. Como
passaram e esqueceram afirmações que perderam o sentido que se pretendeu
dar-lhes e promessas que não se cumpriram. Esperanças que foram iludidas e
anseios que não foram satisfeitos. Fui portador, nessa ocasião, de uma mensagem
dos estudantes da Universidade de S. Paulo, de cinco mil brasileiros cujos
corações batiam em uníssono com os dos democratas portugueses, para ser
entregue ao general Spínola.
Não sei se nas horas
vagas ou atarefadas do exílio ele terá agradecido essa gentileza ou se terá lembrado
sequer dessa manifestação de solidariedade. Infelizmente, ele já sabe, agora, o
que é o exílio, embora tenha ido para lá com um grande estadão e rodeado de
atenções. Eu fui pobremente e sozinho e consegui aguentar-me perto de cinquenta
anos, tantos quantos durou a ditadura. Se as condições políticas se
modificarem, ele poderá voltar a Portugal, mas não sei se ainda estará apto a
desempenhar algum papel de relevo na vida portuguesa. Tudo é possível. Temos
visto tanta coisa depois do 25 de Abril, que estamos longe de prever o que se
irá passar.
PRIMEIRAS
APREENSÕES
P. — Em plena euforia revolucionária, já
havia, no entanto, quem pusesse reservas a esse entusiasmo delirante e
descontrolado, que nos conduziu à confusão e ao caos nesses dias nupciais do
povo com as Forças Armadas. Ao chegar a Lisboa, apressando uma viagem a Ouro
Preto e ao Rio, onde recebeu uma condecoração pêlos seus notáveis estudos
sobre a Inconfidência Mineira, o prof. Rodrigues Lapa chamou logo a atenção
para a necessidade da união das forças democráticas e mostrou a conveniência de
dar um voto de confiança aos que fizeram o «golpe», como lhe chamou, «mas não
um crédito ilimitado». Mais tarde, a propósito da reintegração e reforma dos
professores afastados da cátedra pelo Governo de Salazar, protestando contra a
injustiça de que esses professores estavam a ser vítimas por parte dos próprios
antifascistas guindados ao Poder, Rodrigues Lapa não hesitou em declarar: «Isto é um país de cafres, como
repeti um dia no encalço de Vieira, e por isso me prenderam, os grandes
patriotas. Tenho receio de que seja pior ainda: um país de canalhas indignos do
nome português, que têm enxovalhado impunemente.» Com o prof. Fernando Fonseca,
outra grande figura de democrata, perseguido e demitido pela ditadura, aconteceu
o mesmo. Também ele não escondia as suas apreensões, apesar da grande
satisfação que o 25 de Abril lhe causou, acerca do futuro da revolução. A
propósito do projectado saneamento de um funcionário superior do Instituto
Doutor Francisco Gentil, cuja competência e seriedade se apressou a
testemunhar, como era próprio da sua consciência íntegra e do seu carácter
impoluto, Fernando Fonseca dirigiu uma carta aos jornais em que dizia: «É
preciso não macular um movimento admirável com atitudes inoportunas e
injustas.» Infelizmente, o movimento foi maculado com mais de uma atitude
inoportuna e revoltantemente injusta.
R. — É certo. Quero lembrar uma visita
que fiz ao prof. Fernando Fonseca, exactamente na antevéspera de ele morrer,
na companhia de David Ferreira e António Valdemar. Trocámos, nessa altura, impressões
sobre o curso dos acontecimentos, as perspectivas que se abriam ao país e as
interrogações que se punham. Fonseca mostrou-se apreensivo. E tinha razão para
isso. Em certa altura, voltando-se para mim, confessou: «Não sou da opinião de
Herculano quando disse: 'Isto dá vontade de morrer.'
Mas, na minha idade e porque, agora, pouco posso já fazer, e
certamente porque ninguém me quer ouvir, apetece-me, para já, sair da
circulação. Tenho vontade de me ausentar até isto entrar na normalidade...»
Tencionava ir ao Brasil, que desde sempre tivera o desejo de visitar. Era a
terceira vez que fazia esse projecto. E todos se malograram. Estava muito
interessado em percorrer a Amazónia, para conhecer ao vivo «A Selva» de
Ferreira de Castro, e ir a S. Paulo, não só para ver o progresso espantoso da
grande metrópole, mas também para visitar hospitais, para se pôr em contacto
com as técnicas científicas que lá se praticam, das mais avançadas do mundo.
Recordo-me de que, em certa altura,
Valdemar perguntou-lhe com certa ironia irreverente: «Então o senhor professor
lá se vai encontrar com o seu amigo Américo Tomás, a D. Gertrudes e a Natália?»
Fonseca respondeu com toda a naturalidade: «E porque não? Somos amigos de
infância. Aquela família nunca teve outro médico. Não é o ex-presidente Tomás
que irei visitar. Vou dar um abraço ao Américo, à Gertrudes e à Natália. E, se
precisarem de mim como médico, continuarei ao seu dispor.» E após uma breve
pausa, Fonseca continuou: «O Pulido é que nunca viu as coisas assim. Vou
contar-lhes o que se passou com ele. Um dia fui operado à vesícula. Horas depois,
como estivesse com sede, pedi uma cerveja gelada. Estava presente o Cascão de
Anciães, que ficou horrorizado: 'Não pense nisso!' Insisti. O Cascão foi
trocar impressões com o Pulido e o certo é que, dali a pouco, aparecia no meu
quarto uma caixa de cerveja dinamarquesa. Enquanto debatíamos a questão da
cerveja, a enfermeira abriu a porta e anunciou a visita do Presidente da
República. Fez--se gelo no quarto. E eu disse logo: 'O Américo que entre.' Não
disse o sr. Presidente da República, disse o Américo. Além de mim, estavam presentes dois
professores universitários, o Pulido e o Cascão, também afastados da Faculdade
pelo Salazar com a aprovação do conselho de ministros, de que o Tomás fazia parte.
Fiz as apresentações salientando que se tratava de um velho amigo, um amigo e
condiscípulo do liceu. Pulido estendeu-lhe dois dedos e mal olhou para ele.
Atmosfera de cortar à faca, Tomás pronunciou meia dúzia de lugares comuns,
desejou-me as melhoras e retirou-se com um 'boa tarde' para todos, já sem se
atrever a estender a mão a quem quer que fosse. Mesmo depois de ele sair, o
ambiente manteve-se frio, de gelado silêncio. Nem eu sabia como havia de
restabelecer o clima normal. Um médico da Marinha que estava presente desfez o
embaraço: 'Afinal, ele não é mau tipo. O outro (Salazar) é que é um canalha.' Pulido levantou-se da cadeira em que estava
sentado e explodiu: 'Se ele não é mau tipo, que nome se há-de dar a um pulha?!'» Rimos. Fonseca mudou de conversa. Voltou-se para mim:
«Quando voltar do Norte, apareça por cá. Quero vê--lo.
Talvez precise duma revisão, embora seja muito rijo e, naturalmente, eu vá
ainda à sua frente.» Não se enganou. Eu disse-lhe, então: «Sabe, professor
Fonseca, tenho oitenta e sete anos, ainda vou à caça e monto a cavalo. Só aos
noventa é que penso dedicar-me à pesca, que é menos fatigante do que os outros
desportos. Mas o que eu queria era ver o país em plena prosperidade e
restabelecida a unidade democrática. Depois, gostaria de morrer de pé. De um
momento para o outro. Sem apodrecer numa cama ou numa cadeira de rodas.» Horas
depois, sem concretizar o sonho da viagem ao Brasil, era Fernando Fonseca que
morria, fulminado por um enfarte, tal como eu lhe tinha dito que gostava de morrer.
E sem ver
tanta coisa triste que depois aconteceu neste país...
P. — Já pode tirar, agora, algumas ilações da maneira como os políticos
com quem falou ouviram, os seus conselhos, os conselhos da sua experiência, do
seu bom senso e do seu patriotismo?
R. — O clima em que se vive, actualmente,
em Portugal (estávamos
no Outono de 1975, um pouco antes e um pouco depois do 25 de Novembro) está
cheio de miasmas, de ódios, de divisões, de perigos que ameaçam a liberdade e a
democracia. Tal como aconteceu em 1926, quando Teixeira Gomes dizia: «Os políticos
não se entendem e este desentendimento vai ter as piores consequências», também
hoje os partidos se digladiam e se acusam mutuamente, insultando-se os seus
dirigentes uns aos outros. A tropa está dividida e o povo, desiludido, começa a
estar cansado. Uma situação parecida com a que precedeu o 28 de Maio, insisto
em afirmá-lo. Podemos cair outra vez num governo de força, numa ditadura que
nos reduza, de novo, à condição de escravos. Porque a extrema direita não
desarma e a extrema esquerda não desiste. Spínola não esteve à altura do papel
que lhe confiaram. Rodeou-se de medíocres e oportunistas. Na crise Palma
-Carlos mostrou-se hesitante, não agiu com firmeza. Noutros casos, perdeu o
controlo da situação i, e, certamente com receio de
que evocassem o seu passado de militar ao serviço do regime deposto, temia ser
apodado de fascista, se tomasse atitudes firmes. Vivia-se no pavor das
acusações que eram lançadas pelo MDP/CDE e pelo Partido Comunista. Assim se
criou uma atmosfera muito parecida com aquela que a PIDE manteve antes de 25 de
Abril, atmosfera que só fortaleceu discórdias, só provocou mal-entendidos, só
promoveu equívocos que contribuíram para que o general Spínola perdesse o
prestígio que tinha conquistado e o levaram a esta coisa que é sempre triste
num militar: ter de fugir. Em vez de se bater, se era essa a sua intenção,
fugiu. O Delgado já cometera, também, um erro grave, que o comprometeu irremediavelmente:
o de pedir asilo numa embaixada em vez de se deixar prender, de enfrentar o
perigo, de assumir todas as responsabilidades e todos os riscos dos seus actos.
P. — Falou-se da sua promoção, da reparação moral que lhe é devida. Em
que pé ficou isso?
R. — Aconteceu que aqueles ratos de repartição, que andam sempre a roer
os papéis velhos, para ver se ainda encontram alguma coisa que mastigar com o
seu ódio, a sua inveja e a sua mediocridade de mangas de alpaca, removeram os
escaninhos do Ministério do Exército e descobriram um decreto que o Salazar
publicou para impedir a promoção a general daqueles militares que tinham
combatido a ditadura. Veja o contrasenso da aplicação desse decreto depois de a
ditadura ter sido derrubada por capitães que foram logo promovidos a
brigadeiros e majores que passaram a ostentar as estrelas de general! Eu não dei
por isso (isto passou-se em Maio de 74) e regressei depois ao Brasil sem tomar
conhecimento do que se passava. Quando cá cheguei, agora, «A Luta» lamentou o
facto de eu não ter sido ainda promovido. E do Ministério do Exército
telefonaram-me pedindo-me que passasse por lá. Para me informarem de que o
reparo daquele jornal não tinha razão de ser, porque eu já tinha sido promovido
a coronel. Havia mais de um ano que fora promovido. E eu não tive conhecimento
de tal promoção. Claro que tenho um pouco de vergonha na cara e não digo a
ninguém que sou coronel. Prefiro continuar a ser capitão. O rei D. Luís,
querendo prestigiar de algum modo os seus adeptos brasileiros, sugeriu ao
governo do Rio que nomeasse para a Guarda Nacional, como coronéis honorários,
os comendadores ricos, aqueles portugueses que tinham feito fortuna pelo
comércio, pela indústria, pela agricultura. E então todos passaram a ser
coronéis. Lá não dizem coronel, dizem «coroné». E, como eu ando um pouco pelo
interior, se digo que sou coronel, perco o prestígio que tenho e sujeito-me ao
disfrute das gentes. Por isso, hei-de morrer capitão. Como o meu irmão
Francisco é também capitão, para me distinguirem dele, passaram a tratar-me por
comandante, por sugestão do Pedroso de Lima e do Rodrigues Lapa. E, para todos
os efeitos, sou o comandante Sarmento Pimentel.
UM CRAVO NA LAPELA...
P. — Qual foi a sua impressão quando chegou a Portugal após o 25 de
Abril. Que sensação experimentou?
R. — Uma alegria imensa. Uma alegria tão
grande que ainda hoje me comovo até às lágrimas quando me recordo dos primeiros
dias que passei em Portugal a seguir ao 25 de Abril. Eu andava pelas ruas como
parvo, a rir para toda a gente, a olhar para tudo com olhos enternecidos. As
pessoas abraçavam-se, beijavam-se na rua. Não sabiam quem eu era e vinham
pôr-me um cravo na lapela. Outros tinham visto o meu retrato nos jornais ou na
televisão, reconheciam-me e vinham pedir-me um autógrafo. Um dia, tomei um táxi
e, quando
perguntei ao motorista quanto lhe devia, ele respondeu-me: «O senhor não me
deve nada. Nós é que devemos; ao senhor.» Outro
motorista que me levou ao aeroporto, quando soube quem eu era, fez-me uma
festa, disse-me que tinha estado preso em Caxias, em 1950, com o Jaime
Cortesão, o António Sérgio, o Azevedo Gomes e o Vieira de Almeida. E, como
gostava de música — acrescentou —, para iludir os maus tratos
e esquecer a situação da mulher e dos filhos, cantava canções de resistência
e de combate. E todos os presos o acompanhavam. E até alguns polícias chegaram
a fazer coro com os presos. «Quer ouvir?» E assisti a esta coisa espantosa e
comovedora: o homem começou a cantar. E cantava bem. «Não há dúvida — disse
para o amigo que me acompanhava — Portugal está mudado. Até os 'chaüffeurs' de
táxi, que costumam ser mal encarados, agora são delicados com os fregueses e
até os distraem com cantorias.»
P.
— Voltou a Coimbra, vinte e três anos depois. Em que circunstâncias?
R. — Voltei a Coimbra em
1950, quando fui abrangido por uma amnistia. Durante vinte e dois anos estive
privado de todos os direitos de cidadão português. O Salazar passou-me uma
espécie de certidão de óbito. Não se podia falar de mini em jornais
portugueses. Fui condenado à morte civil. Dava-se o caso de eu (frequentar, no
Rio de Janeiro, o Seabras Clube, uma associação onde se reuniam os próceres da
indústria e do comércio, os militares mais graduados e outras figuras
representativas da sociedade carioca. Havia uns almoços, todos os domingos,
numa casa que o Ricardo Seabra tinha no Alto da Tijuca. Um dia, encontrei-me lá
com o Osvaldo Aranha, que tinha entrado na revolução de 30, que levou Getúlio Vargas
ao Poder e era um moço muito inteligente, formado em Direito, que foi ministro
das Relações Exteriores no primeiro governo presidido por Getúlio,
e, mais tarde, delegado do Brasil na ONU. Ele sabia a situação em que eu me
encontrava, e não só eu mas todos os portugueses exilados no Brasil por motivos
políticos. E ofereceu-se para intervir na ONU a nosso favor. O Governo
português diligenciava, então, fazer parte da organização internacional e
pretendia conquistar as boas graças do Brasil e doutros países para lhe darem o
seu voto. Sugeri-Ihe que podia lançar a ideia de que uma amnistia concedida aos
presos e emigrados políticos contribuiria para facilitar a entrada de Portugal
nas Nações Unidas. Ele cumpriu o que me prometera e a amnistia foi decretada.
Pude vir, então, a Portugal com outros camaradas de exílio. E voltei a Coimbra para
matar saudades. Mas o Salazar, que era ma-quiavélico, publicou depois um
decreto regulamentar em que se determinava que os amnistiados podiam regressar
à Pátria condicionalmente, isto é, Dor um tempo determinado, que nunca poderia
exceder seis meses. Cheguei a Lisboa e resolvi partir para o Norte, onde tinha
a minha família, a família de minha mulher e meus primos. Em vez da viagem
durar oito horas, como era natural, durou oito dias. Fui parando aqui e ali. em
Alcobaça para visitar a igreja, em Leiria para subir ao castelo, na Batalha
para admirar o mosteiro, em Tomar para percorrer o convento, em Coimbra para
recordar os tempos felizes da mocidade, no Buçaco para evocar a batalha, em Aveiro
para me perder nos encantos da ria, etc., etc. A família, que tinha sabido da
minha chegada a Lisboa, estava lá com um banquete à minha espera. Esperou
uma semana. E aqui tem a breve história do meu regresso a Portugal ao cabo de
vinte e três anos de exílio.
P. — Na altura em
que o Marcelo Caetano lhe negou autorização para vir a Portugal a fim de tratar
do inventário por morte de sua mulher, quem interveio a seu favor?
R. — Uma das pessoas foi o Adriano Moreira a
pedido do Nuno Simões, que era meu amigo. Mas não conseguiu nada, até porque
ele era uma péssima recomendação para o Caetano, com quem estava de relações
cortadas. Não foi possível demover o ditador. Foi-me negado o visto de entrada
em Portugal, como se fosse um traidor à Pátria... Isto passou-se em 1970.
Ocorreu-me, então, a ideia de tentar a vinda de meu irmão, para me substituir
nas diligências judiciais e outras que havia a fazer. E ele lembrou-se, por
sua vez, de que o Sarmento de Beires lhe tinha dito um dia que era amigo de um
irmão do Caetano. Escreveu-se ao Beires, que fez o possível por conseguir o
visto de entrada para meu irmão, dirigindo--se ao próprio Caetano. Mas essa
«démarche» também não deu resultado. Marcelo Caetano, em resposta,
escreveu-lhe um bilhete em que dizia textualmente: «Tendo mandado informar
pelos serviços competentes (está bem de ver que era a PIDE) o caso do tenente
Sarmento Pimentel, tenho o desgosto de lhe comunicar que está referenciado como
solidário e constante colaborador do irmão, cujas atitudes não visam o Governo
de Portugal apenas (porque isso seria o menos), mas o bom nome do País e o seu
esforço no Ultramar. Haveria maneira de o tenente (já
havia sido promovido a capitão) Sarmento Pimentel se dissociar do grupo chefiado
pelo irmão?» O Beires enviou-me fotocópia do bilhete, o que lhe
valeu o corte de relações com o Caetano, quando este teve conhecimento do
facto. Em face dessa resposta, eu escrevi apenas no «Portugal Democrático»: «Este
segundo Conde de Abranhos pensa que a fraternidade dos Sarmentos Pimenteis é
como a dos Caetanos de fresca data.»
P. — Nessa altura, já o comandante tinha dado ao Museu da Cidade do
Porto a espada de honra que a cidade lhe ofereceu, o relógio do Basílio Teles e
o retraio do Artur Loureiro pintado pelo Columbano?
R. — Exactamente. Achei, por isso e pelo resto, que
foi uma infâmia sem nome aquilo que o Caetano me fez.
«TUDO PODE ACONTECER...»
P.
— Ao regressar a Portugal depois do 25 de Abril, que pensa dos políticos?
R. — Vejo que alguns estão cheios de boa
vontade. São cultos, inteligentes, estão bem informados. Mas não se dão conta
das ameaças que pairam sobre o seu destino e sobre os destinos do
país. Porque, se tivessem consciência do perigo, já se tinham entendido, já se
tinham congraçado, sem prejuízo das suas tendências ideológicas, já tinham
feito convergir os seus esforços para o grande objectivo que os devia
preocupar: o da salvação nacional. Já tinham metido ombros à resolução dos
problemas que afligem o país em vez de se preocuparem com questões de lana caprina
e de se mimosearem com epítetos descabidos e acusações que nem sempre são
justas. Eu vim encontrar o Portugal de hoje como o Portugal de há cinquenta
anos. A mesma rotina no amanho da terra, a mesma indústria atrasada, artesanal,
a mesma pobreza nos campos e nas aldeias, a mesma miséria nos subúrbios das
grandes cidades. Na educação, na saúde, na técnica, o mesmo atraso. Não direi
que não haja uma ou outra indústria já desenvolvida e progressiva. Mas, de um
modo geral, a indústria portuguesa não corresponde às exigências e às
necessidades da nossa época. Teares antiquados. Maquinaria velha. Fundição
primitiva. Utensílios de lavoura do tempo dos afonsinos. Levo comigo para o
Brasil um grande desgosto, acredite, por ver a estagnação em que se encontra a
economia portuguesa e as dificuldades que se opõem à instauração da democracia.
Mas espero que não morra sem ver o país a caminho da recuperação económica, da
prosperidade e a democracia instaurada em Portugal. Conto vir aqui todos os
anos, enquanto tiver pernas para andar e cabeça para pensar. Não sei se será
por muito tempo. Para ver os amigos. Para reverter às origens. Para respirar o aroma
da terra que me viu nascer e que há-de recolher os meus ossos. Fui hoje
visitar o único companheiro que resta dos meus tempos de revolucionário do 5
de Outubro, o César de Almeida. Até chorámos abraçados um ao outro. E veja a
ingratidão dos homens : o César de Almeida estava a receber uma pensão de
reforma igual ao ordenado da mulher da limpeza de qualquer escritório e menos
do que um servente de pedreiro. E, para viver dignamente, ainda precisa de
escrever, de fazer traduções. Deu-me a notícia de que o promoveram, também, a
coronel e que passará a receber nove contos por mês.
P. — Falou do
período anterior ao 28 de Maio e comparou-o com a situação que estamos a viver.
Parece-lhe que se pode estabelecer o mesmo paralelo em confronto com os primeiros
anos da República, com as lutas que, nessa altura, se desencadearam entre os
partidos para a conquista do Poder?
R. — Na sua pergunta está implícita a resposta. Onde
estava o António José de Almeida ponha o Mário Soares. Onde estava o Camacho
ponha o Sá Carneiro. Onde estava o Afonso Costa ponha o Cunhal. Há só uma
diferença entre os de então e os de hoje: é que nem o Afonso nem o António José
e muito menos o Camacho, iam pedir conselhos e directrizes a Leste ou a
Ocidente, aos pontos cardiais mais apontados para as suas ideologias
políticas. Seguiam as suas ideias. Governavam pela sua cabeça. E alguns dos
actuais políticos portugueses vão mergulhar as raízes noutras doutrinas,
aquecer-se ao calor doutros sóis, e procuram imitar outros figurinos, que podem
ou não convir ao nosso país. Sabe-se, com certeza, que não convêm.
P. — E os militares? Que me diz da atitude de certos militares?
R. — Toda a culpa do que está a passar entre os militares vem de trás,
da degradação a que o Salazar, coadjuvado pelo Santos Costa, levou as Forças Armadas,
da subordinação vergonhosa a que as reduziu. O Salazar inventou um energúmeno,
um sicário lorpa e subserviente que aniquilou o Exército, de onde foram
compulsivamente afastados aqueles que se tinham distinguido na guerra, em
África e na França, oficiais condecorados, respeitados, dos melhores com que o
Exército português contava. Os que tinham ajudado a fazer o 5 de Outubro, os
que se bateram pela República sempre que ela esteve em perigo, os que
defenderam a liberdade sempre que ela esteve ameaçada. Toda uma geração traída.
Os que ficaram submeteram-se, aceitaram a albarda, não se atreveram a tomar uma
atitude, com medo de serem saneados, como agora se diz, de serem reformados
compulsivamente. E criou-se a mentalidade da subserviência, do medo, da
obediência cega — perinde ae cadáver. A censura fazia o resto. A PIDE
completava a obra.
Quando o Salazar foi substituído pelo
Marcelo, ainda houve um clarão de esperança, uma oportunidade que se perdeu,
que o discípulo perdeu, seguindo os mesmos caminhos trilhados pelo mestre,
acusando os mesmos vícios, incorrendo nos mesmos erros. Man-tiveram-se os
mesmos costumes, as mesmas leis, a mesma mentalidade obtusa e anacrónica,
medieval. E isso reflectia-se no seio da tropa. Após o 25 de Abril, começou a
deteriorar-se a disciplina, a periclitar a hierarquia. O Spínola já não
conseguiu refazê-la, já não teve força para se impor. Não foi possível criar
um espírito de compreensão, de tolerância que se opusesse ao abuso da
liberdade, que não alienasse a confiança das populações, que deixasse trabalhar
os que queriam trabalhar e gritar os que queriam gritar. A indisciplina
cresceu, alastrou. A hierarquia deteriorou-se. A tropa desacreditou-se. E o
povo, que os aclamara em 25 de Abril e no dia 1.° de
Maio, começou a olhar para eles de soslaio, com desconfiança. O «slogan» que se
inventou da aliança Povo-MFA não passou duma ficção para esconder uma evidente
realidade: a do avanço das forças comunistas. E, quando eles passavam, quando
eles patrulhavam as ruas, já se murmurava por entre os dentes
e os mais ousados atreviam-se a chamar-lhes assassinos. Porque eu ouvi. Não
estou a inventar. Alguns desses guerrilheiros misturam-se, hoje, com os
inimigos da liberdade e da paz, com a escumalha duma cidade para perturbar a
ordem e a tranquilidade, para aumentar a insegurança, não se sabe com que
tenebrosos desígnios.
P. — Os militares
fizeram o 25 de Abril. Honra, lhes seja. Não podemos deixar de lhes estar
gratos por isso. Mas parece-lhe que estavam preparados para governar?
R. — Não estavam. Não tinham planos elaborados.
Não tinham ideias assentes. Muitos tinham ambições políticas que não
esconderam mais tarde. É um desastre sempre que eles tomam conta do Poder. Foi
assim no 28 de Maio. É assim em todas as ocasiões em que pretendem governar.
Veja o Pinochet. A população do Chile está dizimada pela chacina e pela fome.
Daqui a dez anos estará reduzida a metade.
P. — Receia que
nos aconteça o mesmo?
R. — Tudo pode acontecer, se o partido Comunista,
perdida a noção das realidades, continuar a desenvolver uma política contrária
ao sentimento geral da população portuguesa, que é conservadora, embora tenha o
culto da liberdade, mas não da pretensa liberdade que os comunistas propõem.
FALTA DE VISÃO E
SENSO
COMUM
P. — Que opinião tem acerca da organização sindical, da luta
reivindicativa das classes operárias?
R. — Os sindicatos são necessários para
defesa das classes trabalhadoras contra a exploração do patronato, contra os
abusos do capitalismo. Podem constituir uma força de equilíbrio social quando
se fizer uso dessa força com inteligência, com moderação e com espírito de
justiça. Mas querer que eles estejam subordinados a um poder único e supremo que
disponha dessa força a seu bel prazer, com intuitos políticos, é um erro
crasso e um perigo grave. Os políticos que se servem deles e as cúpulas que os dirigem
podem impor às massas operárias a sua vontade, nem sempre condizente com a
vontade e os interesses dos trabalhadores, A greve é uma arma legítima, mas
só deve ser empregada quando se tenham esgotado todas as diligências para
resolver os dife-rendos pela via da conciliação. E quando as maiorias estejam
de acordo e não se decidam sob a acção de pressões e ameaças de minorias
activas e turbulentas. Temos assistido a greves em que a esmagadora maioria
dos trabalhadores é arrastada por uma minoria manipulada por forças ocultas que
perseguem fins políticos. Assim como rejeitamos a pressão tumultuaria e
irresponsável das multidões, também devemos rejeitar a tirania inadmissível
das minorias. Eu falei com húngaros imigrados no Brasil. Os pretensos
salvadores degradaram o povo, empobreceram o país, puseram em prática a
política da terra queimada para impor um regime totalitário que os oprimiu e
lhes coarctou os direitos e as liberdades.
P. — E que pensa da Informação, da Imprensa e dos outros órgãos de
comunicação social?
R.— De
um modo geral (estávamos no Outono de 1975, antes da viragem do 25 de
Novembro), em vez da objectividade e da independência que era de esperar,
verifico que manipulam a informação ao sabor das ideologias dos partidos que
dominam os jornais e das pessoas que os orientam, dando ao povo uma imagem
incorrecta da democracia, cheia de luz artificial e difusa, que não deixa
distinguir a verdade das falsas ideias claras que se empenham em propagar.
Dá-se este absurdo, impossível em qualquer país, por mais socialista ou
democrático que se conceba: o Governo a alimentar, a pagar regiamente aos seus
detractores, para o insultarem, para incitarem à desordem e ao golpismo, para
denunciarem comprometidos da direita ou revolucionários da esquerda,
difamando, caluniando, mentindo, criando um ambiente que compromete a
estabilidade política e mina a confiança nos governantes. Isso acaba no dia em
que o Governo se decidir a cortar o mal pela raiz, a deixar de alimentar os
mentores de certo jornalismo e a cobrir os défices fabulosos de certos jornais.
P.
— E o processo de descolonização que reflexões lhe sugere?
R. — Penso
que houve em Angola um terramoto. Quem viu as destruições que um sismo provocou
no Chile ou em qualquer outro país da América do Sul onde são frequentes, e as
populações sem casa e sem recursos, à procura de um abrigo para se recolherem,
pode comparar esse espectáculo horripilante com o êxodo dos retornados de
Angola. Vêm, por assim dizer, de tanga. Um ou outro ainda conseguiu salvar
alguma coisa, trazer mesmo o seu automóvel. Mas a grande maioria não trouxe
nada, deixou lá ficar tudo, dinheiro, haveres, casa, emprego. Vêm pobres de
tudo, até de esperança. Essa gente, que permanece na mais deplorável
ociosidade, com uma política diplomática bem orientada, podia ter sido encaminhada
para o Brasil, para um país situado no mesmo paralelo, onde se desfruta o mesmo
clima e se fala a mesma língua, com uma extensão territorial como aquela que
tinham diante dos olhos e idênticos recursos.
P. — Quer dizer que o
processo não foi tão exemplar como se pretende ...
R. — Houve falta de senso comum, falta de realismo,
falta de previsão. E, sobretudo, não se consultou o país acerca do que mais
nos conviria. Procedeu-se exactamente como nos tempos ominosos da ditadura.
Não se deu conhecimento ao povo português do que se passava nos bastidores,
nos famosos encontros de Dar-es-Salam, de Lusaka, de Argel, de Dakar. Salazar
não teria procedido doutro modo.
P. — Está convencido de que os retornados de Angola se podiam ter
encaminhado para o Brasil, se tivéssemos estabelecido negociações nesse
sentido?
R. — Essa falta de visão deve-se ao
Governo português, que, em vez de demitir imediatamente os diplomatas que a
ditadura lá tinha colocado, inimigos confessos do Brasil e maus servidores dos
interesses portugueses, deixou-os lá ficar ainda algum tempo depois de 25 de
Abril, para completarem a obra desastrada que até ali tinham levado a cabo.
Não se lembraram de que a República, recentemente implantada, mandou para lá
um António Luís Gomes, um Bernadino Machado, um Duarte Leite. Não importa se
eram velhos, ou se eram novos, se eram matemáticos ou se eram médicos, se eram
do partido A ou do partido B. Mandou aqueles que, pelo seu nome, pelo seu
prestígio, pelo conhecimento que tinham dos problemas, se impunham à
consideração dos brasileiros e melhor podiam defender o interesse nacional. Claro
que, se tivéssemos negociado a tempo, tínhamos conseguido que o Brasil
recebesse algumas dezenas de milhares de retornados de Angola. Porque para o
Brasil não constitui problema aceitar mais duzentos ou mais trezentos mil
portugueses. E Portugal vê-se, agora, a braços com tremendas dificuldades
para dar destino a essa gente, alojá-los, alimentá-los e criar-lhes condições
de vida.
P. — Teve conhecimento duma delegação que foi ao Brasil para se ocupar
desse assunto? Porque, afinal, ainda chegámos a mandar lá uma delegação para
tratar dos retornados de Angola ...
R. — Essa delegação tinha tanto prestígio
que chegou lá e nem foi recebida pelo ministro das Relações Exteriores.
P. —E que diligências efectuou? Que trabalho
realizou?
R. — Nenhum. Foi passear. Foi ver como era, para
depois saber como fica.
P. — Pensa que o Brasil podia representar, neste momento, uma carta de
trunfo para se poder ganhar a revolução em Portugal?
R. — Sem dúvida. O Brasil podia ser um
aliado poderoso e decisivo para nos ajudar a ganhar a revolução
socialista, de um socialismo em liberdade, que é aquele que devemos construir
em Portugal. Mas para uma revolução desvairada, anárquica, a caminho de um
totalitarismo, de esquerda ou de direita, o Brasil é inimigo terrível. Podia
ajudar-nos muito, porque é respeitado nas Nações Unidas, porque pesa no
concerto internacional, porque pode influir a nosso favor numa situação
difícil.
P. — Acha que é possível manter relações cordiais com o Brasil, mau
grado a diferença de regimes que governam os dois países?
R. — Acho, sim senhor. Desde que o Governo português siga uma política
hábil e compreenda aquilo que o Brasil nos pode dar em troca e os nossos diplomatas
saibam desempenhar-se da sua missão com inteligência e bom senso, que é o que
tantas vezes falta aos emissários do Palácio das Necessidades. E que, em
Portugal, alguns «revolucionários» de fresca data e de comportamento
irresponsável não tomem atitudes inamistosas, não pretendam, demagogicamente,
interferir na política de um país amigo, que se governa por instituições de
que eles discordam. Esperar do Brasil qualquer concessão, qualquer facilidade qualquer
ajuda, e, ao mesmo tempo, permitir que jornais portugueses insultem soezmente
o Governo brasileiro, é supor que esse Governo é constituído por anjinhos
vindos do céu para estenderem as asas protectoras sobre a «fermosa estrevaria»
e libertar os burros das moscas sugadoras.
No
final da conferência que fiz nos Altos Estudos Militares, em Outubro de 1974,
salientei a importância que tinham as nossas relações de amizade com o Brasil.
Disse ainda que, dentro de dez anos, aquele país se terá aproximado dos 150
milhões de habitantes falando a língua portuguesa. Quando terminar
o século XXI, quantos serão os brasileiros no seu território de oito milhões e
meio de quilómetros quadrados? Uma densidade não exagerada pode comportar, grosso modo, oitocentos
milhões de habitantes. Pêlos vistos, nem os números, que são eloquentes, nem
os conselhos acertados do velho brasileiro-de-torna-viagem tiveram o condão de
impressionar os patrióticos esteios da governação reinol. E, até agora, não
chegou ainda a Brasília uma delegação portuguesa de alto nível para se ocupar
de problemas que nos preocupam e cuja resolução poucos sacrifícios demandaria
por parte dos brasileiros. Contaríamos certamente com a fraterna boa vontade
do Governo do Brasil, como aliás nunca deixámos de contar sempre que para ela
apelámos em momentos de crise nacional.