Vinte e cinco anos depois

 

 

Passámos o Natal no ar e o problema é que, até hoje, eu ainda não consegui aterrar. Às vezes, penso que a minha vida se confunde com aquela frase de Groucho Marx que Woody Allen me ensinou, «Eu era incapaz de (gostar de) ser membro de um clube que me aceitasse como sócio»1. O fantástico paradoxo é que, apesar disso, me posso considerar uma pessoa feliz!

Portugal tem alguns porreiros (entre os quais estão os meus amigos, claro!, e também todos os poetas e restantes criadores que me ajudam a respirar), mas ainda é considerável o número de paro­los (tipo tudo no bolso/nada no cérebro) por quilómetro quadrado.

O Presidente Samora Machel morreu em 1986. No livro de con­dolências que então assinei, na Embaixada de Moçambique em Lisboa, escrevi, em memória dos dias da Utopia, «Obrigada, Pre­sidente».

A Guerra Fria acabou na mesma década e em Roma, a 4 de Outubro de 1992, os moçambicanos decidiram viver em Paz. Por isso, voltei a sonhar, «Ainda um dia, (em) Moçambique!»

Entretanto, um deus rafeiro qualquer resolveu roubar-me, cobarde e precocemente, algumas das mais queridas personagens de «Memó­ria e Utopia», companhia ilimitada. Não as esquecerei.

Quando, o ano passado, eu e a Marta nos reencontrámos, ela disse: «Tivemos razão antes do tempo!». Depois, fartámo-nos de rir, lembrámo-nos que éramos portuguesas por causa de um pre­servativo, uma razão como outra qualquer.

Escrevo este texto vinte e cinco anos depois. Quis que ele fosse apenas uma história e nunca História. Para o construir, impus-me apenas uma condição, não trair as emoções que guardei do período a que a sua acção se refere, independentemente do juízo que possa, hoje, delas fazer.

      O  Posfácio? Escreve-o todos os dias o povo moçambicano, dono e senhor do país que trago no coração.

Nazaré, 7 de Dezembro de 1999

 

1.       O parênteses, acrescentou-o Sandra.

VOLTAR