VI

UMA POLÍTICA COLONIAL ERRADA

P. — Tomou parte nas campanhas de Áfri­ca. Tudo isso vem, relatado nas suas «Memó­rias» em páginas admiráveis, de um realismo descritivo perfeito e emocionante. Agora a mi­nha pergunta é esta: que diferença estabelece entre essas campanhas e as guerras que mais tarde foram mantidas pelo regime fascista?

 

R. — São coisas inteiramente diferentes. Eu penso que a nossa noção de colonialismo foi inter­pretada magistralmente por Norton de Matos. O Nor­ton queria fazer uma nação chamada Angola, como se fez uma nação chamada Brasil e que faria parte de uma federação de nações de língua portuguesa, que se alargaria a Moçambique, à Guiné, a Cabo Verde, e, possivelmente ao próprio Brasil, se fosse essa a vontade do povo brasileiro. Política hábil, para conseguir que esses países novos, aos quais teria de se conceder um dia a independência, continuassem li­gados à mãe-pátria por laços sentimentais e por inte­resses recíprocos. Pensou em situar a capital de An­gola no Huambo, a que deu o nome de Nova Lisboa, ficando a cidade de Ulisses como capital federal. E pôs em execução o seu projecto grandioso, que os governos fascistas destruíram. Era uma política de emancipação que a República pretendeu levar a cabo, dando às colónias uma autonomia cada vez mais larga de modo a conduzi-las mais tarde à independência, como aconteceu ao Brasil. O começo do drama que passou a representar-se e levou à triste situação em que se encontram hoje as nossas relações com os paí­ses africanos ditos de expressão portuguesa foi o Acto Colonial de 1933. As guerras de pacificação que sustentámos foram legítimas  e  contribuíram,  até, para melhorar as relações entre povos indígenas de­savindos.   Digladiavam-se  as   duas   tribos  de  raça ovampa: os Cuanhamas e os Cuamatos, que viviam nas margens do Cunene. Os Cuamatos eram nóma­das, que ora se fixavam em território português, ora se passavam com os seus gados para a Damaralândia, ou seja o antigo Sudoeste Alemão, hoje Namíbia. Essa gente não queria aceitar a soberania portuguesa. Aí tinham as suas palhotas, apascentavam o seu gado, faziam as suas culturas. Mas quando o tempo não favorecia a agricultura, não estavam com meias medidas: invadiam e roubavam os povos que já eram sedentários, que se tinham fixado no vale do Cunene, mais para o Norte, dominando-os e reduzindo-os à escravidão. Foi então que o Governo português re­solveu   intervir.   A  primeira   expedição,   ainda   no tempo da monarquia, não foi coroada de êxito. Ficou lá o 2.° tenente João Roby e morreram 500 portu­gueses. O Governo, ainda em regime monárquico, mandou outra expedição, comandada pelo capitão Ro­çadas e de que fazia parte o Paiva Couceiro, a qual conseguiu pacificar a região, levando a cabo a ocupa­ção do território povoado pêlos Cuamatos. A segunda expedição, no tempo da República, empreendida con­tra uma nova rebelião dos Cuanhamas, que receberam apoio dos alemães, partiu no começo da guerra de 14-18. O seu comando foi entregue ao tenente-coronel Roçadas, cuja experiência, adquirida na expe­dição anterior, lhe conferia especial autoridade para exercer esse comando. Houve, no entanto, uma sur­presa. Na Metrópole pensavam que se tratava, apenas, de uma revolta de pretos. E o Roçadas, supondo que ia defrontar-se com indígenas amotinados, encontrou pela frente uma organização militar perfeita e aguer­rida de tropas alemãs da Damaralândia. E foi der­rotado. Os alemães aproveitaram a animosidade que existia contra os portugueses, atravessaram o Cunene e chacinaram as guarnições portuguesas. Internaram--se, mesmo, até Naulila, onde a resistência das nossas tropas foi heróica, e tomaram a posição. Distin­guiu-se no combate o tenente Francisco Aragão, que se aguentou enquanto lhe foi possível, até à exaus­tão, à frente dos seus dragões.

P. — Recorda-se de que o Roçadas fora ajudante de campo do rei D. Carlos, o que não impediu que um governo da República o es­colhesse para o comando da difícil missão.

 

R. — Porque ele era um militar competente e nesse tempo não se olhava à filiação partidária, às ideias políticas quando era preciso escolher os ho­mens para os lugares de maior responsabilidade. Es­tivessem eles onde estivessem. Na tropa não se que­ria saber se este ou aquele oficial tinham sido mo­nárquicos, mas apenas se tinham competência e se estavam dispostos a servir a República. O meu tio, general António Carvalhal, que era o governador mi­litar de Lisboa quando se implantou a República, continuou no seu posto. E no dia 6 de Outubro di­rigiu à população da capital uma proclamação pedindo disciplina e obediência ao novo regime. Que aconteceu, então, em Angola? O desastre do Roçadas produziu grande abalo no país, onde se desconheciam as condições em que a guerra se desenvolvia, as di­ficuldades que tinham de se vencer. Eu oferecera-me como voluntário para tomar parte na expedição que ia partir para Angola. A viagem do «Cabo Verde», que transportou o 3.° esquadrão de Cavalaria 9, de que eu fazia parte como alferes, as muares duma companhia de metralhadoras e as montadas dos ofi­ciais do Estado-Maior da expedição, foi uma verda­deira tragédia. Não havia um médico para os homens, embora houvesse um veterinário para os animais. E, depois duma viagem tormentosa, chegou o contin­gente a Moçâmedes onde assinalaram o desembarque peripécias de toda a ordem. E a coluna rumou para o Sul, já sob o comando do general Pereira de Eça.

A guerra em África não era nenhuma brinca­deira. O terreno é difícil. As distâncias imensas. E os recursos de que dispúnhamos eram insuficientes. Basta dizer-lhe que, em determinada altura, fui en­carregado de ir a Ruacana para fazer um reconheci­mento até onde fosse possível. E deram-me quinze dias para ir e voltar. Em quinze dias ainda lá não tinha chegado — através da selva, que era preciso vencer, que era o pior inimigo. Quando o Roçadas chegou a Angola, viu este triste espectáculo: as guar­nições portuguesas, brancas e pretas, tinham sido chacinadas. Não escapou um homem. Num recontro com os alemães da Damaralândia, as suas forças fo­ram derrotadas.

       Roçadas foi, depois, substituído pelo general Pe­reira de Eça, militar de grande prestígio que desem­penhava, ao tempo, as funções de ministro da Guerra e que não hesitou em deixar o seu cargo para coman­dar uma expedição africana. Esta guerra teve características diferentes da guerra colonial que Salazar sustentou em África para manter a soberania por­tuguesa ameaçada pêlos movimentos de libertação. Fomos enfrentar um inimigo que se igualava con­nosco e talvez superior, com armamento moderno e grande eficiência militar, sem contar com o inimigo local, a quinta coluna que tínhamos dentro do nosso território constituída pêlos pretos que aderiram à causa dos alemães e que aproveitaram aquela chacina para roubar e depredar o que ainda restava. Não quero justificar com o ódio aos alemães, que tinham procedido selvaticamente, as barbaridades que se co­meteram. A guerra é mesmo guerra. Não é conversa fiada. A campanha durou ano e meio. Durante esse tempo, nunca me deitei numa cama. Dormi sempre no chão ou numa tarimba, uma destas camas de cam­panha que nos deixam os ossos num feixe.

P. -Foi em meados de Agosto de 1915 que a coluna Pereira de Eça iniciou a marcha para o Sul e as operações completaram-se em Fevereiro de 1917 com a entrada das tropas portuguesas em N'Giva, quartel-general do soba Mandumbe e capital do Cuanhama. Assis­tiu ao combate da Môngua?

 

R. — Não assisti. Antes dessa marcha para o Sul, o general Pereira de Eça mandou fazer dois reconhe­cimentos: um comandado pelo tenente Sebastião Roby, descendo pelo vale do rio Cunene. E outro pelo comandante dos boers, que era eu, a corta-mato di­reito a Ruacaná e a Naulila, que eram postos ocupa­dos pêlos alemães. Do sul de Angola não havia ne­nhum mapa e, naquele tempo, o que era pior, não havia uma ponte, uma estrada, uma via de penetra­ção no mato. Era tudo selva virgem. Infestada de leões e de caça grossa. Os boers, na sua linguagem pitoresca, chamavam-lhe o kaucfelt. E eu fui nessa missão de reconhecimento. O Roby caiu numa em­boscada e foi morto — o segundo Roby que morreu em África, irmão do outro que também lá ficou. Eu não apareci no prazo estipulado porque o Estado--Maior não tinha feito bem os cálculos. Decorrido o tempo que estava previsto, ainda esperaram mais um mês. Apareceu, então, no Quartel-General um preto que fazia parte do contingente a dizer: «Morreram todos. Só escapei eu.» E deram-me como desapare­cido, receando que tivesse ficado prisioneiro dos alemães. Foi alertada a Cruz Vermelha, que infor­mou, depois das investigações a que procedeu, que não havia nenhum prisioneiro com o meu nome. Afi­nal, eu tinha cumprido a missão que me fora deter­minada : verificar a ocupação dos postos de Ruacaná, de Dongoena, de Naulila e de Roçadas, posições que tínhamos abandonado e que haviam sido ocupadas pêlos alemães.

       Cumprida a minha missão, meti-me a caminho, cie regresso ao Quartel-General. Eu levava um carro de abastecimento e cheguei à conclusão de que me embaraçava a marcha. Resolvi mandar o carro para Otchinjou e sustentar-me, eu e os meus homens, dos recursos naturais: caça, pesca, frutas do mato e duma certa cultura de mandioca que os pretos fa­ziam. E conseguimos sobreviver. Cada um dos meus homens levava uma porção de sal, que era uma coisa preciosa, e algum arroz, embora em pequena quan­tidade, para não sobrecarregar os animais. Nos can­tis levávamos reserva de água, que em África é di­fícil de obter. As distâncias a percorrer eram enor­mes e só raramente se encontrava água. Obtidas to­das as informações de que necessitava, pus-me a ca­minho, de volta. Como tinha pressa de chegar, disse ao sargento: «Tu ficas como superintendente e eu vou adiante para ganhar tempo.» E, como o meu ca­valo era mais veloz, aí vou eu pelo sertão fora sem mais companhia. Eles só chegaram ao acampamento dois dias depois de mini. Calcula o estado em que eu vinha: roto, sujo (não havia água para beber, quanto mais para me lavar), com a barba crescida, num mí­sero estado. Quando me viram assim, calcularam que a missão tinha redundado em desastre e que eu con­seguira escapar. E perguntaram-me pelo resto da tropa. «O resto da tropa vem aí.» Julgaram que vir ali era daí a dez minutos ou uma hora. Passou um dia e a tropa sem aparecer. «O Pimentel não conta a verdade —pensavam.— Esconde qualquer coisa.» Mas os pretos têm processos de comunicar rapida­mente, e, um dia antes de chegar o resto do desta­camento, soube-se, pelo telégrafo indígena, quê os boers vinham, realmente, ali. Foi uma festa quando eles chegaram. Uma festa que me comoveu, que me enterneceu.

        Apresentei-me ao chefe do Estado-Maior, o major Ortigão Peres, que era um homem bom. «O general recebe-o amanhã»—disse-me. Mas eu não tinha in­dumentária para substituir os farrapos que me co­briam o corpo. Um deu-me uma camisola, outro umas calças, outro um jaleco. E assim me apresentei ao general Pereira de Eça, encadernado de novo. Devo dizer que fiquei desapontado pela frieza com que o general me recebeu. Comecei a expor o resultado da minha missão com aquela loquacidade que me carac­teriza e, a certa altura, Pereira de Eça cortou-me a palavra: «Deixa-te de discursos e diz só o que inte­ressa.» Contei isto aos camaradas dizendo que não valia a pena fazer sacrifícios, passar fome e sede, arriscar o pêlo, para chegarmos ao fim e termos aquela recompensa. Eu vinha magro como um palito. O médico, o dr. Vasconcelos e Sá, que era muito meu amigo e um excelente camarada, observou-me e sub­meteu-me a um tratamento rigoroso para me resta­belecer. No dia seguinte foi publicada a ordem de campanha onde vinha a notícia da minha apresenta­ção e a proposta do general Pereira de Eça para ser condecorado com a medalha de Valor Militar. Fiquei todo inchado e foi a minha desgraça, porque, quando regressei a Lisboa, o José de Serpa pescou-me para o Quartel-General do Gomes da Costa, em vez de ir para a terra a gozar a licença a que tinha direito. Levaram-me para a Flandres e enterraram-me lá nas trincheiras. Sepultados em África, entre outros, fi­caram o Passos e Sousa, os dois Robys, o Viriato de Lacerda, o Afonso Pala, o Damião Dias e o Hum­berto de Athaide, que acabou por se suicidar.

P. — O Ferreira do Amaral comandava os auxiliares pretos. Contam-se dele coisas es­pantosas ...

 

        R. — Era muito engraçado. E nunca virou a cara ao perigo. Eu conto nas minhas «Memórias» algumas peripécias que se passaram com ele, como a história daquele corno simbólico que ele enfiou num pau, pon­do-o em frente da barraca. Na véspera, numa reu­nião de oficiais em que se deu balanço aos mantimen­tos para a marcha contra a região sublevada dos Cuanhamas, o general Pereira de Eça perguntou a cada um dos comandantes o que lhe faltava. Todos disse­ram, mais ou menos, que não faltava nada, excepto os da Intendência, que se queixaram da falta de ra­ções de reserva. E o Pereira de Eça, sem mais tirte--nem-guarte, respondeu-lhes: «Ah! faltam rações de reserva. Comam cornos!» Chegámos a um certo sítio e acampámos. No dia seguinte, quando passava revista aos comandos, o general viu à porta da barraca onde se instalara o comandante dos auxiliares pre­tos um corno hasteado num pau, como se fosse o pretos um corno hasteado num pau, como se fosse o guião daquele destacamento. E, voltando-se para o comandante dos auxiilares, perguntou-lhe: «Ó Fer­reira do Amaral, que é aquilo?» E o nosso homem, sem se perturbar, respondeu: «É a minha ração de reserva.» Era um homem valente, desembaraçado, amigo de fazer justiça. Mas um tanto pitoresco. Nós contávamos com ele para a revolução que estalou no Porto em 3 de Fevereiro de 1927 e devia ter sido secundada em Lisboa, o que só aconteceu quatro dias depois, já com poucas probabilidades de êxito. Quando lhe telefonei a pedir a sua adesão, descul­pou-se. Que não tinha maneira de nos acompanhar. E foi com os outros.

MOVIMENTOS  DE  EMANCIPAÇÃO

P. — Tendo tomado parte nas campanhas africanas, como passou mais tarde a patro­cinar a legitimidade dos movimentos de eman­cipação das colónias?

 

R. — Porque compreendi a política africana do general Norton de Matos, que consistia em dar a autonomia às colónias, começando por Angola, que tinha largas possibilidades de vir a ser um segundo Brasil. Ninguém acreditou que os pretos de Angola, se exceptuarmos o que se passou no Sul da província fomentado pêlos alemães, se haviam de tornar nossos inimigos, inimigos dos brancos, porque brancos eram só os portugueses. Os outros eram ingleses, franceses, belgas, alemães, mas brancos, em África, eram só os portugueses. E vivíamos em perfeita harmonia com os indígenas, que nos estimavam, sem precisarmos de andar armados. Percorríamos a colónia de Norte a Sul sem correr o menor perigo e sem levar uma arma.

P. — Quando regressou de África, já vi­nha com a convicção formada acerca do fu­turo das colónias?

R. — Fiquei com a impressão, e também com a convicção, de que era preciso dar-lhes ampla auto­nomia administrativa que lhes abrisse o caminho para a independência. Quando se decretou o Acto Colonial, eu disse: «A nossa resposta, a resposta da Oposição a este Acto Colonial é a independência das colónias.» Estava, então, em S. Paulo e a minha opi­nião foi recebida, em alguns sectores, com espanto e, até, indignação. Mais tarde, em 1946, fiz uma de­claração pública por ocasião do aniversário do 5 de Outubro, em que disse: «É preciso dar a indepen­dência às colónias. É preciso fazer de Angola um Brasil. É preciso fazer de Moçambique um Brasil. É preciso juntar esses novos Brasis com o velho Bra­sil e com Portugal e fazer uma comunidade de nações de língua portuguesa.» O general Spínola ainda não tinha escrito o seu livro, «Portugal e o Futuro»...

P. — Nessa altura, ainda não havia movi­mentos de libertação em marcha ...

R. — Pois não imagina como fui insultado, em prosa e em verso, pêlos doutores do Estado Novo. E não só por esses. Também por alguns dos nossos cons­pícuos correligionários.

P. — E qual foi a reacção dos emigrados portugueses do Brasil a essa declaração?

R. — Integraram-se todos dentro desse pensa­mento. O Jaime Cortesão, o Jaime de Morais, o An­tónio Amorim, o Paulo de Castro e os outros. E re­cebi adesões de Portugal. Do Hernâni Cidade e não só. O Casais Monteiro publicou, nessa altura, no «Portugal Democrático», uma série de artigos em que os democratas portugueses reconheciam o direito dos povos das colónias portuguesas a serem livres e a governarem-se por si próprios. Há outra afirma­ção minha feita em 1950, na carta que dirigi à tropa, chamando-a à responsabilidade dos seus actos. Fiz uma tiragem especial e mandei-a aos comandantes de todos os regimentos do Norte. Esconderam-na. Não se disse uma palavra acerca dela. Havia a cen­sura, havia a PIDE, e, nessa altura, era crime de alta traição defender a independência para as coló­nias. Mais tarde, quando o Rui Luís Gomes apareceu no Brasil, oferecemos-me um jantar em São Paulo, em que o problema colonial já foi posto com todas as suas implicações, mesmo antes de iniciados os movi­mentos de libertação. Eu fiz o vaticínio de que te­ríamos uma guerra em África, se não mudássemos de política com as colónias: «Ou a independência ou a guerra.» O Salazar optou pela guerra. A obcecação é a pecha dos ditadores. A guerra perdeu-se e as consequências estão à vista.

P. — Quando regressou de África foi logo para França1?

R. — Ainda gozei um mês de licença. Depois, como lhe disse, fui convidado para fazer parte do Quartel-General do Gomes da Costa. Fiz a guerra. Quando regressei, deu-se o episódio do Sidónio. Res­tauração da República no Porto e passagem à situa­ção de licença ilimitada.