VIII
AS GUERRAS DE
RESISTÊNCIA
1. O Império de Gaza
Lembremo-nos de que
Soshangane tinha fundado um vasto império que ia desde o Zambeze até Lourenço
Marques - o Império de Gaza. Seu filho Muzila não
conseguiu manter intacto o império e quando morreu em 1885 seu filho Gungunhana
passou só a reinar sobre um império de Gaza que ia desde o rio Pungué até ao
rio Incomate. A região ao norte do rio Pungué tinha sido conquistada por um
prazeiro, Manuel António de Sousa, e a região ao sul do Incomate tinha-se
tornado independente sob o comando de vários chefes de tribo que mantinham
relações muito estreitas com os portugueses. Gungunhana tinha estabelecido a
sua capital em Manjacase (Mandlakaze).
Gungunhana mal
subiu ao poder foi contactado por agentes da British South África Company e por
agentes do Governo Português que queriam assinar com ele um acordo em que o
Gungunhana se declarasse vassalo e reconhecesse a autoridade de um dos
governos.
Gungunhana era um
político muito hábil e viu imediatamente a vantagem que poderia tirar dum
conflito entre duas potências estrangeiras interessadas em subjugá-lo. Assim,
embora tivesse assinado um acordo com os portugueses, nunca recusou a proposta
dos ingleses e mesmo lhes dava esperanças. Isso, mais tarde, foi-lhe útil na
luta contra os portugueses.
Para poder dominar
sobre um território tão vasto, Gungunhana seguia o mesmo sistema tradicional
dos zulus, a divisão do império em províncias que eram comandadas por indunas
da sua confiança, a submissão das tribos conquistadas, a obrigação do pagamento
dum tributo, etc.
Várias tribos
revoltaram-se contra Gungunhana. Muitas delas para poder resistir tiveram que
pedir auxilio aos portugueses; como por exemplo, os povos de Inhambane (Massinga,
Yinguane, Hlavanguane, Zunguze) que em 1887 pediram auxflio aos portugueses e
derrotaram as tropas que Gungunhana enviou contra eles na batalha de
Chicungussa. Em troca do seu auxilio os portugueses exigiam desses povos que
reconhecessem a sua autoridade e lhes dessem facilidades dei comércio e de
construção de postos militares. Os Chopes mais para o sul de Inhambane também
se revoltaram contra Gungunhana, pedindo auxílio aos portugueses. Desta forma
os portugueses conseguiram, alargar o seu domínio sem ter que fazer grandes
esforços militares.
O exército de
Gungunhana estava dividido em mangas (mais ou menos correspondentes a
batalhões) e estas em mabanjas (mais ou menos correspondentes a companhias). As
mangas eram comandadas por indunas e as mabanjas eram formadas por homens da
mesma idade (circuncidados ao mesmo tempo). Todas estas mangas eram
superiormente comandadas por Maguiguana, grande induna militar do exército de
Gungunhana; este exército contava cerca de 15.000 homens, dor quais 2.000
armados com espingardas.
O poder de
Gungunhana causava inquietação aos portugueses que começaram, logo depois da
conferência de Berlim, a fazer planos de conquistar o Império de Gaza. Por essa
razão foi nomeado um comissário-régio (comissário do rei), António Enes, com
poderes especiais para dominar toda a região ao sul do rio Save. Enes veio
acompanhado de um grande exército, muito bem armado, e de oficiais que
estabeleceram um plano de ataque.
A primeira fase
desse plano era a ocupação e a submissão dos povos vizinhos da cidade de
Lourenço Marques.
2. A resistência na região de Lourenço
Marques
Em volta da cidade
de Lourenço Marques havia um grande número de chefes tribais que mantinham
relações amicais com os portugueses, (Maota, Machaquene, Matola, Maputo) e que
se consideravam vassalos da coroa portuguesa, pagando o mussoco (imposto de
palhota), permitindo a livre circulação de tropas nos seus territórios,
ajudando o exército português, fornecendo homens, etc.
Havia outros
chefes de tribo que se não submetiam aos portugueses e que obedeciam ao
Gungunhana de quem se consideravam vassalos. Eram, por exemplo, os povos de
Manhica, Magaia, Zixaxa, Moamba, etc. Foi contra estes povos que os portugueses
enviaram primeiro as suas tropas.
O pretexto que os
portugueses arranjaram para o ataque foi um conflito que surgiu na tribo Magaia
entre o chefe Maazul e um outro pretendente Maveja. Maazul era vassalo fiel do
Gungunhana e não aceitava a soberania portuguesa. Os portugueses conseguiram
convencer Maveja a reconhecer a soberania portuguesa em troca do seu auxílio
para lutar contra Maazul.
Sabendo desses planos para o expulsarem,
Maazul alia-se a Matibejana (Nwamatibyane), chefe da tribo Zixaxa (Zihlahla) e ambos
resolvem atacar Lourenço Marques. Não encontraram resistência nas tribos fiéis
aos portugueses porque estes tinham aumentado o imposto de palhota e isso tinha
causado um grande descontentamento. Assim no mês de Outubro de 1894, as mangas
de Matibejana, Maazul e do chefe Angundjuane de Moamba marcharam sobre a cidade
de Lourenço Marques que se encontrava fortificada de três linhas sucessivas em
volta da cidade. Conseguiram passar as três linhas fortificadas e os
portugueses viram-se obrigados a refugiar-se na fortaleza. A cidade foi
saqueada e a fortaleza cercada; os portugueses só conseguiram escapar porque os
navios de guerra que se encontravam no porto de Lourenço Marques começaram a
bombardear as tropas moçambicanas e estas tiveram que levantar o cerco e
retirar-se para Marracuene.
Em Janeiro os
portugueses receberam reforços de tropas e resolveram atacar Marracuene. Nos
primeiros dias de Fevereiro um exército português comandado por Caldas Xavier
avança para Marracuene. O chefe de Moamba já se tinha aliado aos portugueses e
só Matibejana e Maazul combatiam. Um violento combate teve lugar que terminou
sem vitória decisiva de nenhuma das partes. Dias depois, os portugueses
retiram-se para Lourenço Marques.
3. A batalha de
Magude
Maazul e
Matibejana tinham ido refugiar-se sob a protecção de Gungunhana no Incomate,
perto de Magude.
Os portugueses
enviaram ao Gungunhana um ultimato em que exigiam a entrega desses dois chefes.
Gungunhana recusou fazê-lo. Este foi o pretexto oficial para o ataque que os portugueses
prepararam cuidadosamente.
O plano de ataque
dos portugueses contra Gungunhana e de penetração no interior utilizava
largamente as vias fluviais dos rios Incomate, Limpopo e Inharrime.
As tropas
portuguesas deviam avançar em três colunas: uma ao longo do Incomate, outra
pelo rio Limpopo e uma terceira descendo de Inhambane pelo rio Inharrime.
A ponto de
encontro destas três colunas era na região de Manjacaze onde residia o
Gungunhana. A coluna mais forte era a de Inhambane.
A coluna de Incomate
foi a primeira a dar batalha. Era comandada por Freire de Andrade. Foi em 7 de
Setembro de 1895 que a coluna portuguesa se encontrou com as tropas de
Matibejane e de Maazul na planície de Magule. A táctica dos portugueses era de
formar um quadrado com os soldados virados para as 4 frentes e com a artilharia
nos ângulos. Os portugueses costumavam pôr nas filas da frente os soldados
africanos do seu exército, especialmente os angolanos. As tropas de Matibejane
e Maazul cercaram o quadrado mas não conseguiram penetrar nele, Depois de duas
horas de combate tiveram que recuar abandonando muitos mortos. Foi uma grande
derrota para Matibejane e Maazul. Depois de Magule os portugueses incendiaram
todas as povoações circunvizinhas, espalhando o terror e intimidando todos os
chefes da região, muitos dos quais vieram realmente prestar vassalagem aos
portugueses.
4. A batalha de Coolela
A coluna saída do norte,
Inhambane, era comandada pelo Coronel Galhardo e compunha-se de infantaria e
artilharia, e era comandada por Mouzinho de Albuquerque. Foi a 15 de Setembro
que essa coluna se pôs em marcha. Gungunhana mandou emissários aos portugueses
tentando com várias propostas afrouxar o andamento da coluna. Os portugueses
exigiam a entrega do Matibejane e Maazul, um pagamento anual de 10.000 libras
em ouro, autorizar a cobrança de impostos e outras facilidades comerciais e
militares. Claro que Gungunhana não podia aceitar tais condições que
significavam a perda completa dos seus direitos e a submissão do seu povo. Por
isso reuniu todas as suas mangas num exército sob o comando de Maguiguana.
Muitos chefes de tribo no entanto recusaram-se a enviar os seus homens para
combater os portugueses. Mesmo assim o exército de Maguiguana conseguiu reunir
cerca de 10.000 homens e cerca de 2.000 espingardas.
No dia 7 de
Novembro de 1895 os dois exércitos encontraram-se no vale de Coolela. A batalha
que se travou foi de curta duração mas trágica em consequências para Gungunhana
que dela saiu derrotado. Os portugueses continuaram a espalhar o terror,
incendiando aldeias e devastando as culturas. No dia 11 os portugueses
incendiaram Manjacaze (Mandlakaze), o lugar sagrado. Muitos chefes das tribos
entre o Save, Chengane e o Limpopo vieram prestar vassalagem aos portugueses e
aceitar as imposições destes.
Gungunhana ficou
muito desmoralizado com a derrota de Coolela e retirou-se para Chaimite.
Gungunhana estava disposto a aceitar a submissão aos portugueses em Chaimite
onde nos fins de Dezembro foi aprisionado e deportado para Cabo Verde.
Maguiguane continuou a lutar contra os portugueses.
5. As lutas do Maputo
A região do Maputo era governada por uma
rainha de nome Zâmbia que era amiga dos portugueses a quem pagava tributos
anuais.
Um dos seus filhos,
Anguanasse (Ungwanaze) encorajado pelas lutas de resistência de Gungunhana,
quis acabar com a amizade dos portugueses e conseguiu apoderar-se da chefia,
desterrando sua mãe. Os portugueses em vão tentaram opor-lhe um irmão,
Macofoque que tal como a mãe, estava disposto a aceitar a soberania portuguesa.
Anguanasse começou
a expulsar todos os comerciantes indianos que se encontravam no Maputo e todos
os missionários que por lá se arriscavam a não pagar os tributos e a impedir a
cobrança dos impostos.
Os portugueses
então resolveram enviar Mouzinho de Albuquerque para conquistar a região com o
seu batalhão de cavalaria.
Uma campanha
sangrenta se realizou de Janeiro a Março de 1896 em que Anguanasse resistiu
heroicamente às tropas de Mouzinho. Mas em Março de 1896 foi totalmente
derrotado na batalha de Macassene e foi obrigado a exilar-se Desta maneira toda
a região ao sul de Lourenço Marques passou a ser dominada pelos portugueses.
6. Guerras de resistência de Maguiguane
Depois de terem vencido em Coolela, os
portugueses criaram vários postos militares entre os quais dois muito bem
guarnecidos em Chibuto e Palule.
Maguiguane
começou a atacar sistematicamente todos os pequenos postos, destruindo-os e
lançando dessa maneira a desmoralização nas tropas portuguesas. A maior parte
da guarnição militar portuguesa foi atacada e os poucos que escaparam, na sua
fuga para Chibuto, foram completamente aniquilados na lagoa Nafucue. Depois
deste sucesso, Maguiguane começou a fazer planos de atacar o posto de Chibuto
onde se encontrava uma grande guarnição militar. Os sucessos de Maguiguane
encorajaram o povo e muitos chefes de tribo começaram a acreditar de novo na
possibilidade da resistência contra os portugueses.
Estes começaram a verificar
que a sua vitória contra Gungunhana não lhes tinha dado tanto poder como
pensaram e, por isso, resolveram atacar de novo com uma grande força. Mouzinho
de Albuquerque, que era então o comissário-régio, encontrava-se no Norte de
Moçambique a lutar contra o Namarral. Imediatamente embarcou para Lourenço
Marques com toda a sua cavalaria.
No mês de Julho de
1897 embarcou com mais tropas de reforço pelo rio Limpopo até à foz do rio
Chengane donde se dirigiram para Chibuto. Aqui souberam que Maguiguane tinha
concentrado as suas forças em Macontene, disposto a atacar Chibuto. Mouzinho
sabia que se a fortaleza fosse cercada a sua cavalaria de nada serviria e por
essa razão resolveu ir ao encontro de Maguiguane. No dia 20 de Julho os dois
exércitos estavam frente a frente nas colinas de Macontene.
Na batalha
de Macontene as tropas de Maguiguane foram derrotadas devido à superioridade do
armamento português e sobretudo à cavalaria que desorientava as mangas de
Maguiguane com a sua mobilidade.
A derrota de Maguiguane
provocou uma desmoralização nas tribos que lhe eram fiéis. Maguiguane ficou
quase isolado, sem homens e rodeado de inimigos. Resolveu ir refugiar-se no
território dos Matabeles. Mouzinho enviou a sua cavalaria perseguir Maguiguane.
Este conseguiu escapar à perseguição mas em Mapulanguene, perto dos Montes
Libombos, quando já se preparava para atravessar a fronteira, foi cercado pelos
portugueses. Apesar de se encontrar com uma dezena de homens perferiu lutar a
render-se. Ainda matou muitos soldados portugueses mas finalmente foi morto.
Lutou como um herói até ao fim, lutando energicamente contra a penetração
portuguesa em Moçambique.
Depois de vencerem
Maguiguane os portugueses passaram a dominar efectivamente o Sul do Save.