VII
O IMPÉRIO ZULU
/. As invasões dos Ngoni
Num dos capítulos
anteriores já estudámos quais foram as grandes deslocações dos povos Bantu da
zona equatorial-central para o sul da África. Um grande grupo desses povos, os
Ngonis, veio fixar-se na planície costeira entre a cadeia de montanhas
Drakensberg e o mar, o rio Fish ao sul e a Delagoa Bay (Lourenço Marques) ao
norte.
Nessa região o
solo é bastante fértil, as chuvas são regulares e os muitos rios que descem das
montanhas Drakensberg foram fronteiras naturais históricas. Por outro lado, é
uma zona livre da mosca tsetse e da malária. Todas estas condições naturais
fizeram com que o povo Ngoni aumentasse depressa.
A região era
própria para a pastoricia e os povos Ngoni ocupavam-se geralmente da criação de
gado.
Os Ngonis eram um
povo patrilinear. Viviam em tribos não muito numerosas, tinham um chefe que
tinha funções políticas, religiosas e militares dentro do quadro da tribo. No campo
militar era frequentemente ajudado por indunas, que eram uma espécie de ouvidos
e olhos do rei. O povo Ngoni tinha, um tipo de economia tribal em que os
escravos ainda não tinham lugar mas tinha certas camadas da tribo que possuiam
já uma situação privilegiada na repartição dos bens da produção.
Nos meados
do século XVIII várias lutas começaram a ter lugar entre as várias tribos pela
posse da terra. O aumento da população criava problemas difíceis de resolver
numa economia em que não se produzia mais do que o necessário para consumir. As
tribos tinham que se expandir para terem espaço suficiente para a pastoricia e
agricultura, e isso tinham que o fazer no estreito corredor entre as montanhas
Drakensberg e o mar. Os rios que descem do Drakensberg formavam fronteiras
naturais e dessa forma se formaram três grandes grupos de tribos Ngoni. Os
Ngwane, comandados pelo chefe Sobuza, encontravam-se desde o rio Tembe até ao
rio Pongola. Os Ndwandwe entre o rio Pongola e o rio Mfolozi e comandados por
Zwide. Os Mthethwa do rio Mfolozi até ao rio Tugela e comandados por
Dingiswayo. As lutas entre estas tribos eram muito frequentes e por essa razão
a organização militar dessas tribos se aperfeiçoou muito. Os exércitos eram
organizados na base de grupos da mesma idade.
Todos
aqueles que eram circuncidados ao mesmo tempo faziam parte dum mesmo grupo no
exército o que ajudava a criar um maior entendimento nesses grupos vindos de
regiões diferentes.
Esta formação do exército
foi primeiramente utilizada por Dingiswayo, o mais famoso dos três chefes
tribais.
2. Tchaka, fundador do reino Zulu
Foi em 1740 que
Dingiswayo tomou conta do poder da tribo Mthethwa. Iniciou uma política de
expansão, começando a submeter várias tribos vizinhas à sua autoridade. Foi
então que começou a organizar o exército sob o regime de grupos por idades. A
medida que ia submetendo as tribos vizinhas permitia que os chefes dessas
tribos continuassem no seu posto, sendo apenas obrigados a pagar-lhe um tributo
em gado. Começou assim a criar as funções dum grande reino Ngoni.
Dingiswayo começou a
expandir-se para o norte, o que obrigou Zwide, o chefe dos Ndwandwe, a fugir
para o norte. Ao atravessar o rio Pongola empurrou os Ngwane que tiveram que ir
para a região onde hoje é a Swazilândia. Ficaram desta forma duas grandes
tribos frente a frente, a dos Mthethwa e a dos Ndwandwa.
Por volta de 1790
nasceu na tribo Zulu um rapaz a quem deram o nome de Tchaka. A história do nome
Tchaka está relacionada com as circunstâncias do seu nascimento e por isso a
vamos contar. O pai de Tchaka era herdeiro do trono Zulu. Entre os Zulus era
proibido aos homens terem relações sexuais antes de terem sido circuncidados. O
pai de Tchaka, porém, engravidou Nandi, a mãe de Tchaka, antes de ter sido
circuncidado. Começou-se então a dizer-se que Nandi não estava grávida, que a
razão para o crescimento da barriga era devida a uma doença dos intestinos a
que chamavam «i-tshaka».
Quando o rapaz
nasceu passaram a chamar-lhe Tchaka. Mais tarde o pai reconheceu o filho como
sendo seu e tomou Nandi como uma das suas mulheres. Tchaka cresceu no entanto
afastado do seu pai, vivendo muito ligado à sua mãe e mais tarde veremos as
consequências que isso lhe trouxe no futuro.
Durante a sua adolescência
Tchaka foi incorporado num dos grupos por idades do exército de Dingiswayo onde
logo demonstrou a sua grande bravura e a sua força atlética. Em breve se tornou
um herói favorito de Dingiswayo e passou a comandar um regimento do exército.
Em 1816o pai de
Tchaka morreu e Tchaka decidiu tomar à força o trono Zulu. Embora a sua mãe
nunca tivesse sido considerada uma das grandes mulheres do pai de Tchaka, e
este não tivesse possibilidades de subir ao trono, a sua posição no exército de
Dingiswayo e a sua qualidade de favorito fizeram com que Dingiswayo ajudasse
Tchaka a tomar o trono pela força.
Em 1818 houve uma
grande batalha entre Dingiswayo e Zwide na qual o chefe Mthethwa foi morto.
Tchaka imediatamente tomou conta do poder e iniciou uma série de reformas
militares que o tornaram quase invencível.
3. A organização do exército de Tchaka
Dingiswayo não
tinha conseguido submeter as tribos Ndwandwe à sua autoridade. Os Ndwandwe eram
comandados por Zwide. Na luta pelo espaço Tchaka precisava expandir para o
norte. Para isso reformou todos os métodos de táctica e organização do seu
exército. Tchaka formou um estado tribal militar.
Tchaka tinha verificado
durante a sua estadia no exército de Dingiswayo que as armas empregadas já não
correspondiam às novas tácticas de guerra. Dantes eram pequenos grupos que
combatiam mas com a formação do exército por idade novas armas eram
necessárias. Quando eram pequenos grupos de homens que lutavam usavam lanças
que atiravam de longe. À medida que mais homens entravam na luta, continuando a usar lanças, a maior parte dos
homens ficava desarmada. Assim, a primeira modificação que Tchaka introduziu
foi a de substituir a lança que se atirava por uma lança mais curta de que o
guerreiro se servia como uma espada e que nunca o abandonava. Era punido de
morte o guerreiro que perdesse a sua lança-espada. Ao mesmo tempo Tchaka
introduziu o uso do escudo que protegia o corpo inteiro.
Tchaka transformou
a organização tribal numa organização militar unida, fazendo participar todos os
membros da sociedade na guerra, dividindo com precisão as funções e
introduzindo uma disciplina severa e cruel. Todos os homens de 16 a 60 anos
serviam no exército. Era proibido aos jovens guerreiros casar-se e o casamento
só era autorizado como pagamento de serviços militares. Os guerreiros só comiam
carne. As mulheres e as crianças serviam também no exército, seguindo o
exército com gado, cozinhando e carregando comida. Os homens de outras tribos
que eram feitos prisioneiros tornavam-se escravos e se eram novos e fortes
faziam parte do exército. As mulheres, as crianças e o gado das tribos
derrotadas eram incorporadas na tribo. No período entre guerras toda a tribo
vivia em grandes conjuntos militares (ekanda).
O chefe supremo
era o chefe militar. Era ditador e proprietário de todas as terras da tribo e
tinha o direito de vida e de morte sobre os membros da tribo. Era também o juiz
supremo em casos de assassínio e traição, crimes que eram punidos com a pena da
morte. Todavia, o poder ditador de Tchaka tinha os seus limites. Era controlado
por conselheiros (indunas) com os quais se devia reunir para tomar decisões
importantes.
Foi graças
a esta organização militar perfeita que os zulus conseguiram conquistar e
derrotar numerosas outras tribos.
4. A batalha de Gokoli
Tchaka tornara-se
senhor absoluto nas terras entre o rio Pongola e o rio Tugela. Começou a
desafiar o poder de Zwide, conseguindo fazer com que várias tribos Ndwandwe
começassem a prestar-lhe vassalagem. Zwide não podia ficar parado perante um
inimigo que se preparava para conquistar-lhe as suas terras e por isso resolveu
tomar a iniciativa de atacar Tchaka.
Os dois
exércitos encontraram-se perto da colina Gokoli. Nesta batalha os novos métodos
de guerra instituidos por Tchaka foram postos à prova pela primeira vez. Os
Ndwandwe eram numericamente superiores mas a disciplina do exército zulu
conseguiu-lhe outra superioridade. Os Ndwandwe não conseguiram penetrar nas
linhas cerradas dos zulus, apezar de terem atacado inúmeras vezes. Tiveram de
recuar deixando no campo de batalha cinco dos filhos de Zwide, entre os quais o
herdeiro.
Zwide não desistiu
de atacar. Sabia que travava com Tchaka um combate decisivo. Ou ele vencia e
podia continuar a reinar ou era vencido por Tchaka e o seu povo ficaria sob o
domínio zulu.
Assim em
1819 enviou contra Tchaka um exército poderosíssimo. Face a um exército tão
numeroso Tchaka teve que adaptar novas tácticas.
Tchaka enviou o
seu povo e o seu gado para fechar a passagem ao inimigo ao mesmo tempo que ia atacando
o exército Ndwandwe com pequenos destacamentos de guerreiros, numa táctica de
guerrilhas. Uma noite uma grande quantidade de guerreiros zulus conseguiu
penetrar no acampamento dos Ndwandwe, enquanto estes dormiam, e mataram
centenas de guerreiros. Antes dos Ndwandwe poderem reagir os guerreiros zulus
fugiram.
Ao mesmo tempo,
Tchaka ia deixando o exército inimigo penetrar no seu território quase até ao
rio Tugela, continuando a fazer pequenos ataques de guerrilhas, indo assim desmoralizando
o exército inimigo. A fome começou a lavrar no exército de Zwide e todos os
homens estavam muito cansados. Zwide então decidiu recuar e voltar para o seu
país.
Quando iam
atravessar o rio Mhlatuze o exército de Tchaka caiu sobre eles. Foram completamente
derrotados. Tchaka enviou os seus exércitos que entraram no país Ndwandwe e
massacraram a maior parte da população civil. O que restou do exército de Zwide
dividiu-se em três grupos. Zwide conseguiu chegar com alguns dos seus até ao
Alto Incomate onde se instalou. Dois outros grupos dirigidos por Soshangane e
Zwangedaba foram instalar-se em Moçambique ao sul do Limpopo.
A batalha de
Gokoli marca uma etapa decisiva na carreira de Tchaka e foi o ponto de partida
do que se chamou o Mfecane, ou sejam as migrações para o norte de muitas tribos
Ngoni.
Tchaka passou
desta forma a dominar em todo o território que ia desde a Delagoa Bay (Lourenço
Marques) até ao rio Tugela.
5. O império Zulu
Depois da
sua vitoriosa campanha contra os seus vizinhos do norte, Tchaka resolveu atacar
o sul. Várias expedições foram enviadas para combater os Pondos. Conseguiu
assim chegar até ao rio Fish.
Tendo conseguido formar um Império tão
vasto Tchaka começou a reforçar a sua organização de Estado. Era difícil manter
a lealdade sob um conjunto de povos diferentes. Assim, os chefes das tribos
conquistadas se se declarassem fiéis a Tchaka,
continuavam nos seus postos. Muitas
vezes, porém, era-lhes tirado o poder e Tchaka nomeava para o seu lugar
pessoas da sua confiança. A base do poder residia no exército. Tchaka criou uma
série de guarnições militares à frente das quais se encontrava sempre um
induna. Essas guarnições estendiam-se por todo o território e dessa maneira
Tchaka estava pronto contra qualquer rebelião dos povos conquistados. Essas
guarnições eram verdadeiros quartéis onde se encontravam todos os militares que
viviam na sanzala e que passavam todo o tempo em exercícios militares.
Tchaka tornou-se um
chefe cruel. Muitos dos seus generais (indunas) não estavam satisfeitos com a
disciplina de ferro que Tchaka impunha no exército, sobretudo no que diz
respeito ao casamento.
Vários indunas se
revoltaram contra Tchaka. Um dos mais importantes foi Mzilikazi que com os
homens que formavam a sua sanzala desertou da organização do estado de Tchaka e
foi instalar-se para o noroeste onde é hoje a Rodésia, perto de Bulawayo.
Tchaka
continuou a fazer campanhas militares sucessivas. Lembremo-nos de que Zwide
tinha sido derrotado em Gokoli e se refugiara no Alto Incomate. Os Ndwandwe
tinham conseguido reconstruir a sua tribo e esta começava a ser muito forte sob
o comando de Sikuniana, filho de Zwide. Em 1826 Zwide morreu e um outro seu
filho Somapunga disputa o trono a Sikuniana.
Não o tendo
conseguido vai ter com os zulus e anuncia-lhes que Sikuniana faz planos de
atacar Tchaka. Este imediatamente manda um grande exército que apanha os
Ndwandwe quase desprevenidos. Um grande massacre tem lugar e cerca de 40.000 Ndwandwe
são mortos. A tribo Ndwandwe ficou quase totalmente dizimada e deixou de
existir como tribo independente. Os poucos que restaram foram acolher-se junto
de Mzilikazi e Soshangane.
Tchaka
continua a fazer ataques sucessivos contra os povos vizinhos. Todos são
obrigados a pagar-lhe anualmente tributos sob a forma de cabeças de gado. As
exigências de Tchaka são cada vez maiores e muitas tribos não conseguem às
vezes reunir o número de cabeças de gado para satisfazer Tchaka.
As expedições
punitivas aumentam e todo o Império zulu vive mergulhado no terror. Várias
tentativas de assassinato são feitas contra Tchaka.
6. A morte de Tchaka
Em 1827 Tchaka
decide ir atacar Soshangane que nessa altura se encontrava perto de Delagoa Bay
(Lourenço Marques). Quando ia quase a chegar a Lourenço Marques chegou-lhe a
notícia de que sua mãe Nandi morrera.Tchaka imediatamente mandou parar a
expedição e voltou.
Tchaka sentiu
muito profundamente a morte de sua mãe, com quem vivera e a quem tinha uma
afeição sem medida. Em sinal de luto pela morte de Nandi Tchaka ordenou uma
série de sacrifícios. Durante um ano não se faria agricultura, não se beberia
leite nem comeria carne e todos se deviam abster de relações sexuais. Toda a
mulher que engravidasse nesse período era morta, juntamente com o marido.
Tchaka nunca
casara, porque um herdeiro fazia-lhe pensar na sua própria morte. Toda a mulher
que se engravidasse dele era morta.
O luto pela morte
de Nandi provocou um grande descontentamento em todo o povo. Toda a gente
achava aqueles sacrifícios arbitrários e desumanos.
Aproveitando-se
do descontentamento geral em todo o Império, dois irmãos de Tchaka de nome
Dingane e Mhlangane ajudados por um induna Mbhope resolveram assassinar Tchaka.
No momento em que Tchaka tinha enviado uma parte dos seus exércitos para atacar
os Pondos numa expedição punitiva, Dingane e Mhlangane assassinaram Tchaka. Foi
Dingane quem sucedeu a Tchaka.
7. Os dissidentes de Tchaka
Os
diversos grupos Ngonis que se separaram de Tchaka foram revolucionar uma grande
parte da África do Sul.
Um outro grupo
Ndwandwe comandado por Zwangedaba atravessa o rio Zambeze numa longa e demorada
migração para o norte e vai instalar-se entre os lagos Niassa e Tanganyika. Foi
o grupo de Zwangedaba que ao atravessar a actual Rodésia destrói na sua
passagem o que ainda restava do antigo Império do Monomotapa.
Esta migração do
Zwangedaba durou dezenas de anos e percorreu cerca de 3.000 kms. Esta migração só
foi conseguida graças à técnica militar herdada de Tchaka. Os guerreiros
prosseguiram o seu caminho assegurando a sua alimentação à custa das tribos que
iam vencendo, casando com as mulheres dessas tribos e incorporando todos os
jovens no seu exército por toda a parte onde passavam.
Este grupo não se
manteve unido e houve várias dissidências no curso da migração. Quando
Zwangedaba morreu houve uma dispersão de vários grupos. Uns foram fixar-se nas
margens do lago Tanganyika e outros a Sudoeste do Lago Niassa.
O grupo que se
separou de Tchaka e que era comandado por Mzilikazi foi instalar-se ao norte do
rio Limpopo, perto da actual Bulawayo, no antigo território dos Rozwi que
tinham sido, havia dois anos, devastados pela passagem dos exércitos de
Zwangedaba.
O filho e
sucessor de Mzilikazi, Lobengula, criou um grande reino Matabele que ia desde o
Limpopo até ao Zambeze e que hoje constitui a actual Rodésia (Zimbabwe).
O primeiro grupo
que se separou dos Ngonis foi o grupo das tribos Ngwane que sob o comando de
Sobhuza foi instalar-se no actual território da Swazilândia. O nome de
Swazilândia vem do filho de Sobhuza que se chamava Swazi e que criou o reino
Ngwane sobre todo o territória deste país.
8. Soshangane e a criação do Império de Gaza
Depois da vitória
de Tchaka contra Zwide em Gokoli, um dos chefes militares de Zwide, Soshangane,
foi refugiar-se juntamente com Zwangedaba e Nxaba na região de Lourenço
Marques. Estes comandavam as tribos Mazeko e Msene.
Os
portugueses tinham uma pequena fortaleza e uma feitoria em Lourenço Marques.
Houve várias pequenas lutas entre eles e Soshangane mas finalmente chegaram a
um acordo e os portugueses continuaram na feitoria.
Quando o filho de
Zwide, Sikuniana, foi vencido por Tchaka em 1826 foi refugiar-se junto de Soshangane
que assim fortaleceu muito o exército que estava a organizar segundo os moldes
zulus.
Soshangane
ficou em Delagoa Bay (Lourenço Marques) até 1828. Zwangedaba já tinha partido
para o norte. Tal como Tchaka fazia, Soshangane foi aplicando a todas as tribos
que ia vencendo a obrigação de lhe pagarem tributos, apoderando-se das mulheres
e dos rapazes para os incorporar no exército.
Soshangane,
que também se chama Man ikuse, vai então formar um grande Império, a que deu o
nome do clã de seu avô Gaza.
O Império
de Gaza tinha a sua capital em Chaimite e daí os exércitos de Soshangane
fizeram expedições em todos os sentidos.
Várias dessas
expedições foram contra os portugueses. Em 1834 houve uma particularmente violenta
da qual resultou a retirada de todos os portugueses que se encontravam em
Inhambane.
Em 1836 Soshangane
ataca Sofala e Manica e obriga as tribos Chona a pagar-lhe um pesado tributo.
Os portugueses foram obrigados a fugir de Manica e refugiar-se em Sofala onde
tinham uma forte guarnição, mas mesmo assim, sujeitos a repetidos ataques.
Soshangane começa
em seguida a atacar os prazeiros da margem sul do rio Zambeze. A maior parte
dos prazos dessa região passou a ficar controlada por Soshangane e os poucos
prazeiros que lá restaram eram tratados como as tribos conquistadas, obrigados
a pagar elevados tributos.
Soshangane criou
um grande Império que ia desde o Zambeze até Lourenço Marques. Esse império foi
o Império de Gaza.
O estado formado
por Soshangane era idêntico ao estado zulu que Tchaka formara. Soshangane
continuou a usar o sistema de incorporação por idades e a utilizar os mesmos
métodos de luta. Os chefes das tribos conquistadas eram obrigados a servir nos
diversos exércitos de Soshangane. Os exércitos de Soshangane eram comandados
por indunas escolhidos por ele.
Os membros do
núcleo Ngoni constituíam uma classe privilegiada, da qual eram e colhidos os
indunas e os demais chefes, e a qual se chamava «ba-Ngoni». Os elementos das
tribos conquistadas pertenciam a uma outra classe, com menos privilégios, e que
se chamava «ba-changane». Eram sujeitos a diversos tipos de discriminação, por
exemplo no campo de batalha eram sempre os que ficavam nas primeiras filas.
Houve várias
revoltas das tribos conquistadas. A mais importante foi a dos Tongaque que
conseguiram escapar do exército de Soshangane e foram refugiar-se no Transval.
Entre 1856 e 1859 Soshangane morreu e a sucessão passou para seu filho Mawewe.
Este transferiu a capital mais para o sul, para Bilene. O seu governo foi no
entanto bastante impopular e isso deu lugar a que um seu irmão Muziia começasse
a fazer planos de tomar o trono. Muzila conseguiu apoderar-se do trono e Mawewe
foi exilado para Swazilândia onde morreu mais tarde.
Muzila transferiu
de novo a capital para Chaimite e continuou a fazer campanhas militares contra
todas as tribos vizinhas.
Muzila
reinou até 1885 e conseguiu manter o Império de Gaza quase intacto. Ele tinha
iniciado relações com os portugueses e ingleses que nessa altura tinham
conflitos entre si e Muzila tinha sabido aproveitar-se desses conflitos para
manter o domínio sobre o Império. Tinha concedido aos portugueses alguns prazos
no Zambeze que tinham sido ocupados por Soshangane e manteve sempre muito boas
relações comerciais com os portugueses.
Quando
Muzila morreu em 1885 foi um seu filho Gungunhana que lhe sucedeu.