VI
PERÍODO DOS
PRAZOS 1700-1880
Este
capítulo que trata do terceiro período da História de Moçambique vai talvez
parecer-vos muito breve em comparação com os outros capítulos já estudados ou a
estudar. A razão é devida à falta de documentos e outros testemunhos que
possuímos sobre este período e não devido à menos importância que achamos
dedicar-lhe. Foi na verdade um período muito importante para a história do
nosso País, o período em que pela primeira vez os portugueses tentaram fazer
uma colonização organizada, mas que no entanto falhou como adiante veremos. Foi
também durante este período que o povo de Moçambique sofreu duramente com a
escravatura e com a propaganda dos missionários.
Antes de entrarmos
no estudo deste capítulo devemos estudar, em linhas gerais, as características
da colonização portuguesa nos séculos XVII e XVIII para mais facilmente
podermos compreender bem as actividades dos portugueses em relação à história
da África.
A actividade
principal dos portugueses em África durante este período foi o comércio de
escravos. Fizeram tentativas de colonização mas a procura de escravos era a sua
tarefa principal. Os métodos que explicam a actividade colonial portuguesa em
África eram os seguintes:
a) Tirar vantagem
da superioridade técnica das suas armas a fim de obter sucessos fáceis,
ajudando militarmente uma tribo africana contra outra, muitas vezes provocando
conflitos para tirar vantagem do seu auxilio.
b) Aproveitar-se
da tendência dos povos africanos daqueles tempos em acreditar na superstição,
subjugando o seu espírito com o auxílio dos missionários.
c) Utilizar
largamente os próprios africanos para apanhar e vender os seus próprios irmãos.
Os portugueses
foram os pioneiros no tráfico dos escravos em África. Os processos,
métodos e a brutalidade que os portugueses empregaram no comércio de escravos
foram adaptados por outros países europeus.
OS PRAZOS, O COMÉRCIO DA ESCRAVATURA E OS
MISSIONÁRIOS
1. O inicio do sistema dos prazos
Os
primeiros portugueses que foram instalar-se em Moçambique eram ladrões,
assassinos e bandidos que eram enviados de castigo ou degredo, donde o nome que
se lhes deu, degredados. Nos meados do século XVII esses degredados iam para
Moçambique cumprir as suas penas. A maior parte deles, porém era deixada era
liberdade à sua chegada e imediatamente se lançava na exploração dos povos de
Moçambique. Foram os degredados os primeiros comerciantes de escravos que já no
século XVII vendiam aos árabes.
Os degredados
fabricavam armas de fogo e munições que iam vender a certos chefes de tribo
ansiosos de derrotar um inimigo. Muitas vezes constituíam pequenos exércitos
armados de mercenários (soldados pagos) que iam lutar ao lado de quem lhes dava
mais dinheiro. O interesse da maioria dos degredados era ganhar dinheiro antes
de voltar para Portugal.
Outros que se
instalaram em Moçambique desde o século XVII foram os soldados portugueses que
tinham lutado contra o Monomotapa e que se tinham instalado ou nas feitorias em
Tete e Sena ou ao longo do rio Zambeze onde começaram a fazer comércio. Pouco
tempo depois os soldados juntaram-se aos degredados na exploração do povo
moçambicano.
No
princípio a coroa portuguesa não pôs obstáculos à actividade dos degredados e
soldados. Com o decorrer do tempo, depois de Portugal ter perdido a maior parte
das suas possessões na índia e assim ter acabado com o comércio com o Oriente,
a coroa portuguesa passou a dedicar mais atenção às feitorias do rio Zambeze.
Muitos capitães das feitorias receberam ordens para impedir que os comerciantes
(degredados e soldados portugueses) fizessem comércio com os árabes. Daí
aconteceu que os comerciantes muitas vezes iam com os seus exércitos e atacavam
os capitães que assim não tinham autoridade sobre eles.
A partir
dos meados do século XVII os degredados e os antigos soldados portugueses que
se encontravam em Moçambique passaram a fazer um negócio rendoso -o comércio de
escravos. Os escravos eram-lhes fornecidos pêlos próprios africanos que ao
lutarem contra outra tribo vendiam os prisioneiros aos portugueses. Estes por
sua vez iam vendê-los aos árabes que os levavam para a Arábia e outros países
do Médio Oriente.
A coroa portuguesa
no século XVII já fazia a escravatura mas só na costa ocidental da África. As
novas possessões portuguesas no Brasil necessitavam de grande número de
mão-de-obra (trabalhadores) barata para poderem lucrar muito.
Estes soldados
portugueses e degredados foram-se instalando, semeando o terror entre as várias
tribos e conquistando terras. Conseguiram arranjar desta forma grandes
machambas onde eles dominavam como senhores absolutos, fazendo a lei e
estabelecendo impostos.
No início do
século XVIII o governo português teve que encarar a situação, procurando acabar
o poder e autoridade dos degredados e antigos soldados. Resolveu então fazer unia tentativa de pelo menos
poder controlar a situação. Foi daí que nasceu a ideia de enviar para o Sudeste
da África indivíduos a quem concedia uma parcela de terreno por um determinado
prazo de tempo. Daí o nome de prazo que foi dado a esse sistema.
Claro que a
concessão da terra era teórica porque o governo português não tinha autoridade
suficiente sobre essas mesmas terras. O prazeiro tinha que as conquistar.
2. Os primeiros prazeiros
Com a
colonização activa que Portugal fazia no Brasil a mão de obra portuguesa não
era suficiente para uma colonização em duas regiões diferentes. Por essa razão
os indivíduos que primeiro receberam os prazos em Moçambique foram os indianos,
sobretudo de Goa, que se tinham convertido à religião cristã. Vieram
instalar-se em Moçambique, passando aí a residir,
muitas vezes casando com mulheres africanas.
Cada prazo era
concedido em geral por um período de três gerações, ao fim das quais o prazo
voltava para o governo português. A área da terra moçambicana que foi dividida
em prazos encontrava-se no interior de um triângulo que ia teoricamente de Tete
a Sofala e a Quelimane. Na verdade só as terras ao longo do Zambeze, desde Tete
até ao mar, constituíam prazos.
Muitos dos chefes
africanos consentiam na instalação desses colonos. Isso trazia-lhes vantagens
comerciais, sobretudo o comércio de escravos.
E verdade que o
comércio de escravos não se fez sem ter havido o derramamento de sangue. Durante
todo o século XVIII pequenas lutas se deram seja entre os
prazeiros e os povos Africanos, entre os
povos Africanos entre si, ou entre os prazeiros
entre si.
Faltam-nos
documentos para podermos saber exactamente as lutas de resistência do povo moçambicano
ao sistema dos prazos. Podemos no entanto saber que os povos de Moçambique se
encontravam muito fracos e divididos. Vimos que o Império de Monomotapa se
tinha enfraquecido. Por outro lado, o desejo de enriquecer por parte de certos
elementos do povo no comércio de escravos tinha-os levado a auxiliar os
prazeiros.
3.
O comércio de escravos
Os portugueses
foram os primeiros europeus comerciantes de escravos em África. Já em 1440, no
Golfo da Guiné, faziam esse comércio. Esses primeiros escravos eram levados
para Portugal para trabalhar nas manufacturas que o capitalismo havia criado.
Durante um certo tempo, Portugal manteve o monopólio do comércio de escravos na
costa ocidental da África, mas o monopólio acabou quando as grandes potências
capitalistas, Inglaterra, França e Holanda, entraram no comércio durante a
segunda metade do século XVI.
Só no
século XVII atingiu um tal nível que provocou grandes lutas entre as várias
potências capitalistas da Europa.
Para Portugal isso
aconteceu quando nos fins do século XVI e nos princípios do século XVII começou
a colonizar o Brasil. A necessidade de escravos era tão grande que se
estabeleceu que cada ano fossem levados para o Brasil cerca de 10.000 escravos.
Essas quantidades de
escravos eram trazidas da África Ocidental. De Moçambique muito poucos escravos
eram trazidos porque a passagem do Cabo da Boa Esperança era demasiado perigosa
para os navios sobrecarregados de escravos.
Só a partir de
1640 quando Angola estava ocupada pêlos holandeses e quando o comércio com a
índia era muito pouco rendoso é que os mercadores de escravos portugueses
começaram a ir a Moçambique para levar os escravos. Como vimos, eram os
prazeiros que lhes forneciam esses escravos. Os maiores centros de venda de
escravos em Moçambique eram a ilha de Moçambique e Quelimane.
Durante todo os
século XVIII o comércio de escravos fazia-se em Moçambique. Foi só nos fins do
século que o comércio subiu muito. As lutas entre os africanos da costa
ocidental fizeram com que os portugueses passassem a ir a Moçambique para poder
satisfazer o número anual necessário para o trabalho nas roças (fazendas) do
Brasil.
Até 1850 o número
de escravos levados de Moçambique era cerca de 15 a 25 mil por ano.
As potências
capitalistas europeias aboliram a escravatura em África por volta da primeira
metade do século XIX porque nesta altura elas já tinham começado a explorar as
riquezas da África. Esses países europeus precisavam da mão-de-obra local que a
escravatura exportava para as Américas.
Em Moçambique a
abolição da escravatura foi decretada em 1836. Mesmo assim os prazeiros e os
degredados não acabaram com as guerras para obter escravos. Esse negócio
continuou até quase aos fins do século XIX.
Ao mesmo
tempo que os prazeiros agiam pela força, um outro grupo de homens tentava
subjugar o povo moçambicano pelo espirito. Desde sempre os portugueses se
faziam acompanhar por missionários nas suas expedições militares de conquista.
Não é de admirar que quando tentavam uma colonização organisada os portugueses
tivessem contado com os missionários e a eles destinassem um papel importante.
A única
arma que os missionários tinham era a persuasão. Exploravam profundamente a grande
tendência dos povos africanos para a superstição e conseguiram incutir em
muitos africanos a ideia de que os portugueses eram enviados por Deus dado que
o Papa, Seu representante na terra, lhes tinha ordenado de ir cristianizar a
África.
Conquistando a confiança de
alguns chefes de tribo a quem interessavam alguns aspectos da doutrina cristã,
tais como a diferença de classes sociais, os missionários foram aprendendo a
conhecer bem a superstição africana. Penetrando pelo interior, longe dos sítios
acessíveis aos prazeiros e aos soldados, as informações dos missionários sobre
a situação económica e política das diversas tribos e também sobre os conflitos
entre essas tribos e a maneira de os provocar, foram de grande utilidade para a
administração colonial de todos os tempos.
4. Os missionários
Aconteceu que muitos
missionários também com o decorrer do tempo se foram metendo no negócio de
escravos e anexaram terras tornando-se assim verdadeiros prazeiros. As coisas
foram piorando até que às vezes os dirigentes dos missionários tiveram que
expulsar muitos padres missionários das suas fileiras. Outras vezes era o
próprio Governo que tinha de tomar medidas, porque as companhias de
missionários tornavam-se tão poderosas que disputavam o poder e a autoridade do
próprio rei de Portugal. Esses missionários exerciam uma influência decisiva na
colonização.
Os missionários
que mais activamente estiveram presentes em Moçambique foram os da companhia
dominicana, ou seja, os dominicanos. Todo o seu trabalho explorador se exercia
ao longo do rio Zambeze, na grande região onde abundavam muitos prazos. Fora
dessa região poucos ou nenhuns dominicanos se encontravam.
5. Conclusão
Seria talvez
demasiado afirmar que a exploração colonial portuguesa em Moçambique foi um
sucesso durante os séculos XVIII e XIX. Devido à pobreza e falta de técnicos,
Portugal não teve a capacidade de colonizar os seus territórios do Sudeste
Africano tal como o fizeram os ingleses e os holandeses no Cabo.
Além do comércio dos
escravos que os prazeiros faziam de acordo com muitos chefes de tribo e uma
pequena exploração comercial, os portugueses não conseguiram colonizar
Moçambique durante o século XVIII e uma grande parte do século XIX.
O sistema dos
prazos foi, todavia, uma tentativa de colonização que falhou. A experiência
falhou porque os portugueses não tinham o conhecimento técnico da colonização e
também porque os africanos a isso se opuseram. É certo que os africanos só
tiveram força para retardar o colonialismo português no século XVIII. Os
portugueses começaram a ganhar terreno no século XIX e no século XX conseguiram
dominar Moçambique inteiro com a queda do Império de Gaza em 1895-97, como mais
adiante veremos.
PERGUNTAS
1.
Que sistema Portugal usou para
colonizar Moçambique?
2.
O que é um prazo? Para quanto tempo era concedido?
3. Que país europeu
entrou primeiro no comércio de escravos?
4. Para onde os portugueses levavam a maior
parte dos escravos capturados na África Ocidental?
5. Na conquista de Moçambique pelos portugueses, houve um grupo
que não usou força. Que grupo foi esse e que arma usou?
6.
Em que região de Moçambique os dominicanos trabalharam muito?
7. Donde vieram as famílias que constituíram os
primeiros prazeiros em Moçambique?
8.
Qual foi o principal centro de venda de escravos em Moçambique?
9.
Em que século os portugueses dominaram Moçambique?
10. Diga porque os
portugueses nunca souberam colonizar bem os seus territórios tanto no passado
como no presente.