V

 

                          O MONOMOTAPA - SEGUNDO PERÍODO CHONA 1600-1700

 

Dividimos o segundo período da História de Moçambique em dois grupos, o primeiro período que vai de 1325 até 1600 e o segundo período Chona ou Mambo que vai de 1600 a 1700.

Esta divisão deve-se ao facto de que por volta de 1600 duas civilizações conti­nuaram a existir no território que tinha sido o do Império do Monomotapa. Vimos já a divisão em duas dinastias entre Monomotapa e Changamire e como vários reinos se tinham separado do Monomotapa, tais como os Quiteve, os Báruè, os Butua e Manica, que se tinham libertado da tutela do Monomotapa.

Essas duas civilizações desenvolveram-se seguindo vias diferentes. O Monomo­tapa no Norte entre os rios Umfuli e Zambeze, e Changamire ao sul do rio Umfuli até Limpopo.

O Monomotapa teve que lutar constantemente contra os portugueses que tinham penetrado pelo Zambeze até Tete e dali até Massapa. A preocupação constante de luta contra os portugueses impediu que a sua civilização se desenvolvesse a tal ponto que veio a ser absorvida pêlos Changamire.

Os Changamire no interior não sofreram tanto dos ataques dos portugueses e a sua civilização progrediu tranquilamente e da qual temos hoje testemunhos nas ruínas de Dlo-Dlo, Khami e Mapungubwe.

No reino de Manica desenvolveu-se também uma grande civilização agrícola e mineira pelo que nos podem relatar as ruínas de Inyanga.

Vamos por isso estudar esta segunda etapa do segundo período Chona, também chamado Mambo, porque este era o título que se dava ao Monomotapa. Mambo quer dizer rei em Chona. Veremos neste período as relações do Monomotapa com os portugueses e o que se passou na dinastia de Changamire.

 

1.      O reino de Changamire

 

Em 1597 o Monomotapa era Gatsi Rusere, a quem davam o título de Mambo. Gatsi Rusere mantinha relações comerciais com os portugueses que tinham feitorias em Tete e Sena. Frequentavam também três feiras no território mesmo do Monomotapa. As três feiras eram Massapa, Bokuto e Luanze. A mais importante das três era Massapa onde se faziam as trocas de produtos minerais pelas mercadorias trazidas pêlos portugueses.

Os capitães portugueses das feitorias de Tete deviam pagar ao Monomotapa um pesado tributo em géneros e em dinheiro. Os portugueses tinham permissão de periodicamente ir negociar nas feiras de Monomotapa mas para atravessar o território do Monomotapa tinham que pedir permissão especial ao rei e tinham que ser escoltados por homens de Monomotapa.

 

2. Os reinos Barue, Quiteve, Manhiça e Sedanda

 

a) Os portugueses tinham no reino Báruè a feitoria de Sena. O capitão desta feitoria era obrigado a pagar também tributos ao rei Báruè, mas não tinha direito de se afastar para além de Sena.

A feitoria de Sena era uma base de abastecimento para a grande feitoria de Tete donde os portugueses tentavam conquistar o Monomotapa. As relações entre os Báruè e os portugueses não eram muito amicais, donde surgiram conflitos constantes.

b) A sul do reino Báruè ficava o reino Quiteve onde os portugueses tinham uma importante feitoria, Sofala. Esta era uma base de abastecimento para os navios que iam para a índia e também um ponto de partida para o comércio com o interior em Manica. Os portugueses também pagavam tributos ao reino Quiteve para poderem atravessar o seu território e ir até Manica.

c) O reino de Manica ficava para o interior de Sofala. Era muito rico em minerais que frequentemente se comerciavam com os portugueses que vinham de Sofala. Os mineiros de Manica tinham uma técnica de extracção dos metais tão desen­volvida, a escavação de túneis subterrâneos, que muito espantou os portugueses que nunca tinham visto uma coisa igual.

d) A sul de Manica ficava o reino de Sedanda que se estendia até à foz do Limpopo.
Neste reino os portugueses não tinham nenhuma feitoria, mas lá iam frequente-­
mente negociar o marfim, as peles, os dentes de hipopótamo e as pérolas das
ilhas Bazaruto.                            :

e) Em todos estes reinos, naturalmente, os portugueses não pagavam os tributos. Além do comércio iam também buscar escravos que levavam para a índia onde os vendiam a altos preços.

Os escravos eram vendidos aos portugueses pelos próprios reis que os apanhavam entre prisioneiros que faziam nas guerras contra outros reinos ou entre várias tribos.

f) As estruturas políticas em todos estes reinos eram de natureza tribal. Não havia classes sociais distintas mas era muito frequente que os chefes de tribo e os chefes de clãs de várias tribos que constituíam o reino tivessem uma maior parte na dis­tribuição das riquezas e um poder político muito grande.

No reino de Monomotapa essa diferença era mais acentuada do que nos restantes reinos devido à autoridade que os reis de Monomotapa tinham e também devido ao facto de ser neste reino que os portugueses tinham maiores contactos e onde, portanto, podiam mais facilmente semear a sua influência divisória.

g) A vida não era pacífica entre estes reinos. As guerras entre eles eram muito frequentes.

Os portugueses tentaram sempre aproveitar-se dessas divisões para lançarem uns contra os outros e para assim poderem mais facilmente intrometer-se na vida política e económica desses reinos. Muitas vezes até lançavam umas tribos contra outras, inventando e provocando questões e tentando desta ou daquela maneira ter mais influência junto dos reis.

Foi esta política divisória para dominar que permitiu aos portugueses permanecer em Moçambique. O povo moçambicano era hostil à presença dos portugueses. Mas muitas vezes os chefes tribais e os reis das federações de tribos necessitavam do auxilio dos portugueses para atacarem outras tribos ou muitas vezes para se defenderem do seu próprio povo. Por essa razão facilitavam muitas vezes a presença dos portugueses em Moçambique.

 

3. Os outros reinos: Zimba, Chicoa e Macua

 

a) Os Zimbas ficavam para o Nordeste de Tete, perto do rio Shire. Foram sempre hostis à presença dos portugueses e impediram sempre qualquer avanço destes para o norte do Zambeze. Por isso os portugueses nunca conseguiram atingir o lago Niassa durante os séculos XVII e XVIII.

Os Zimbas eram um povo muito aguerrido e várias vezes invadiram os territórios dos Macuas, chegando a ir até ao Rovuma.

b) Os Macuas ficavam entre o Zambeze e o Rovuma e tiveram poucos contactos com os portugueses, sobretudo nos pontos costeiros e ao longo do Zambeze. Porém, resistiram e impediram toda e qualquer penetração dos portugueses no seu território.

c) O reino de Chicoa ficava para o Nordeste de Tete. Era um reino muito rico em prata. Veremos mais adiante as lutas que tiveram os povos desse reino contra os portugueses no primeiro lustro (cinco anos) do século XVII para defesa das suas minas de prata, que no entanto vieram a perder.

d) Da história dos Zimbas e Macuas pouco sabemos, porque tendo sido sempre hostis à penetração portuguesa, temos poucos testemunhos da sua civilização. O pequeno comércio que mantinham com os portugueses era na base de marfim e de escravos.

 

4. A administração colonial portuguesa

 

Para melhor podermos compreender toda a acção dos portugueses em Moçam­bique, devemos saber como era a administração colonial portuguesa nos princípios do século XVII.

Os portugueses estendiam a sua influência na costa do Oceano Indico, desde o Cabo da Boa Esperança até ao Próximo Oriente. Goa era o centro administrativo de todo este extenso Império. Aí se encontrava um Vice-Rei que tinha todos os poderes. Todo o território que ele governava estava dividido em pequenas capitanias. Na costa oriental da África existiam três capitanias: Moçambique (ilha), Sofala e Mombassa. Os governadores das capitanias ou capitães recebiam todas as suas ordens de Goa. As capitanias eram oferecidas aos nobres portugueses por um período de três anos. Ao fim desses três anos os capitães tinham que pagar uma elevada quantia ao Vice-Rei. Porém, durante os três anos eles tinham poderes quase absolutos no campo militar e no campo económico, isto é, o monopólio de todo o comércio.

Em Moçambique havia assim duas capitanias. O capitão de Moçambique comandava toda a costa desde Cabo Delgado até à foz do rio Zambeze e também todos os territórios para o interior. O capitão de Sofala comandava toda a zona para o sul da foz do rio Zambeze mas tinha pouca influencia para o interior.

Os contactos entre as capitanias de Sofala e Moçambique com Goa eram muito demorados por causa das monções. Monções são ventos que sopram da costa para o mar e do mar para a costa em cada metade do ano.

Cada uma das capitanias possuía várias feitorias. Vimos já que as feitorias de Tete, Quelimane e Sena pertenciam à capitania de Moçambique e que a feitoria de Manica pertencia à capitania de Sofala.

Por sua vez, os contactos entre as feitorias e as capitanias eram também
muito demorados, o que permitia que todos os capitães e feitorias roubassem o
mais que podiam, porque eram quase senhores absolutos nos territórios que
governavam.

 

5. O Monomotapa

 

Nos fins do século XVI e nos princípios de XVII o Monomotapa era Gatse Rusere, a quem davam o título de Mambo (Rei).

Gatse Rusere tinha muito boas relações comerciais com os portugueses que iam comerciar em Massapa e nas outras feiras que se efectuavam no território controlado por Monomotapa.

Nesta altura o Monomotapa já não tinha os mesmos poderes que os seus ante­passados tinham. Os antepassados do Monomotapa eram grandes senhores feudais que dominavam outras grandes tribos. Gatse Rusere era apenas um grande senhor tribal, isto é, era chefe principal de um reino que agrupava um grande número de tribos.

O Monomotapa continuava a fazer a exploração das minas mas já não ficava com a parte de leão. Havia uma repartição mais justa dos produtos da terra. Mesmo assim, Gatse Rusere tentava por todos os meios dominar o mais que podia. Dava grandes facilidades aos portugueses de comerciarem no seu território e fechava os olhos a toda exploração que os portugueses faziam.

6. Revoltas contra o Monomotapa

Os portugueses, além do comércio dos metais e do marfim, apanhavam também um grande número de escravos sem que Gatse Rusere se opusesse. À volta da fortaleza e feitoria de Tete os portugueses começaram a apoderar-se duma grande quantidade de terras em que punham os «degredados». Estes não obedeciam a nenhuma lei e faziam toda a espécie de roubos e exploração. Tudo isto criou um grande descontentamento nas várias tribos do Monomotapa.

Em 1597 um chefe Chunzo revolta-se contra o Monomotapa. Gatse Rusere pede auxilio aos portugueses que enviaram de Tete uma força armada que ajudou os guerreiros do Monomotapa a derrotar Chunzo. Este não desiste e com a ajuda de um outro chefe descontente, Chicanda, volta em 1599 a atacar o Monomotapa. De novo Gatse Rusere volta a pedir auxílio aos portugueses e consegue derrotar os dois chefes revoltosos. As revoltas de outros chefes tiveram o mesmo fim.

Os Báruè, que faziam a vida muito difícil para os portugueses da feitoria de Sena, começaram a preocupar-se muito com a aliança de Gatse Rusere com os portugueses. Sena interessava muito aos portugueses e estes começaram a instigar o Monomotapa a atacar os Báruè. Gatse Rusere, dominado pela ambição de recons­truir o antigo Império, começa a preparar-se para o ataque.

Os portugueses prontificam-se a ajudá-lo mas sob pesadas condições. Em troca da sua ajuda os portugueses exigem que o herdeiro do Monomotapa seja enviado a estudar em Goa onde os Dominicanos fariam dele um instrumento na pacificação

e domínio dos povos africanos. Os portugueses pedem também que lhes seja revelada a localização das minas. Gatse Rusere aceita e assina um tratado de paz com os portugueses em 1607.

Atacam os Báruè em 1607. Estes, comandados por Matuzianhe, resistem heroicamente. O exército de Gatse Rusere, ajudado pêlos portugueses, é obrigado a recuar. Gatse Rusere, furioso com a derrota, recusa indicar aos portugueses a localização das minas. Rompe a sua aliança com os portugueses e estes voltam para Tete.

Na sua campanha contra os Báruè Gatse Rusere não tinha conseguido apoio de todos os chefes de tribo do Monomotapa. Os chefes estavam descontentes com o acordo que Gatse Rusere tinha assinado com os portugueses. Os chefes aliam-se com o Matuzianhe. As forças militares de Gatse Rusere ficaram assim muito enfra­quecidas.

No ano de 1608 Matuzianhe, ajudado por muitos chefes de tribo do Monomo­tapa, ataca Gatse Rusere. Este sem soldados portugueses e sem a maior parte dos seus guerreiros, é vencido e obrigado a fugir para Chidima, no reino de Chicoa, onde foi pedir abrigo. Matuzianhe fica assim a reinar no reino do Monomotapa. O povo do Monomotapa estava farto da política de amizade que Gatse Rusere fazia com os portugueses.

Gatse Rusere, refugiado em Chidima, resolve de novo ligar-se aos seus antigos aliados, os portugueses. Com mais promessas consegue o seu auxílio para depor Matuzianhe.

Em 1610 os portugueses mandam vir da Ilha de Moçambique e de Sofala um grande exército que consegue derrotar Matuzianhe na Batalha de Magide Cochena. Este foge de Zimbabwe onde se tinha instalado e volta para Báruè.

Gatse Rusere volta de novo a reinar no Monomotapa. Entrega todos os prisioneiros de guerra aos portugueses que vão vender na índia e permite que os portugueses con­struam feitorias em Massapa, Bokuto e Luanza, onde tinham uma guarnição militar.

Porém, Gatse Rusere vai meditar no que lhe acontecerá. Aconselhado por Ningomaxa, seu ministro-conselheiro, irá mudar de política. Gatse Rusere e Ningomaxa, tinha verificado que o povo estava descontente e não aceitava as condições impostas pêlos portugueses.

Os portugueses estavam instalados no interior do reino, mandavam como se fossem donos, escravizavam e roubavam no comércio.

Ningomaxa aconselhou o rei a expulsar os portugueses do seu território para assim poder ter apoio do povo. Isso era difícil porque as forças portuguesas estavam muito bem armadas e seria difícil vencê-las.

Em 1613 apareceram na costa de Moçambique barcos holandeses e ingleses que vinham disputar o comércio dos portugueses. O capitão de Moçambique ordenou que todas as forças em Moçambique se concentrassem na costa. Nas feitorias do Monomotapa ficaram poucos homens.

Gatse Rusere aproveitou essa ocasião e no ano de 1613 começou a expulsar os portugueses de Moçambique. Os poucos portugueses que se encontravam em Massapa, Luanza e Bokuto foram mortos e os de Tete fugiram para Sena.

Os portugueses, vendo que o seu antigo aliado os começava a atacar, resolveram incitar um chefe de tribo do Monomotapa a revoltar-se contra ele com a promessa de lhe darem o título de Mambo (rei) e ficaria assim a reinar no Monomotapa. Esse chefe de tribo era o da região circunvizinha de Tete e dava pelo nome de Marenga. Os portugueses voltaram de novo a ocupar Tete e derrotaram os exércitos que Gatse Rusere tinha enviado para combater com Marenga.

7. Os portugueses em Sena

Os portugueses vencidos pêlos guerreiros do Monomotapa abandonaram por algum tempo as suas ambições de conquista das minas do Monomotapa. Estavam muito ocupados na costa a combater os holandeses e ingleses que lhes queriam tirar o monopólio do comércio na costa de Moçambique,

Os Báruè, chefiados por Matuzianhe, foram sempre hostis aos portugueses e nunca tinham permitido que eles passassem alguns quilómetros além de Sena. Mas por volta dos fins do ano de 1613 Matusianhe morre e um conflito surge pela sucessão entre dois candidatos. Os portugueses aproveitam essa luta para instigar um dos candidatos com promessas de grandes presentes. O candidato dos por­tugueses é derrotado e quem sobe ao trono é Chombe, que era contra os por­tugueses.

Mal toma conta do poder, a primeira coisa que Chombe faz é enviar os seus guerreiros para ocupar o estreito de Lupata no Zambeze, por onde os portugueses obrigatoriamente tinham que passar para ir até Sena e Tete. Os portugueses sem passar por Lupata ficavam como se tivessem pernas cortadas. Tete não poderia ser abastecida nem com munições nem com mercadorias para o comércio de trocas. Todo o ouro que vinha do Monomotapa ficaria sem poder ser negociado. O estreito de Lupata era um ponto vital para a economia e comércio dos por­tugueses. Por isso tiveram que pagar pesados direitos de passagem por cada navio.

Chombe começou a exigir grandes tributos aos portugueses para poderem passar. Estes viram-se obrigados a pagar mas com grande descontentamento.

Resolveram, por isso, atacar Chombe com o auxilio de dois chefes da tribo Báruè, Quitambo e Samanca.

Os portugueses atacam Chombe em Lupata mas são redondamente vencidos. Têm que fazer pedidos de reforços para Quelimane e Sofala. Trava-se -uma grande batalha que durou cerca de dois meses. Ao fim desse tempo Chombe é vencido e 8.000 dos seus homens são feitos escravos. A batalha de Lupata foi uma das grandes batalhas que os moçambicanos travaram contra os portugueses e em que só foram vencidos pela superioridade de armas dos portugueses.

Mesmo vencidos, os moçambicanos não quiseram mostrar a localização das minas aos portugueses. Queriam ser eles a explorá-las e vender a prata aos portugueses.

Foi nesta altura, em 1615, que chegou da índia o filho mais velho de Gatse Rusere, que linha estudado em Goa e a quem os portugueses tinham baptizado e dado o nome de D. Filipe. Este vai servir de espião para os portugueses. Devido à sua linhagem real D. Filipe consegue saber da localização das minas e revela-as aos portugueses. Estes imediatamente se dirigem para o local onde na verdade encontram terras ricas em prata que começam imediatamente a explorar.

Em 1618 os portugueses mudaram o seu sistema administrativo. Moçambique passa a ter um governador que, no entanto, continuava a depender do Vice-Rei de Goa. Tinha poderes mais vastos do que os antigos capitães. Passou a usar o título de capitão dos rios de Cuama, porque assim chamavam ao rio Zambeze.

A razão desta mudança de administração foi devida ao facto de que as comuni­cações entre Goa e Moçambique eram muito demoradas e também porque Portugal queria intensificar a exploração das minas de Chicoa.

Por volta de 1623 Gatse Rusere morre. Nos últimos anos do seu reinado tinha voltado pouco a pouco a ajudar os portugueses em Chicoa e permitido que de novo os mercadores portugueses penetrassem no interior do seu reino para se dedicarem ao comércio de trocas.

Seguiu-se uma longa luta pela sucessão entre os filhos de Gatse Rusere. D. Filipe, que era amigo dos portugueses, e Capranzine, que era hostil aos portugueses.

Os portugueses deram o seu auxilio a D. Filipe mas Capranzine venceu-o e tomou lugar no trono do Monomotapa. Foi auxiliado nesta luta pêlos reis de Báruè e Manica. Capranzine expulsa de novo os portugueses do interior, Massapa, Bokuto, Luanza e Chicoa.

Todos os planos dos portugueses sobre minas estavam a desfazer-se. Os portugueses começam então a fazer uma política de intrigas, conseguindo subor­nar o tio de Capranzine, Mavura, que tinha sido educado pêlos missionários dominicanos. Este presta-se a lutar contra Capranzine com a ajuda dos portugueses e com a promessa de ficar no trono do Monomotapa.

8. O reino de Mavura

Em 1628 Mavura ataca Capranzine e consegue ocupar as feiras de Massapa, Luanza e Bokuto e ainda Zimbabwe. Capranzine é obrigado a recuar, ficando no entanto a dominar sobre a maioria do reino Karanga.

A primeira coisa que Mavura fez foi prestar acto de vassalagem ao rei de Portugal, declarando dar em homenagem ao rei português todas as minas de prata, ouro, cobre, estanho e ferro do seu reino.

A maior parte das minas, porém, encontravam-se nas mãos de Capranzine. Por esta razão houve guerras constantes entre tio e sobrinho, ou seja, entre Mavura e Capranzine.

Mavura consente que várias famílias de portugueses e de indianos vindos de Goa se instalem nas melhores terras do seu pequeno reino, assim como permite que os missionários façam a catequização do seu povo.

O próprio Mavura é baptizado com toda a sua família e o irmão de Capranzine é enviado para Goa para ser educado pêlos dominicanos. Todavia, os portugueses não estavam satisfeitos com os resultados que obtinham, porquanto as minas, que eram o seu principal interesse, continuavam nas mãos de Capranzine. Decidem atacar Capranzine com um grande exército.

Capranzine pede auxilio ao reino de Manica e consegue derrotar os portugueses em 1631. Mais de 400 portugueses foram mortos. Capranzine prepara-se para atacar Mavura em Zimbabwe.

Porém, em 1632 os portugueses tinham conseguido atacar o rei de Manica e substituí-lo por um dos seus aliados. Capranzine sem apoio de Manica ataca Mavura mas é vencido. Obrigado a recuar para o sul do reino, Capranzine deixa nas mãos de Mavura algumas minas que os portugueses imediatamente começam a explorar.

9. Início do sistema dos prazos

No reinado de Mavura começaram a chegar a Moçambique famílias pobres portuguesas e também famílias indianas que vinham de Goa e Cochim. Cada uma destas famílias recebia uma porção de terra na qual tinha todos os direitos.

Esta porção de terra, ou prazo, era cultivada pêlos escravos que os portugueses faziam nas suas guerras contra os povos de Moçambique. Com o tempo, os prazeiros começaram também a fazer as suas pequenas guerras de conquista e captura de escravos que clandestinamente comerciavam ora com os árabes ora com os outros mercadores portugueses. O sistema dos prazos iniciou a colonização de Moçam­bique.

A situação ao longo do rio Zambeze era muito desordeira porque os prazeiros não obedeciam às ordens dos capitães e feitorias e punham em perigo as relações que os portugueses tinham com os reis e chefes de tribo. Roubavam as colheitas, prendiam pessoas e com o tempo tornaram-se muito ricos e a sua riqueza atraía mais gente que vinha em busca de prazos.

Juntamente com os prazeiros vinham os missionários que em nome da religião cristã vinham preparar o povo de Moçambique para a exploração.

Mavura com a sua política de colaboração com os portugueses, permitiu que os portugueses construíssem algumas igrejas, uma das quais em Zimbabwe. O povo estava muito descontente e com o tempo Mavura foi obrigado a pedir aos portu­gueses que controlassem as actividades dos prazeiros e missionários. Mas a situação continuava a piorar de ano para ano.

Em 1652 Mavura morreu depois de ter reinado cerca de 22 anos em que sempre serviu os interesses dos portugueses. O filho de Mavura, de nome Siti Kazuruku-musapa, tinha sido baptizado e adoptara o nome de D. Domingos. Tal como o pai, continuou a servir fielmente os portugueses, a dar-lhes todas as facilidades e permitir-lhes todo o roubo.

O povo, porém, continuava descontente com os seus chefes e em 1655 faz uma revolta contra D. Domingos na qual este é morto. O irmão de Mavura, que comandava a revolta, sobe ao trono. Não sabemos qual era o verdadeiro nome do irmão de Mavura e, por isso, chamar-lhe-emos Mambo que, como devemos lembrarmo-nos era o título dos reis Monomotapa.

Mambo foi começando a atacar os prazeiros e a recuperar e distribuir ao povo as terras que estes tinham roubado. Impediu também que os missionários pregassem a religião cristã, porque tinham sido eles que aconselharam Mavura e D. Domingos a obedecer aos portugueses com a ameaça de que se assim não o fizessem seriam excomungados.

Os portugueses foram obrigados a abandonar as terras que tinham usurpado (levado pela força) e foram fixar-se ao longo do rio Zambeze e nos arredores de Tete e Sena.

Resta-nos agora saber por que jqs portugueses não atacaram Mambo. Pela simples razão de que não tinham tropas nem em Moçambique nem na índia. Na verdade a maior parte das colónias portuguesas na índia tinham-lhes sido conquistadas pêlos ingleses, franceses e holandeses. Os portugueses por volta dos meados do século XVII estavam a intensificar a colonização do Brasil e dedicavam nisso todos os seus homens e barcos.

Assim, com. o tempo, as terras que tinham sido roubadas pêlos prazeiros voltaram para os seus antigos possuidores. O número de portugueses começou a diminuir consideràvelmente, até que por volta de 1675 havia só cerca de 50 prazeiros em Moçambique.

Os reinos africanos de Moçambique puderam viver alguns anos sem a inter­ferência dos portugueses. Isso, porém, não lhes trouxe a paz. Um novo chefe guerreiro vai invadir o Monomotapa e substituí-lo. As dinastias do Monomotapajá estavam demasiadamente comprometidas com os portugueses e com os missionários para poderem inspirar confiança ao povo. Por isso quando uma nova força surgiu, o povo facilmente a seguiu.

10. Changamire: a invasão dos Rozwi

No ano de 1680 os Rozwi, comandados pelo seu chefe Changamire, invadem o território dos Butua e apoderam-se do trono.

No ano de 1684 Changamire ataca o Monomotapa que é vencido na batalha de Maungo. O Monomotapa é morto na batalha e todos os seus filhos fogem para Tete onde existia ainda uma pequena feitoria, todavia sem o esplendor de alguns anos atrás.

Ao dominar o reino de Monomotapa na batalha de Maungo, Changamire toma conta do poder.. Durante alguns anos o antigo Império do Monomotapa dos tempos de Matope, Mutota e do Changamire seu antepassado, vai ressurgir das ruínas em que o tinham lançado os portugueses.

Depois de ter dominado os Butua e o Monomotapa, Changamire vai atacar os Báruè que também se submetem à sua autoridade. Por volta de 1688 Changamire reinava sobre um imenso território.

Para mais facilmente o administrar cedeu o reino Butua à dinastia Torwa e o trono de seu pai ao filho do antigo Monomotapa. O novo Monomotapa era Nyacunimbire. Os Báruè ficaram também sob a dinastia Chombe.

Tal como antigamente, todos estes reis tinham que pagar tributo e prestar vassalagem ao Changamire. O comércio com o exterior que tinha sido a base da riqueza nos anos de 1325 - 1500, tinha quase desaparecido com o afastamento gradual dos portugueses de Moçambique. O trabalho das minas também atrasou-se.

 

     Havia já muito poucos comerciantes portugueses que se aventuravam a ir às feiras de Massapa e outras.

Changamire percebera que os portugueses só podiam trazer a destruição ao seu império e por isso impediu que os poucos prazos que ainda existiam pudessem alargar-se.

Em 1690 consegue fazer com que o reino de Manica e o de Quiteve se juntem ao Império.

Estava finalmente reconstruído o antigo Império. Vai porém durar muito pouco tempo. Os laços económicos que uniam esses reinos eram muito frágeis. A economia tinha retrocedido para uma pura e simples troca de artigos alimentares. Tinha-se tornado uma economia fechada, num ciclo de trocas que não trazia vantagens a ninguém.

A aliança militar e vassalagem já não se justificavam, porque nenhuma ameaça existia. No plano exterior, os portugueses tinham quase abandonado Moçambique, mantendo apenas algumas feitorias, tais como Sena, Tete, Quelimane. No plano interno, a volta ao sistema de produção tribal tinha impedido a formação de classes e portanto nenhum perigo existia de revolta popular.

 

Por isso com o tempo alguns chefes tribais e alguns reis, como por exemplo o rei Báruè, tinham deixado de prestar vassalagem e de pagar tributos. O Império começava a dar sinais de divisão e Changamire resolve em 1695 fazer uma expedição punitiva contra Chombe, o rei de Báruè na região de Tete. Changamire ataca Chombe na batalha de Nyampaza, mas por azar é morto na luta.

Nenhum dos reis vassalos quis continuar a prestar vassalagem ao sucessor de Changamire e este também não se sentia suficientemente forte para a poder impor pela força.

Com a morte do Changamire o Império desmembra-se de novo e para nunca mais se voltar a unir. Como resultado desse ressurgimento ficaram como testemunhos as magníficas construções de Mapungubwe, Dlo-Dlo, Khami, Inyanga, etc.

O sucessor de Changamire foi Dombo. Este não conseguiu manter a sua autoridade no Império que Changamire reconstituiu e assim, por volta dos fins do século XVII o Império fracassou.

O reino de Karanga, ou Monomotapa, continua nas mãos de Nyacunimbire. Este morre também nos fins de 1695 e o seu sucessor, Chirimbi, manifesta tendências de negociar com os portugueses que o tinham educado em Goa e que fizeram dele seu fiel instrumento.

Dombo, que continuava a seguir a política de seu pai, evita contactos com os portugueses, ataca Chirimbi que é obrigado a fugir e refugiar-se no norte de Tete. Nunca mais conseguirá retornar ao reino Karanga. Este reino fica, pois, nas mãos de Dombo. Este reinava num território que ia desde o Limpopo até ao Zambeze.

Os reinos de Butua, Báruè, Manica e Quiteve deixam no entanto de fazer parte do Império. Os seus reis deixaram de pagar vassalagem ao rei central. O Império nunca mais se reconstituiria.

Com o tempo, os poucos portugueses que estavam em Tete e nos arredores foram obrigados a reconhecer a autoridade de Dombo.

Conclusão

O sucessor de Changamire, Dombo, continuara a dominar no território que ia do Limpopo até ao Zambeze e que compreendia os reinos Rozwi e Karanga.

Embora não tivesse tomado o título de Monomotapa e continuasse a usar o título de Changamire, Dombo era na verdade o sucessor dos antigos Monomotapas na autoridade que soube manter.

Com o tempo, mais portugueses foram chegando e pouco a pouco o comércio recomeçou. A feira que mais se desenvolveu foi a de Zumbo onde os portugueses iam buscar o cobre nas terras de Kazembe.

O domínio dos Changamires durou até o ano de 1830 aproximadamente, data em que os guerreiros zulus destruíram as cidades no momento das suas célebres invasões que mais tarde estudaremos.

 

Com o início do século XVIII vamos assistir a uma tentativa organizada da parte dos portugueses de iniciar a colonização. Nessa altura o sistema de prazos que tinha decaído foi oficialmente instituído. Faremos o estudo dessa tentativa de colonização no próximo capítulo.

 

 

PERGUNTAS

1. O que é um prazo?

2. Donde vieram os primeiros prazeiros?

Donde veio a mão de obra que trabalhava nos prazos?

3. Discuta a acção dos missionários na colonização de Moçambique.

4. Em que ano os Rozwi tornaram-se senhores do Império do Monomotapa?

5. Diga o nome de algumas construções que nos provam o ressurgimento do Império no século XVII?

6. Em que anos os zulus destruíram os restos das cidades do Império de Monomotapa?

7. Quando é que os portugueses iniciaram a colonização de Moçambique?

8. Que minerais interessavam aos portugueses na costa oriental da África?

 

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