PELA INDEPENDÊNCIA IMEDIATA
E TOTAL DE MOÇAMBIQUE *
Senhor Presidente, Distintos
Delegados,
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A nossa luta atinge uma fase decisiva tanto ao nível
nacional como internacional. E justo sabermos qual o papel a ser desempenhado
pelo Comité de Libertação e pela OUA nesta etapa.
E a tarefa do Comité informar a OUA, orientá-la por assim
dizer, nas questões referentes à libertação do continente.
A OUA deve impulsionar a comunidade internacional em todas
as questões referentes à África e em primeiro lugar à sua libertação.
Necessitamos do vosso apoio material. O inimigo gasta por
dia cerca de 2 milhões de dólares para nos fazer guerra. Os seus aliados da
OTAN, em especial os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Alemanha
Federal, não poupam esforços financeiros e económicos, nem esforços militares
para o apoiar.
Temos face a nós exércitos modernos, bem equipados,
combativos, com uma experiência secular de guerras de agressão. As dimensões da
nossa luta conduzem-nos a um afrontamento directo com os interesses
imperialistas e racistas toem implantados no nosso país e na África Austral.
A mobilização e popularização do apoio moral, político,
diplomático e material à nossa causa, é uma tarefa
maior do Comité e da OUA. Esta mobilização e popularização da nossa luta
deve-se primeiramente materializar em África, porque se trata da sua própria libertação
e não podemos pedir aos estrangeiros uma solidariedade que nós próprios não
praticamos. Não teremos o direito de criticar um silêncio da imprensa
internacional, ou uma indiferença da opinião ocidental, quando a nossa própria
imprensa permanece silenciosa e a nossa opinião não
mobilizada.
Ao nível internacional pedimos que o Comité e a OUA façam
seus o nosso próprio programa.
O Comité e a OUA devem em particular
aguçar a vigilância da comunidade Internacional contra as manobras portuguesas
de prosseguir a guerra de agressão e a dominação colonial, sob a camuflagem de
«autonomia», concessão da designação de «Estado» a Moçambique. Em particular,
Lisboa procura semear falhas na frente unida africana, propondo «diálogos de
boa vizinhança», ou mesmo pretendendo que nas suas colónias se aplica «o
direito à auto-deter-minação».
A política actual portuguesa de «africanizar» a guerra, de
instalar aqui e acolá alguns fantoches negros, tem o fim exclusivo de manter a
dominação colonial e de prosseguir a guerra, mudando a cor dos cadáveres.
Se Portugal quer a paz, o diálogo, a negociação, tem diante
de si o Povo moçambicano, representado pela FRELIMO, contra quem faz a guerra e
com quem deve negociar e dialogar.
No dia em que Lisboa estiver disposta a reconhecer o nosso
direito à Independência imediata e total, encontrar-nos-á prontos a todos os
diálogos e negociações.
E evidente que seria inútil, desmobilizadora e altamente
prejudicial, qualquer confusão ou hesitação africana perante este princípio
fundamental: o diálogo exige como questão prévia indispensável o
reconhecimento por Lisboa do nosso direito à independência total e imediata. É
com a FRELIMO em Moçambique, e com ela só, que Lisboa deve dialogar.
Portugal agressor deve ser excluído da comunidade
internacional. Ele não tem nenhuma representatividade ou responsabilidade sobre
o nosso país, excepto a de um agressor aberto que, sem condições, deve pôr
termo à agressão. Ele não tem nenhum direito de falar em nosso nome, quer seja
no domínio político ou diplomático, económico ou social. As questões de
educação e de saúde, de economia, de trabalho, de desporto, todas as questões
referentes ao povo moçambicano devem ser apresentadas pelo seu representante —
a FRELIMO.
O Comité e a OUA devem apoiar-nos diplomaticamente a aceder
à situação justa, em que a FRELIMO representará em todas as instâncias internacionais
o Povo moçambicano, os seus interesses, por outras palavras, permitir que o
nosso povo ocupe no conceito internacional o lugar que lhe é devido, agindo em
igualdade com os outros Povos, pela causa comum da liberdade, da justiça, do
progresso e da paz mundiais.
Senhor Presidente,
Distintos Delegados,
O Povo ghaneano acolheu-nos fraternalmente, com uma amizade
e solidariedade calorosas. É o resultado da liberdade reconquistada, da acção
mobilizadora do seu Governo, do Conselho da Redenção Nacional. Nós agradecemos
ao povo do Ghana, através dos seus dirigentes populares.
Felicitamos e agradecemos ao Secretariado Executivo e ao
Comité de Libertação, ao Secretariado Geral e à OUA pelo desenvolvimento da sua
acção de apoio à nossa causa, o seu interesse cada vez mais forte, de que as
visitas que nos fizeram são um testemunho.
Felicitamos com calor e amizade os
nossos companheiros de armas, os nossos irmãos do MPLA e do PAIGC que obtêm
grandes vitórias contra os colonialistas portugueses. As suas vitórias são festejadas
pelo nosso Povo como nossas próprias vitórias, elas estimulam-nos e ajudam-nos
duma maneira decisiva. Saudamos o recomeço da luta política no arquipélago de
S. Tomé e Príncipe, colónia portuguesa muitas vezes esquecida, com tradições
heróicas de luta. Queremos confirmar as palavras do nosso camarada Amílcar
Cabral no que respeita ao apoio a prestar aos nossos camaradas de S. Tomé e
Príncipe. Apoiamos o Movimento de Libertação de S. Tomé e Príncipe, que para
nós é uma nova organização. Felicitamo-los por terem sabido pôr fim às suas contradições
internas, unindo-se para concentrarem os seus esforços nas tarefas da
libertação. A lacuna que existia na frente de luta das colónias portuguesas está
agora preenchida. Queremos desejar os maiores sucessos aos nossos camaradas do
Movimento de Libertação de S. Tomé e Príncipe.
Saudamos os companheiros do ANC, os nossos camaradas
combatentes da Namíbia e do Zimbabwe, os das Ilhas Cômoros, da Costa da
Somália, das Seychelles, que, em condições difíceis, incansavelmente lutam pela
liberdade das suas Pátrias. O seu combate ajuda-nos muito.
Entramos no nono ano do nosso combate. No mundo inteiro
reforça-se a luta contra a opressão, na África, na Indochina, entre os povos
árabes e a Palestina. A todos trazemos a solidariedade do nosso combate, a
nossa decisão de cumprir sempre o nosso dever nacional e internacional.
A Luta Continua...
INDEPENDÊNCIA OU MORTE
VENCEREMOS
Samora Moisés
Machel
Presidente da
FRELIMO
*
O texto que se segue, e cujo título é -da responsabilidade do organizador desta
antologia, compreende parte do discurso proferido por Samora Machel, em
representação dos Movimentos de Libertação Africanos, durante a XXI Sessão do Comité
de Libertação da Organização da Unidade Africana, realizada em Acera, de 8 a 12
de Janeiro de 1973. O documento veio assim publicado em «A Voz da Revolução» n." 15, de Jan./Fev. de 1973.