Os meus companheiros de
prisão
O Fernandes, que entrou na jaula poucos minutos
depois de mim, era um comerciante estabelecido de longa data naquela cidade,
com o seu negócio, seus empregados. Era um dos pioneiros, que por décadas ali trabalhou,
amealhou suas economias e investiu, dando o seu contributo ao desenvolvimento
daquela região. E como com o Acordo de Lusaka e do que veio a seguir, e
sobretudo com a independência, não mais conseguiu mercadoria para o seu negócio
e por outro lado tinha também já perdido toda a clientela, pelo que nada
mais tinha a fazer ali. Encaixota a mobília da casa, uma boa vivenda num
terreno, uma mini-quinta, aliás confinante com a minha, e proveniente do mesmo
loteamento do mesmo vendedor, passa a loja, já decaída mas ainda em
funcionamento, e propõe-se procurar novas terras, ou seja um novo país para
viver. Talvez o Brasil. Mas constava na altura que tinha ingenuamente oferecido
a venda da casa ao governo, por ser de qualidade e própria e com boas condições
para alojar ministros ou governadores ou outros elementos da Frelimo. A Frelimo
é claro, não comprou, mas ficou com o caso debaixo de olho. Logo se percebeu
que o Fernandes estava condenado a ter problemas e já nada havia a fazer. A sua
casa já estava destinada, mas não como ele pensava ou desejava. Os métodos eram
agora muito diferentes. Eram revolucionários. Era a aquisição pelo roubo ou
esbulho, descarados. E preso porquê? - Quem sabe? Nós sabemos, pela mesma razão
de toda a gente: nenhuma. Ou todas: o saque.
Mais tarde foi transferido para cadeia da Beira onde
penou pelo menos uns sete meses. E entretanto foi presa a mulher, também na
Beira. Meses mais tarde descobriram que foi presa por... engano...Por engano!
Correram boatos, uns bons e outros maus: que estava doente, muito
abatido, que passava muito mal, receava-se pelo agravamento irreversível da sua
doença, e depois ,,, que conseguiu fugir! Oxalá o
tenha conseguido.
Entretanto a sua casa foi realmente ocupada pela
Frelimo, nem necessitando da sua "nacionalização" pois logo
foi colocado um letreiro “ residência de ministros “. Os caixotes foram
desmanchados e as mobílias de novo recolocadas. O automóvel coube ao novo
secretário do partido, o Lameiras, que agora o utiliza naturalmente como seu.
O Lameiras tinha sido um empregado com
funções de contínuo na Escola de Regentes Agrícolas, onde eu leccionei durante
um ano e com quem tratei múltiplas vezes, por ir levar às salas de aulas o
Livro de ponto de cada turma e me passava no copiador os testes escritos e
outros serviços semelhantes. E é claro, fazia serviço idêntico para os outros
professores e outros para a secretaria conforme aquilo de que era incumbido.
Não mostrou ser mau rapaz até vir a Frelimo. Depois deu nisto...
Do grupo de presos que se encontravam na prisão
quando eu cheguei, havia quatro jovens que tinham sido presos, em meados de
Outubro, na fronteira da Machipanda, perto da Vila de Manica, e a cerca de
setenta quilómetros de Vila Pery, ao pretenderem passar para a Rodésia.
Um deles, o Farinha, um
jovem de cerca de vinte e dois anos, com uma personalidade singular, muito
pobre, era de profissão electricista e frequentara a escola industrial, na
Beira, e com a saída da mãe e irmãos para Portugal, encontrou-se só,
desempregado, sem vintém, em Moçambique. Pediu um passaporte no Consulado-Geral
de Portugal na Beira, não tendo pago os emolumentos por não ter dinheiro. Pediu
boleia a um amigo, que agora estava ali connosco, e seguia para a Rodésia à
procura de emprego que ali o retivesse e onde pudesse permanecer, ou lhe
propiciasse auferir quantia bastante para as passagens de regresso a Portugal.
O Neves, de cerca de dezanove anos, filho de um industrial da Beira,
desavindo com o pai, porque precisasse de fazer um electrocardiograma e submeter-se
a uma série de exames clínicos especializados, que na Beira, onde existia um
muito bom hospital, nessa altura já não tinha condições de fazer, e talvez
também por um pouco de espírito de aventura - os
verdes anos - e porque também pensasse talvez ser possível trabalhar na
Rodésia, alinha com os amigos e mete-se a caminho.
O Tavares, um pouco menos jovem, que na tropa
serviu nos comandos e teve a infeliz ideia (pelo menos nesta caso) de mandar
tatuar nos braços símbolos do exército e dos comandos, também desempregado, faz
a sua trouxa e segue com o grupo, com os amigos à procura de melhor sorte. As
tatuagens virão a ser determinantes e o ponto mais sensível na disposição e
vontade dos seus carcereiros, antes sequestradores!
E o Carlos Alberto, que fora paraquedista, trabalhou
depois de desmobilizado na Beira, onde casou, e nesta altura estava também
desempregado. Era o dono e condutor do carro em que os quatro se transportavam.
Também tinha uma tatuagem dos paras, onde serviu.
Decididos a irem até à Rodésia, muniram-se da
conveniente documentação e seguiram até à fronteira. Foi feito o respectivo
despacho nos serviços da alfândega. Tudo em ordem. Mas quando vão arrancar para
atravessarem a fronteira surge o comandante da polícia de Manica, um misto, complexado,
raivoso e odiento, de nome Fernandes. Interpela-os: - aonde vão e porquê? Se
não são paraquedistas? - Que um deles foi mas há muito que é civil. Então tem
de o acompanhar a Manica para declarações. Há protestos. Há reforços da
polícia. Sopapos. Violência.
São amarrados e levados para o quartel das
forças populares de Manica. Como as forças populares não possuem regulamentos,
não possuem código, não obedecem a qualquer lei, portanto tudo lhes é
permitido. Diferente da policia em que pelo menos alguns agentes sempre
aprenderam algumas regras. O comandante da polícia prefere porém o quartel das
forças populares. Ali sempre está mais à vontade.
No quartel, bem amarrados de pés e mãos, e as mãos atrás das costas,
primeiro amarrados com a casca de uma liana, cuja seiva tem um poder ácido
muito activo que queima irremediavelmente a pele e depois com fios eléctricos,
e arames para reforçar. Amarram pelos pulsos e depois, para maior segurança,
pêlos braços, acima dos cotovelos. O usual. Prender, para eles é mesmo amarrar,
atar.
Depois retiram-lhes as
roupas para revista, ficando totalmente nus. São então, nessa situação
humilhante, interrogados: - não iam elas juntar-se às tropas do Ian Smith ?-
Não eram eles paraquedistas e comandos ? Vá, confessem?
Não confessam.
Pancada. Bofetadas. Pontapés. Tudo.
Depois tudo acalma. Bebem serenamente umas “médias"
frescas. A média é a garrafa normal da cerveja, em contraste com a garrafa
grande de litro e meio. Oferecem aos presos. Não obrigado. Ficam calmos.
Conversam. Os elementos presentes da Frelimo entretanto divertem-se a vestir e
experimentar as roupas dos presos. Abrem as malas. Mais roupas, mais
experiências. É divertido. Retiram as que lhes agradam. De quem é este casaco?
Deixa-me experimentá-lo. Fica-me bem. Sapatos giros. De que numero são? Olha,
servem-me. Vocês viviam bem.
Cansados desta farsa, interrogam de novo. As mesmas
perguntas. Mais pancada. Queres um cigarro? Colocava-lhe o cigarro aceso na
boca. Aspirava o fumo uma ou duas vezes. Depois retirava-o e em seguida sentia
a brasa nas costas. – Fala - Confessa. A dor da
queimadura era intensa. Para mais em estado de intensa tensão nervosa. Mas não
confessava. Não podia. Não era verdade.
Abandonaram-nos num quarto fechado onde passaram a
noite, atacados pêlos mosquitos mas sobretudo sofridos com as dores das
queimaduras dos cigarros, do ácido da seiva das lianas nos pulsos e braços e
sobretudo as dores do inchaço causado pela não circulação do sangue nos braços.
De manhã quando os visitaram
e notaram o estado em que se encontravam os quatro infelizes presos, um dos
frelimos, mais responsável, já menos embriagado, imediatamente lhes solta os
braços e pulsos e procura com massagens restabelecer-lhes a circulação. Mas
tinham ainda os pulsos em ferida, as queimaduras nas costas e um deles duas costelas rachadas, dos pontapés dos frelimos,
segundo diagnóstico médico mais tarde no hospital de Vila Pery.
Quando os viram com um pouco melhor aspecto,
deram-lhes algumas roupas e endossaram-nos para o quartel de Vila Pery.
Aqui chegados, mimosearam-nos com mais alguns
tratamentos de choque, administrados por um outro comandante odiento e racista
chamado Crispim e seus acólitos. E como não tirassem nada deles, que apoiasse
as suas suspeitas, meteram-nos num quarto e ali ficaram alguns dias. Até os
alimentaram com comida razoavelmente boa, deram-lhes cigarros e ficaram apesar
de tudo bastante à vontade.
Dali foram então transferidos para os calabouços da policia de Vila Pery, onde os fui encontrar na minha
aventura, e onde já estavam há vários dias.
Embora não houvesse o mínimo indício de que iriam
juntar-se às tropas de Smith, e tudo isso era balela, era no entanto uma boa
ocasião e um bom pretexto para satisfazerem os seus baixos instintos de violência,
os seus complexos de inferioridade, e dar vazão às suas raivas e seus ódios.
Tal como aconteceu cá. Lembram-se? Com a agravante de dois dos jovens terem as
tais tatuagens, da tropa, o que significavam terem sido inimigos, e lutado em
campos opostos...
E depois disto tudo, nem um auto, uma participação,
um papel que relatasse os factos, testemunhasse as suspeitas, justificasse a prisão ... Nada. À preto! À Frelimo. À régulo. Mas com
quinhentos anos de atraso.
E depois
disto ainda se admirariam do racismo branco...
O comandante Langa ia passando diariamente pela
porta da enxovia e por vezes demorava-se e dava um pouco de conversa,
prometendo resolver o caso deles, aliás de solução simples e fácil: soltá-los.
Dar-lhes a liberdade a que tem direito.
A jovem esposa do Carlos Alberto, com um
filhinho de menos de um ano, que residia na Beira, deslocava-se uma ou duas
vezes por semana a Vila Pery, tendo ido falar ao governador, ao secretário, ao
comandante, a todas as pessoas que pudessem valer ao marido, de Herodes para
Pilatos. Sem resultado. Era impossível encontrar no mundo maior cinismo e maior
sacanagem, do que a revelada por aqueles frelimos.
Ela e outras pessoas conseguiram gerar tal pressão no Cônsul português
na Beira que este se deslocou a Vila Pery para ver o que se passava e tentar
resolver os problemas, e não eram poucos. Mas o homem foi de tal modo enredado
que não visitou nenhuns presos, não viu nada, e ficou tudo na mesma.
Depois de várias insistências, o comandante Langa,
ele mais uma vez, disse que tudo estava já resolvido para os quatro jovens
serem soltos. Mas faltavam os seus haveres, a sua bagagem, que se extraviou, e
não era encontrada! Nem poderia sê-lo, pois tinha sido oficialmente roubada.
Um outro branco, um tal Pontes, com cerca de
quarenta anos, profissional de bate-chapas, que apesar de a certa altura
auferir um bom salário em Lisboa na sua especialidade, levado pelo espírito de
aventura, alguma ambição, ou instabilidade de temperamento, ou novas ideias e
diferente concepção de vida, como aconteceu a muitos outros, lá vai ele de mala
aviada para Moçambique. Chegado à Beira, como bom profissional que era depressa
consegue ascender a uma boa posição numa firma do ramo e a certa altura,
granjeada fama, resolve estabelecer-se por conta própria. Tem sucesso.
Prospera. Casado, ali lhe nascem os primeiros filhos.
Com a mudança de regime e antes da independência,
antevendo dias sombrios, não hesita e transfere-se para Untáli, na Rodésia, bem
junto à fronteira. Ali se emprega numa fábrica-oficina, e como é competente
logo obtém a categoria de chefe de secção, auferindo um bom salário. Apesar de
tudo as coisas vão bem.
Mas um dia, um domingo, resolve ir, com a
família, almoçar a Moçambique, logo ali, do outro lado da fronteira, à Vila de Manica.
Hora do
diabo!
Pede um carro emprestado a um amigo, que o seu está avariado, e logo
que passa a fronteira tropas da Frelimo detem-no, revistam-no, e encontram no
carro um maço de notas no montante de oitenta contos, que lhe não pertenciam e
das quais ignorava a existência, pois o carro não era dele Tanto bastou.
Vai tudo preso, incluindo a
mulher, uma filha de cerca de quinze anos, um rapazinho de nove e um bebé com
um ano. Crime: sabotagem económica.
Também não havia auto de noticia,
processo, queixa, participação, documento equivalente, que fixe factos, que
invoque a lei pretensamente violada, nada.
De Manica foi transferido para Vila Pery. A mulher e
os filhos estavam alojados numa caserna dos polícias, então vaga. O Pontes
estava na jaula connosco.
Foi o mais próximo companheiro de infortúnio, com
quem convivi lado a lado durante duas longas semanas. O pior foi depois. Mas isso eu contarei mais adiante.
Um tal Bessa, jovem transmontano, estava também na
jaula quando cheguei. Estava preso porquê? Porque um dia estando em serviço com
mais cinco trabalhadores negros de quem era chefe e a quem dera ordem de
carregarem num camião um fardo de peixe seco com cerca de cem quilos, os negros
andavam de volta do mesmo, de manha, fingindo esforçarem-se, mas sem o
levantarem. Irritado com aquele teatro, o Bessa agarrou o fardo e sozinho
carregou-o no camião. Os negros ficaram, ou fingiram ficar muito ofendidos no
seu amor-próprio ou no seu orgulho. Denunciaram a ofensa, um caso político
bastante grave, que foi logo denunciado no partido. Face aos factos, no ponto
de vista da Frelimo, o Bessa era um verdadeiro e perigoso reaccionário. Tinha
de ir para a reeducação. E ali estava ele. Na reeducação!
Provavelmente algum leitor não acreditará que se
trate de um simples relato de factos reais, e julgará que pretendi escrever um
livro humorístico, com casos anedóticos, à mistura com alguma ficção, para
impressionar, ou do tipo dessas cassetes em que o herói é um tal Parafuso...
Mas pode crer, ainda que lhe custe, que tudo o que é relatado é factos
verdadeiros.
O Bessa não ficou muito tempo na nossa companhia.
Passados poucos dias foi levado, nunca soubemos para onde.
Também ali fui encontrar os três negros provenientes da Zâmbia, que tinham
ido a perguntas para a legalização da prisão por tentarem e em alguns casos
conseguirem, passar notas falsas, e que eu já referi acima. Podiam ter prestado
caução e sair em liberdade até ao julgamento. Mas por várias razões não o
fizeram. Em qualquer caso era na cadeia comarca onde eles deveriam estar, e não
na enxovia da polícia. Mas legalidade para quê? E agora dava-se a insólita e
caricata situação de o juiz estar preso juntamente com os seus
"próprios" presos!
Não falavam português. Falavam entre eles um
dialecto, espécie de esperanto regional, usado na parte oriental do continente
africano, o swaili, que estava bastante generalizado na região, e
falavam outros dialectos locais, visto que eram de países diferentes e ao que
parece várias outras línguas ou dialectos africanos. Mas dois deles faziam-se
entender num inglês bastante deficiente embora um que falava melhor se
declarava professor do ensino secundário o equivalente a liceu, na Zâmbia, e era sem dúvida o mais
expedito e revelava bastante erudição, com largos conhecimentos de política,
geografia e história. Matérias sobre as quais ainda tivemos algumas conversam,
apesar da minha dificuldade, por falta de uso, do inglês. Parecia ser apenas
acompanhante do dono do carro que se declarava comerciante, homem de negócios,
viajando e conhecendo diversos países, e já fora duas vezes a Meca, o que para
um muçulmano é um sinal de muito prestigio. O outro era o motorista.
Não podíamos conversar muito porque o meu inglês
também não era bom. Mas assim mesmo iam perguntando qual era a sua situação
face à lei, e eu, ainda crente da existência da lei, lá ia explicando... Porém,
entretanto, a Liga Muçulmana, de Vila Pery, fez um peditório, que estava
correndo, para obter o dinheiro da caução, para os libertar.
E é interessante deixar aqui uma nota acerca
destes presos. Sendo eles pretos, retintos, mostravam ter já uma cultura muito
superior à dos nativos locais, de modo que a tendência de convívio, era
connosco, brancos, e cujos hábitos, até de higiene, estavam mais próximos dos
nossos, europeus, e revelando total desprezo pêlos pretos locais. Se aqui há
racismo, era de classe, se tal é possível ... não de cor.
Estes casos referidos, e
salvo estes três últimos, e comigo, éramos os presos “permanentes”, os
políticos, os reaccionários, os da reeducação. Éramos também aqueles sobre os
quais se exercia a
..................................................................................................................................