Os antecedentes
Como todos os
jovens, eu não fugi à regra. Lia tudo o que me surgia à mão no tocante a
livros, jornais e revistas. Os jornais, e numa certa época, eu lia sempre que
possível quando nas horas livres de aulas íamos em grupo para a Casa do Povo, próxima do Colégio, que
assinava então o Primeiro de Janeiro. Enquanto
os colegas jogavam bilhar, damas ou dominó, eu lia o jornal se estava
disponível por ali em cima de alguma mesa. Pelo menos os títulos e uma ou outra
notícia mais do meu natural interesse e ao alcance da minha ainda limitada
compreensão. Quanto a revistas todas serviam, mas eram principalmente do meu
agrado as de BD que, para além das da Mocidade Portuguesa, como o Cavaleiro
Andante e outras no género. Mas o mais desejado era então o Mundo de Aventuras
que um colega assinava com a complacência e os trocados da avó, e era recebido
semanalmente pelo correio às quintas-feiras, com ansiedade, ou o Mosquito que
outros colegas arranjavam e passava de mão em mão. E mais tarde muitas outras, sobretudo
de cinema, mas sem escolha. Os primeiros livros foram os pequenos livros de
ficção e aventuras inconsequentes, de cow-boys,
os Salgaris, e outros do
mesmo género, depois Júlio Verne e muitos outros, que colegas e amigos iam
buscar às pequenas bibliotecas da família e qualquer que fosse o género, a
matéria ou o autor. Dentre eles os livros sobre as grandes explorações do séc.
XIX e que o estudo da história mais tarde no liceu confirmou. É claro que os
gostos e as exigências de leitura foram evoluindo conforme e idade e a
mentalidade. E tudo me empolgava e fazia aguçar a imensa curiosidade. Não que
tivesse espírito de audacioso aventureiro. Nada disso. Era até recatado,
ponderado, menos de acção que de observação. Era até tímido. Mas timidez sem
medo. Nascido e criado num meio rural, de pequeno habituado à intima
convivência com a natureza, tudo o que com ela se relacionava não me causava o
menor receio. E pelo contrário me atraia e me encantava. Por isso não era de admirar
que eu desejasse conhecer a natureza de outras latitudes e de outros climas. E
a África, com seus mistérios, era um sonho.
isso
tinha de acontecer. E por isso aconteceu.
E ninguém melhor que os homens das
esquerdas sabe como se fabricam e se sustentam os mitos. Mitos pessoas, mitos ideias.
Mas também se sabe que nessa época, em
plena guerra-fria, a ONU, pela
Assembleia-geral, órgão onde esta propaganda mais se fazia sentir, estava
dominada pêlos países do chamado terceiro
mundo, ou os afro-asiáticos, ou
os não-alinhados, portanto que aparentemente não estavam alinhados
com nenhum dos dois lados da cortina
de ferro, os quais juntamente com os da URSS e satélites, ou da Europa
de Leste, detinham maioria de votos na Assembleia-geral, nas NU e quase todos os
dias ou apresentavam moções de condenação de Portugal, pela sua persistência em
África, ou promoviam a constituição de comissões para verificação das mais
diversas situações, num movimento tão aguerrido corno nunca antes fora visto.
Era uma época em que também
despertavam em África movimentos incipientes de intelectuais, destacando-se o
intelectual de formação cultural francesa Leopold Senghor, seguido de vários
outros de diferentes níveis, movimentos que em certos casos revelavam uma certa
pretensão de destaque, e tentavam induzir um certo orgulho na raça negra,
considerada tradicionalmente inferior face à raça branca, dentre eles se
destacando o movimento da “negritude"
como reacção a esse desumano preconceito.
Também a OUA, organização política dos países africanos, na
mesma linha e por seu lado promovia o seu melhor em agitação. ONU e OUA que
acabavam por serem pelo menos influenciadas nos bastidores pêlos países da
chamada cortina de ferro. E não
poucas vezes com o beneplácito de alguns dos países ocidentais ditos do mundo livre.
Deve acrescentar-se que esse movimento teve diversas
personalidades de diversos países na liderança, uma das quais e com grande
influência, a da índia, com o seu líder Nehru, que aproveitou a onda do
movimento independentista gerada por acção de Ghandi contra os ingleses, de que
resultou a independência da índia, e na linha de promoção de autonomias, depois
viria a tomar pela força,
.............................................................................
E como jovem
liberal, com ânsia de coisas novas, sentia-me por isso impelido a conhecer
novos lugares, novas paragens, com novos horizontes. Era um desejo de aventura.
E qual é o jovem que não anseia por um pouco de aventura?
A minha breve biografia bem se vê que é banal, própria de
gente comum e vulgar, sem nada de especial que a torne diferente, sem mérito de
referência, e semelhante à de qualquer outro jovem daquele tempo. Apenas com a
circunstância de ser uma situação de privilégio, pois na época e naquela
região, poucos jovens tinham a possibilidade que eu tive de ascender a estudos
universitários. Mas apesar de vulgar, a minha trajectória na vida acabou por
ser diferente
do
comum e com um tanto de insólito e de drama, como se verá.
* * *
Entretanto, como se sabe, em meados de Março de 1961, com
os bárbaros massacres de cerca de oito milhares de pessoas, brancos e pretos,
fazendeiros e seus empregados, cantineiros e outros residentes em pequenas
povoações ou fazendas, no norte de Angola, na região dos dembos, cerca de dois mil brancos e
cerca de seis mil pretos, uma boa parte bailundos, ou de outras etnias do sul,
uns contratados que trabalhavam nas fazendas, outros simplesmente emigrados no
norte, massacres praticados pelo bando de terroristas assassinos da
UPA, chefiados como se sabe por Holden Roberto, vindos do vizinho Congo,
começou a longa e dramática guerra colonial.
E depois, mais tarde, iniciada também em
Moçambique em 1965.
E terminada a guerra colonial, iniciadas
em ambas as ex-colónias a guerra civil. Com as mais nefastas consequências,
como é sabido. Durando até hoje em Angola e sem se poder adivinhar quando vai
parar.
Massacre encomendado que se caracterizou pela mais
selvática barbárie, numa ferocidade sanguinária antes desconhecida, mais
própria de animais que de humanos, exercida, não sobre as autoridades,
militares, policiais ou administrativas, como seria razoável, já que
aparentemente se pretendia combater um regime político, mas sobre civis, gente
pacífica e inocente, homens, mulheres, velhos, crianças e até bebés,
indiscriminadamente, feitos em pedaços, esventrados, e o mais antes
inimaginável, a frio, gratuitamente, à catanada, e que fotografias da época e a
atormentada memória de muitas pessoas que depois presenciaram o horror
revoltante dos resultados, nomeadamente algumas das nossas tropas enviadas "rapidamente e em força" como
disse Salazar, nos testemunham.
E com a particularidade espantosa de a
comunidade internacional não ter então condenado firme e abertamente tais
horrores, e não ter mesmo intervindo contra tais barbaridades. E ao contrário,
no geral, parecia até mostrar-se satisfeita, e em muitos casos tendo até
aplaudido tais feitos.
Como o
fizeram mesmo alguns engravatados que circulam agora impantes no nosso meio
político, desfrutando lugares cimeiros do Estado, comendo directa ou
indirectamente na farta gamela do Orçamento, e a quem muito povo mais ou menos
inocente, inconsciente e ignorante desses factos, enganado com as artes do logro
e da aliciação, vai dando o seu voto mantendo-os assim no desfrute da boa vida
alcançada a um preço tão miserável e tão vil... Há rumores segundo os quais por
trás de tal massacre, em apoio a Holden Roberto e aos seus cúmplices
assassinos, teria estado a mãozinha da KGB ou mesmo da CIA, ou de ambas... não
se sabe ao certo,... mas alguém foi!
Para que isto se compreenda, deve
dizer-se, num breve olhar ao passado, que naquela época, era muito forte e
intensa a agitação política e a propaganda internacional de esquerda, ou de
extrema-esquerda, usando palavras-chave, frases e estribilhos, como “libertação", “colonialismo",
“anti-colonialismo” “anti-exploração”, e outras, que impressionavam
vivamente muitas pessoas e eram formadoras de uma opinião pública internacional
contra Portugal, único país ainda possuidor de colónias em África. E que
convencia e influenciava e até arrastava as pessoas e bem assim em muitos casos
determinava as políticas de governos de alguns países...
E na mesma linha outros slogans como os conceitos teóricos e
abstractos, como o direito à
autodeterminação e independência
de todos os povos, por oposição a colonialismo e exploração, associando
a situação de uma suposta “opressão"
a uma ideia subjacente de antiga instituição da escravatura. Ou ainda
manifestações racistas como... "a
África para os africanos" ... ou de uma forma mais grosseira
..." a África para os pretos “...
O que tudo junto levava a opinião
pública internacional a considerar Portugal um país com uma política colonial
hedionda. É que por tal razão tal política deveria ser tenazmente combatida.
E mesmo o restante da comunidade
internacional, mais civilizada e mais sensata, que deveria distinguir a mera
propaganda que lhe era servida como informação, logo falseada, dos factos reais,
não foi capaz de entender que caminhos trágicos se estavam trilhando, como e
por onde se estava a fazer seguir a chamada descolonização. Nada foi mais
estúpido e aberrante.
Mas
o mito da necessidade e da obrigatoriedade
da descolonização estava já criado e já nada poderia resistir à sua força. A
onda estava lançada na comunidade internacional, tinha feito ninho na cabeça
das pessoas, já não era uma questão portuguesa, era uma questão da humanidade.
E bem se sabe quanto podem os mitos. Por
isso tinha de acontecer. E por isso aconteceu.
E ninguém melhor que os homens das
esquerdas sabe como se fabricam e se sustentam os mitos. Mitos pessoas, mitos ideias.
Mas também se sabe que nessa época, em
plena guerra-fria, a ONU, pela
Assembleia-geral, órgão onde esta propaganda mais se fazia sentir, estava
dominada pêlos países do chamado terceiro
mundo, ou os afro-asiáticos, ou
os não-alinhados, portanto que aparentemente não estavam alinhados
com nenhum dos dois lados da cortina
de ferro, os quais juntamente com os da URSS e satélites, ou da Europa
de Leste, detinham maioria de votos na Assembleia-geral, nas NU e quase todos
os dias ou apresentavam moções de condenação de Portugal, pela sua persistência
em África, ou promoviam a constituição de comissões para verificação das mais
diversas situações, num movimento tão aguerrido corno nunca antes fora visto.
Era uma época em que também
despertavam em África movimentos incipientes de intelectuais, destacando-se o intelectual
de formação cultural francesa Leopold Senghor, seguido de vários outros de
diferentes níveis, movimentos que em certos casos revelavam uma certa pretensão
de destaque, e tentavam induzir um certo orgulho na raça negra, considerada
tradicionalmente inferior face à raça branca, dentre eles se destacando o
movimento da “negritude" como
reacção a esse desumano preconceito.
Também a OUA, organização política dos países africanos, na
mesma linha e por seu lado promovia o seu melhor em agitação. ONU e OUA que
acabavam por serem pelo menos influenciadas nos bastidores pêlos países da
chamada cortina de ferro. E não
poucas vezes com o beneplácito de alguns dos países ocidentais ditos do mundo livre.
Deve acrescentar-se que esse movimento teve diversas personalidades
de diversos países na liderança, uma das quais e com grande influência, a da
índia, com o seu líder Nehru, que aproveitou a onda do movimento
independentista gerada por acção de Ghandi contra os ingleses, de que resultou
a independência da índia, e na linha de promoção de autonomias, depois viria a
tomar pela força, num enorme aparato bélico, desproporcionado face às pequenas
forças portuguesas em presença, os pequenos territórios portugueses de Goa,
Damão e Diu, nos fins de 1961. O que foi provavelmente um grande erro político,
já que o que ganhou em território perdeu nas vantagens de ter ali largas portas
abertas à cultura e ao comércio com todo o ocidente e em especial com a Europa.
Outra liderança forte foi a da Indonésia recém independente da colonização
holandesa, com Sukarno E também o movimento dos coronéis egípcios encabeçado
por Nasser, que tinham deposto o rei Faruk. E outras acções no mundo de efeitos
políticos menores.
Era
uma época de grande agitação política internacional.
Logo ali ao lado de Angola, no
Congo, estava em curso uma situação de quase guerra civil, depois da morte de
Lumunba, com a tentativa de separação da rica província mineira do Katanga,
movimento liderado por Moisés Tchombé, depois de sucessivas vicissitudes ocorridas
logo após o rei Leopoldo II da Bélgica ter concedido a independência a esse
amplo e rico território, tudo mais ou menos apaziguado pela presença de tropas
da ONU.
Foi por essa altura e quando tratava
dessa matéria teve a morte em trágico acidente de aviação do então
Secretário-Geral, o sueco Hammarksjoeld.
No oriente estava em curso a guerra civil no Laos, onde a
ONU também procurava resolver a situação. E sem deixar de citar o avassalador
movimento comunista de Mao Tse Tung em curso na China, ou seja, o que se
designou em certo momento por a "Grande
Marcha” e que depois deu
o que deu. Às portas dos EU, em Cuba, estava a desenrolar-se uma furiosa e
sanguinária luta entre revolucionários castristas e os contra-revolucionários,
os que restaram da época de Fulgêncio Batista juntamente com outros cubanos
refugiados nos EU, nesse processo tendo lugar o que se chamou o desastre da Baía dos Porcos, que foi uma
tentativa de desembarque e invasão na ilha de Cuba por uma força de
contra-revolucionários, ilha já quase totalmente dominada por Fidel, acção
destinada a vencer este, mas que acabou numa estrondosa derrota e redundou num
fracasso político para John Kennedy, que sempre se mostrou hesitante em ajudar
abertamente os contra-revolucionários e depois acabou por beber o fel de
consentir em a América ter tido até hoje o arrogante Fidel ali à ilharga, como
um ameaçador cancro comunista, como um espinho cravado na garganta. Como se
sabe, Fidel não passava então de simples marioneta dos soviéticos dos quais
recebia total protecção.
Pior do que tudo isso acontecia
aqui na Europa, com a França na fase final da liquidação da colónia da Argélia,
com De Gaule já decidido a descolonizar e parte do seu exército a recusar tal
solução. Uma página negra da história da França, com um começo de guerra civil.
Devendo lembrar o trágico terrorismo da OAS (Organization de l’Armé Secret) com
o plástico, um explosivo novidade da química na época, a explodir nos cinemas,
nos cafés, etc. Foi uma fase negra da vida política francesa.
E várias outras
situações de conflitos menores por todo o mundo.
A URSS tinha
enviado o major Gagarine para o espaço, logo após o lançamento do então
surpreendente satélite Sputnik, como
desfecho da corrida tecnológica empreendida em competição com os EU. E
sentindo-se pujante, em plena força política, e ao contrário tendo como
adversário os EU então chefiados por um Kennedy, democrático, popular e
populista, mediático, simpático, mas esquerdista, cheio de hesitações e
tibiezas, os soviéticos ou directa ou indirectamente, atacavam no mundo em
todos os quadrantes.
Kennedy, que sempre nos é apresentado como um grande
presidente, imagem construída pêlos media,
mas que na realidade e segundo outras opiniões seria um leader fraco, tão fraco como foi mais
tarde J. Cárter, ou segundo outras teses, estaria muito condicionado na
execução das suas políticas por poderosos lobbies internos que o tinham colocado no poder e agora lhe
exigiam o preço, a satisfação de certos compromissos, e cujo incumprimento
teria sido a causa do seu assassinato, cerca do meio do mandato, na cidade de
Dálias, Texas. E também se diz que era pouco dotado para prever, ou sequer para
interpretar com clareza o quadro da política internacional, aliás complicado,
naquela época. E assim, verificando que a URSS estava agindo no sentido de
conseguir o domínio da África, Kennedy, ingenuamente, desejando estupidamente
tomar a dianteira, em obediência aos princípios abstractos da liberdade e da
autodeterminação, promovia as independências dos povos africanos, onde depois
em campo aberto se instalaria com toda a facilidade o regime que combatia, ou
pretendia combater, o comunista.
E sem ninguém querer saber nada sobre os
interesses, a conveniência ou a vontade das populações, quer dos indígenas, os
pretos, os colonizados, quer dos residentes imigrados, os colonizadores, em
geral brancos, ou, ao menos, saber se as populações nativas tinham, só por si,
e com exclusão dos colonizadores, condições para se auto-governarem, ou autodeterminarem,
e serem só por si livres e senhores dos seus próprios destinos.
E
não tinham, como hoje mesmo se comprova.
Solução
que, por tão ilógica, era um completo disparate.
Mas o mito não apela à lógica das
coisas, e mesmo que absurdo, apela à emoção. A razão já não tem aqui cabimento
Os
mentores das autonomias e independências, agiam, no seu propósito, meramente
político ou ideológico, com a desbragada desfaçatez do completo desconhecimento
da realidade africana em geral, e em particular das colónias portuguesas, pois
nunca tinham posto os pés em África ou se puseram foi em regime de turismo,
transitando pelo conforto dos bons hotéis, gozando o mar e as praias ou o
prazer de alguma caçada. Os problemas reais das populações nativas passavam ao
lado. Ou eram vagamente conhecidos em abstracto através da literatura, de
escritos, mas mais provavelmente, de forma deturpada, e de sentido dirigido,
pêlos elementos da propaganda de cariz ideológico de esquerda que abundavam
nessa época ... Mas é claro, tudo o que se pretendia, não era no interesse das
sempre humilhadas e desprezadas populações nativas, mas a vitória de cada um
dos blocos ideológicos em disputa. Que se iria traduzir para o vencedor em
domínio político e estratégico, e consequentemente também económico, pois todos
tinham debaixo de olho a possibilidade do acesso directo e livre às ricas
matérias-primas dessa região.
Tudo
estava favorável para se conseguir a máxima asneira.
Também deve referir-se que certa oposição portuguesa, um
núcleo mais radical que sobrou da candidatura de Humberto Delgado nas eleições
goradas que tiveram lugar em 1958, para a Presidência da República, e se
encontrava mais ou menos exilada no estrangeiro, promovia, com os apoios do
comunismo e do socialismo internacionais, e em grande agito, acções diversas de
propaganda anti-Portugal, a favor das independências, da autodeterminação dos
povos, concretamente das colónias, usando os mesmo slogans da propaganda comunista, em apoio aberto aos terroristas,
sendo exemplo bem conhecido a conferência de Casablanca, em Abril de 1961, na
qual tal oposição presente
enalteceu o feito dos massacres de cerca de oito mil pessoas, da nossa gente,
ocorridos quinze dias antes no norte de Angola e por obra da UPA. Além de,
alguns deles, terem intervindo ou mesmo protagonizado vários tristes e
vergonhosos episódios conhecidos, imputados a diversas dessas personalidades portuguesas, dessa
referida oposição, no estrangeiro, em manifestações pouco dignas e pouco edificantes,
por diversos meios e em diversas circunstâncias, algumas vezes nas capitais
europeias de maior efeito internacional, como Londres ou Paris, reveladoras da
mais baixa moral, e da maior indignidade, contra Portugal, confundindo o país,
o seu nome, a sua imagem pública internacional e o seu prestígio, com o regime
político e a sua natureza, ou apenas com o principal mentor desse regime, em
geral agora objecto de todos os ódios, Salazar. E por isso também contra a
larga maioria do povo português que o apoiava!
Pessoas, portugueses (?), hoje muito bem
instaladas no nosso meio político, desfrutando os resultados, contabilizando a
seu favor, na nova situação, os benefícios conseguidos afinal com esses e
outros feitos vergonhosos.
O ambiente geral era favorável. O
caminho estava aberto. Aproveitava-se.
condecorações das nossas mais altas entidades, dos seus
amigos, como aliás o estão fazendo ou já o fizeram com outros próceres...
talvez cavaleiro da Ordem do Infante... ou um doutoramento “favoris causa" na Universidade
de Coimbra, como foi concedido a Chissano, e outros, ... (tudo é possível, dado
o nível deplorável a que baixou a velha e antes prestigiosa Universidade, agora
partidarizada à esquerda e ao não menos triste nível de mérito a que baixaram as
Ordens honoríficas ...).
Holden Roberto estará para muitos angolanos como para nós
portugueses está D. Afonso Henriques. Ambos são percursores de uma luta da qual
nasceu um país. Mas com uma diferença histórica temporal de mais de oitocentos
anos... Tal o atraso da civilização!
Em qualquer caso, como é sabido, oficialmente, os órgãos
deste nosso Estado, e os engravatados de esquerda que os ocupam, têm vindo a
privilegiar as relações com os partidos ex-comunistas, que também são
organizações ex-criminosas, das ex-colónias e que de forma imoral e
incompreensivelmente os apoiam e eternizam no poder... apesar de terem dado já
sobejas provas de falta de competência técnica e política e de total ausência
de idoneidade moral traduzida na mais descarada corrupção.
Deve ser porque para certas entidades,
são actos heróicos, os tais factos dos seus amigos, que para mim são crimes e que qualifico de bárbaros e
repugnantes. Não só para mim, mas suponho que para o povo português em geral,
para quem tenha um pouco de vergonha, de carácter, de moral e bom senso.
* * *
Tinha
cumprido o meu serviço militar obrigatório, havia já algum tempo, no exército,
como era normal, seis meses na EPI de Mafra e depois um ano numa unidade em
Bragança, cidade que era o meu distrito e onde tinha frequentado por dois anos
o liceu. E voltei à Universidade. Mas com o início da guerra de Angola, muito
pessoal, quer do meu ano de incorporação, quer dos anos seguintes, que já se
encontrava na situação de disponibilidade havia algum tempo, foi convocado e
voltou de novo ao serviço. Muitos foram depois mobilizados, e lá fizeram a sua
comissão em África. Fiquei na expectativa de vir a ser mobilizado também. Mas
tal nunca veio a acontecer. Enquanto aqui prestava serviço, primeiro na
Regimento de Infantaria 1, na Amadora,
onde mais tarde se instalou o Regimento dos Comandos, e depois em repartições
do Ministério do Exército, constantemente se nos deparavam outros jovens,
muitos deles antigos colegas da Faculdade ou da tropa, ou outros amigos, que
acabavam de regressar, contando as suas aventuras, as suas vivências, na guerra
ou pseudo-guerra e fora dela. Ele eram as aventuras de guerra, no mato, - o que
até raramente acontecia, pois alguns nunca ouviram um disparo nem dispararam
quaisquer tiros em acto de guerra - os incidentes, os percalços, os casos
caricatos, os medos e as pilhérias, já que a juventude não leva os medos a
sério. E também o ambiente geral, o clima, as cidades, o mato, as cobras ...
Estava já longe o trágico evento do
massacre de 15 de Março de 61 e a agitação própria que se lhe seguiu. Voltou a
calmaria. As tropas dominavam a situação no terreno, salvo os pequenos
incidentes das minas. A situação estava estabilizada. A vida económica retomou
seu ritmo de antes, ou até acelerou como nunca antes se vira. Circulava-se de
norte a sul, de leste a oeste, de Angola sem problemas. A vida estava
normalizada.
Também em Moçambique por essa altura as
acções de guerra esporádicas se situavam e restringiam às zonas de fronteira,
no norte de Niassa e Cabo Delgado, e no norte de Tete, e por isso não causando
preocupações de maior.
Cresceu em mim a vontade enorme de
conhecer África. Mas não pela guerra, claro, que todos desejávamos que
acabasse, embora não como acabou. Por um lado a atracção, o chamamento do
desconhecido, da novidade. Por outro a repulsão do meio, onde me sentia
desconfortável, sem gosto e sem agrado, deste nosso ambiente, tacanho,
medíocre, mesquinho, atrasado, sem horizonte, e portanto que me repelia. Foram
as duas forças de diferente natureza mas actuantes no mesmo sentido que
determinaram a minha resolução.
Era também possivelmente o mesmo apelo de emigrante que
levou muitos portugueses, ao longo de séculos para o Brasil, para a África, para o Oriente e depois e mais
recentemente para França e muitos outros países da Europa. E sem esquecer os
milhares ou mesmo centenas de milhar que, tal como eu, antes e depois de mim,
ainda emigraram daqui, deste canto da Europa, para Angola ou Moçambique.
Terminei a minha licenciatura em Direito, ainda fiz algumas
tentativas, não muito convincentes, de obter emprego, e mesmo com apoio e
boa-vontade de algumas pessoas influentes mas sem ter qualquer sucesso, até que
acabei por ir cair no Ministério do Ultramar. Tinha a sensação de que a
carreira da magistratura era missão excessiva para mim. E por isso, dos
Serviços de Justiça preferi as Conservatórias. Fui nomeado Conservador dos
Registos da Comarca de Manica, em Vila Pery, Moçambique e lá parti, entretanto já
casado e com uma filhinha de um ano, e que era a minha grande e única
preocupação quanto à sua saúde, caso o clima não fosse bom. Mas deu certo.
Felizmente tive sorte. O clima era do melhor que se podia esperar.
Chegado a Vila
Pery, sede da comarca de Manica, onde funcionava a Conservatória dos Registos,
iniciei funções. Mas não havendo juiz titular, de carreira, em exercício na
comarca, e estando portanto o tribunal funcionando com dois juizes substitutos,
de nomeação ad hoc pelo
Presidente da Relação, um advogado, outro economista, que aliás se desincumbiam
o melhor possível, por força do Regulamento dos Serviços de Justiça do Ultramar
incumbia ao Conservador fazer a substituição, legal, do juiz, aliás agora com
os mesmos deveres e prerrogativas do juiz de carreira. Assim, mesmo tendo
tentado fugir das funções de julgar, que eu considerava acima das minhas
capacidades, acabei por ter de fazê-lo por força da lei e das circunstâncias. E
gostei.
E assim fiquei por alguns anos
nessa situação, até que finalmente ocupou o lugar um juiz de carreira, voltando
eu à Conservatória
Ao iniciar funções no Tribunal eu era completamente
inexperiente. Nunca tinha vista uma audiência de julgamento. Nunca vira um
processo nem fazia ideia de como despachar. Mas tinha é claro a formação de
base. Importavam menos as formalidades que o conteúdo e mérito das decisões.
Com um pouco de atenção e observação dos pormenores práticos correntes, do
escrivão e de pessoal da secretaria, com a análise dos processos em curso, nas
várias fases e um pouco de audácia, avancei. Atirei-me ao trabalho com
entusiasmo.
Nem tudo saiu na forma mais
correcta do ponto de vista formal. Mas quanto ao conteúdo, designadamente as
decisões de condenação, eu tive sempre muita preocupação e o máximo cuidado e ponderação,
na elaboração das decisões.
Verifiquei processos findos e estabeleci
critérios. E deu certo. E por outro lado os advogados, sem o saberem, foram
meus grandes auxiliares. Aliás actuavam na comarca, além dos advogados ali
estabelecidos na cidade, muitos outros estabelecidos na Beira, a maior parte de
grande competência técnica, os quais são, todos, merecedores da minha
homenagem.
A
minha maior gafe, a mais flagrante, a meu ver, além de outros prováveis erros,
foi o condenar um jovem branco que esbofeteou um negro, e até aí estava
correcto, e a prova ia nesse sentido, mas dada a situação de crime pouco grave,
e o facto de ser delinquente primário, não lhe ter, como deveria, segundo os
critérios correntes, suspendido a execução da pena. Que afinal era só de multa,
mas que ficou registada para sempre no seu registo criminal. E não suspendi...
por esquecimento. Não era obrigatório, mas era conveniente. Mas não voltou a
acontecer. Era a falta de experiência. E até juízes com experiência erravam,
como toda a gente sabe, facto que não me deixava porém tranquilo. De tal forma
que o guardei na memória. Mas quanto a erros tudo é relativo. Basta ver que
muitas vezes se chama erro a meras divergências de opinião quanto à apreciação
e valoração económica ou ética dos factos, conforme os casos - e nisto se pode
aplicar o ditado de cada cabeça cada
sentença - bem como a diferente interpretação e aplicação da lei. E em
qualquer caso a justiça corrente, do dia a dia, está longe de ser ideal,
salomónica. E por outro lado cada pessoa tem na sua mente a sua própria
justiça. Temos porém que nos remeter humildemente a uma justiça
humana, real e objectiva, pela aplicação da lei positiva, face aos factos que
se nos apresentam, numa tentativa de alcançar um justo equilíbrio dos
interesses em causa, e que é a justiça objectiva de que tratamos.
Meses depois
estava despachando bastantes processos, principalmente em matéria de crime, mas
também em matéria cível e comercial ou trabalho, em razoável quantidade. E
fazendo bastantes julgamentos. Com grande satisfação dos advogados que
patrocinavam ali vários processos, quer residentes na Comarca, em Vila Pery,
quer residentes na Beira e que, como referi, frequentemente actuavam ali na
Comarca de Manica, e que viam agora os seus processos em andamento e já podiam
dar também satisfação dos seus assuntos aos seus clientes.
As estatísticas dos serviços mostram o
volume de serviço despachado e os funcionários da secretaria sentiram o gosto
pêlos emolumentos que mensalmente arrecadavam, com os processos findos. Os
utentes da justiça sentiram a satisfação de ver seus casos resolvidos. E vieram
novos casos, enquanto a pilha dos acumulados sofria forte desbaste.
Para mim era um desafio. Por um lado era
grande a minha preocupação de ver tantos assuntos, tantos problemas, por vezes
graves e importantes, ali, parados, sem solução, e pensando que cada processo
era um problema ou um conjunto deles, e por detrás de cada processo estavam
pessoas que sofriam com tal situação. Por isso não podia deixar de me
preocupar. O que poderá parecer um pouco a destoar tanta preocupação ali em
África, onde se pensa - aí pela generalidade das pessoas que nunca lá
estiveram, e visto cá da Europa com aquela sobranceria da suposta superioridade
... - que tudo deveria correr sempre às
três pancadas, o que não era verdade. Pelo menos comigo e do mais que
conheci, não era assim. Muito embora aqui mesmo, e agora e sempre, em plena
Europa civilizada, muitos juízes não parece sentirem essa preocupação. E não é
sem razão que a justiça hoje em Portugal está como está...
Por outro lado, o maior desafio era o conteúdo das
questões, a nível social e humano. Muitas vezes era algo de novo que me aprazia
por múltiplas razões, mas sobretudo pela natureza da matéria em si,
especialmente nos casos de crime, quase sempre crime de pessoal negro, entre
negros, e com motivações até então desconhecidas. Diferente era o meio social,
os valores, os costumes, a cultura. E quanto mais diferentes mais
interessantes. É claro que muitos casos, a maioria dos casos, eram casos
banais. Mas alguns outros continham dados, factos e circunstâncias, que só
mesmo em África era possível encontrar.
Um dos casos mais interessantes
que julguei ocorreu na Gorongosa, que era administrativamente uma circunscrição
com um administrador residente, com múltiplos funcionários da secretaria e
diversos elementos policiais, e com uma área que seria provavelmente superior a
meio Portugal, ou seja maior que todo o território a sul do Tejo. Era em parte
dessa área que se situava a famosa reserva de animais selvagens, que hoje
provavelmente já não existe ou se existe poderá estar completamente degradada e
que era o Parque Nacional da Gorongosa.
Mas a Gorongosa não era só reserva
natural. Uma outra grande fatia do território, constituída por serranias e
amplos vales, era habitada por população autóctone em grande quantidade e havia
até algumas propriedades de europeus, incluindo ingleses da antiga Rodésia.
Território esse que até certa altura pertenceu administrativamente à comarca de
Manica, com sede em Vila Pery, mas mais tarde com as alterações
administrativas, e após ter sido criado o distrito de Vila Pery, passou a
pertencer à Comarca da Beira.
Ora, um dia veio parar-me às mãos para
despacho um processo-crime, homicídio voluntário, ocorrido na área daquela
circunscrição administrativa. Os dois acusados, pai e filho, encontravam-se
detidos preventivamente na cadeia de Vila Pery. O processo estava pronto para
julgamento. Havia que marcar a data da audiência. Mas as testemunhas habitavam
todas lá, em povoações, algures na Gorongosa, a centenas de quilómetros. Não
havia transporte regular. Nem teriam dinheiro para pagar a um transportador. A
pé demoravam semanas. Não se previa que carros da administração pudessem
colaborar nesse transporte. Que fazer?
Afinal isto é que é a África. A África
real, vivida, e verdadeira. Dos problemas e das dificuldades. E não a África
das ficções e das fantasias. Dos filmes ou dos livros. Das paisagens. Da selva.
Das feras. Das caçadas. Do imaginário fabuloso.
Face aos
problemas é mister decidir. Lembrámo-nos então de ir à Gorongosa, poupando
àquela pobre gente trabalhos e canseiras. E um dia, na data previamente
aprazada, eis que vamos a caminho, na carrinha do Almoxarifado, assim se
designava o serviço público administrativo que fornecia o transporte oficial,
levando os arguidos, o escrivão, o representante do Ministério Público e o
defensor oficioso. Em suma, o tribunal completo, como manda a lei.
Já que a Gorongosa não vem ao tribunal,
vai o tribunal à Gorongosa.
A viagem que se iniciou de madrugada,
para dar mais tempo, foi só por si uma pequena aventura. Ao longo da extensa
picada, isto é, o caminho de terra, muitas vezes coberta em túnel formado pelas
copas das árvores que a ladeavam, eu esperava a cada instante ver assomar por
entre o alto capim, a juba de um leão, dos autênticos. É que aquela picada
delimitava o referido famoso Parque da Gorongosa, que mais tarde visitei. E lá
vi literalmente montes de leões, dormindo em grupo, preguiçosos, fartos, nas
sombras, e que fotografei de bem perto. Mas aqui na picada nem um só. Apenas
vimos alguns macacos que espreitavam curiosos, alertados pelo ruído do motor,
mas que depois à aproximação do veículo se escondiam guinchando. A emoção maior
acabou por ser a passagem do rio Pungué sobre um batelão de madeira assente
sobre tambores de transporte de gasolina vazios e impulsionado por longas
varas. Mas deu tudo certo. Chegámos sem problemas a Vila Paiva de Andrada,
assim se chamava a pequena povoação onde funcionava a administração. Montámos o
aparato da justiça na sala grande da administração gentilmente cedida pelo
senhor Administrador.
Começámos
o julgamento.
Tratava-se do
caso mais romântico, poético e trágico que eu já vira. Merece a pena
descrevê-lo.
Joarena era uma bela jovem adolescente
que morava na sua povoação na soalheira encosta virada a norte algures nas serranias
da Gorongosa. Devia ser uma beleza rara, e imaginamo-la com a sua tez castanha,
esbelta, testa alta, carapinha entrançada e engalanada com uma flor de cheiro,
porte nobre e firme, um colar de vidrilhos ao pescoço e vestindo provavelmente
uma garrida capulana, caindo solta sobre sua anca. Beleza que era o orgulho da
família e o encanto de muitos jovens pretendentes. Mas foi o João Chiluvo quem
a ganhou.
Ao ser manifesto
ter entrado na fase da puberdade, cerca dos doze anos, o João Chiluvo foi falar
com os pais pedindo-a em casamento. Depois de várias ofertas e recusas, depois
de longa negociação, como é dos usos, concertaram o preço a pagar pelo noivo à
família, o lobolo. Em primeiro
lugar assentaram no pagamento do cabaço
que era corrente valer quinhentos escudos, e que lhe concedia o direito
à primeira relação sexual com a bela Joarena. Antes do casamento que devia
realizar-se cerca de um ano mais tarde, o noivo, ou sua família, deveria pagar
aos pais da noiva alguns cabritos e uns sacos de mapira, e vários quilos de
açúcar para a festa de celebração do pedido de casamento. Além de uma bonita capulana, isto é, um pano de chita
muito colorido, como era corrente, e que seria a toillete, o fato solene
da mãe da noiva. Deve dizer-se que o açúcar e a mapira se destinavam a
produzir cabanga, a bebida
tradicional, corrente entre eles, e que consiste na fermentação por vários dias
da farinha da mapira ou milho, misturada com açúcar e outros artigos,
tornando-se assim, uma bebida alcoólica, tão do agrado de todos. Mais tarde, no
dia do casamento a aprazar, pagaria o João mais uns tantos cabritos, várias
galinhas e outros artigos em abundância para plena satisfação de todos os
convidados.
O
João não cabia em si de contente. Nutria uma invulgar paixão por Joarena e via
deste modo a possibilidade de a ter como sua mulher, o seu amor, a sua
felicidade. Nesse ano alargou o seu campo de plantação de milho e de mapira
obtendo uma colheita como nunca antes tivera. Rendeu-lhe vários sacos de cereal
que foi vendido na cantina de Vila Paiva, e que lhe deu bom dinheiro. Era de
seu agrada presenteá-la, com pequenas ofertas, colares de vidros e panos, que a
tanto se satisfazia a sua vaidade.
Mas a forte paixão do João não
era correspondida. A alma de Joarena voava mais alto. Ou fosse um cipaio, galante na sua farda caqui,
ou algum branco que tenha visto lá por Vila Paiva, Joarena sonhava com outros,
mas não com o João. Casaram. Isto é, no dia aprazado, o João levou os bens que
eram o preço ajustado, o lobolo, e
em troca levou consigo a Joarena.
Joarena entregou o seu corpo, mas
não o seu amor. Indiferente e fria, exasperava o João. Corre o tempo. O
casamento sofre numerosos incidentes. O desagrado é uma constante para ambos.
Joarena não tem filhos. Não trabalha na machamba
como as outras mulheres. Não cumpre a tradição. Deste modo o João podia
devolvê-la à família e até pedir a devolução do preço pago, segundo os usos e
costumes. Mas isso o João não faria em caso algum. O João ainda esperava
conquistar as boas graças, o amor da Joarena.
Um dia Joarena, com sua prima, resolveu
ir visitar uns parentes que moravam numa povoação vizinha. Seguiam o carreiro
no mato que levava a essa povoação quando lhes surge pela frente o João. Este,
havia dias que não dormia com ela, e não só estava ardendo de desejo como
estava consumido de ciúme, desconfiando que Joarena se fosse encontrar com
outro homem. João tinha o coração envenenado pelo amor-ódio-raiva-desejo, e a
mente confusa e sem discernimento.
-
Onde vais Joarena? Há dias que não te
vejo, disse o João.
- Vou com minha prima visitar minhas tias e
primas ali à povoação.
- Tu vais é
encontrar-te com outro homem... Hesitou. Não queria discussões com a
Joarena. - Mas se vais visitar os parentes eu vou contigo.
- Não, replica logo Joarena.
- Deves
lembrar-te que sou teu marido. Manda a tua prima embora. Eu sou que te
acompanho.
E segurando no braço da Joarena puxou-a para o meio do
capim. Desejava ter relações de sexo com ela, ali mesmo, sem demora. Joarena
grita e debate-se, recusando. O João perturbado pelo seu estado de excitação,
ante a recusa, roído de ciúme, toma o pequeno machado que sempre trazia consigo
pelo mato, e dá uma pancada violenta na cabeça da Joarena. Depois outra e
outra. E mata-a.
E de repente apercebe-se de todo o mal.
E de uma intensa raiva passa a sentir uma insuportável dor, tão forte e
profunda que o imobilizou chorando sobre o corpo ainda quente da mulher amada.
A prima que se apercebeu da tragédia foi
de corrida à povoação dar parte do caso. E foi então que o velho pai, e o jovem
irmão, da Joarena, armando-se de seus machados, foram ao local onde se lhes
deparou a triste cena do João chorando convulsivamente sobre o cadáver da sua
vítima, da sua paixão e da sua perdição. E ali, insensivelmente, alheado de si
mesmo, o João se deixou matar à machadada, como quem deseja de sua vontade
submeter-se à fatal punição pelo seu crime.
Ao ler este processo, e tentando
transpor para a vida real a descrição fria e simples na redacção dos
investigadores, imaginei os sentimentos, fortes, intensos das pessoas que
vivendo num estado de civilização muito atrasado e com usos e costumes tão
diferentes dos nossos, todavia sentindo como qualquer de nós, os mesmos
sentimentos e as mesmas emoções, porventura com mais intensidade, já que são
mais naturais e espontâneos e mais puros. Sem artifícios, sem preconceitos...
A mãe da Joarena, foi a primeira
declarante. Velha, provavelmente septuagenária, alquebrada, de carapinha
completamente branca implantada sobre um crânio castanho-escuro, o rosto e o
corpo cor de canela, rosto rugoso, encarquilhado, vestindo unicamente um pano
cingido à cintura, descalça, de tronco nu, com os seios tornados duas longas
peles secas, caindo até ao meio do ventre.
-
Como se chamai - Perguntei.
-
Qual o teu nome, repetia o
intérprete na sua língua nativa.
-
Miséria, respondeu a velha.
-
O quê?
Repliquei com surpresa.
-
Miséria, chama-se Miséria, explicou o
intérprete.
Miséria é para nós a pior
situação de um ser humano, moral ou materialmente considerada. Mas,
desconhecendo a semântica, e atendendo simplesmente à fonética, miséria é até
uma palavra bonita, bem soante, alegre e viva, com o E aberto quase musical.
Foi decerto por esse motivo que a palavra foi adoptada e se tornou nome
próprio.
Muitos outros casos, tristes é certo,
que os crimes são sempre desgraças e mexem muito com a vida e os sentimentos das
pessoas, e até da sociedade, mas em certos aspectos interessantes, tocaram a
minha sensibilidade, algumas vezes agradavelmente, outras pelo lado pior e da
pior forma. E muitas vezes me interroguei sobre a legitimidade de julgar
segundo os nossos padrões morais, se este seria o nosso verdadeiro e correcto
papel a desempenhar junto desta gente.
Um dia foi-me presente um homem
de meia-idade, rondando os cinquenta, na aparência, e segundo os nossos
critérios e experiência da vida. Eles, isto é, os homens do mato, os que viviam
num estado de maior atraso, quase nunca ou raramente sabiam a sua idade nem tal
coisa era do seu interesse. De resto só algum, residentes nas povoações ou
próximo é que faziam o seu registo civil. Tinha sido detido por cultivar, consumir
e vender seruma, e vinha ao tribunal para prestar declarações, e para o juiz
verificar a validade da prisão e a sua eventual manutenção, como é de lei.
A seruma ou cannabis
sativa, ou cânhamo da índia, e
que aqui na Europa é conhecida por erva,
marijuana, haxixe e muitas outras designações, é uma planta, um arbusto
do tipo tabaco, mas considerada um alcalóide, estupefaciente, ou seja: droga. Já que causa habituação e
dependência. E com consequências do foro psiquiátrico. E sociais. Como todo o
estupefaciente. Embora em grau moderado. E era por isso proibida. A sua posse,
qualquer que fosse a sua utilização ou seu fim, inclusive o consumo, era crime,
se bem que a lei considerasse de menor gravidade o simples consumo.
Ora, eu tinha começado a perceber que era tradição o
consumo deste produto na sua forma natural, e bem assim o seu cultivo. Produto
a que eles chamavam tabaco. Não entendiam na sua compreensão face às tradições,
porque o tabaco dos cigarros era
.............................................................................................
Noutra ocasião a policia apresentou à
legalização da prisão, dois jovens nativos acusados de violação de duas
raparigas. Prestadas as declarações obrigatórias, para avaliar da legalidade da
detenção dos presos, primeiro dos arguidos e depois das queixosas, as
raparigas, logo se concluiu que as raparigas tinham consentido nas relações
sexuais. O que era contrário ao pressuposto do crime da violação cujo quadro
legal exigia o uso de violência, e portanto relações sexuais contra a vontade
das pretensas vítimas, as mulheres. Portanto não estávamos em presença de
indícios de violação. Logo, a prisão era ilegal.
Elas
concordavam, e admitiam que os rapazes não usaram de violência e as relações
foram consentidas. O que não admitiam era que os rapazes que teriam prometido
pagar-lhes uma certa quantia, não cumpriram o prometido. E daí a indignação das
raparigas. E a queixa à policia. Indignação que os cipaios compartilhavam, pois
o feito em apreço era considerado geralmente uma patifaria dos detidos. Só que
a verdadeira questão legal, com os mesmos factos, era outra. À face da lei o
crime era das raparigas pela prática da prostituição. Ou a sua tentativa. O
resultado seria mandar os detidos em liberdade e remeter os autos ao Ministério
Público para investigação do suposto crime de prostituição.
Isto deixava estupefactos os polícias
nativos, naturalmente mal informados da lei e influenciados pelas tradições
locais.
Estes casos referidos mostram que as
nossas leis europeias careciam de adaptação local pois em muitas situações não
tinham correspondência com a vida real africana.
Com efeito, os crimes sexuais do nosso
Código Penal, estabelecidos sobre e segundo uma certa filosofia e moral de
referência a valores cristãos, e éticos, à europeia, e bastante rígida, não tem
a menor correspondência com os valores destas sociedades quase primitivas. Nem
estupro, nem atentado ao pudor, ou ofensa à moral pública, ou mesmo
prostituição, ou conceitos morais ou sociais como virgindade, honra, decência,
pudor, castidade, etc são conceitos que façam parte da sua cultura, da sua vida
corrente. A sua moral ainda não estava a esse nível. As suas preocupações são
muito mais materiais e de sentido imediato. São as meras preocupações da sobrevivência.
Em sociedades de
cultura primária, a sua ética terá de ser igualmente primária. Basta pensarmos
que se vestem muitas vezes com uma tanga, e que a nudez é mais natural do que o
vestuário, que ao começar a puberdade as famílias muitas vezes já venderam o cabaço das filhas, independentemente
de casarem ou não, que qualquer mulher aceita ter relações de sexo mediante um
pagamento sem que o marido ou a família considere um acto reprovável, de
adultério, ou prostituição, e as famílias preferem ter filhas em vez de
rapazes, pois as filhas, se estão na família são factor de produção, por serem
obrigadas, juntamente com as mães, a cultivar as machambas e colimas, e quando
se casarem, a família beneficia de um valor económico com o pagamento do lobolo, pelo noivo.
A mesma incompreensão quanto às bebidas
e à seruma. E com toda a razão.
Deve esclarecer-se que estamos tratando de uma certa
categoria de pessoas, das mais atrasadas, e que eram também a maioria, que em
geral viviam afastadas dos centros urbanos, quase sempre analfabetas, vestiam
tanga, ou uma simples capulana em volta da cintura, andavam descalças, e pouco
contactavam com pessoas mais civilizadas. Talvez contactassem só quando passavam
pela sua povoação uma ou mais vezes por ano os cipaios ou agentes
administrativos a cobrar o imposto de capitação, ou imposto domiciliário,
vulgarmente designado imposto de palhota ou na linguagem indígena mussoco, ou uma ou mais vezes por ano
quando iam à vila ou à circunscrição administrativa mais próxima, ou iam com
mais frequência à cantina de branco mais próxima vender milho, ou porventura
algodão, ou comprar panos, ou sal, ou enxadas, ou comprimidos contra o
paludismo, ou simplesmente embebedarem-se com cerveja.
Mas é claro que no contexto geral da
sociedade africana havia outras categorias de pessoas autóctones, pretos, já
civilizados, formados em Universidades, médicos ou economistas, ou outros cujo
comportamento se pautava pêlos padrões europeus. Mas era ainda uma minoria. E
havia muitas outras categorias intermédias, a diversos níveis, com mais ou
menos formação intelectual, mais ou menos alfabetizados, que frequentaram
escolas públicas, com professores pretos ou mesmo brancos, ou escolas das missões,
e eram muitas, e que sempre tiveram um papel muito relevante, estes já
civilizados que na maior parte dos casos concorriam aos serviços
administrativos do estado ou trabalhavam nas empresas em diversas funções, em
igualdade com brancos ou de outras raças e às vezes em funções hierarquicamente
superiores. Indígenas integrados portanto no tecido empresarial, económico, ou
nos serviços administrativos, de saúde, etc tudo próprio de uma sociedade
organizada mas constituída por elementos de várias raças. O que não era
inédito. E existiam por fim já numerosos jovens nativos que frequentavam
actualmente escolas em diversos graus de ensino incluindo o universitário.
Havia portanto grande disparidade de graus de evolução e
civilização. E quanto mais elevado era o grau de evolução, mais desenraizado
ficava o nativo e mais se afastava da sua cultura tradicional, pela assimilação
de uma nova cultura, antes estranha, ou ainda mais provavelmente faria a
simbiose de ambas. Sem nunca perder a ligação à cultura da matriz, de tradição,
como julgo que acontecerá com todos nós. E é isso que verdadeiramente
distinguirá sempre, no mesmo grau de instrução, um nativo civilizado, de um
branco igualmente civilizado: é a diferença de matriz cultural. Mas não
pretenderemos entrar em campos de terreno vasto e difícil que deve ser deixado
aos sociólogos, psicólogos, antropólogos ou outros, (que tal não se compadece
com uma simples narração de alguns factos, ocorridos em tempo e lugar
concretos), e que é o problema das culturas, do abandono de uma pela
assimilação ou não assimilação de outra, e dos problemas daí resultantes, de
identidade social e cultural. Ou da sua carência.
Todas as pessoas têm seus medos. Ou
medos imediatos e muito terrenos, da cobra ou do leão, ou das calamidades, dos
fogos ou das cheias, das tempestades, do raio e do trovão, ou do vizinho mau,
do mau-olhado, da bruxa, ou da fome, da doença, que pode ser também resultante
do mau-olhado, ou do cuxe-cuxe, ou
seja o celebre curandeiro, e do seu feitiço. E da morte. E de todos os
mistérios da vida.
O cuxe-cuxe ou
feiticeiro, é uma instituição da cultura indígena. Mas não apenas africana.
Acontece um pouco por todo o mundo, em todas as sociedades, em todas as
culturas, e que todos conhecemos um pouco, da prática, da literatura, os
feiticeiros, as bruxas, as fadas, as mulheres de virtude, as benzedeiras, os
curandeiros, os endireitas, os xamâs ! Por vezes com um sentido algo religioso,
até transcendental. Do milagre! Da invocação dos espíritos, da leitura dos
astros, da interpretação de sinais, de qualquer natureza. E muitas outras nuances dos temores e dos presságios.
E também ali, o feiticeiro ou cuxe-cuxe.
Pode ser um charlatão, aldrabão e vigarista, na pior imagem que dele se
possa ter, que só pensa no melhor modo de ludibriar as pessoas, usando das
melhores artes do logro e da manipulação, da magia, fingindo prestar um
serviço, que sabe não produzir qualquer efeito útil, para tirar o maior
proveito da situação, figura que é a mais vulgar. Ou pode ser um curandeiro verdadeiro
e honesto, utilizando ervas, em chás, infusões ou unguentos, e praticando assim
uma medicina natural, empírica, uma alquimia, embora simples e primária, mas
algumas vezes eficaz. Ou usando processos psicológicos apreendidos por intuição
e experiência de vida, para curas de espírito, de possessos, ou outros. E que são poucos. E há muitos outros casos
intermédios. Até algumas vezes, nos piores casos, por maldade, aconselhavam as
pessoas a matar uma criança ou um vizinho, a pretexto de este lhe ter feito um
feitiço, um mau-olhado, para lhe extrair certo órgão, que depois de um
tratamento misterioso produzia um mitombo,
droga ou remédio que se devia ministrar ao doente etc. praticando-se por
vezes, nesse obscurantismo, as maiores crueldades e barbaridades, e a que não
estava alheia uma certa tendência para a antropofagia, e toda, como diríamos,
uma filosofia imanente da vida e da morte para nós difícil de compreender.
Nessa linha conhece-se a realização de
actos públicos ou privados de bruxarias, missas negras, macumbas, e muitas outras modalidades de feitiçaria, em geral
privados e nocturnos, usando rituais com simbologias e invocações de entidades
do Além, com sons, músicas, ritmos e danças adequadas e destinadas a obter um
certo efeito no estado de espírito dos participantes, com sacrifícios de
animais e por vezes até humanos, numa orgia de semi-loucura. E que pode levar
aos mais aberrantes resultados, inclusive, ao crime! Matéria de filmes,
romances e outras formas de expressão, em geral conhecidos, mas produto do
imaginário dos seus criadores. Porque verdadeiramente não são, ou pouco são,
conhecidos os factos reais, pois em regra não são nem presenciados por
estranhos nem divulgados.
Mas é do conhecimento da história que em
muitos povos antigos, em civilizações bastante evoluídas, ainda se praticavam
actos religiosos com artes de magia e sacrifícios humanos.
E daí também que eu tenha tomado
conhecimento, e julgado, crimes horrorosos praticados por feiticeiros e pessoas
sob as suas influências. E muitos outros, ocorridos mato dentro, decerto
ficaram impunes por deles não se ter tido conhecimento.
Os curandeiros eram forçosamente pessoas influentes em
quaisquer sociedades, e não menos nas africanas pelo poder, que, pelo menos
supostamente, representavam face à permanente ameaça do seu feitiço. Tiveram
por isso ao longo dos tempos um papel relevante nessas sociedades primitivas.
Pois não eram também por vezes uma espécie de sacerdote? Não encontramos
noutras civilizações funções semelhantes, misto de sacerdotes e médicos? Muito
mais se poderia referir. Mas não deve esquecer-se o aproveitamento que os
grupos terroristas fizeram do cuxe-cuxe, para os apoiarem junto das populações,
onde esses guerreiros estranhos, que apareciam armados e por isso traziam a
guerra, não eram bem-vindos.
O feiticeiro em muitos casos
coabitava com a população num certo local. Podia ser um sábio conselheiro do
régulo, prestigiado e respeitado, ou podia ser um elemento maléfico, temido das
populações. Mas muitos feiticeiros eram ambulantes, andavam pelas povoações sem
se fixarem, apareciam e desapareciam como fumo, depois de cobrarem às
populações o seu preço muitas vezes em galinhas e cabritos já que normalmente
não havia ou havia pouco dinheiro.
Poderia isto ser considerado exercício
ilegal de medicina? Sustentar esta tese pela positiva seria um caso bastante
caricato!
É claro que nas cidades e
povoações desenvolvidas, a vida funcionava à europeia, havendo hospitais e
médicos, havendo ciência, técnica, equipamentos e medicamentos, regras e
disciplina de procedimentos. E daí o contraste permanente entre umas situações
e outras. E as intermédias. E sem esquecer que havia muito africano, já
evoluído, que recorreria normalmente à medicina oficial, como seria natural,
mas à socapa não deixava de consultar o seu... curandeiro. Por causa das
bruxas... porque mesmo não acreditando nelas, como diria o espanhol, ...”pêro que las hay, hay !”.
Ainda quanto à aplicação ou não das leis europeias ao
africano, antes considerado indígena, ou nativo, significando pessoa de
estatuto diminuído, agora formalmente cidadão de pleno direito, face à
realidade das circunstâncias em que viviam estas populações mais atrasadas, os
grandes sectores ou institutos da ordem jurídica portuguesa não tinham ali o
menor cabimento. Ou só eram aplicadas em parte. Com efeito, não havendo em
geral apropriação de terras, nem construindo casas ou outros edifícios firmes,
do tipo prédio urbano, implantado no solo, como define a lei, que à europeia se
pudessem considerar como tal, o regime dos direitos reais, incluindo o direito
de propriedade, registos, etc, não tinha aplicação prática. Excepto quando,
segundo o regime de concessão de terras, o seu completo aproveitamento
justificasse a conversão da posse precária de concessão, do domínio útil, em
propriedade plena, o que só acontecia em geral nas cidades e portanto
praticamente só nos casos de prédios urbanos, situação em que se verificava o
pleno aproveitamento da terra.
Em termos práticos, os milhões de
hectares que constituíam o território, não estavam cadastrados, eram na maior
parte selva, ou simples savana, não pertenciam a ninguém. Eram terrenos livre
do Estado. Os nativos não demarcavam terreno, nem dele se apropriavam (para
quê?) apenas utilizavam uma parte que achassem adequada para algumas culturas,
findas as quais abandonavam o lugar ou não conforme lhes conviesse. E tão só
junto das povoações onde habitavam. Assim, ninguém roubava terras a ninguém. O
que parece fazer aqui alguma confusão às pessoas em geral, que imaginam que lá
se passaria o mesmo que em Portugal onde não há um naco de terra que sobre da
propriedade privada, e onde um problema de uma simples demarcação, qualquer
palmo de terra, é motivo de litígio e até de mortes.
Da inexistência
na prática do exercício do direito de propriedade, quer imóvel ou mesmo móvel e
neste caso quando existia, sem valor economicamente relevante, também o direito
das sucessões não tinha aplicação, a não ser mais uma vez nos meios urbanos e
quase sempre em situações com população não indígena. E por outro lado
raramente se aplicava o regime dos contratos civis e mesmo as leis da família.
Ou seja, em resumo, a lei em geral ia sendo aplicada apenas onde era possível,
salvo a lei penal que respeitava principalmente à preservação de valores
fundamentais do homem, da vida e da integridade física, e da sociedade e cujo
substrato ético era perfeitamente assimilado, pelo menos na maioria dos casos
por todas as pessoas, mesmo as menos evoluídas. Em qualquer caso, em matéria
criminal, o atraso de evolução social ou de civilização era invariavelmente
considerado de forma favorável ao presumível infractor, na determinação da
medida das penas aplicadas, como circunstância atenuante.
Como se vê, e já antes se referiu, a África verdadeira não
é aquela África dos filmes e dos noticiários da televisão, dos jornais ou das
referências dos políticos, únicos meios pelos quais as pessoas sabem que
existe. Meios que, como se sabe, ou são redutores, exibindo pequenas parcelas do
todo, ou são fantasistas, de pura ficção, ou deliberadamente falseados,
conforme os interesses em causa.
A África real é esta, das gentes, sobretudo das gentes, das
suas dificuldades, dos seus problemas, da luta pela sobrevivência, das
calamidades, da fome, das doenças, das febres, dos perigos, dos odores fortes,
dos cheiros.. da qual também se dá apenas uma sumária amostra.
E de tão diferente que é, e tanto mais o
é, mais se torna apaixonante.