O ambiente geral
Quando assumi funções no tribunal o ambiente
dos serviços não era o melhor. O escrivão não se relacionava bem com o juiz 1° substituto,
os advogados tornavam partido por um ou outro lado, formando duas facções, e
tal situação não prestigiava a justiça. Se acrescentarmos que o juiz substituto
só tratava dos casos urgentes, e a mais não era obrigado, dado tratar-se de uma
situação de emergência, que deveria ser provisória, mas acabava por ser
demasiado duradoura, e a maior parte dos processos ficavam parados, a imagem
pública do tribunal não era boa. Fui acolhido com reservas por uns ou com
entusiasmo por outros. Não haveria razões nem para uma coisa nem para outra.
Resolvi tomar o rumo de cortar pelo meio e manter uma situação equilibrada,
numa equidistância sensata e prudente entre as duas posições. Deu certo.
Recebi os cumprimentos da praxe, de várias entidades
oficiais ou mesmo de particulares, praxe que eu desconhecia, mas que aceitei,
com agrado, e atirei-me ao trabalho corno referi. A mulher com a filha em casa
ou passeando pelo parque e eu esquecido, no gabinete, até das horas das
refeições, entre pilhas de processos.
Creio que esta minha prudência, a
simplicidade de trato, afinal própria de um aldeão promovido a urbano, o
trabalho e a produção, recuperaram a imagem do tribunal e da justiça, enfim
dentro dos modestos limites do possível, e as coisas foram correndo bem.
O meu trabalho não teria grande eficácia se na
secretaria do tribunal o escrivão, europeu, um beirão da velha guarda, e o
ajudante, também dos melhores, negro, mas evoluído, com toda a propriedade um
moiro de trabalho, pois era islâmico, o Sufiana Faharodine Ali Agy
(este só abrandava os seus zelos no trabalho uma vez por ano, por altura do
Ramada, em virtude dos cerca de trinta dias de jejum obrigatório) não dessem
saída e cumprimento aos despachos. E davam. Alguns meses depois chegou um novo
Delegado, inexperiente como eu fora, mas que pelas suas excelentes qualidades
de trabalho e competência, depressa ficou apto a desincumbir-se da melhor
forma. E sobretudo era pessoa com sensibilidade para os problemas específicos
daquele meio, nos termos em que já dei algumas indicações.
Muitas vezes trocámos ideias e impressões sobre as
matérias da nossa profissão, procurando a maior eficácia no nosso trabalho. E
também sobre as coisas mais gerais. Mas também sobre a nossa presença ali, naquelas
condições, e por isso uma interrogação nuclear e fundamental colocávamos e
analisávamos, sem todavia tirarmos uma conclusão definitiva. Que decerto não
havia:
- Era justo estarmos ali
exercendo as nossas funções daquele modo?
E ainda diversos ângulos da mesma questão,
como qual o correcto papel do europeu em África, e se é legitimo ao europeu
introduzir a sua cultura sobre outra cultura (cultura no seu sentido mais
natural e mais amplo), a sua religião, os seus costumes, os seus vícios, as
suas doenças, enfim todos os males da civilização?
Ou não seria legítimo e curial, e até
desejável, qualquer que fosse o profissional, levar junto dos povos atrasados
uma civilização avançada, com ciência e técnica, a civilização europeia, de
raiz cristã, universalmente reconhecida e mais ou menos exemplar ou modelar,
para a qual tendiam todas as restantes culturas ou pelo menos a maior parte
delas?
E não se estaria perante uma tendência geral da
humanidade no sentido de uma uniformização da cultura a um nível superior num
estado mais avançado da civilização?
Em qualquer caso parecia evidente que os
eventuais malefícios trazidos pela civilização europeia eram largamente
superados pelos amplos benefícios.
Sem grandes voos filosóficos, mas até de forma e interesse imediatista
e de sentido prático, estes assuntos foram tema de múltiplas conversas e motivo
de preocupação. Sincera. Nós realmente de boa fé. Compreenda-se que não se
tratava de fazer
doutrina, ou política, ou qualquer forma de exibição pública. Eram conversas
privadas, simples e naturais reflexões de cidadãos conscientes e preocupados
com problemas que reputávamos actuais e
Que tais diálogos talvez nem fossem
permitidas em público, naqueles tempos, dada a sua natureza sensível e
eventuais implicações de ordem política, que de algum modo poderiam beliscar a
filosofia política do Estado.
Estas conversas de amigos, sem qualquer sentido
conspirativo, alargavam-se a outras pessoas, algumas até com responsabilidades
administrativas oficiais. E sempre chegávamos a uma única conclusão: - que a
nossa presença, salvo alguns, porventura bastantes, erros de actuação prática,
e a necessidade de várias correcções, e não seriam poucas, mas na essência, era
não só útil mas necessária, importante e mesmo indispensável. E por isso era
até desejável que se promovesse mais imigração, não só da Metrópole, como de
países estrangeiros. E de preferência de gente qualificada, e quanto mais
qualificada melhor, já que gente e mão-de-obra não qualificada havia ali em
quantidade.
Com efeito, essa imigração teria uma
importância inestimável, útil em todos os sentidos, e já que nesta fase em que
vivíamos, a economia estava organizada e estruturada, e em franco
desenvolvimento, oferecia imensas possibilidades para os mais diversos empreendimentos
ou simples emprego. Visto que havia tantas coisas para fazer, em tantos campos
e ramos de actividade e já existindo todas as condições mínimas exigidas por
qualquer europeu, de segurança e conforto, e por isso, podendo ter já uma vida
familiar e social normal, não seria de surpreender que as pessoas de hábitos e
de exigências de certo nível se propusessem instalar em Moçambique, dando
depois o seu contributo na sua área de acção, na sua especialidade, qualquer
que ela fosse. Pois quem poderia negar que não eram bem-vindos mais médicos,
mais professores, mais engenheiros, de qualquer especialidade, mesmo mais
comerciantes, mais empresários, mais mecânicos, mais carpinteiros, mais mestres
d'obras, etc?
Esta situação em que o
emprego era quase certo, mal se iniciava uma actividade, era gratificante ver
os efeitos muitas vezes quase imediatos da acção de cada um dos intervenientes.
Provenientes de uma
sociedade industrial e consumista, ou de Segunda Vaga, para usar a
linguagem de Alvin Toffler,
para nós, uma primeira linha de preocupações era o bem-estar material das
populações nativas ou de Primeira Vaga, que deveria ser conseguido através do
desenvolvimento, ou do progresso geral: não só na agricultura, tradicional,
individual ou familiar, passando para uma agricultura de técnica melhorada, ou
iniciando-se uma agricultura das grandes extensões e grandes quantidades ou
industrial, e a sua comercialização, gerando não só a abundância de alimentos,
como depois a sua industrialização, de preferência da transformação das
matérias-primas locais; como ainda o estabelecimento de uma boa rede de
transportes, cada vez mais alargada e melhorada, o lançamento de novas
estradas, avançando mato dentro, facilitando cada vez mais a circulação de
pessoas e bens, e sem esquecer o lançamento de novas escolas e novos hospitais.
Enfim, promovendo a melhoria ou o lançamento de todos os elementos que
correntemente são considerados como factores básicos e necessários para o
desenvolvimento.
E surge ainda outra questão fundamental: - a
quem incumbe promover o desenvolvimento e como?
Pois bem, é fundamentalmente ao Estado, por um lado,
criando as necessárias infraestruturais e demais condições e tomando
iniciativas empresariais em muitos casos, e aos particulares por outro, no âmbito
da iniciativa privada, dos interesses. Naquele tempo era dever do Estado
português. Não havia a menor dúvida. E era realmente isso que estava
acontecendo, e pode dizer-se, em força. Pode discutir-se se as prioridades eram
bem escolhidas. Mas não pode duvidar-se das realizações, pois estavam à vista
de todos. Por essa época a obra mais espectacular era a barragem de Cabora Bassa. Que, como se sabe, tantos problemas jurídicos
e financeiros veio mais tarde a causar. E continua causando.
Mas havia em curso ou já terminadas muitas outras obras públicas de
efeito menor, de âmbito local. E essa actividade de realização de obras,
grandes ou pequenas, não parava nem podia parar que as necessidades eram
infinitas e o exigente pessoal residente também não parava de reclamar, sempre
e cada vez mais obras do Estado.
E havia também lugar a outras acções menos visíveis,
mas não menos importantes, como a acção nas calamidades naturais, como fossem
as grandes secas ou inundações, com consequentes perdas das culturas e as
carências de alimentos, momentos em que o governo provia ao abastecimento das
populações das zonas afectadas ou provia à realização de furos artesianos e
instalação do respectivo equipamento para extracção de agua de qualidade do
subsolo, nas secas, etc. E sem esquecer a profilaxia pela execução de grandes
projectos de erradicação das causas dos surtos epidémicos, ou o combate à
mosca, à malária, e outros males dos trópicos.
Como era aliás de sua estrita obrigação, como dever
primeiro do Estado.
Mas é claro, o Estado só por si nada conseguirá
fazer se a sociedade não dispuser de pessoas qualificadas, que além de
contribuírem para promover o desenvolvimento material, económico, possam
contribuir também para o desenvolvimento cultural, cientifico e técnico. Era
por isso que se concluía que todos os que viessem, e por muitos que viessem,
não eram demais. E quanto mais qualificados, melhor!
Mas tal não respondia à primeira questão que nos
preocupava: - E nós, qual o nosso papel? As nossas acções serão correctas e
justas?
Bom, concluíamos nós,
no nosso caso concreto de agentes da justiça, e em que no nosso dia a dia
procurávamos fazer o melhor, na aplicação da lei, repondo a legalidade
ofendida, e muito embora os efeitos da nossa acção não fossem visíveis, por não
materializáveis, mas a acção da justiça a funcionar em termos razoáveis, é
sempre uma garantia de segurança para a sociedade, dando confiança às pessoas,
aos cidadãos, como salvaguarda do indispensável respeito que devem merecer os
seus direitos ao nível pessoal e ao nível patrimonial, garantia geral da sua
pessoa e de seus bens, e esteio da segurança económica e do tráfico comercial.
Embora nem sempre as pessoas se preocupem com isso e nem se dêem conta deste
enorme bem, a verdade é que a sua existência é fundamental em qualquer
sociedade. E em geral só se lhe reconhece a real importância quando a justiça
não funciona bem, não conseguindo alcançar os seus objectivos, ou mesmo e muito
pior, quando não existe.
E concluíamos que não só
nós, individualmente considerados, mas todos, europeus e outros, desde que
culturalmente mais evoluídos e mais civilizados, quer em serviços de Estado,
técnicos ou administrativos, quer na actividade privada, tínhamos todo um papel
muito importante e que era o de organizar e fazer funcionar a vida
administrativa, económica e social desta sociedade de base primária, em termos
civilizados. E de trazer à civilização aquela massa humana que vivia ainda em
estado primitivo, atrasada de séculos, dando-lhes pelo menos a possibilidade de
alcançar o mais brevemente possível, ainda que de forma gradual, todos os
benefícios do progresso e da civilização ou alguns deles. E decorridas
gerações, nas sociedades vindouras, a massa de cidadãos nativos, já então
evoluídos, civilizados, que já tenham frequentados as escolas nos diversos
graus, já seria então tão elevada, que necessariamente seriam então eles, no
todo ou em parte, a maioria que se tornaria a classe ou a raça dominante. Pelo
exercício de funções de nível médio ou até quadros superiores. O que tudo isto
significava que nós estávamos a preparar o seu próprio futuro, ou seja, a médio
ou longo prazo, o futuro era deles. Nós estafámos realmente a trabalhar para
"eles". Isto é, para um futuro país, típico, africano, mas organizado
à europeia, e com um enorme potencial humano e económico, onde as pessoas em
geral poderiam adquirir um elevado nível de bem-estar, e portanto poderiam ser minimamente ...felizes.
E do qual país nós europeus não nos excluíamos. Pois
considerávamos que este novo país, com suas gentes trazidas à civilização, era
a nossa obra, o produto do nosso trabalho e empreendimento, a menina dos nossos
olhos... a quem dedicávamos toda a nossa atenção.
Em qualquer caso não era concebível imaginar a África, e concretamente
Moçambique, sem os portugueses, sem os brancos em geral e mesmo sem os
restantes imigrados qualquer que fosse a origem, já que eram estas pessoas com
um nível de instrução, de conhecimentos técnicos dos vários ramos, e no geral
com um nível cultural muito superior, e que todos em conjunto sustentavam um
país organizado, no público e no privado, nas suas múltiplas vertentes. A sua
falta, aliás racionalmente inconcebível, forçosamente geraria o caos. Seria o
regresso às origens.
Como mais
tarde infelizmente aconteceu.
Só não viu
quem não quis ver! Ou viu, mas fingiu não ver.
Era efectivamente o europeu o elemento
charneira de toda a articulação administrativa e económica, o catalizador de
toda a química do caldo social, a base estruturante de toda a sociedade, e sem
o qual nenhum país africano, ou região, poderá andar para a frente. Ou de outro
modo e em síntese: os povos de África só poderiam avançar para a civilização
e para o progresso, a reboque do europeu.
Deve acentuar-se que viviam em Moçambique, para além
dos autóctones, civilizados ou não, uma comunidade multiracial, proveniente de
imigração de várias partes do mundo, que eu antes não suspeitava existir.
Apenas para só citar situações ocorrentes
nesta zona de Vila Pery, além dos portugueses europeus ou de ascendência
europeia já nascidos em Moçambique, tinham-se instalado como agricultores,
muitos ingleses provenientes da vizinha Rodésia, outros da África do Sul,
alguns de proveniência bôer, portanto
de remota ascendência holandesa, e que ali eram chamados de mabunos;
havia muitos gregos cujos ascendentes ali chegaram pelos anos vinte, a
quando da construção do caminho-de-ferro da Beira e depois se fixaram como
agricultores e comerciantes, nessa faixa central designada por corredor da
Beira; muitos indianos provenientes de Goa, imigrados de longa data ou mesmo já
depois da sua integração na índia, ou oriundos doutros locais deste país, e
ainda muitos chineses de Taiwan (Formosa), paquistaneses e muitos outros de
diversas origens.
E tínhamos conhecimento que em Lourenço Marques, na
Beira e noutras cidades ou zonas do território, havia várias comunidades de
imigrados ainda em maior número e mais significativas em termos de importância social
e económica.
Algo de interessante que me foi agradável
observar, foi o facto de estas minorias, por vezes tão diferentes entre si, se
relacionarem tão bem. É que se notava um respeito mútuo pelas respectivas
especificidades, nas relações correntes, no seu campo de actuação nas
actividades económicas, no comércio ou agricultura. Estas categorias de pessoas
na sua vida privada, criavam inevitavelmente o seu clã onde estabeleciam a sua
vida social, e cultural, mais ou menos intensa, mais ou menos fechada,
praticavam a sua religião, faziam seus casamentos, realizavam as suas festas
familiares ou tradicionais. Muitas vezes com a participação de pessoas de
outras origens e culturas, de outras minorias, para as quais eram convidadas,
até com honrarias. Também nos grandes momentos da comunidade, nos actos mais
significativos e solenes, muitas vezes convidavam as autoridades oficiais.
Recordo-me de um honroso convite que recebi, como juiz, da comunidade islâmica,
para assistir à solenidade do lançamento da primeira pedra para a construção da
sua nova mesquita. E a que compareci com gosto.
Estavam já historicamente a muitos séculos de
distância os tempos de D. Afonso Henriques e dos cruzados...
Interessante de referir é que os cidadãos de proveniência indiana não
se constituíam em uma só comunidade, por os ligar uma relação de raça ou
origem. Mas em várias comunidades. É que para eles era mais importante a
religião que praticavam e os usos e costumes subjacentes, numa palavra a
cultura, do que a origem comum. Os indianos que se declaravam hindus agrupavam-se
à parte dos indianos islâmicos e dos indianos cristãos, ou de outras religiões
por vezes menos conhecidas, revelando um sentimento pronunciado de casta ou religião,
ou de classe, e de pretensa superioridade de cultura e por vezes até com
acentuada animosidade entre eles. Sentimento discriminatório que não era de
Moçambique mas de fora, trazido da própria índia onde, como se sabe, tem grande
relevo a divisão da sociedade por classes sociais ou castas e divisão também em
múltiplas religiões.
E o mesmo dentre os brancos, ou europeus, como os
gregos, ou os afrikanders, o elemento cultura sobrepunha-se ao elemento raça,
como dado aglutinador ou de atracção dos constituintes das referidas minorias.
Ou, pela negativa, também elemento de repulsão.
Na vida corrente, na sua vida económica, de relação, os imigrados, por
um lado davam-se ao trabalho de produção dentro da ordem económica e a
disciplina legal do Estado, enfim da ordem jurídica estabelecida, a que aderiam
natural e espontaneamente. E por outro, este conjunto de minorias, organizadas
internamente, socialmente separadas, umas mais fechadas outras mais abertas,
numa espécie de aparteid voluntário, espontâneo, de simples tendência
natural, e talvez como instintivo meio de defesa de seus valores e cultura, mas
em que toda essa diversidade constituía um caldo social e cultural
enriquecedor, que funcionava em harmonia, e era sob todos os aspectos muito
interessante.
E muitas vezes constituíam até fortes clãs, grupos
económicos poderosos, verdadeiros lobbies, com ligações ao comércio
internacional, facilitando exportações de diversos produtos locais, com
manifesto benefício para a balança de pagamentos da colónia. Recordo aqui
principalmente os grupos de gregos, sul-africanos, rodesianos e indianos.
Grupos que não se fechavam de todo, mas conviviam correntemente na vida
profissional e até social, e entre muitos dos quais eu já contava muitos e bons
amigos. Entre vários gregos, lembro o casal Poriásis com o qual viajámos pela
Rodésia por alguns dias. E como grupos economicamente poderosos os Polentas, os
Babyolákis, e outros.
E parece-me elementar extrair a conclusão de que
toda esta nossa convivência com múltiplas culturas através das pessoas das mais
diversas origens, nos beneficiava a todos, e espiritualmente nos enriquecia, ao
exercitar-nos no saudável relacionamento das várias culturas e na aprendizagem
do respeito universalista dessas culturas e contribuindo para a aquisição de
uma valiosa formação humanista eclética. Assim, a fórmula social que automática
e espontaneamente se estabeleceu, funcionava muito bem. E a melhor prova de que
funcionava bem era dada na escola, onde como referi, a certa altura fui
professor, e portanto observador directo e atento, e tinha alunos de todas as
raças e mistos de todas elas, ou quase todas. Nas aulas não havia distinção.
Havia bons e maus alunos em todas elas como se de uma só raça se tratasse. Como
em qualquer outra escola. E fora das aulas, no convívio do recreio, nas
brincadeiras e nos desportos, habituados diariamente, por semanas, por meses e
até por anos de convívio, e sendo os jovens quase sempre dominados por ideais e
ainda desprovidos de preconceitos sociais e de classe, todos se relacionavam
muito bem e esse comportamento deveria marcá-los favoravelmente, para o futuro,
para toda a sua vida. Pois, como se sabe, a escola é também, além do mais, o
local onde se fazem as mais fortes e duradouras amizades. Esta escola era, a meu
ver, o modelo de escola não racista.
Pretendendo-se construir uma sociedade multiracial,
ou não racial, ou sem racismo, se isso alguma vez se pudesse alcançar, mas ao
menos com um racismo controlado ou atenuado, esta escola era um caminho que se
me afigurava correcto.
E por outro lado, era do
trabalho, poupanças, iniciativa e técnica destes imigrantes, que em maior ou
menor grau, surgiam as boas explorações agrícolas ou pecuárias, industriais ou comerciais,
desde a pequena fábrica de confecção ou de rebuçados, até à grande indústria de
descaroçamento do algodão, ou de tecelagem; desde o pequeno comércio de bar ao
pequeno armazém de panos, ao grande comércio de exportação de chá ou caju, da
produção e comercialização do tabaco à extracção e exportação das madeiras
exóticas, do prestador de serviços à pequena oficina, do simples empregado ao
pequeno cantineiro do mato, todos tinham o seu papel, de maior ou menor relevo,
mas igualmente importante.
Era este
conjunto de agentes económicos que constituíam o tecido empresarial e produtivo
e que sustentava o desenvolvimento. Todos em conjunto geravam riqueza, geravam
empregos, contribuíam para a distribuição dos rendimentos. E geravam impostos.
É claro que perante as assimetrias verificadas entre
a vida urbana e a vida do mato, as diferentes capacidades e poder entre as
pessoas evoluídas e as atrasadas, e os inevitáveis jogos de interesses, é de
esperar conflitos, abusos, injustiças. Que julgo poderem atenuar-se, mas
infelizmente, nunca evitar, pelo menos de todo. Vicio que me parecia menos do
sistema do que o resultado natural do jogo de interesses que existe em qualquer
parte, em qualquer sociedade e é próprio da própria natureza humana. E da
educação das pessoas. Ou da falta dela, principalmente da educação democrática,
do respeito pelo semelhante.
Era então, nos casos de abusos, que a justiça
intervinha, quer por via judicial quer por via administrativa, conforme as
matérias. E como já referi, as pessoas que preenchiam os órgãos competentes do
estado, isto é, com poderes adequados para prevenir ou castigar esses abusos,
estavam atentos e activos, para repor a justiça e a legalidade. Talvez, e
infelizmente, nem sempre com a oportunidade e eficiência desejáveis.
Uma referência não devo
deixar passar a um certo tipo de agente económico, que foi sempre muito
criticado, com razão ou sem ela, mas sempre mal compreendido: - o cantineiro do
mato.
A cantina, pequeno estabelecimento indiferenciado localizado junto a um
cruzamento de estradas, ou mais provavelmente de picadas (os caminhos de terra
onde em tempo seco os veículos motorizados podem circular), em pequena
povoação, ou em qualquer outro lugar estratégico com vista ao negócio,
funcionava já, em geral, em edifício de alvenaria, sendo o piso térreo de loja
e armazém e o sobrado de morada da família. Outras mais modestas eram simples
construções de pau a pique cobertas a zinco ou mesmo a capim.
Ali se vendiam os panos, o peixe seco, o óleo
alimentar, a farinha de milho, a enxada, as sementes de algodão, o açúcar, e os
remédios mais correntes, sem faltar os comprimidos contra o paludismo. E por
vezes até o rádio e a bicicleta. E tudo o mais que fosse susceptível de ser
comprado. Sem faltar a venda do vinho importado e a cerveja. O cantineiro, por outro
lado, comprava o milho, a mapira, o algodão, por vezes peles. A troca directa
era muitas vezes a forma corrente de comerciar.
O cantineiro europeu era em geral de baixa
instrução que não achando melhor meio de ganhar a vida, e se possível
enriquecer, do que o comércio naquelas condições, sacrificava a sua vida social
longe do seu meio natural. E acabava por ser a guarda avançada da civilização
junto das populações mais afastadas. Sofrendo reciprocamente as influencias. E
prejudicando não poucas vezes a educação dos filhos por estes não poderem
frequentar escola, por talvez não existir no local.
Dizia-se muitas vezes que o cantineiro
roubava os seus fregueses, os pretos, enganando-os nos pesos e valores. Mais
esperto e mais sabido. Enganaria umas vezes outras não, conforme a honestidade
e a consciência de cada um. Mas de uma coisa temos a certeza: - a "instituição"
foi de grande utilidade para as gentes do mato pois era o único meio de
poderem ter acesso a certos bens, que de outro modo nunca chegariam ao seu
alcance. E até não poucas vezes era o cantineiro que numa emergência, um
acidente de caça, picada de cobra, doença grave ou mulher com parto difícil,
que na sua pequena camioneta ou no jipão, fazia o
transporte do paciente para o hospital mais próximo, muitas vezes não tão
próximo que não distasse algumas centenas de quilómetros, através da difícil
picada.